O Conselho da Paz de Donald Trump

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Por TARSO GENRO*

Da aridez de Juan Rulfo ao cinismo da extrema direita mundial, Tarso Genro denuncia a transição da cena pública para uma era de tirania privada, em que a gestão do caos e a aniquilação de povos desafiam a humanidade a resgatar o frescor de suas utopias perdidas

1.

O século XXI nasceu sob um signo da esperança, mas vem sendo devastado moral e materialmente pelos caminhos da guerra que historicamente recicla – como pulmão do sistema – as crises do sistema global do capital. Moralmente, pela perda do bom senso comum, que aspirava a formação da nação pactuada como comunidade de destino; e, materialmente, pelos reflexos das novas tecnologias de informação e comunicação, que mudaram radicalmente a vida comum do século XX.

Foram reinventadas as regras do consumo, adequando-as às novas virtualidades das relações humanas e normalizados todos crimes na selva das redes. Nelas, foram fundidos crimes comuns com delitos políticos organizados em série, chancelando tipos humanos abjetos na política, aceitos como modelos de vidas bem-sucedidas. Nas frestas do novo poder mundial nascem milhões de pessoas para uma vida de disputas sem rumo visível e de destruição da naturalidade.

“Depois de tantas horas de caminhar sem encontrar uma sombra de árvore, nem uma semente de árvore, nem uma raiz de nada, se ouve ladrar os cães (…) estamos caminhando desde o amanhecer(…). Todos levantamos a cara e olhamos uma nuvem negra e pesada que passa por cima das nossas cabeças. E pensamos, pode ser que sim, a chuva…” A sensação que a frustração das esperanças traz aos humanos, hoje retratada na saga palestina, está no cinismo político dos países ricos e também socializada para pobres, através das religiões do dinheiro e das novas formas de fascismo da extrema direita mundial.

Os trechos de textos no parágrafo acima são do conto “Nos han dado la tierra”, de Juan Rulfo, cujo relato é a longa jornada dos camponeses mexicanos em direção a uma “terra prometida” pelos governos reformistas, que sucederam a Revolução de 1910. Neste caminhar, a maioria das gentes deserdadas do campo se dirigiam para receber as poucas terras, fracas, desérticas, sedentas das chuvas que viriam dos picos nevados das montanhas.

É um conto sobre a esperança, a frustração e a utopia, que seriam alcançáveis no horizonte da revolução, que se petrificou, violentando e soterrando as liberdades malnascidas. Mas também pela aridez do tempo, pela falta do frescor das águas, que viriam das montanhas e pela extinção da energia vital do povo, que buscava as terras férteis nos vales úmidos das terras prometidas: “nem uma semente de árvore, nem uma raiz de nada”.

2.

Colhi na rede os comentários sobre os 72 minutos de delírio em Davos, transmitidos ao vivo para todos os continentes, na manifestação do presidente Donald Trump. Na sua fala ele confundia a Groenlândia com a Islândia; ofendia e massacrava a Dinamarca – país aliado da OTAN; e dizia que os Estados Unidos tinham o direito de ocupar aquele “pedaço de gelo”, do qual – segundo Donald Trump – “dependeria o destino da Terra”.

Números inventados e insultos disseminados pelo presidente da “maior democracia do mundo” transformaram a cena política mundial numa mórbida palhaçada, que fez um internauta lembrar de um proverbio turco: “Quando um palhaço se muda para um Palácio, ele não se torna um rei, o palácio vira um circo”. Mas este palhaço é perigoso e disse tudo aquilo muito consciente, tanto do seu poder pessoal ditatorial, como da covardia majoritária dos seus “aliados” da Europa.

A data de 21 de janeiro de 2026 será marcada como o dia de uma mudança radical na cena pública mundial, quando um candidato a ditador do mundo transformou todas as tiranias regionais – todos os governos autoritários – todos os ditadores minúsculos que infestam a humanidade, em pequenas marionetes de um jogo sinistro: Donald Trump faz o que quer no mundo, diz o que quer para o mundo. E assim demarca seu campo político de domínio, enfrentando a China, degradando a Europa e provocando os seus aliados para promoverem a destruição da OTAN.

O que Donald Trump está propondo para a Faixa de Gaza não é um momento de negação do colonialismo que vem de longe, mas é uma recuperação que faz a síntese das experiências imperiais-coloniais já existentes. Suas duas vertentes fundadoras estão amparadas nos ombros, a primeira – do rei Leopoldo II da Bélgica – que fez do chamado Estado Livre do Congo uma propriedade privada do Monarca por mais de duas décadas, entre 1885 a1908.

