O Jesus brasileiro

Imagem Lucia Barreiros Silva:
image_pdf

Por FRANCISCO FERNANDES LADEIRA*

Se Jesus nascesse no Brasil de hoje, seria crucificado pelos “cidadãos de bem”

Em qualquer país minimamente democrático, religião é uma questão restrita ao âmbito privado. Ou seja, cada um exerce de forma livre sua crença, porém não tenta impor sua religião para a coletividade; tampouco deseja que os preceitos constitucionais sejam baseados em algum livro considerado “sagrado”.

No entanto, infelizmente, isso não acontece no Brasil. E o que é pior, em nosso país, aqueles indivíduos que mais defendem a mistura entre política e religião – os autointitulados “cidadãos de bem” – na prática, apresentam posturas totalmente diferentes daquele que dizem seguir: no caso, Jesus.

Sendo assim, neste texto, faço um breve exercício imaginativo sobre o que ocorreria se Jesus vivesse no Brasil contemporâneo, a partir do conteúdo presente na Bíblia, livro sagrado do cristianismo.

De acordo com as chamadas Escrituras, Jesus, filho de uma família pobre, nasceu num estábulo, lugar onde eram guardados animais. Portanto, por analogia, se o Messias voltasse em alguma grande metrópole brasileira, muito provavelmente teria nascido em uma favela; seu tom de pele seria escuro. Evidentemente, não pertenceria a nenhum clã que reside em área nobre. Isso significa que, só por sua condição de nascença, ele já seria odiado pelo “cidadão de bem”, que o consideraria o estereótipo do bandido.

Assim como os soldados romanos perseguiam o “Jesus judeu”, sua versão tupiniquim constantemente seria abordada pela polícia; não por cometer um “crime”, mas por sua cor e origem. Ele também teria dificuldades para dar um rolezinho no shopping com seus amigos: ou levaria uma “geral” da PM, ou seria alvo de olhares recriminatórios por parte do “cidadão bem” (afinal de contas, estaria frequentando um “lugar” que não é para “gente de sua laia”).

O “Jesus brasileiro” provocaria a ira de alguns pastores evangélicos de sua comunidade (que, assim como seus congêneres, os vendilhões do Templo de Jerusalém, utilizam-se da fé alheia para enriquecimento pessoal). Como todo pacifista, certamente ele não frequentaria cultos onde as pessoas fazem “arminhas com as mãos”. Definitivamente, não seria eleitor do “mito”.

Suas ideias de “igualdade social” fariam com que o “Jesus brasileiro” fosse rotulado como “comunista” e “esquerdopata” pelo “cidadão de bem”. Frases como “é mais fácil um camelo entrar pelo buraco de uma agulha, do que um rico entrar no Reino de Deus” ou “se queres ser perfeito, vai, vende os teus bens, dá o dinheiro aos pobres”, soariam para o “cidadão de bem” como coisa de invejoso, “preconceito contra rico” e incentivo a ociosidade do pobre.

De acordo com a Bíblia, Jesus andava com os marginalizados de seu tempo, o que hoje entendemos por “minorias sociais”. Consequentemente, por não discriminar pretos, pobres, prostitutas e homossexuais, o “Jesus brasileiro” seria caluniado por defender “ideologia de gênero” em grupos de WhatsApp bolsonarista.

Conforme uma conhecida passagem bíblica – a “Perícopa da Adúltera” – Jesus impediu o apedrejamento de uma mulher acusada de adultério, ocasião em que proferiu a emblemática frase: “Quem dentre vós não tiver pecado, que atire a primeira pedra”. Uma atitude similar, hoje, valeria a acusação de “defensor de bandido” por parte do “cidadão de bem”. Nessa mesma linha, se o “Jesus brasileiro” perdoasse ladrões, como feito há dois milênios, estaria “passando pano para bandido”, como gosta de dizer o “cidadão de bem”.

Aliás, por contestar o status quo e pertencer ao setor marginalizado da população, o próprio “Jesus brasileiro”, tal como ocorrera na antiga Judeia, seria considerado “bandido”. Mas sua vida, igual a de outros milhões de pobres e pretos, não importaria, seria “só mais um Silva que a estrela não brilha”. Afinal de contas, como diz o principal mantra do “cidadão de bem”: “bandido bom, é bandido morto”.

