Por FERNANDO NOGUEIRA DA COSTA*
O MAGA é menos uma estratégia econômica e mais uma fantasia reacionária, que confunde hegemonia com isolamento e soberania com autoritarismo
Assim como muitos internos do Hospício Charenton acreditavam ser Napoleão, em 1818, Donald Trump encarna hoje a ideia de “Imperador do Fim do Mercado Livre”.
O problema é, ao contrário de Bonaparte, o pato não ter conquistado a Europa com exércitos. Conquistou uma massa de seguidores da extrema-direita entreguista pela via do inconsciente coletivo paranoico, entre memes, fake news e slogans.
No fundo, ele se vê como capaz de reverter o tempo, como se fosse possível “desglobalizar” a economia mundial e retornar a uma espécie de “EUA de 1950” — industrial, autárquico e dominante.
De fato, o discurso de MAGA com um Plano de Substituição de Importações à americana se assemelha ao modelo latino-americano dos anos 1950–60: aumentar tarifas, fechar fronteiras e forçar a produção doméstica. No caso, planeja via penalização com preços relativos incentivar a “reindustrialização”, isto é, volta de empresas transnacionais de origem americana até o fim do seu mandato em 2028 – ou até a eleição para o Congresso no próximo ano, quando provavelmente virará um “Pato Donald Manco”.
No Brasil, o processo de substituição de importações se fez sob a tutela dos EUA, porque queriam um aliado “moderno” e capitalista na Guerra Fria. Algumas empresas automobilísticas migraram para o crescente mercado interno em processo de urbanização acelerada.
A ironia é agora serem os EUA a brincar de “Brasil de JK (Juscelino Kubitschek)”. Com a arrogância típica, têm o luxo de achar poderem sustentar sozinhos toda a cadeia industrial global sem depender de importação de insumos estratégicos indisponíveis lá ou mais baratos.
O Projeto Magalomaníaco de Desglobalização expressa a ideia de “autossuficiência arrogante” dos EUA é uma espécie de delírio napoleônico em pleno século XXI. Por quê?
Nas cadeias globais de valor contemporâneas — eletrônicos, semicondutores, energia limpa — tudo depende de interdependência global. Os EUA não têm mercado interno suficiente para conseguirem absorver sozinhos toda a sua escala de produção rentável, como nos anos 1950.
Quanto às finanças internacionais, o dólar depende da globalização para manter-se como moeda de reserva em geral. Sem isso, perde hegemonia.
Mais louca é a nova intervenção no Brasil em nome da anistia para a família Capachonaro. Desconhece completamente as relações de trocas favoráveis aos Estados Unidos! Assim como menospreza as instituições democráticas construídas pela Constituinte de 1988 após o fim da ditadura militar, tão louvada pelas crias teleguiadas da Guerra Fria anticomunista.
Dentro dessa lógica, o Brasil aparece no devaneio donaldiana como “quintal de Napoleão”. Isso significa pressão sobre petróleo (Pré-sal) e terras raras, para garantir suprimento, e guerra comercial contra commodities agrícolas brasileiras ao ameaçarem a produção americana, seja para o mercado interno, seja para o externo.
Pretende também o controle sobre a diversidade da Amazônia, sob o pretexto de “bem global”. No hospício do MAGA, Donald tenta transformar a soberania brasileira em uma extensão do Texas dominado por seu partido republicano.
É possível, lógico e coerente? Não.
O projeto de Donald é internamente contraditório. Quer fechar a economia, mas depende de capital global e do consumo barato proporcionado pelas importações chinesas. Quer liderar o mundo, mas ao mesmo tempo recusa a interdependência, antes sustentada pela hegemonia americana. Quer punir o Brasil (e o resto do Sul Global), mas isso empurra países periféricos para o BRICS, sob liderança econômica da China e liderança militar da Rússia.
O MAGA é o “Plano de Metas de Hospício”: 50 anos de autossuficiência em 5 slogans de campanha eleitoral. Donald é o JK do Mar-a-Lago em Palm Beach, Flórida: promete construir estradas, fábricas, siderúrgicas e muralhas tarifárias, tudo ao som de fanfarras patrióticas.
Mas, assim como os Napoleões do hospício, confunde a própria fantasia com realidade. A Economia Política internacional é pródiga em ironias históricas.
Uma das mais recentes atende pelo nome de Make America Great Again, projeto, sob o verniz de slogan eleitoral, capaz de pretender a realização da proeza alquímica de inverter a seta do tempo. O pato Donald — o “Napoleão de Hospício” da Casa Branca — parece ter internalizado a crença segundo a qual a História não é luta de classes, mas sim um “reality show” como O Aprendiz, passível de ser reeditado em temporadas sucessivas com ele no papel de protagonista.
No plano econômico, o MAGA exibe um retorno farsesco a estratégias condenada pelos próprios EUA, nos tempos da Guerra Fria, como heresias nacional-desenvolvimentistas nos países periféricos. O protecionismo tarifário de Donald, embalado em retórica de “autossuficiência”, soa como eco tropical de nossa substituição de importações, aquela mesma abruptamente desarticulada pelo golpe civil-militar de 1964 — golpe ditatorial, aliás, contada com generosa inspiração e patrocínio de Washington. E louvação da família Capachonaro.
O apresentado ontem como vício de subdesenvolvido, hoje, convenientemente é rebatizado como “America First”. Ela se converte em virtude patriótica de lá e submissão dos traidores da pátria de cá.
É uma utopia regressiva. Se na periferia latino-americana a substituição de importações buscava escapar da dependência estrutural e ampliar a base industrial, nos EUA do século XXI a versão donaldiana pretende apenas blindar a hegemonia declinante do dólar e preservar empregos industriais já não mais existentes. É a tentativa de reconstruir Detroit com os escombros do Vale do Silício.
O programa MAGA-nomics, travestido de estratégia nacionalista, revela seu caráter imperialista reloaded. A retórica da desglobalização não elimina a lógica do poder: para os EUA se “autossuficientarem”, é necessário desarticular concorrentes, intervir em cadeias produtivas globais e, por tabela, testar novamente a soberania de países como o Brasil.
O mesmo discurso antes condenava a Petrobras como “excessivamente estatista” e agora celebra a ExxonMobil como heroína do “novo desenvolvimentismo ianque”.
Do ponto de vista estrutural, a contradição é flagrante. No plano interno, o protecionismo tarifário apenas encarece a vida do consumidor norte-americano, sem alterar a lógica da financeirização sugando a riqueza para Wall Street. No plano externo, a guerra comercial acelera a fragmentação do sistema mundial, estimulando justamente aquilo mais temido pelos EUA: a construção de alternativas multipolares como RMB digital, BRICS e acordos regionais.
No plano simbólico, pato Donald encarna o sonho impossível de deter a entropia histórica, como fosse possível voltar à ordem mundial em 1950. Porém, agora quer voltar ao passado com reality shows, redes sociais de ódio e armas hipersônicas.
O MAGA-nomics é menos um programa econômico e mais um delírio de soberania, expressão caricatural da crise do império. Como diria um estruturalista: “trata-se de uma teoria do desenvolvimento às avessas: a superpotência se esforça para imitar a periferia, mas sem compreender a dependência engendrada por ela própria”.
Afinal, como explicar, em pleno 2025, a maior economia do planeta sonhar em reeditar políticas, no Brasil, já obsoletas quando a Bossa Nova ainda embalava Copacabana? O resultado é tragicômico: enquanto o mundo experimenta redes financeiras alternativas, moedas digitais e cooperação Sul-Global, o MAGA aposta em tarifas de aço e alumínio como se o Plano de Metas de JK pudesse ser reencenado em Ohio!
No fundo, é a teatralização da impotência imperial. O protecionismo donaldiano não reindustrializará os EUA, tampouco restaurará a Pax Americana. Mas pode, sim, acirrar tensões, estimular aventuras intervencionistas e, quem sabe, exportar ao Brasil não máquinas ou tecnologias, mas novas tentativas de tutela geopolítica travestidas de “parcerias estratégicas” com a extrema-direita.
Resta-nos registrar a ironia: aquilo antes imposto como tabu na periferia — o protecionismo, o planejamento, a autonomia industrial — reaparece no centro como fórmula mágica para a salvação nacional. Mas, desprovido de contexto histórico e legitimidade estrutural, degenera em caricatura de si mesmo.
O MAGA é, em suma, o tropicalismo ao contrário: enquanto o Brasil tentou modernizar-se com guitarras elétricas em sua música e fábricas de automóveis em seu território, os EUA buscam agora regressar ao passado com tarifas alfandegárias e slogans de campanha. Se o resultado será uma nova hegemonia ou apenas uma tragicomédia global, resta ao sistema-mundo responder.
*Fernando Nogueira da Costa é professor titular do Instituto de Economia da Unicamp. Autor, entre outros livros, de Brasil dos bancos (EDUSP). [https://amzn.to/4dvKtBb]
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