E a segunda, a experiencia monegasca que vem também do século passado, aquela em que o Estado – como totalidade jurídica, econômica e política – é um resíduo feudal que se fundiu numa só empresa de propriedade de uma Monarquia conveniente, que passa a administrar o pequeno território de Mônaco, como um grande “resort” soberano, que se torna um conveniente espaço exclusivo para ricos do mundo.

Na conferência de Berlim, entre 1884 e 1885 o Rei Lepoldo II obteve das potências europeias o reconhecimento de que a sua empresa privada, com fachada de uma missão filantrópica, poderia submeter o povo do Congo a trabalhos forçados, mutilações das suas crianças e assassinatos em massa pelo seu exército particular (a “Force Publique”) para garantir a apropriação dos seus recursos naturais pela pessoa do Monarca. Só em 1908 o governo belga assumiu o controle daquele território, até então um campo de atrocidades de propriedade pessoal do rei.

3.

No outro precedente histórico – organizado pelos muito ricos da Europa – está o Principado de Mônaco, controlado pela “Société des Bains de Mer”, fundada em 1863 pelo Príncipe Carlos III. Este fez do território “soberano” de origem feudal, um espaço moderno, apropriado por uma empresa de acolhimento. Esta foi organizada para servir aos ricos do mundo, que fizeram de Mônaco uma estação de jogos, hotelaria de alto luxo, centenas de restaurantes de primeira qualidade, empresas financeiras e de lavagem de dinheiro.

A exploração imobiliária e a base material de lazer para os ricos em Mônaco é a referência para a proposta de Donald Trump sobre a Faixa de Gaza, mais além das vistas privilegiadas para o Mediterrâneo, proposta sob o signo do “luxo responsável”. Ali foram fundidas a ideologia feudal da integração dos “nobres” com o poder capitalista concreto dos novos ricos da Europa. Para isso foi providenciada uma forma especial de soberania territorial, preparada para respeitar as grandes fruições de lazer e os negócios especiais, legais ou ilegais, da grande burguesia cosmopolita.

No Estado Livre do Congo imperava a barbárie mais brutal do colonialismo do Século passado, mas em Mônaco a “Société des Bains de Mer” organizou um grande jardim de diversões dos ricos do mundo inteiro, onde a iniciativa privada e o estado – como sociedade política – instituíram um instrumento eficiente de domínio territorial, para torná-lo um grande balneário “soberano”, dissimulado pela civilidade dos ricos. Eis a inspiração de Donald Trump para a terra Palestina: torná-la uma Disneylândia erguida sobre a necropolítica imperial-colonial de novo tipo.

Na iniciativa de Donald Trump para a Faixa de Gaza está contida – de uma parte – tanto a barbárie do Congo, com a aniquilação de um povo inteiro, que vai ser jogado para as periferias do território seco de Gaza (já dizimado pelas forças militares do Estado de Israel) como – de outra parte – abrindo oportunidades de negócios para os ricos do mundo. Estes erguerão novas fortunas que serão erigidas sobre milhares de cadáveres palestinos, que talvez permaneçam soterrados por milênios, mas de cujos porões ecoarão os choros e os gritos de dor das crianças martirizadas.

A proposta do presidente Donald Trump para a faixa de Gaza é uma síntese desses dois grandes movimentos, que organizaram a frágil ideologia europeia, de transição das colônias do velho colonialismo predatório mortífero, para um colonialismo manipulado diretamente pelo grande capital privado, não menos predatório e brutal.

Agora, Donald Trump já apresenta sem máscara sua proposta do grande “resort”, do qual o povo palestino é arredado de maneira violenta para as suas periferias e que terá, ele mesmo – Donald Trump – como gestor vitalício: um Rei Leopoldo II vindo dos Estados Unidos, que pôs até agora a velha Europa de joelhos e organiza o seu feudo alaranjado.

O mais absurdo do século passado ganha foros de política internacional, mas também se torna um precipício para uma decadência irrefreável do jogo liberal-democrático em direção a uma nova guerra, pelas quais Donald Trump vem tratando de exaurir em todo o mundo. Este destino só poderá ser bloqueado pela rebelião do povo americano contra o seu ditador interno, que é também ditador do mundo.

*Tarso Genro foi governador do estado do Rio Grande do Sul, prefeito de Porto Alegre, ministro da Justiça, ministro da Educação e ministro das Relações Institucionais do Brasil. Autor, entre outros livros, de Utopia possível (Artes & Ofícios). [https://amzn.to/3DfPdhF]

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