O hacker que sabia javanês

Regina Silveira
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Por ALEXANDRE JULIETE ROSA*

Considerações sobre a jornada de Walter Delgatti Neto, o “hacker de Araraquara”.

Durante a sessão da “CPI do 08 de janeiro”, de 17 de agosto, o nome de Walter Delgatti Neto, mais conhecido pelo vulgo de “hacker de Araraquara”, atingiu, pelo menos até agora, o ponto mais alto de sua jornada. O “caso Delgatti”, desde que veio a público, me fez relembrar uma série de livros e autores dos quais vou tratar ao final desse relato.

Vocês devem se recordar que o rapaz ganhou notoriedade pública após ter sido descoberto como o cérebro por detrás das conversas hackeadas do aplicativo Telegram e veiculadas inicialmente no site do The Intercept Brasil, e depois em parceria com outras mídias; Folha de S. Paulo, Veja, El País, UOL, etc. Os diálogos entre os membros da Lava Jato, principalmente envolvendo o então juiz Sérgio Moro e o procurador Deltan Dallagnol, começaram a circular, se não me falha a memória, em junho de 2019, numa série de nome folhetinesco: As mensagens secretas da Lava Jato.

Foi um cataclisma. Pipocavam perigosamente alguns nomes de autoridades públicas dos três poderes da República, como dos ministros do Supremo Tribunal Federal, Luiz Fux, José Roberto Barroso, Edson Fachin – que aparecem como ‘amigos’ da Lava Jato –; Gilmar Mendes e Dias Toffoli – os ‘inimigos’ –; do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (que não podia ser melindrado), além de todas as maquinações envolvendo os processos que culminaram na prisão de Luiz Inácio Lula da Silva. E a coisa tomou aquele rumo que sabemos…

O nome de Walter Delgatti Neto veio a público em julho de 2019, após ser preso junto a outras três pessoas, no âmbito da Operação Spoofing. Até então era suspeito de ter invadido o Telegram do então ministro da Justiça Sérgio Moro. No depoimento prestado na sede da Polícia Federal, em Brasília, no dia 23 de julho de 2019, o hacker admitiu ter sido o responsável pela invasão das contas de Telegram de uma penca de autoridades, incluindo o então presidente Jair Bolsonaro, o ministro da economia Paulo Guedes, o juiz Alexandre de Morais, dos procuradores da Lava Jato, políticos, celebridades, jornalistas, empresários etc. Dos seis detidos pela Operação Spoofing – outros dois seriam capturados na segunda fase da operação – o único que se notabilizou foi Walter Delgatti.

Eu ia acompanhando o caso pela imprensa. Por um lado, havia certa euforia por conta das reportagens da Vaza Jato. Por outro, muitas dúvidas sobre o “Vermelho”, apelido de Walter Delgatti em Araraquara, e tudo o que até então o ligava às matérias do Intercept. No início, a imprensa desqualificava os hackers envolvidos no acesso às mensagens do Telegram, especialmente o Delgatti. De fato, existe um volume enorme de informações que desabonam a vida do rapaz e isso foi utilizado abundantemente naquele período. Eu aguardava pra ver o desenrolar da coisa. [i]

A primeira entrevista que Delgatti concedeu a um órgão de imprensa foi para a Folha de S. Paulo – veiculada em 28 de agosto de 2019. Ele estava preso na Papuda e a justiça negou um encontro pessoal entre entrevistador e entrevistado. Por intermédio dos advogados, a entrevista foi concedida por escrito. Lendo a matéria fiquei com a impressão de se tratar não de um hacker, mas de um grande patriota.[ii]

No dia 06 de dezembro de 2019, Delgatti foi entrevistado pessoalmente para a revista Veja, que publicou a matéria em 18 de dezembro. Nessa entrevista, o hacker abre um pouco mais o leque de denúncias e envolve o nome de pessoas como o general Braga Neto e a ministra Carmen Lúcia. Fiquei com a impressão de se tratar de um rapaz bastante corajoso.[iii]

Em dezembro de 2020, Walter concedeu uma entrevista à CNN, na qual relatou os detalhes das invasões às contas do Telegram, contou um pouco de sua vida e de como conseguiu o acesso às conversas e ao jornalista Glenn Greenwald. Nessa entrevista já notei alguma coisa no Walter. Sua felicidade em estar naquele lugar, o nervosismo da grande estreia – seria a primeira entrevista em audiovisual de sua vida, e de alcance e repercussão nacionais! – sua vontade de justiça, a revolta contra o sistema que o prendeu injustamente e contra o qual queria se vingar – daí a solidariedade ao presidente Lula, com a entrega dos arquivos, sem que tenha cobrado um centavo por isso.

A parte que mais me interessou nessa entrevista foi a relativa à quebra dos sigilos bancários dos envolvidos no hackeamento. Os investigadores identificaram movimentações atípicas nos períodos anterior e concomitante ao hackeamento. A hipótese de lavagem de dinheiro foi levantada, menos para a conta de Walter, que diz com certo orgulho: “a minha conta não tem a suspeita de lavagem de dinheiro, minha conta é a única que movimentou cem mil reais em um ano em cartão de crédito, no Ifood ainda.” Que baita comilança… [iv]

Estávamos em plena aflição da pandemia de Covid-19, a catástrofe de Manaus sobretudo, quando em fevereiro de 2021 Walter Delgatti concedeu outra entrevista, desta vez para o jornalista Joaquim de Carvalho, do canal Brasil 247. Ele passou a dar um peso maior à sua biografia, ao abandono pelos pais aos nove anos de idade, aos problemas psicológicos, sua prisão injusta por tráfico de drogas e às dificuldades financeiras que andava enfrentando, principalmente pelo bloqueio no uso de internet, que era sua fonte de renda.[v]

Ao longo da entrevista ao 247 foram surgindo novos personagens que me deixaram meio confuso. A partir desse dia comecei a perceber alguns traços de javanês nas falas do “hacker de Araraquara”. Foi então que realizei uma acareação entre as informações até então veiculadas nos jornais, revistas, sites, na entrevista à CNN e ao Brasil 247, além de confrontar toda essa avalanche de informações com o relatório final da Operação Spoofing.

