Por FERNANDO RIOS*
Oito poemas
Começando a pensar
Somos porque somos
e porque não podemos deixar de ser
somos tudo e nada
quem puder que veja e sinta
a imensa poesia de dois universos
nós, dentro e fora
para vivermos intensamente
qualquer dia qualquer hora
Contracultura
Para fora
somos ínfimos
para dentro
somos infinitos
Queiramos ou não
conscientes ou não
é assim que somos
e nos construímos
grandes ou pequenos
[…] cada um de nós tem talvez 100 bilhões de neurônios, número comparável ao das estrelas na galáxia da Via Láctea (SAGAN, 2017), porém existem 1.000 vezes mais sinapses em um encéfalo do que os 100 bilhões de estrelas na galáxia. Apenas enxergar, ver o mundo à volta e reconhecer uma face ou expressão facial acarretam uma incrível proeza computacional, da qual o encéfalo permite pelo fato de suas unidades de processamento de informação – suas células neurais – estarem interconectadas de uma forma muito precisa, conseguindo desde modo identificar objetos e comandar ações de uma maneira da qual nenhum computador atual sequer chega a se aproximar.
então, por que vivemos dominantes e dominados?
num tempo amando e amados
noutro tempo odiando e odiados
que anjos, que demônios somos?
seremos sempre amados e odiados?
e mesmo assim temos crescido
e nos multiplicado
que deuses operam essa magia?
e por que eles não operam
apenas uma alegre e saudável euforia?
os deuses mandam em nós
ou mandamos nós nos deuses?
e quem são os deuses?
onde eles estão?
oferecendo uma cornucópia da bondade
e adestrando e instigando o dragão da maldade?
que corpo aguenta esse estranho
explosivo paradoxo?
como amainar o coração?
Manifesto I
Por um dicionário da paz
que não seja fugaz
por um dicionário da paz
formado por palavras doces ou salgadas
sempre amenas
e que aproximem
até azedos espíritos arredios
Um dicionário capaz de colorir
corpos de todas as cores
e trazê-los e comemorá-los
no mundo da convivência
construindo um mapa de cada pele
onde bússola e astrolábio
apontem o caminhar juntos
norte amar sul acariciar
leste abraçar oeste enrodilhar
e possam parir uma adorável rosa dos ventos
a sempre desabrochar
E que a estrada seja terra ar mar água fogo
e que o caminhar seja amparado
num corpo a corpo amado desarmado
devidamente perfumado
de essências ou suores
porque corpos se exigem
relaxados ou cansados
de preferência pacificamente
lado a lado fortemente abraçados
Manifesto II
quando as palavras substituirão as espadas
quando as palavras deixarão de ser munição
quando as palavras soarão como convite aos diálogos
quando as palavras substituirão a solidão
quando as palavras construirão redes para acalentar sorrisos
quando as palavras serão calores para confortar soluços
quando as palavras sairão das bocas como perfume
quando as palavras dançarão ao som do coração
quando as palavras deitarão carinho nos corpos
quando as palavras construirão ninhos de amar
quando as palavras trarão apenas afagos
quando as palavras soarão suaves hinos ao futuro
mas sempre que isso não for possível
há que domar as palavras selvagens
Manifesto III
quem reina
no reino das palavras doloridas dolorosas
no reino das palavras pontiagudas
no reino das palavras açoites
no reino das palavras pedras atiradas
no reino das palavras fuzis
no reino das palavras obuses
no reino das palavras canhões
quem é o rei
no reino das palavras que matam?
serei eu? será você?
quantas vezes eu palavrei para ferir?
quantas vezes você palavrou para dilacerar?
quando a minha palavra encontra a palavra do outro
podem aconchegar-se ou digladiar-se
quando a palavra é aconchego?
quando a palavra é gládio?
se um sorriso pode acalentar
se um sorriso pode ferir
o que pode uma palavra?
fazer um parto, dar vida
tornar um corpo útil ou inútil
destroçar ou construir um porvir?
Manifesto IV
quase tudo é palavra
dita ou não dita
benigna ou maligna
existe o corpo palavra que fala
existe o gesto palavra que fala
existe um bom silêncio que cala e afaga
mas existe um terrível silêncio que fala
e faz doer a própria fala
no silêncio que cala
que espaço é esse onde não cabe uma fala amiga
que espaço é esse que só deixa rolar intriga
que espaço é esse onde se lutam há séculos
que espaço é esse onde só se recolhem corpos
que espaço é esse onde só se veem destroços
que espaço é esse onde se tramam podres poderes
às custas de tantos corpos tornados inúteis
quantos deuses mandam seus povos amar
quantos deus mandam seus povos matar
Manifesto V
paixão e amor são palavras doces
raiva é ódio são palavras torpes
por paixão e amor se vive se morre se mata
por raiva e ódio se vive se morre se mata
humanamente estranha lógica
humanamente estranha mágica
um mal amálgama
um bem amálgama
estamos diante de quem?
amigo inimigo adversário
vale uma vida qualquer salário
qualquer silêncio que anula o outro
qualquer embate irrisório
é preciso estar no cio
cio que cria um vazio
sendo humano animal
para desfechar um dardo
que provoca arrepio
que provoca insensatez
que vem do ciúme
que não suporta a inveja
e a palavra vem cortando
tirando lanhos do intestino e da pele
Manifesto VI
quantas palavras armas
são necessárias
para tirar uma vida?
quantas palavras brisas
são necessárias
para parir uma vida?
ao abrir a boca
é preciso sentir a mortalidade das palavras
para que elas não estilhacem corpos
nem cérebros nem pensamentos
para não transformar momentos
em soturnos vãos impenetráveis
palavras não podem ser gastas impunemente
elas pedem prudência
pedem mãos amenas
pensamentos brandos gestos afetos
para que sejam sempre adubo
e do amar, no mínimo, a semente
*Fernando Rios é jornalista, poeta e artista plástico.





















