O dinheiro rebaixa todos os deuses do homem

Preben Wölck, Homens da Terra
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Por EVERALDO DE JESUS*

Comentário sobre o livro recém-lançado de Emiliano José

Mais novo livro do escritor e jornalista Emiliano José, o 23º de sua lavra. Originalmente escrito, imaginem, em postagens em pílulas na página do Facebook do autor. Sim, ele ainda mantém ativa e febril o seu Facebook, limitado pelos cinco mil “amigos” dessa plataforma.

É por lá, aliás, que ele tem dado vida a muitos dos seus últimos livros. Outra prática de que sou testemunho, mas não nova. A série de livros publicada por ele sob o título genérico Lembranças do mar cinzento, em cinco volumes, começou no jornal A Tarde, em uma coluna assinada por ele com esse título. A editora paulista Casa Amarela, em 2000, reuniu parte desses artigos que trouxeram à tona sete histórias de ex-presos políticos baianos durante o regime de terror pós-Golpe de 1964. Daí nasceu o primeiro livro, Galeria F: Lembranças do mar cinzento.

Outros quatro volumes viriam no decorrer dos anos, a maioria dos artigos publicados diretamente no site de Emiliano José, que infelizmente se perdeu nos links desconectados de hospedeiros voláteis. Por sorte, foram eternizados em publicações impressas que se juntam às memórias do mundo que precisam ser guardadas, para serem lidas, e suas histórias, jamais esquecidas.

Pelo jeito, Emiliano José pegou gosto pela coisa e, acredito, até deve se divertir em escrever já não mais em sua Olivetti, como ainda fazem alguns escritores de sua geração, mas direto no teclado de notebook ou desktop, e ao final dar um ‘publicar’. Não sei se vara a noite ou atravessa o dia fazendo isso.

Atualmente reside em um paraíso chamado Aldeia Jaguaribe, em Salvador. De lá já saíram, primeiro pelo Facebook, depois por várias editoras, os livros que ele agrupou na série “#Memórias do jornalismo”, e até seu livro infanto-juvenil, A revolução dos gatos no planeta azul. Tenho ciência de que mais duas obras já estão no forno, prontas para ganhar o mundo, mas por enquanto reservo-me, não revelo quais serão os temas ou os personagens.

Karl Marx por José Paulo Netto

Karl Marx: uma biografia, foi publicado pela editora Boitempo em 2020. O autor possui vasta obra acerca dos estudos sobre o pensamento marxista, a primeira delas Capitalismo e reificação, publicada em 1981. Um dos seus livros mais populares, O que é o marxismo, faz parte da épica e corajosa série Primeiros Passos, da Editora Brasiliense, iniciada nos anos 1980, nos estertores da Ditadura militar.

Ao longo dos anos 1980 a 2000, José Paulo Netto publicou livros sobre política, socialismo e democracia. O conhecimento dele no campo das teorias e das histórias de Karl Marx e Friedrich Engels faz dele uma das grandes referências nesse campo, além de ser um refinado estudioso da política e da economia.

Graduado em Serviço social pela Universidade Federal de Juíz de Fora (MG), fez doutorado na mesma área pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, em 1990. Os estudos acadêmicos que ele conduziu transformou-o em um dos grandes responsáveis pela profissionalização e reconhecimento da importância da Assistência Social como fator essencial para execução das políticas públicas no país.

Jose Paulo Netto entregou, em mais de oitocentas páginas, um retrato esmiuçado da trajetória de Karl Heinrich Marx (1818-1883). Nascido em Trier, no Reino da Prússia, atual Alemanha, o jovem Marx viveu os primeiros anos em uma família de oito irmãos, dos quais poucos sobreviveram além de vinte e cinco anos, ele o único dos quatro filhos homens a ultrapassar essa barreira. Netto constrói não apenas o retrato da região onde Marx nasceu, a Renânia, marcada por duas décadas de domínio francês, mas também todos os recortes de experiências e junções de outros teóricos com quem ele dialogou.

Como toda boa biografia, o autor conduz o leitor pelos caminhos trilhados pelo biografado, em um contexto histórico marcado por quedas de monarquias, ascensão da burguesia e formação dos estados nacionais que irão moldar a Europa nas origens do capitalismo industrial e no surgimento da classe operária, o sujeito revolucionário, conforme a visão de Karl Marx.

A análise do autor sobre a construção da teoria marxiana sobre o poder corruptor do dinheiro simboliza a busca desenfreada pela acumulação de bens e pelo próprio conceito de valores e sentidos dentro de uma sociedade burguesa. Sua crítica ao acúmulo de riqueza simbolizado pelo “vil metal” foi consolidada entre os anos 1843 e 1844 em três escritos: Sobre a questão judaica (1843), Cadernos de Paris & Manuscritos econômico-filosóficos de 1844.

É no primeiro que ele desenvolve a ideia de que “o dinheiro rebaixa todos os deuses do homem – e os transforma em mercadoria”. O poder alienante do dinheiro e a degradação do homem, que se empobrece “quanto mais se torna rico”, aparece em Cadernos de Paris, em uma proposição ácida quanto ao papel do cristianismo nessa relação homem/riqueza.