No primeiro depoimento que prestou na sede da Polícia Federal, Delgatti confessou ter feito as invasões a partir do telefone do procurador Marcel Zanin, da cidade de Araraquara, que acusara o hacker por tráfico de drogas e medicamentos controlados, acusações que o levaram a cumprir quase seis meses de prisão, antes de ser absolvido. Delgatti queria encontrar alguma coisa no Telegram de Marcel Zanin que pudesse ajudar a limpar a sua imagem perante a opinião pública de Araraquara. Foi do Telegram de Marcel Zanim que Delgatti diz ter conseguido acessar as contas de membros do Ministério Público, destes chegou à conta do deputado Kim Kataguiri e deste à conta do Alexandre de Moraes e de Rodrigo Janot, tendo este último o levado aos membros da força tarefa da Lava Jato.

Delgatti ficou estupefato com o que viu e decidiu entregar tudo a algum jornalista. Depois de várias tentativas sem sucesso procurou o Gleen Greenwald, por intermédio de Manoela D’ávila, cujo contato extraiu do Telegram da ex-presidente Dilma Rousseff, que conseguiu o telefone da ex-presidente através do Telegram de Luiz Fernando Pezão e que não se lembrava de como tinha chegado até o Telegram do ex-governador do Rio.[vi]

No entanto, na entrevista para a CNN, ele começa passando um pano para a família Bolsonaro, cujas contas foram as primeiras a serem invadidas – Eduardo, Carlos e Jair Bolsonaro, nessa ordem – e não a de Marcel Zanin. Essa, aliás, foi uma das contradições pegas pela investigação no âmbito da operação Spoofing.[vii] Walter decidiu começar sua entrevista na CNN narrando o tempo cronológico tal qual aparece nas investigações, e só depois relata o caso até chegar em Manuela D´Ávila e Glenn Greenwald.

Já na entrevista para Joaquim de Carvalho a coisa aparece meio diferente. O acesso às conversas do procurador Deltan Dallagnol, que nas primeiras versões fora conseguido a partir da invasão do Telegram de Rodrigo Janot, agora aparece como conseguido através da invasão na conta da então deputada Joice Hasselmann. O histórico das primeiras invasões – família Bolsonaro – não aparece e a versão passa a ser aquela que acabou se estabelecendo definitivamente para nós: Marcel Zanin, membros do Ministério Público, Kim Kataguiri, Alexandre de Moraes, Janot/Joice Hasselmann, membros da Lava Jato.

Outro fato que me deixou confuso é relativo ao contato com a Manuela D´Ávila: Delgatti diz, na entrevista ao 247, que “… a mídia diz que eu chamei a Manuela, mas na verdade eu acessei o Telegram da Manuela e chamei o Jean Wyllys por que eu sabia que ele tava exilado do país, como ele está exilado e não está aqui ele possivelmente teria coragem de divulgar isso”. O Jean não atendeu e então foi a Manuela mesmo. Em junho daquele mesmo ano surgiram mais alguns nomes: “durante uma audiência com o juiz Ricardo Leite, da 10ª Vara Federal, Delgatti também revelou que, antes de procurar Manuela D’Ávila e ser encaminhado a Glenn Greenwald, tentou entregar as mensagens à então procuradora geral da República, Raquel Dodge, e ao presidente da Associação Nacional dos Procuradores da República, José Robalinho Cavalcanti[viii]. Nada disso, no entanto, compromete a dignidade da ação de Delgatti, que tinha por objetivo desmascarar a república de Curitiba. Talvez algum mal-entendido. São muitos sobrenomes difíceis: Hasselmann, Rousseff, Wyllys, Dodge, D´Ávila, Greenwald… tudo muito estrangeirado.

Foi a partir da entrevista ao 247 que Walter Delgatti se transformou no herói de certa parte das forças progressistas brasileiras, inclusive apontando um suposto traidor do Lula, ao dizer que “existe uma conversa lá [no Telegram] que é bem impactante. Existe uma pessoa, que é do PT, que está junto com o Lula e que traiu o Lula. Essa pessoa acabou conversando com o Deltan e acabou traindo o Lula”. Mas o que me tocou mesmo nessa entrevista ao 247 foi a penúria em que caiu o Delgatti. Além de sofrer um ano e três meses na tranca, ele saiu da Papuda com uma mão na frente e outra atrás. Estava sobrevivendo com a ajuda da avó, que recebia uma mísera aposentadoria. Algo sem dúvida muito pesado para um jovem de trinta anos, que já tinha viajado para fazer turismo nos Estados Unidos, que trilhava uma carreira de investidor, que cursava faculdade de Direito e que torrava cem mil reais no Ifood.

Sem sombra de dúvida, a grande punição para Delgatti foi a proibição do uso da internet, pois como ele mesmo relata, ainda na entrevista para Joaquim de Carvalho, “eu vivia antes de revenda de trabalhos [pequena gaguejada] (…) auxiliava em trabalhos de faculdade…, eu conseguia custear faculdade, aluguel, tudo com esse valor que eu conseguia na internet”. Diante da penúria que o acometeu, Delgatti até pensou em ser motorista de Uber: “eu conversei com o doutor Ari [advogado de Delgatti], pra me conseguir um carro, emprestado ou de locadora, e eu vou dirigir Uber, foi quando ele me lembrou, não, você não pode usar a internet, o Uber é à base de internet.” Deve ser um duro golpe na vida de qualquer pessoa ter que virar motorista de Uber, ainda mais se a pessoa há bem pouco tempo havia comprado uma Land Rover…[ix].

Delgatti talvez tenha esquecido de relatar ao Joaquim de Carvalho um dinheirinho que estava pra receber, na verdade um cachê “pela colaboração no documentário do cineasta José Padilha sobre a Vaza Jato – ele [Delgatti] não revela o valor, mas diz ainda não ter data para receber o dinheiro. Espero que o Padilha não tenha dado um calote no menino. [x]

O certo é que a comunidade do Brasil 247, assinantes e internautas, se comoveu com a situação, e eu também. Durante a entrevista foi organizada uma vaquinha para ajudar o hacker, que recebeu as mais clamorosas homenagens pelo chat do YouTube; cito algumas: “Walter, o Brasil está em dívida com você que demonstrou ser um verdadeiro patriota”, “Você merece uma estátua de bronze no panteão dos heróis da pátria”, “Você é um marco de uma nova era no Brasil”.

