O botão vermelho

Imagem: Messala Ciulla
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Por ALEXANDRE L. C. TRANJAN*

Por que a extrema direita virou centrão?

Há poucos dias, deparamo-nos com uma surpreendente notícia: o União Brasil, partido com diversos cargos eleitos pelos setores mais reacionários da população brasileira, e que foi parte substancial da base do governo de Jair Bolsonaro, “não será oposição a Lula”. Uma sobrancelha deve subir ao se ler a notícia, tão logo quando ela descerá na conclusão deste breve ensaio. Mas os olhos devem se arregalar, pois se trata de problemática candente.

A explicação materialista para esse movimento vai além do mero “ora, estão interessados em benesses”. Porque isso particularizaria o problema de modo a afastar o entendimento da estrutura que subjaz a esse velho e conhecido esquema de “toma lá, dá cá”, sobre o qual qualquer ignorante poderia dar uma palestra de boteco – e geralmente o fazem. O que explica que não só o União Brasil, mas a união de diversos setores da burguesia não só do Brasil, guinou do petismo (entenda-se como modo de regulação, não ofensa) para o bolsonarismo (ofensa) e agora volta como filho pródigo é a articulação das forças produtivas no pós-fordismo – cuja manifestação ideológica é o tal neoliberalismo.

O golpe de 2016 e suas camadas posteriores, digo, prisão de Lula, fakada, bombardeamento de fake news no zap, and so on, teve como matriz estrutural o desgaste do Estado de bem-estar social que Lula e Dilma engendraram, em razão da queda do preço das commodities e da redução da taxa de lucro pelo pleno emprego, além do interesse estadunidense em sugar o pré-sal. Pachukanis ensina que o fascismo é sempre uma possibilidade disponível para a burguesia manter sua hegemonia e a rentabilidade de seus empreendimentos.

Porém, por significar a coesão de interesses conflitantes – alta burguesia do agrobusiness contra classe média urbana desempregada, por exemplo – o fascismo, bem como as organizações de inclinação fascista, mas que ainda não chegaram lá, é instável e tende ao colapso. Não se trata de uma posição a longo prazo, mas um botão vermelho que se aperta quando o poder burguês encontra obstáculo.

Mas, em alguma medida, eles venceram, mesmo perdendo. Porque para derrotá-los – e isso é uma realidade que se generaliza quando a extrema direita entra em cena – foi necessária uma frente ampla democrática, tão ampla que compreendendo elementos fora da esquerda, e certamente sem perspectiva radical de transformação do modo de sociabilidade. A diferença passa a ser meramente quantitativa: em vez de acelerar as contradições do capitalismo, tenta-se reparar seus efeitos, mas nunca se ataca a raiz do problema, o próprio capitalismo. Por isso, partidos da burguesia que são, aos ex-aliados de Bolsonaro não será impossível apoiar, até certo ponto e mantendo a carta de traição na manga, o governo Lula. Serão tempos melhores, isso não negamos. Mas a cadela do fascismo continuará no cio.

*Alexandre L. C. Tranjan é graduando em direito na USP.

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