Por FLÁVIO R. KOTHE*
A vida insiste em seu ciclo impessoal, onde a queda de uma folha e a fuga de um pássaro são apenas notas de uma transformação que ignora o drama humano da finitude
A folha amarela pendia de um galho que olhava para dentro do quarto do segundo andar da casa. Ao lado dela, um bem-te-vi com camisa amarela e fraque virava a cabeça para ver melhor. Lá dentro, um idoso deitado na cama, a pele pálida e o corpo todo pedindo socorro. Ela perguntou:
– Por que você insiste em usar a minha cor? Ela é minha!
– Você quer cobrar direitos autorais? Na semana passada, você era verde, agora está amarela, semana que vem vai estar marrom, no chão. Esta cor nem é sua!
– Agora está sendo, é minha, sou assim agora. Você imita a minha, para o gavião achar que você é uma folha. É a vida o que você me deve!
– Não sou folha, sei voar mais rápido que um gavião. Você parece esse velho espichado na cama, mais uns dias você vai estar espichada no chão, ficar marrom, apodrecer.
– Eu sei voar também. Vou flutuar no ar, cair no chão sem me machucar. Não estou simplesmente morrendo como aquele senhor deitado na cama. Ele já não passeia mais no pátio. Eu estou evoluindo. Vou me tornar adubo, alimentar as árvores que ainda virão.
– Veja – disse o bem-te-vi –, este senhor aí na cama não consegue caminhar nem com bengala nem com andador. Não passeia mais no pátio, não arruma as plantas. Não consegue mais trabalhar no escritório que fica no térreo, há uns meses instalou parte do escritório no quarto de dormir.
– Você se preocupa com a vida alheia! Nem só de insetos e surrar joão-de-barro vive um bem-te-vi…
– Antes ele tinha um laptop no colo e ficava furungando. Teve de trocar por um aparelho que faz ar para as ventas dele. Passou a usar um celular, ficava ditando coisas nele e mandando transcrever o que falou. Até conseguia mandar imprimir na impressora que fica no escritório, depois corrigia as folhas que a cuidadora trazia para ele. Corrigia os erros como quem faz penitência.
– Vai ver que ele quer ir para o céu. Não quer saber de morrer. Acha que pode separar o corpo fraco e a alma imortal. Está quase chegando lá.
– Essa alma dele precisa comer palavras e sons. Talvez silêncios. Não aceita morrer de jeito nenhum!
– Eu – disse a folha – aceito morrer porque não morro, só me transformo. Vou adubar a terra e, depois de uns meses, ressuscitar como nova folha verde.
– Nós, os bem-te-vis, estamos melhor nisso! Você pode olhar por aí. Sempre tem dois ou três de nós zanzando por aqui. Somos todos iguais. Quando um se vai, já tem outro, igualzinho, para ocupar a vaga. Com as mesmas cores, os mesmos gritos, os mesmos voos. Nós não morremos. Só trocamos de ocupante do mesmo DNA.
– As folhas também fazem isso. Ao contrário dos humanos, que querem ser todos diferentes entre si.
– Alguns idosos preferem morrer, porque não aceitam as mudanças que estão ocorrendo, são contra o celular, a inteligência artificial, a internet. Acham que são diferentes só porque estão desatualizados: o mundo não merece a presença deles.
– Dizem que os jovens são superficiais, que a cultura está uma baixaria, sem arte nem pensamento. Eles se acham tão profundos que preferem ir para o fundo de uma vez.
– O mundo que fique chorando por eles!
De repente, o vidro da janela foi empurrado e a nova faxineira, com preguiça de ir até o térreo para despejar a água suja e vendo que o velhote estava com os olhos fechados e não se mexia mais, resolveu jogar a sujeira do balde pela janela, na direção onde estavam os dois parceiros do time amarelo. O bem-te-vi levou um susto e saiu voando! A folha, atingida, desprendeu-se do galho e caiu flutuando até o chão.
*Flávio R. Kothe é professor titular aposentado de estética na Universidade de Brasília (UnB). Autor, entre outros livros, de Alegoria, aura e fetiche (Editora Cajuína). [https://amzn.to/4bw2sGc].
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