Manuela D’Ávila no PSol

Imagem: Tânia Rego/ Agência Brasil
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Por VALERIO ARCARY*

A mudança de Manuela para o PSol sinaliza um projeto que visa derrotar a extrema-direita e construir uma alternativa de esquerda para além da conciliação de classes do governo Lula

“Há quem traga mais um, há quem traga um conjunto. Derramar na canção o que dói no país, ser a revolução, ser a boca que diz. Que caminho tão longo que estrada tão cumprida, que deserto tão grande. Liberdade, o nosso chão tem sonhos e vontades” (Garota não, grupo de canção popular portuguesa).[1]

1.

A decisão de Manuela D’Ávila de entrar no PSol sinaliza que o processo de reorganização da esquerda abriu perspectivas novas, e está entrando em novo patamar. Manu é uma das lideranças de esquerda com maior audiência e autoridade. A candidatura de Manuela D’Ávila ao Senado pelo Rio Grande do Sul em 2026, o estado em que a extrema direita tem a maior implantação social e influência política, não é uma aposta pessoal, porque está ao serviço de um projeto.

A questão decisiva é saber se o PSol, no marco de uma Frente de Esquerda indispensável para derrotar o bolsonarismo, consegue fortalecer um impulso anticapitalista que seja semente na luta pela revolução brasileira, indo além dos limites do lulismo. O vigor de Manu é inspirador para a militância que acumulou experiência, mas desesperançou ao longo de “caminhos e estradas tão longas e cumpridas”.

Quem é Manuela D’Ávila? Manu tem quarenta e quatro anos e tem sido uma das lideranças de esquerda mais ferozmente perseguidas pelo bolsonarismo. Frequentemente recebe ameaças à sua vida e de sua família. Escritora e jornalista é uma animadora do Instituto “E se fosse você”, dedicado a combater a desinformação (fake news) e a violência política de gênero e raça.

Iniciou o ativismo ainda jovem no movimento estudantil, nos anos noventa, e foi vice-presidente da UNE. Militou, lealmente, durante 25 anos no PCdoB, e só rompeu quando as diferenças de estratégia se revelaram insolúveis. Foi a vereadora mais jovem de Porto Alegre (2005-2006), deputada federal por dois mandatos (2007-2015), a mais votada do país em 2010, e deputada estadual no Rio Grande do Sul (2015-2019).

Ganhou visibilidade nacional como candidata a vice-presidente na chapa de Fernando Haddad nas eleições de 2018. Foi figura chave na denúncia e deslegitimação da operação lava-jato. Concorreu três vezes à prefeitura de Porto Alegre, em 2008, 2012 e 2020. Organizadora do MEL, Movimento Mulheres em Luta, Manu é uma militante socialista engajada na construção de instrumentos de luta social e políticos coletivos. Manu é inteligente e corajosa, íntegra e autêntica, uma “força da natureza”.

2.

A aproximação entre Manuela D’Ávila e o PSol surgiu de dois grandes acordos programáticos: derrotar o bolsonarismo e fortalecer uma esquerda que possa ir além dos limites do lulismo. A compreensão de que o centro da estratégia é a luta pela derrota histórica da extrema-direita responde à emergência da situação brasileira, que deverá colocar como tática eleitoral uma aliança ampla.

Mas esta necessidade não diminui a importância de uma Frente de Esquerda que defenda um programa de reformas estruturais para a disputa do destino do lulismo. Os limites de estratégia do PT repousam na conciliação de classes que limitam as reformas sociais profundas.

O governo Lula optou pela governabilidade “a frio” que se sustenta no compromisso de preservar o tripé do superávit fiscal, câmbio flexível e metas de inflação que garante a transferência de R$1 trilhão anuais para os rentistas, em um país com PIB de R$11,2 trilhões, um valor equivalente ao da Previdência social que beneficia mais de 40 milhões de pessoas.

Não sinalizou disposição de romper com os dogmas neoliberais que exigem a preservação da taxa de juros real mais elevada do mundo, e que restringe as possibilidades de crescimento econômico. Priorizou, exclusivamente, alianças no Congresso Nacional, em vez de se apoiar na mobilização popular e nas lutas sociais. O governo Lula não aproveitou a vitória eleitoral de 2022 para lutar pela mudança da correlação de forças sociais.

O futuro do lulismo estará em disputa. Entre o peso do PT e a urgência de um novo ciclo, a esquerda navega em águas turbulentas. Sem a chama das ruas ou uma alternativa à altura, o PT segue como gigante de pés de barro. Mas a história não se repete passivamente: o inesperado pode brotar da luta que ainda não se vê. A reorganização da esquerda brasileira é um processo que já se iniciou, mas se desenvolve muito lentamente.

Há muitas variáveis indefinidas. As duas mais importantes são indissociáveis, e nos remetem ao centro do enigma: se a esquerda será capaz de derrotar a extrema direita e, se nesse processo que vai passar pelas eleições de 2026, assistiremos a uma elevação da disposição de luta dos trabalhadores e da juventude. Estas são as duas questões centrais. O que a história nos ensina é que não há como abrir um ciclo superior ao lulismo sem a derrota do bolsonarismo, e sem um ascenso da luta de massas.

Se o que prevalecer for uma derrota, continuaremos a ver as divisões, rachas e dispersão na esquerda. Será uma regressão, e teremos um intervalo histórico como foi depois de 1964, oxalá não tão grande. Militantes revolucionários devem manter confiança que, mais cedo do que tarde, os trabalhadores irão se levantar. Só que a abertura de um novo ciclo superior ao lulismo não pode repousar somente neste desfecho. A improvisação criativa, embora tenha um lugar na luta política, é perigosa. Há uma margem do inesperado, do súbito, brusco, repentino, mas não é muito grande. Aprendemos na dimensão explosiva de junho de 2013 que oportunidades se abrem, se disputam, mas às vezes, se perdem.

A esquerda anticapitalista deve manter posição na defesa da reeleição de Lua e ser a ala mais combativa da luta contra os neofascistas, um ponto de apoio útil para o melhor da vanguarda feminista e negra, estudantil e LGBTQI+, ambiental e indígena, mas manter sua identidade e programa. A hora das lutas decisivas está diante de nós, não ficou para trás.

Aprendemos em Junho de 2013 que não se pode improvisar tudo no calor dos acontecimentos. Não se formam quadros, não se educam lideranças, não se forjam instrumentos de luta em cima da hora. Há um trabalho prévio de preparação que passa pela unificação das tendências revolucionárias, e pela formação de espaços de colaboração estratégica que passam por cima das fronteiras herdadas do passado.

A esquerda deve difundir, explicar, divulgar suas propostas.  Mas, se as ideias são muito importantes, elas não bastam para mudar a vida. Mudanças só são possíveis quando se acumula força e confiança. Correntes, movimentos, partidos e frentes são instrumentos de luta. Mas é preciso, também, construir lideranças. Manuela D’Ávila é uma gigante.

*Valerio Arcary é professor de história aposentado do IFSP. Autor, entre outros livros, de Ninguém disse que seria fácil (Boitempo). [https://amzn.to/3OWSRAc].

Nota [1] In: https://www.youtube.com/watch?v=lFxWACwd3nE


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