Conforme o recorte de José Paulo Netto, o papel do cristianismo numa sociedade em que o dinheiro é o totem mais poderoso é desconstruído pela busca insana e amoral da acumulação de riquezas: “Cristo é o Deus alienado e o homem alienado […]. O homem só tem valor na medida em que o representa Cristo. O mesmo vale para o dinheiro” (Ver Netto, José Paulo, 2020, páginas 88-131).

O ópio do povo

Emiliano José, ao navegar livremente na leitura dessa biografia, registra esses e outros aspectos do pensamento de Karl Marx, declaradamente ateu e crítico severo do papel das religiões católicas e protestantes no processo de alienação do homem às estruturas perversas da sociedade burguesa. Daí, extraiu o trecho que utilizou como título do seu livro, O dinheiro rebaixa todos os deuses do homem”. E destaca, às páginas 11 e 12, numa visão aligeirada, a religião, consciência invertida do mundo, no entendimento de Marx. Numa síntese, diz: “A religião é o suspiro da criatura oprimida, o coração de um mundo sem coração. Ela é o ópio do povo”. Essa formulação está longe de expressar a profundidade e o cuidado com que Marx trata a religião, como se pode observar no livro de José Paulo Netto.

Folheei o exemplar da biografia de José Paulo Netto utilizado por Emiliano José. Como se fosse uma “Bíblia de estudos” (aqui a ironia é proposital), sobre quase todas as páginas o autor sublinhou, rabiscou, dobrou, fez anotações. E escreveu suas impressões, a partir do texto original e sobrescrevendo suas impressões não apenas confinadas ao que leu. E publicou no Facebook, em pílulas.

Quem o acompanha naquela rede social pode assistir o passo-a-passo da leitura, como capítulos de uma novela ou uma série. Concluída a saga, decidiu o autor, junto com sua editora, revisar o que foi produzido, aparar arestas, ampliar leituras e impressões e, enfim, publicar os registros em torno da biografia escrita por Paulo Netto como um outro livro.

Questionei o autor sobre a intenção de fazer esse exercício de metalinguagem. A resposta está lá, em O dinheiro rebaixa todos os deuses do homem, às páginas 276-277: “Como se, a partir de minhas memórias jornalísticas, um chefe de reportagem me entregasse esse livraço, pelo tamanho e qualidade, dissesse: Faça matéria sobre ele. Fiz. Asseguro: tentei apenas registrar, de passagem sempre, os vários momentos de Marx acompanhando o olhar perspicaz e profundo de José Paulo Netto. Fiz escolhas, claro. Recaíram momentos de impacto em minha alma. E é curioso, fui me apaixonando. Não é comum obra dessa natureza provocar paixões. Em mim, provocou. José Paulo Netto escreve muito bem. O protagonista foi me tomando, e muito dessa paixão tem a ver com o protagonista. Mas também, e muito, em decorrência da qualidade do autor, do esmero do texto. Servissem de alguma coisa, pensei, essas escrevinhações, quem sabe podem provocar a leitura dessa biografia. E isso já me recompensaria”.

A propósito, Emiliano José me confessou que essa foi a primeira obra que leu de José Paulo Netto. Não o conhece pessoalmente, nem sabe se ele tem conhecimento desse livro, lançado tão recentemente, no dia do aniversário de 80 anos dele, 5 de fevereiro deste ano. Seria interessante um encontro dos dois, acredito. Até para saber quais as impressões do autor de Karl Marx: uma biografia sobre a homenagem feita por Emiliano José em torno obra dele. Registro de um admirador, de um leitor entusiasmado diante de um livro considerado essencial para quem queira conhecer Marx.

Compensa terminar com duas ou três citações de Emiliano, já na fase final do livro: “Ao acompanhar Marx pelas lentes de José Paulo Netto, percebi, ainda mais, a grandeza, a insuperável obra, o economista, o militante, o dirigente político, o filósofo, o homem de ciência capaz de olhar o mundo sempre como revolucionário, o pensamento e a ciência sempre a serviço da transformação, da revolução. Não tivesse produzido mais nada, e bastaria a descoberta do segredo mais profundo do capitalismo, a mais-valia, a noção mais preciosa deixada aos contemporâneos e aos pósteros”.

“De José Paulo Netto, extrai-se um Marx debruçado sobre a essência humana, realização gradual e contínua das possibilidades do gênero humano, pra mim uma descoberta”.

“Se foi um homem de seu tempo, com erros e acertos na luta política, conseguiu ir muito além com sua fantástica obra teórica, a desafiar eras, acicatar conservadores, provocar os movimentos revolucionários, obrigar todos a pensar, refletir, estudar sempre, a dizer: sem teoria não há revolução”.

*Everaldo de Jesus é jornalista e historiador. Autor, entre outros livros, de Do silêncio do claustro ao ruído das ruas: Dom Timóteo e a resistência à ditadura-civil militar (Editora Dialética). [https://amzn.to/4b1UTu3]

Referência


Emiliano José. O dinheiro rebaixa todos os deuses do homem: Marx pelas mãos de José Paulo Netto. Curitiba, Kotter Editorial, 2025, 280 págs. [https://short-url.org/1qDu0]

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