E não foi somente nos chats do YouTube que Delgatti se transformara em herói: a ex-presidente Dilma Rousseff, por exemplo, o colocou na mesma estatura de um “Julian Assange e um Edward Snowden”, Roberto Requião o chamou de “um herói do Brasil”; Celso Amorim também comparou Delgatti a “Assange e Snowden”. As revelações da Vaza Jato realmente comoveram a sociedade brasileira e só não foram mais espetaculares por conta da pandemia.[xi]

Diante de todo aquele quadro que tento resumir até aqui, eu havia formulado uma modesta hipótese: Esse Walter Delgatti não é herói coisa nenhuma, ele é um anti-herói picaresco da mais fina estirpe. Parecia uma história – agora real – em muitos pontos similar àquelas que eu já havia acompanhado através dos livros.

Ainda antes de ser preso, Delgatti demonstrava estar um pouco saidinho. No dia 14 de julho de 2019 ele entrou em contado com o ator e apresentador Gregório Duvivier, que também havia sido hackeado e que tinha sua conta no Telegram monitorada em tempo real. Pode ser que Delgatti admirasse ou fosse fã de Duvivier e aproveitou a oportunidade para privar com seu ídolo. Usando o codinome “Luigi”, Delgatti enviou para Duvivier alguns prints com mensagens íntimas obtidas da invasão do aplicativo Telegram do ator. Duvivier reponde quase que prontamente demonstrando estar feliz em conhecer o hacker e que havia se juntado ao Glenn para apurar o “material” – quem sabe viesse a apurar o conteúdo do próprio Telegram.[xii]

Delgatti ficou entusiasmado por ter conversado com Duvivier e já no dia seguinte acabou enviando alguns prints desse papo para um rapaz de nome “Molição” – Luiz Henrique Molição (um daqueles dois apreendidos na segunda fase da operação Spoofing). Nessas mensagens, Duvivier pergunta se o hacker não tinha lá mais alguma coisinha sobre um tal “pavão”, que o ligaria ao “alan do terça livre”.[xiii] A Polícia Federal acabou dando uma prensa no apresentador, que prontamente entregou um pen-drive com todo o conteúdo das conversas entre ele e Delgatti. Duvivier não foi indiciado, mas deve ter dado aquela trancada.

A segunda ponta de javanês que percebi foi quando assisti à entrevista que ele concedeu à Veja, veiculada na mesma época da entrevista para o 247, ou seja, em fevereiro de 2021. Nessa entrevista, Delgatti diz que na época das invasões ao Telegram sabia não estar cometendo um crime, pois, “cursando Direito eu sabia o que estava fazendo e, a lei fala que invadir um dispositivo, móvel, alheio, tem uma penalidade, é tipificado em lei como crime, que é uma pena de dois meses a um ano de detenção e que não cabe prisão.

A lei explica, dispositivo: computador, celular… e o que eu tive acesso foi um clound do Telegram na Rússia, ou seja, eu entendo que o que eu fiz não foi crime, não existe um crime que puna isso, eu sei que é imoral, tudo isso, mas que é crime eu tenho a convicção que não é”. Mais à frente, Delgatti deixa escapar outras pontadas de javanês, como a admiração que começou a sentir pelo ex-deputado Gedel Vieira Filho, preso com Delgatti na Papuda, que muito contribuiu para os anos de aprendizagem do jovem Walter.

Ele já expressava nessa época um cento sentimento de abandono por parte do grupo político que havia se beneficiado com as mensagens hackeadas, “que pelo menos reconhecessem o que eu fiz… e os jornais e partidos de esquerda eles apoiam mais a operação [Vaza Jato] do que o hacker no caso” e ainda diz que tem como planos futuros, “se caso eu ganhe uma notoriedade positiva com tudo isso, que eu me candidate a deputado federal pelo meu estado […] atualmente, não sei no futuro, se eu fosse me candidatar hoje seria por um partido de esquerda”. [xiv]

Nesse momento pressenti que havia em Delgatti, além dos traços de javanês, uma certa aspiração bogóloffiana, mas que ainda não estavam muito bem delineada e que veio realmente a se cristalizar por volta de agosto de 2022. Acredito que em algum momento, que não consigo precisar muito bem, a figura de Delgatti começava a se emancipar do hackeamento e das reportagens que denunciavam os crimes da Lava Jato. Essas seguiram seu curso até a anulação de todos os processos e condenações que recaiam sobre o presidente Lula, da debacle do Dallagnol, da quase insignificância em que caiu Sérgio Moro, do desmoronamento, com o perdão do trocadilho, da operação Lava Jato e por aí vai. Delgatti soube colher os louros de sua atuação no hackeamento e vislumbrava passos maiores.

Realmente, no ano de 2021 Delgatti ficou meio escanteado. O que sobressaiu ao longo do ano foi a operação Vaza Jato, que começava a dar seus primeiros frutos. No dia 23 de março, por exemplo, o Supremo Tribunal Federal declarava a parcialidade do juiz Sérgio Moro no caso Triplex e, consequentemente, colocava em xeque todos os processos da Lava Jato que haviam passado por suas mãos. Esse fato histórico aconteceu no dia de aniversário de Delgatti. Menções ao hacker ainda apareceriam uma ou outra vez, aqui e acolá. Ainda em março, o jornalista Glenn Greenwald revelou que estava para lançar um livro sobre o caso. Achei estranho o fato de a obra ter sido escrita em inglês, com o título Securing Democracy, e de ser primeiramente lançada na gringa – Estados Unidos, Canadá e Reino Unido.[xv]

Glenn sempre manteve muita cautela ao falar de Delgatti como o hacker que conseguiu as mensagens. Na entrevista que concedeu à Carta Capital em junho de 2021, por exemplo, ele dizia que todo mundo agora sabe que a condenação do Lula foi ilegal, e isso “por que tinha uma pessoa com tanta coragem, ou Walter Delgatti, não sei se ele fez, mas ele tá afirmando que foi ele que fez… qualquer pessoa que fez isso, que hackeou e pegou a evidência conclusiva da cúpula do Sérgio Moro e a força tarefa da Lava Jato e passou para mim para me permitir relatar…” [xvi]. Talvez essa cautela em atribuir a Walter a autoria do hackeamento tenha contribuído para a quase nenhuma referência nas peças publicitárias que foram surgindo em torno da Vaza Jato, como no livro Vaza Jato, de Letícia Duarte [editora Mórula, novembro de 2020] e no documentário Amigo Secreto, de Maria Augusta Ramos [junho de 2022].