*Francisco Fernandes Ladeira é doutorando em geografia na Unicamp. Autor, entre outros livros, de A ideologia dos noticiários internacionais (CRV).

 

Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
Sobre as avaliações quadrienais da CAPES
14 Jan 2026 Por THIAGO CANETTIERI: Ao buscar mensurar o imensurável, o sistema CAPES reproduz uma engrenagem de sofrimento e competição que ignora a verdadeira natureza do trabalho intelectual e pedagógico
2
No caminho do caos
16 Jan 2026 Por JOSÉ LUÍS FIORI: O direito à guerra das grandes potências, herança westfaliana, acelera a corrida ao abismo e consolida um império do caos sob a hegemonia norte-americana
3
O sequestro de Nicolás Maduro à luz da história
18 Jan 2026 Por BERNARDO RICUPERO: A operação contra Maduro revela a hegemonia dos EUA na América Latina em transição: de uma combinação de consentimento e coerção para o predomínio da força bruta, característica de uma potência em declínio
4
Hamnet – a vida antes de Hamlet
19 Jan 2026 Por JOÃO LANARI BO: Comentário sobre o filme dirigido por Chloé Zhao, em cartaz nos cinemas
5
Augusto Boal – oito peças inéditas
15 Jan 2026 Por STEPHANIE DA SILVA BORGES: No exílio francês, Augusto Boal levou o Teatro do Oprimido a novos patamares, escrevendo peças que traduzem opressões do "primeiro mundo" e transformam o impasse social em potência cênica
6
O panorama científico brasileiro
20 Jan 2026 Por MÁRCIA REGINA BARROS DA SILVA: Mais do que uma trajetória de ausências, a história das ciências no Brasil é um complexo entrelaçamento entre poder, sociedade e conhecimento, revelando uma busca por modos próprios de fazer e pensar
7
A China diante do caos e de Taiwan
21 Jan 2026 Por ELIAS JABBOUR: A reunificação com Taiwan é apresentada como tendência histórica irreversível, onde o "pacífico" desaparece do léxico, e a China acelera sua integração econômica e preparo militar ante o caos global fomentado pelos EUA
8
Marx e o Estado
16 Jan 2026 Por ARI MARCELO SOLON & ALEXANDRE DE LIMA CASTRO TRANJAN: Comentário sobre o livro, recém-lançado, de Rafael Padial
9
Mapa da desigualdade informacional
19 Jan 2026 Por MARCIO POCHMANN: A desigualdade informacional nasce quando os dados granulares do século XXI residem em oligopólios privados, enquanto o Estado luta para manter a legitimidade e comparabilidade das estatísticas oficiais
10
O declínio da família no Brasil
21 Jan 2026 Por GIOVANNI ALVES: A explosão de lares unipessoais e a adultescência prolongada são duas faces da mesma moeda: a desintegração da família como infraestrutura antropológica, substituída por uma solidão funcional ao capital financeirizado
11
Guerra à vista?
15 Jan 2026 Por LISZT VIEIRA: A escalada militar trumpista, marcada pela invasão da Venezuela e ameaças unilaterais, transforma a soberania nacional em concessão da potência hegemônica e espalha a gasolina para um incêndio global
12
Venezuela – epitáfio para uma revolução?
19 Jan 2026 Por LUIS BONILLA-MOLINA & OSVALDO COGGIOLA: A intervenção estadunidense consuma a transformação da Venezuela em protetorado colonial, sepultando o projeto bolivariano sob uma transição que institucionaliza a pilhagem e a submissão
13
A mídia de massa no capitalismo
16 Jan 2026 Por LEOJORGE PANEGALLI: A indústria cultural gerencia o cansaço do Eu e a fantasia do herói, mas seu sucesso também expõe uma fome subjetiva por narrativas de resistência coletiva e justiça, traindo um impulso revolucionário adormecido
14
A geopolítica em 2026
18 Jan 2026 Por DMITRY TRENIN: O cenário de 2026 aponta para uma confrontação prolongada e fragmentada
15
As conjecturas de Luis Felipe Miguel
21 Jan 2026 Por VALTER POMAR: Num conflito geopolítico, a especulação desprovida de fatos é um ato de irresponsabilidade política que, mesmo sob o manto da análise, fortalece a narrativa do agressor e desarma a resistência
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES