O teatro Rival

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Por PAULO SILVEIRA*

“Por aqueles idos do começo dos anos 1950 passava um filme cujo nome atraía o jovem adolescente, que se dispôs a assisti-lo, o cine Rex estava a menos de 50 metros do Hotel Itajubá: Ivan, o terrível de Serguei Eisenstein…”

1.

Ele assistia a uma entrevista que Leandra Leal concedia para o programa Espelho de Lázaro Ramos. Não demorou muito para que o teatro, no caso o Teatro Rival, entrasse na conversa e viesse à cena. O teatro, ele, o próprio lugar da cena, neste caso ele mesmo entra em cena, transformou-se em personagem, ele, o teatro, contracena. Perguntada sobre o teatro, Leandra Leal, numa certeza infinda, responde: “o Teatro Rival é meu”.

Esse “meu” quase gritado parece ter chegado para mostrar, que o grifo ou a ênfase podem ir muito além do significado da palavra que pretendem recobrir, neste caso, para encolher o caráter possessivo designado por esse “meu”.

A ênfase neste “meu” ultrapassa de longe os aspectos formais da propriedade, tais, por exemplo, aqueles que envolveriam uma demanda judicial ou uma contestação de uma herança familiar.

Este “meu” parece conter uma significância bem maior, o testemunho do fundo mesmo da história do Teatro Rival, algo que correspondesse à origem profunda de sua história, uma espécie de referência a seu DNA ou às marcas indeléveis de seu destino, de sua vocação: o teatro como personagem.

O quase gritado do “(O teatro Rival) é meu” esclarece-se então por uma identificação psíquica profunda, como se se estabelecesse uma intimidade psíquica entre sua proprietária e o próprio destino e vocação do Rival. O teatro Rival entrando em cena não como ator no papel costumeiro de uma casa de espetáculos, mas, neste caso, num lugar muito especial de casa subjetiva de Leandra Leal e antes disso, quem sabe de sua própria família, o teatro como aquele lugar de onde produz o sopro vital necessário para que possamos nos constituir como sujeitos.

2.

A ele que assistia a entrevista, o preciso momento deste meu produziu um efeito físico inesperado, como aquela bolada que se leva no estômago e que nos corta a respiração. Ele podia dizer, com muita segurança, depois de passados seis anos de sua última experiência com o Teatro Rival, tal como Leandra fazia agora, que o Rival é meu. Um “meu” que neste caso não se restringe a propriedade formal, mas envolvido nos intrincados e bem amarrados laços psíquicos. Alguns anos haviam se passado para que esta certeza brotasse também quase como um grito que o Rival é meu.

Um “meu” que mesmo não se tratando da propriedade do Teatro Rival refere-se a sua materialidade geográfica, física mesmo e que ocupa o lugar de suporte subjetivo, naquilo que comporta de real, simbólico e imaginário. Não há dúvida, trata-se do mesmo Teatro Rival, mas que opera para produzir essa bolada no estômago menos como teatro e mais como rival.

Um teatro que no caso produz efeitos como nome, emprestando seu nome. Alguns mais afiados na lida psicanalítica talvez até pudessem chamar de efeitos significantes. E que efeito! A abertura do caminho que poderia conduzir à identificação do rival, que, como se sabe, nem sempre, real e imaginariamente, opera às claras.

Esses acontecimentos começaram no longínquo ano de 1951. Ele acabara de completar 14 anos; não era o dono do Rival, mas vivia um momento em que era quase dono do mundo. Viria de São Paulo para conhecer o Rio de Janeiro a convite de seu tio materno, que costumava vir ao Rio ali pelo começo de agosto para assistir o Grande Prêmio Brasil no Hipódromo da Gávea.

Além desse presente foi-lhe prometido um passeio ao Pão de Açúcar e, quem sabe outro ao Corcovado. Quem em seu lugar e nas suas condições de euforia, talvez próprias da idade, não estaria produzindo acrobacias internas daquelas raras comparáveis a um gol de placa?

Seu tio o avisara que ficariam no Hotel Itajubá na Rua Álvaro Alvim bem no centro da cidade, no coração da Cinelândia. Uma pequena rua praticamente de apenas uma quadra, porém longa e espichada, sem deixar de ter pequenos e importantes afluentes que fervilham as noites. Bem ao lado do Hotel Itajubá, seu vizinho próximo é o Teatro Rival (psiquicamente o rival se apresenta próximo).

E um pouco mais adiante quase na esquina da Rua do Passeio, o Cine Rex que com o tempo vem mudando, ou melhor, mudou sua vocação, deixando de exibir filmes convencionais e optando, talvez pelas contingências do mercado, por exibir filmes mais fortes e picantes que a maioria conhece como filmes pornôs. Assim, a Rua Álvaro Alvim foi o seu primeiro cartão postal do Rio de Janeiro, mesmo não sendo o melhor nem o mais bonito.

O cine Rex, mesmo que se apresente agora com uma nova roupagem, à época mantinha alguma majestade, até mesmo estampada no próprio nome. Nem que seja para colorir melhor essa aventura.

Por aqueles idos do começo dos anos 1950 passava um filme cujo nome atraía o jovem adolescente, que se dispôs a assisti-lo, o cine Rex estava a menos de 50 metros do Hotel Itajubá: Ivan, o terrível de Serguei Eisenstein, aquele mesmo que filmara alguns anos antes o famoso Encouraçado Potemkin. Por quais critérios esse jovem escolheria assistir um filme de Serguei Eisenstein, não apenas pela dificuldade de entendê-lo e ainda por cima com esse título ameaçador?

Desse terrível do Ivan, ali no cine Rex ao rival do teatro e ao Hotel Itajubá bastam uns poucos passos. Quem sabe não estaria neste, no hotel, à espera, um rival terrível?

3.

Já agora não mais adolescente, ele contou que esses fantasmas andaram lhe acompanhando uma vida inteira, anos e anos, vagando por sua alma. Mesmo que por vezes desaparecessem não deixavam de estar à espreita aguardando a oportunidade para reaparecer.

Até que em 2008 resolveu, o que só soube apenas depois de sua experiência, vestir-se de “caçador de fantasmas”. A oportunidade era rara, a de vir ao Rio assistir um show de Luiz Melodia, que curiosamente havia sido apresentado por aqueles dias em São Paulo. Mas no Rio seria feito num lugar especial: no Teatro Rival.

Naquele dia, ou melhor, naquela noite, o tempo estava também especial, um dilúvio viera varrer a cidade. Ao começar seu espetáculo, Luiz Melodia, mesmo chegando atrasado, disse que viria nem que fosse para chegar nadando. E isso sem mesmo saber que por ali andava um “caçador de fantasmas”.

A caçada pareceu ter sido fraca ou insuficiente. Quem sabe apenas atrapalhada pelo temporal. Valia a pena insistir e continuá-la no dia seguinte. Ele escolheu um restaurante numa daquelas pequenas travessas para jantar. Claro que não passava de uma desculpa. Antes passou de novo no Teatro Rival para comprar um CD do Luiz Melodia para presentear.

A chuva amainara e predominava a balbúrdia de bares lotados e no ar o cheiro de cigarro e cerveja. Mesmo assim, mais fraca, a chuva obrigava as moças a esconderem os bandeides do calcanhar. Enfim, a atmosfera do lugar voltava ao seu normal.

Tão normal que ele imaginou por instantes que essa poderia ter sido uma de suas casas, a casa de um dos seus tios, uma casa boa para se visitar, que convidava a uma intimidade. Faltavam apenas as corridas. Ah! As corridas. Ainda que acontecessem bem mais longe dali, na Gávea, tinham um papel nessa história, era um de seus personagens.

Já era hora de voltar, mas ainda ficava uma sensação de despedida, que uma etapa terminara; uma longa e espinhosa caçada. E hoje, passados dez anos do fim daquela caçada, era preciso, pela via da lei, acompanhar a certeza de Leandra Leal: sim, o Rival é dela, mas num certo sentido é dele também.

Mas não se pode abandonar um rival de qualquer jeito; afinal ele tinha um rival que era o dele. Para se chegar aí, às vezes pelo menos, há que se recorrer a uma instância mediadora capaz de ouvir com atenção os elementos que formam esses percursos. Que constróem os fios desses caminhos.

4.

Ele já havia contado a história da primeira viagem ao Rio, de seu tio materno, do Hotel Itajubá, da atração pelo filme – Ivan, o terrível. E depois, uma vida inteira mantivera-o separado do Teatro Rival e do show do Luiz Melodia. Ela então (agora ela, a psicanalista), pela primeira vez no caso, interveio, com uma firmeza quase rara, perguntando outra vez o nome do filme e, imediatamente em seguida para cortar a respiração: como é mesmo o nome do teatro?

Uniram-se aí, numa clareza cristalina, o terrível (do Ivan) ao Rival do Teatro: Terrível Rival. E quem sabe esse rival terrível não estivesse nem no cine Rex, nem no Teatro Rival, mas um pouquinho mais adiante, na mesma rua Álvaro Alvim, no mesmo quarto que ele do Hotel Itajubá. Eis o rival, o rival terrível, seu próprio tio materno – filho de sua avó, irmão de sua mãe, quem diria! – lado a lado, face a face. Um encontro mudo, nos vãos, armas escondidas ou disfarçadas, nunca mostradas.

Sabe-se lá quantos significados podem ser abrigados nesse “simples” terrível? No meio de tantos, a escolher, destacaria para essa história um deles: o fato dele ter, em certas circunstâncias a possibilidade de se colocar como um “fora-da-lei”. Talvez seja melhor atribuir-lhe mais força e considerá-lo como aquele que se põe no lugar da própria lei: o fazedor da lei.

Esta relação com a lei abriga, porque vem junto ao terrível, um quê de inesperado, sem limites, algo que pode, a qualquer momento, surpreender, sem nenhuma lógica que se respalde na lei. Um jogo de vale tudo às escuras. Sem dizer do avantajado do corpo de tal fantasma, neste caso talvez um espectro; um metro e oitenta e tantos num volume que costumam chamar de “armário”, certamente respeitável para a época e ainda hoje.

É sabido que a busca da origem nos remete a tempos imemoriais e requer para servir-lhe de suporte algo de natureza transcendental, diria mesmo inseparável de uma religiosidade, ela mesma, originária.

É melhor então imaginarmos o começo (bem mais identificável) desta estorinha. Até mesmo este começo não está livre de invenções e fantasias que aparecem para suprir os desfalecimentos da memória.

Por essa ocasião, quase imemorial, quando ele mal completara quatro anos, saíra para brincar com um pequeno martelinho que parece que não servia para nada a não ser amassar uma humilde tachinha e que já morava em sua casa há muito tempo. Na rua, um amiguinho da mesma idade, todo vaidoso, mostrava algumas figurinhas que acabara de ganhar. Ele encantou-se com as figurinhas e propôs trocá-las pelo martelinho, única moeda de troca de que dispunha. Aceitas as condições da troca cada um voltou para casa com seus novos troféus.

Na hora do almoço, orgulhoso, mostrou a seu tio materno (o futuro rival) as tais figurinhas que tanto o encantaram. E aí veio a inevitável pergunta: como ele as havia conseguido. Simples: troquei por aquele velho martelinho.

5.

A cortina fecha e quando reabre surge um novo personagem: o diabo em pessoa. Talvez melhor seja defini-lo como a “fúria da natureza” em forma de pessoa, a encarnação dessa fúria. Aquele martelinho fora uma das pouquíssimas lembranças que o falecido pai deixara para seu tio materno. Como se essa troca aparentemente tão simples e banal adquirisse o significado da troca da alma de seu avô por um punhado de figurinhas.

Ele, certamente, não tinha nenhuma condição de reconhecer esse surto psicótico, ainda assim soube relacioná-lo ao vazio da descendência paterna provocado pelo martelinho; como se essa ausência tivesse subtraído a substância psíquica que sustentava seu tio.

Nem é preciso contar que o novo personagem foi imediatamente à casa do amiguinho de seu sobrinho desfazer a troca. Naquele momento, o sobrinho que fora junto teve a certeza que a troca seria desfeita mesmo que fosse preciso seu tio derrubar a casa de seu amiguinho: raras vezes se pode deparar com um furor tão absoluto que nada pode impedir seus desígnios. Nem é preciso dizer que bastaram alguns segundos para que o martelinho voltasse às mãos de seu dono original.

Mas anda faltava uma densidade psíquica mais consistente para que esse seu tio viesse ocupar este lugar de rival, desse terrível rival. Nesse momento a imaginação dá suas voltas em busca de uma justificativa para essa rivalidade. Um receio que servia de justificativa que era menos para si mesmo e mais em defesa de seu próprio pai.

Morando na mesma casa e numa convivência permanente, aquela “fúria da natureza” poderia reaparecer e escolher seu pai como “rival”, que, de resto, se tomarmos o box como exemplo, deveria pertencer a umas três categorias abaixo da de seu tio. Apesar do caráter simpático, bonachão e solidário do pai, do tipo “boa praça”, isso poderia acontecer como já ocorrera com outro cunhado que também morava na mesma casa. E como se viu era uma mutação que, aparentemente, não dependia do “império da lei”.

Foi então que naquele longínquo 1951, na rua Álvaro Alvim, no Hotel Itajubá, ao lado do Teatro Rival e do cine Rex, começou a se estabelecer para ele, o sobrinho, uma negociação inesperada, uma “solução de compromisso” que visava neutralizar aquela face “fora-da-lei” do tio, pelo menos no que dizia respeito a si próprio e sobretudo a seu pai. Nas apostas nos cavalos as escolhas do sobrinho eram melhores que as do tio, a ponto deste começar a apostar, nem sempre, mas quase, nas indicações do sobrinho.

Estava amarrado um acordo tácito que perduraria até o fim da vida do tio, que, sem embargo, não foi livre de manifestações psicóticas se quisermos chamá-las pelo nome, até seu acabamento final escolhido por ele mesmo. Talvez pelo enorme cansaço de ter de sustentar-se psiquicamente em pequenos objetos ou laços, como foi o caso do pequeno martelinho.

Mas examinando mais de perto, o Rival, o teatro, entra na história como um indicativo de um caminho que, sem dúvida, expõe uma rivalidade. Não é uma rivalidade no sentido estrito como no box por exemplo ou em mil outros enfrentamentos diretos, individuais ou coletivos. Talvez por ser uma rivalidade mais indireta, mais tortuosa, sobretudo mais camuflada  à base de um disfarce só reconhecido depois de terem ocorrido.

Também um modo estranho de aproximação entre tio e sobrinho que se regozijava quando o tio ganhava jogando em seus palpites, o que não deixa de ser uma forma torta de afetividade. Em todo caso, o Teatro Rival estava ali apontando o caminho e constituindo-se como elemento essencial dessa pequena história. O Teatro Rival é certamente da Leandra Leal – mas é meu também.

*Paulo Silveiraé psicanalista e professor aposentado do Departamento de Sociologia da USP. Autor, entre outros livros, de Do lado da história: uma leitura crítica da obra de Althusser (Polis). [https://amzn.to/4dm8VYT]

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