Mesmo fora do proscênio, Delgatti teve algumas boas notícias em 2021; como a permissão para deixar de utilizar tornozeleira eletrônica [setembro de 2021], que lhe abriu a possibilidade de voltar para a faculdade, a notícia de que era pai de uma menina, fruto de um relacionamento com uma jovem em Ribeirão Preto. Em 2019 ela o reconheceu numa reportagem de TV que cobria a prisão do hacker. “Ela tinha certeza ser o pai da bebê que carregava na barriga, hoje [dezembro de 2021] uma linda garotinha de cerca de dois anos e meio de idade. Os dois tinham se conhecido em uma balada, se envolveram, mas não voltaram a se falar, nem trocaram telefones. Walter ainda estava no presídio da Papuda, em Brasília, quando a jovem entrou com processo de reconhecimento de paternidade. Ao saber, Walter forneceu amostra para o exame de DNA, e o resultado saiu há alguns meses. Delgatti, o hacker que mudou a história do Brasil, é mesmo o pai.”[xvii]

Com mais essa responsabilidade, Delgatti se viu ainda mais apertado financeiramente, pois agora teria que pagar pensão alimentícia. Quem também se comoveu com a situação do hacker foi o escritor Fernando Moraes que, em dezembro de 2021, realizou em Araraquara um evento de lançamento do primeiro volume da biografia de Lula. A escolha da cidade foi justamente para homenagear Delgatti, responsável direto, segundo Moraes, pela absolvição de Lula. O escritor ainda se comprometeu a doar o montante do dinheiro que receberia com a venda dos livros durante o evento [10% do preço de capa de cada exemplar].[xviii]

O ano de 2022 começou bem para Delgatti. Pelo menos é o que se pode depreender da entrevista que concedeu a Joaquim de Carvalho, do Brasil 247. Ainda sem poder usar a internet, o hacker respondeu algumas perguntas que Joaquim formulou por escrito. Com uma fala muito bem articulada, pontilhada por um léxico rebuscado às vezes, citando Churchill, Delgatti fala da nova fase de sua vida, do retorno à faculdade, de sua participação naquele processo todo que culminou na Vaza Jato e comenta o projeto de Renan Calheiros que pedia anistia para o hacker que mudou a história do Brasil. Continua reclamando do perrengue financeiro e aproveita para agradecer a todos que vinham ajudando ao longo de todo aquele período difícil e “caso alguém tenha interesse em ajudar, o e-mail da vaquinha continua o mesmo.[xix]

Delgatti sempre demonstrou uma certa mágoa em relação aos setores de esquerda que, segundo ele, não reconheceram o seu trabalho. Em maio de 2022, a Polícia Federal concluiu um inquérito que procurava identificar eventuais mandantes e financiadores do hackeamento. A conclusão foi que não havia como provar a participação de mandantes ou patrocinadores. Ou seja, mais um indício de que Delgatti havia sido mesmo o responsável por mostrar ao Brasil que havia algo de podre no reino de Curitiba.

Em julho de 2022, Delgatti concedeu uma entrevista à Revista Fórum, comandada pelos jornalistas Luís Costa Pinto e Plínio Teodoro. Achei a entrevista mais ou menos um repeteco daquela primeira entrevista concedida a Joaquim de Carvalho. Algo interessante foi o comentário de Delgatti a respeito do documentário Amigo Secreto, que sequer citou seu nome. Muito sagaz, Delgatti formula uma metáfora segundo a qual o documentário conseguiu contar a história da Inconfidência Mineira sem mencionar o nome de Tiradentes. Eu também ficaria meio p. da vida se tivesse enchido uma laje sozinho e não fosse convidado para o churrasco.

Outro ponto interessante, já no final da entrevista, foi a declaração de Walter Delgatti eleitor de Lula: “o Walter de hoje, sem dúvidas vota no Lula, e não só vota como peço que votem no Lula, faço campanha pra ele, o que for possível; o Walter de hoje, sem dúvida alguma, aperta 13”.[xx] O tom de aclamação a Delgatti foi o que conduziu a entrevista, inclusive com destaque para o apoio financeiro ao hacker e participação entusiástica do público, através do chat. Pra vocês verem como o mundo dá voltas: a Revista Fórum, que lá no começo pintou a figura de Delgatti como um estelionatário da pior estirpe, “golpista, egocêntrico e com sede de fama e poder”, enfim se dobrava ao herói que havia mudado a história do Brasil.

Mas eis que de repente, e não mais que de repente, o nome de Walter Delgatti volta a estampar as principais manchetes da mídia brasileira. O hacker agora aparecia numa foto, ao lado da deputada bolsonarista Carla Zambelli. Retomei minha hipótese do anti-herói picaresco e passei a acompanhar o caso. Na Folha de S. Paulo, por exemplo, a virada foi simplesmente rocambolesca: em matéria do dia 08 de agosto de 2022 temos a manchete “Hacker aqui: pivô da Vaza Jato, Walter Delgatti estuda direito e vota no PT”; já no dia 12 do mesmo mês, não pude deixar de conter o espanto ao ler que “Campanha de Bolsonaro manteve contato com hacker da Vaza Jato”. O que estaria acontecendo?

Diziam que Delgatti havia sido convidado para trabalhar na campanha de Jair Bolsonaro e que sua missão era provar que as urnas eletrônicas eram vulneráveis. Zambelli postou a foto junto a Delgatti no dia 10 de agosto de 2022, mas o encontro foi a 27 de julho, num Hotel em Ribeirão Preto. Ou seja, enquanto o hacker fazia campanha para Lula, já estava tirando fotos junto à principal cabo eleitoral da equipe de campanha de Bolsonaro. Uma reportagem da revista Veja, de 12 de agosto, mostrou que Delgatti teve um encontro presencial com o então presidente da República Jair Bolsonaro.[xxi] Depois surgiram reportagens denunciando o encontro de Delgatti com militares da alta cúpula das Forças Armadas. A coisa começava a ficar quente para o hacker.

Vieram as eleições, toda aquela tensão, as operações da Polícia Rodoviária Federal [típicas da República Velha], a vitória de Lula, a fuga de Bolsonaro, o 08 de janeiro, o Carnaval, o escândalo das joias, o Mauro Cid, a “CPI do 8 de janeiro” e, no dia 27 de julho de 2023, mais uma prisão de Walter Delgatti e seu depoimento bomba na CPI, no dia 17 de agosto de 23.

O que eu aguardava ansiosamente aconteceu naquele dia; ouvir do próprio hacker as peripécias que o levaram até ali. Muitos acreditam nas palavras que Walter utilizou como justificativa para o rapaz ter sido cooptado pelo bolsonarismo: um sentimento profundo de mágoa em relação ao PT e ao presidente Lula.[xxii] Outros endossam a justificativa da falta de grana, daquela penúria em que Delgatti havia caído após sua ação de inimaginável altruísmo para com a democracia brasileira. Ele queria apenas um emprego, um trabalho honesto em que pudesse ganhar a vida como qualquer cidadão de bem. E de fato ele começou a trabalhar na administração das redes sociais da deputada Carla Zambelli e para isso abriu até uma empresa.[xxiii]

Apesar das revelações altamente comprometedoras que Delgatti soltou ao longo do depoimento do dia 17 de agosto, o que me pegou mesmo foi a fala do deputado Arthur Maia, presidente da CPI. Maia se mostrou extremamente comovido com a história de Delgatti, disse estar com o coração partido em ver um rapaz tão inteligente, um gênio, na condição de preso; “qualquer pai que tivesse um filho com sua inteligência teria muito orgulho do senhor, eu teria (…) o senhor teve uma vida errante que o trouxe a essa condição…” e depois diz que Delgatti o fazia lembrar o personagem de um filme, “aquele Prenda-me se For Capaz, uma história real de um sujeito que era um falsário e acaba se transformando em agente da CIA, que foi no cinema interpretado pelo Leonardo di Caprio, né”.[xxiv]

Nesse ponto tive que discordar, em partes, do deputado. A vida errante que levou Delgatti àquela condição me fazia lembrar não daquele sujeito falsário do filme americano, mas de outros personagens; coisa mais nossa, brasileiríssima. Delgatti já me recordava o Castelo, protagonista do imortal “O homem que sabia javanês”. E após sua aproximação junto a deputada Carla Zambelli, passei a ver o hacker como a encarnação mista do Homem que sabia javanês com o doutor Bogóloff, outro personagem de Lima Barreto construído nos moldes dos anti-heróis picarescos. São seres ficcionais que vêm de uma tradição longínqua, mais especificamente do apócrifo Lazarilho de Tormes, livro que circulou pela Espanha a partir mais ou menos da segunda metade do século XVI.

O herói picaresco é uma antítese do herói. Este, também de longínqua tradição, tem como característica básica a realização de determinadas ações cujos benefícios são sempre projetados para além de si próprio. É por excelência um altruísta, mesmo correndo o risco de perder a própria vida. Este foi o paradigma invocado por aqueles que viram nas ações do hacker da Vaza Jato um sentido heroico, por não ter recebido dinheiro pelas informações que vazou para o jornalista Gleen Greenwald. A heroicidade, no entanto, cai por terra quando Delgatti se mostra magoado e ressentido pelo fato de o PT e demais partidos de esquerda terem lhe virado as costas.

Segundo o professor Mario Miguel Gonzales, autor do livro A saga do Anti-herói, a palavra pícaro servia, em espanhol, “para designar os rapazes que ajudavam nas cozinhas. Estendeu-se, depois, a todo tipo de desocupado ou subempregado que, sobrevivendo pela astúcia, atingia facilmente a delinquência”. O Romance picaresco, por sua vez, seria a composição de uma “pseudo-autobiografia de um anti-herói – o pícaro – definido como um marginal à sociedade, cujas aventuras, por sua vez, são a síntese crítica de um processo de tentativa de ascensão social pela trapaça e representam uma sátira da sociedade de sua época.” O arquetípico Lázaro, anti-herói narrador do Lazarilho de Tormes, assim como todos os demais pícaros clássicos, ainda de acordo com Mario Gonzales, “apresentam-se como portadores de um projeto pessoal de ascensão social”, desde que excluído desse projeto o trabalho regular e cotidiano.[xxv]

Outro traço muito característico da narrativa autobiográfica de um anti-herói picaresco está no fato dele nunca se ver como membro dessa sociedade corrompida da qual quer fazer parte. Por isso, sua história sempre tem um toque de ingenuidade. Há, também, na história desses anti-heróis, um forte apelo emocional voltado para as condições sempre muito desfavoráveis que os acompanharam na infância: pobreza, miséria, abandono pelos pais, privações de toda sorte, etc. É daí que eles tiram muita força de convencimento e fisgam nossa condescendência.

O projeto de ascensão social pela trapaça, dependendo do nível de permissividade da sociedade, pode alcançar lugares inimagináveis. Lembremos que o Castelo, do conto barretiano, estava em maus lençóis quando decidiu aplicar o golpe do javanês. Narrou para um amigo, numa mesa de boteco, “as partidas que havia pregado às convicções e às respeitabilidades para poder viver”; contou da vez em que, vivendo em Manaus, fora obrigado a esconder sua condição de bacharel, “para mais confiança obter dos clientes, que afluíam ao meu escritório de feiticeiro e adivinho.”[xxvi]

A história mais fascinante, no entanto, é aquela através da qual Castelo havia se tornado professor de javanês. O que era para ter sido apenas um golpe no barão de Jacuecanga, no intuito de conseguir um dinheirinho que o livrasse das agruras do dia-a-dia, acabou se transformando num enorme trampolim, que levou o picaresco Castelo a entrar para a diplomacia e representar o Brasil num congresso de linguística, em Bali, de onde retornou na condição de glória nacional: “Passei a ser uma glória nacional e, ao saltar ao cais Pharoux, recebi uma ovação de todas as classes sociais e o presidente da República, dias depois, convidava-me a almoçar em sua companhia.”[xxvii]

Outro personagem que a trajetória de Delgatti me faz recordar é o russo Gregory Petrovich Bogóloff, dos folhetins As aventuras do doutor Bogóloff, que Lima Barreto publicou em 1912. Embora não tenha ficado tão famoso quanto o “O homem que sabia javanês”, as histórias desse russo charlatão são extraordinárias do ponto de vista literário e pertencem à mesma tradição daqueles anti-heróis picarescos.[xxviii]

Seguindo essa tradição, Lima Barreto compõe As aventuras de modo que as apresente como uma pseudo-autobiografia de um anarquista russo, que foge de sua pátria natal após ter sido indiciado como participante de uma tentativa de assassinato do governador de seu estado. Filho de um dono de sebo, graduado na Faculdade de Línguas Orientais de Universidade de Kazan, Bogóloff decide imigrar para o Brasil, por conta das perseguições que passou a sofrer pela polícia russa. Não era sua intenção se transformar num golpista aqui no Brasil. Chegou a trabalhar numa colônia agrária por alguns anos, até que percebeu “o espetáculo da comédia que é a administração do Brasil”, que o levou a viver “de modo menos afanoso e com o emprego de menos esforço”. Bogóloff encontrou na pouca vergonha da política nacional “os fatos que determinaram o mecanismo psíquico que me levou a abandonar a vida honesta de trabalho”.[xxix]

Pelo conhecimento que travou com o capanga político Lucrécio Barba-de-Bode, que servia ao poderoso senador Sofônias (pseudônimo do senador gaúcho Pinheiro Machado), Bogóloff chegou até o ministro da agricultura, Xandú (pseudônimo de Pedro de Toledo), para quem expôs seu projeto mirabolante “de criar porcos que cheguem ao tamanho de bois e bois da altura de elefantes”. O ministro achou magnífica a ideia e já no dia seguinte Bogóloff lia nos jornais “que tinha sido nomeado Diretor da Pecuária Nacional”. O contato mais íntimo que Bogóloff vai travando com os políticos – “as pessoas influentes cujo conhecimento ia travando no curso da vida” – fortaleceu nele “o alvitre de procurar ver como funcionava o mecanismo político do Brasil”. E foi nessa peregrinação como Diretor da Pecuária Nacional e amigo íntimo do poderoso senador Sofônias, que o russo quase chegou a ser Governador do estado dos Carapicus.

Como é de costume na vida desses pícaros, suas jornadas são pontilhadas por altos e baixos. Nesses momentos é que lançam mão dos mais perspicazes ardis para continuar vivendo. Bogóloff continua narrando a série de golpes que vai deixando aqui e ali, sempre à sombra o poder público, muitas vezes guindado por ele. Numa de suas recaídas, chegou a pensar em roubo, “mas esse nunca dá cousa que se possa fazer o restante da vida segura e os riscos são muitos. Seria magnífico um estelionato, mas, para tal, eram indispensáveis elementos que me faltavam: conhecimento do mecanismo da administração ou do comércio, capacidade para falsificar documentos e outros de igual jaez”. E assim foi seguindo: “Não me vinha ao pensamento nenhuma impossibilidade moral nem qualquer consideração sobre o julgamento que a opinião podia ter do meu ato”.

Em 1915 Lima Barreto publicou o romance em folhetins Numa e a Ninfa, no jornal A Noite. A história se passa, assim como nas Aventuras, num momento crítico de transição entre a presidência Afonso Pena [que aparece no romance sob o pseudônimo de “o Velho”] e a eleição do general Hermes da Fonseca [que aparece sob o pseudônimo de Bentes], ou seja, mais ou menos entre 1908 e 1911. Importante lembrar que esse romance já aparece em gérmen no último fascículo das Aventuras e no conto Numa e a ninfa.

Lima Barreto incorporou As aventuras a essa nova empreitada romanesca, um livro eminentemente político, que coloca a nu os mecanismos políticos e a dialética entre estados e governo central na chamada República Velha. Bogóloff reaparece na história, agora em parceria com Lucrécio Barba-de-Bode, e os dois passam a operar em função da candidatura militar: “Bogóloff pôde ganhar algum dinheiro, escrevendo artigos para jornais de pouca vida; meteu-se aos poucos no torvelinho dos que se agitavam à espera do reino dos céus que Bentes vinha realizar sobre a terra (…) e começava a conhecer as atividades políticas, os seus bastidores, as suas retortas de fantásticas transformações”.[xxx]

As peripécias e manhas de Bogóloff, as posições que foi adquirindo ao longo do romance são as mesmas dos fascículos de As aventuras. O interessante em Numa e a Ninfa é a dissecção satírica que Lima Barreto faz da arquitetura política República Velha, sobretudo da participação dos militares na vida política e das manobras eleitorais daquele período: “Os sequazes de Bentes [Hermes da Fonseca] acharam que o melhor meio de fazê-lo presidente do Brasil era impedir que houvesse eleições na capital do país. Todas as tendenciosas passeatas de batalhões, a inundação da cidade por valentões e capangas (…) As seções eleitorais foram fechadas, os livros [de Atas Eleitorais] não apareceram e o Campelo com Totonho, outros do bando e oficiais foram vistos arrebatando-os aos carteiros do Correio”.[xxxi]

Toda essa história me veio à mente depois que assisti ao depoimento de Delgatti na “CPI do 08 de janeiro”, de modo que achei muito descabida a comparação feita pelo deputado Arthur Maia. Essa reaparição do hacker, o segundo ato de sua trajetória, tem os ingredientes de uma jornada picaresca, um “Gil Blas vivido”, com diz o Castelo, do Homem que sabia javanês. Lembro de uma entrevista em que Delgatti dizia com muito orgulho que havia conseguido derrubar a rede de uma lan house em Araraquara: “Era uma retaliação: o garoto de 11/12 anos e os amigos desconfiavam que uma turma rival andava trapaceando no jogo Tíbia. A rivalidade virou guerra e o pré-adolescente ruivo decidiu então rastrear os IPs dos computadores e interromper a conexão de um quarteirão inteiro. Não foi nem o primeiro nem o último ataque promovido por Delgatti – que, anos mais tarde, ficaria conhecido como o ‘hacker de Araraquara’.[xxxii]

Quase uma década depois, o menino conseguia, através de um mecanismo simples, ter acesso às contas do Telegram das principais autoridades do país. Li e ouvi em vários lugares muita descrença acerca da capacidade de Delgatti em realizar todas as operações que a ele são imputadas. Talvez um certo preconceito contra o autodidatismo. Realmente não sei se ele operou sozinho ou se foi conduzido por uma espécie de Sociedade da Torre, aquela que manipulava os passos do jovem Wilhelm Meister do romance goethiano. Recordemos que o personagem Castelo conseguiu aprender uns rudimentos de javanês e que Bogóloff tinha lá seus conhecimentos de agricultura e pecuária, fruto de sua experiência campesina. É a partir daí que foram trilhando suas jornadas, num país extremamente fértil para os homens que sabem javanês.

Seja como for, tomando a história pelo valor de face, não pude deixar de conjecturar, junto aos meus livros e autores diletos, essa que se assemelha em muitos aspectos a uma jornada de um anti-herói picaresco mui nosso. Em relação a Delgatti, temos uma espécie de autobiografia estilhaçada, um pouco de sua trajetória em depoimentos e entrevistas, que apontam para um sentido picaresco da vida. As investigações subsequentes ao depoimento de Delgatti na CPI, no dia 17 de agosto, ainda vão render pano pra manga. Muito sintomático, por exemplo, o fato de o hacker ter sido condenado a 20 anos de prisão e que a sentença tenha sido proferida apenas quatro dias após seu depoimento bomba. A decisão do juiz Ricardo Augusto Soares Leite vem sendo muito contestada por advogados e juristas, como Fernando Augusto Fernandes e Lenio Streck, por exemplo.

Creio, por fim, que Delgatti tenha se sentido muito à vontade no meio bolsonarista, encontrado o seu habitat natural, por assim dizer. É uma comparsaria de malfeitores de fazer inveja a qualquer folhetinista do século XIX. Ninguém me tira da cabeça que esse advogado Frederick Wassef ganhou vida a partir de algum manuscrito ainda desconhecido de Fiódor Dostoievski. Talvez essa tenha sido apenas mais uma queda na vida do anti-herói Delgatti, que de alguma forma vai se reinventar, talvez como escritor e palestrante. Já temos aí o esqueleto de um roteiro para futuros ficcionistas estamparem uma bela estória, sob o veio da implacável pedagogia da sátira.

*Alexandre Juliete Rosa é mestre em literatura brasileira pelo Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo (IEB-USP).


[i] Dois exemplos desse perfil do hacker podem ser lidos em dois veículos bastante distintos, do ponto de vista ideológico: O primeiro, nessa reportagem da revista Veja: “Quem é ‘Vermelho’”, estelionatário fanfarrão e suspeito de hackear Moro”. Link para a matéria:
https://veja.abril.com.br/politica/quem-e-vermelho-estelionatario-fanfarrao-e-suspeito-de-hackear-moro/

O segundo exemplo, na matéria da Revista Fórum: “Nem russo e nem petista: hacker de Araraquara era ostentação”. Link para a matéria:

https://revistaforum.com.br/politica/2019/7/28/nem-russo-nem-petista-hacker-de-araraquara-era-ostentao-59184.html

[ii] Link para a entrevista:
https://www1.folha.uol.com.br/poder/2019/08/acessei-informacoes-de-grande-interesse-publico-diz-hacker-da-lava-jato.shtml

[iii] Link para a entrevista:
https://veja.abril.com.br/brasil/hackers-novas-mensagens-comprometem-militares-ministros-e-ate-bolsonaro/

[iv] Link para a entrevista na CNN: https://www.youtube.com/watch?v=edjznNDHf74&t=656s

[v] Link para a entrevista no 247: https://www.youtube.com/watch?v=ElHe4PuEBJI&t=5292s

[vi] A integra do depoimento pode ser lida a partir do link:
https://g1.globo.com/politica/noticia/2019/07/26/hacker-diz-em-depoimento-como-chegou-aos-arquivos-de-deltan-e-que-nao-recebeu-dinheiro-pelo-material.ghtml

[vii] Ver no Relatório Final da Operação Spoofing, p. 171 e seguintes. Link para acessar o arquivo:
https://pt.scribd.com/document/440507437/RELATO-RIO-FINAL

[viii] Matéria do site Brasil 247, de 22 de junho de 2021. Link:
https://www.brasil247.com/blog/lava-jato-colocou-um-genocida-no-poder-o-depoimento-de-delgatti-a-justica-video

[ix] No segundo depoimento que prestou na sede da Polícia Federal, em 30 de julho de 2019, Delgatti confirmou que conheceu através da internet o rapaz Thiago Eliezer Martins Santos, uma daquelas quatro pessoas presas na primeira fase da operação Spoofing e que foi indiciado no esquema das invasões aos celulares. Delgatti declarou que havia comprado uma Land Rover de Thiago, por volta de dezembro de 2018, e que somente se encontrou pessoalmente com Thiago quando foi à Brasília/DF buscar o carro, tendo Thiago o levado do aeroporto para o hotel. A declaração consta no Relatório Final da Operação Spoofing, p. 36. Link para acessar o arquivo:
https://pt.scribd.com/document/440507437/RELATO-RIO-FINAL#

[x] Entrevista de Walter Delgatti para a Veja, veiculada em 12 de março de 2021. Link para a matéria:
https://veja.abril.com.br/politica/eu-era-fa-da-lava-jato-diz-hacker-que-vazou-mensagens-de-moro/

[xi] Retirei essas falas do documentário “Delgatti: o hacker que mudou a história”, produzido pelo Brasil 247 e veiculado em abril de 2021. Link para acessar: https://www.youtube.com/watch?v=fXdyH-TsEMw&t=3596s

[xii] As conversas estão anexadas no Relatório Final da Operação Spoofing, pp. 159 – 168.

[xiii] As mensagens constam no Relatório Final da Operação Spoofing, p. 33.

[xiv] Link para a entrevista: https://www.youtube.com/watch?v=MwHfsHsRb4I

[xv] O livro foi lançado no Brasil em julho de 2022, com o título Garantindo a democracia, pela editora Autonomia Literária. Ao longo de suas mais de trezentas páginas, o nome de Walter Delgatti aparece citado uma única vez.

[xvi] Link para a entrevista: https://www.youtube.com/watch?v=5Pk1nJDGSds

[xvii] Trecho da matéria veiculada no 247:
https://www.brasil247.com/blog/walter-delgatti-neto-o-hacker-que-mudou-a-historia-do-brasil-agora-e-pai-nk8m1im1

Existe outra versão para o caso veiculada pela revista Veja, bastante sinistra aliás: Link para a matéria:
https://veja.abril.com.br/coluna/maquiavel/a-nova-encrenca-do-hacker-responsavel-pela-vaza-jato/

[xviii] Conforme matéria veiculada no jornal de Araraquara acidadeOn: Link para acessar:
https://www.acidadeon.com/araraquara/politica/biografia-de-lula-e-lancada-em-araraquara-com-renda-para-hacker/

[xix] Link para a entrevista no 247:
https://www.youtube.com/watch?v=aCAH3gNIYek

[xx] Link para a entrevista na Revista Fórum:
https://www.youtube.com/watch?v=rnDeWo241t8&t=460s

[xxi] Link para a matéria:
https://veja.abril.com.br/politica/fotos-comprovam-encontro-de-bolsonaro-com-hacker-da-vaza-jato/

[xxii] Um documento muito interessante sobre esse ponto pode ser lido através do link:
https://www.brasil247.com/blog/conversa-com-walter-delgatti-o-heroi-relegado

[xxiii] Alguns detalhes desse novo empreendimento de Delgatti estão relatados em matéria do dia 07 de fevereiro de 2023, no site da Conjur. Link para acessar:
https://www.conjur.com.br/2023-fev-07/hacker-vaza-jato-invadir-celular-alexandre

[xxiv] Link para o depoimento de Delgatti na CPI:
https://www.youtube.com/watch?v=2Bko8grPV5w&t=11540s

[xxv] Mário M. Gonzales. “Lazarillo de Tormes: estudo crítico”. In: Lazarilho de Tormes. São Paulo: Editora 34, 2005. As citações estão nas páginas 200 e 202.

[xxvi] Lima Barreto. “O homem que sabia javanês”. In: Contos de Lima Barreto. São Paulo: Brasiliense, 1979, p. 22.

[xxvii] Idem, p. 31.

[xxviii] As Aventuras do doutor Bogóloff foram publicadas primeiramente em 1912, num período em que Lima Barreto deixou um pouco de lado os projetos de romance, investindo na literatura folhetinesca, cujos resultados eram mais imediatos – tanto em termos financeiros quanto em publicação. Somente os dois primeiros fascículos foram publicados durante a vida do autor, assim descritos: “Publicação semanal às terças-feiras. Original de Lima Barreto. Episódios de vida de um pseudo-revolucionário russo. Narrativas humorísticas. Rio de Janeiro, Edição de A. Reis & c., 1912. Capa de Klixto”. Os capítulos são: “Fiz-me, então, Diretor da Pecuária Nacional” e “Como escapei de Salvar o Estado dos Carapicus”. Os textos permaneceram esquecidos até serem publicados por Francisco de Assis Barbosa, junto à uma edição do romance Numa e a Ninfa (Rio de Janeiro/São Paulo/Porto Alegre: Gráfica Editora Brasileira, 1950). Nesta edição, Assis Barbosa incorporou outros dois fascículos que não foram publicados à época – “Dei alguns Planos e pintei Batalha de Salamina” e “Fui um momento Sherlock Holmes”. Nas obras completas de Lima Barreto, os quatro textos que compõem As aventuras foram incorporadas ao volume Os Bruzundangas (Vol. VII). Uma nota do jornal A imprensa anuncia o aparecimento das Aventuras, nestes termos: As “Aventuras do dr. Bogóloff” não são apenas páginas de boa literatura, são na realidade capítulos e capítulos trabalhados com sadio humorismo, visando claramente criticar os nossos costumes, sem preocupações inferiores de agressão a quem quer. O primeiro fascículo traz uma linda capa colorida.” (A Imprensa, Rio de Janeiro, 20 de setembro de 1912, p. 2). Link para a matéria:

https://memoria.bn.br/DocReader/docreader.aspx?bib=245038&pasta=ano%20191&pesq=&pagfis=16684

[xxix] Para a leitura das Aventuras do doutor Bogóloff indico a edição eletrônica da Universidade Federal de Santa Catarina. Link:
https://www.literaturabrasileira.ufsc.br/documentos/?action=download&id=131841

[xxx] Lima Barreto. Numa e a Ninfa. São Paulo: Carambaia, 2017, p. 325-6.

[xxxi] Idem, p. 459.

[xxxii] Entrevista para a Folha de São Paulo, 08 de agosto de 2022. Link:
https://www1.folha.uol.com.br/poder/2022/08/hacker-aqui-pivo-da-vaza-jato-walter-delgatti-estuda-direito-e-vota-no-pt.shtml


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