Apoio crítico

Imagem: Valéria Maciel
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Por JULIAN RODRIGUES*

Apoiar Lula passa por derrotar o tal “arcabouço fiscal”

Queridos, queridas e querides – como Renato Rovai sempre começa seus editoriais – mandar-lhes-ei um papo retíssimo. Ou derrotamos o tal “arcabouço fiscal” como proposto pelo Ministro da Economia, ou o governo Lula já era. Tipo: estelionato eleitoral 2, a volta. Votamos em Dilma Rousseff e ganhamos Joaquim Levy. Votamos em Lula e ganhamos Fernando Haddad em modo “farialiamer”.

Sorry, mas não dá para passar pano nenhum. O que foi proposto como regra fiscal é um teto de gastos com menos arrogância.

Vamos começar do princípio: regra fiscal por quê? Para quem? Já não basta a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) e tantos outros mecanismos de contenção dos gastos públicos que os neoliberais introduziram no marco legal brasileiro desde os anos 1990?

Lula foi eleito para fazer política social e impulsionar o desenvolvimento. Para reconstruir os serviços públicos, para recolocar um projeto de industrialização, com distribuição de renda, democracia e pluralismo.

Não sei se Lula está no chip 2003-2005 – Antonio Palocci e arrocho fiscal, e depois gastar. Mas é bom lembrar que a guinada desenvolvimentista no primeiro governo só rolou depois da crise do mensalão e do quase crash de 2008. O caseiro fez um bem gigante para o país – caiu Antonio Palocci – Dilma Rousseff e Guido Mantega assumiram as rédeas. O resto é história.

Não temos um ano para jogar fora. O bolsonarismo está aí – firme e forte. Lula tem que entregar resultados imediatamente. O povo tem fome e pressa. Não dá para brincar de dialogar com “uzmercadus”, que, a propósito, não estão nem aí para os acenos “haddadistas”. São 100% oposição nas 24 horas de cada dia.

A hipocrisia dos tais mercados, dos liberais et caterva chega a ser patética. Jair Bolsonaro abriu os cofres e fez chover dinheiro em 2022 – foi fofo – e quase deu certo. Não se viu nenhum colunista do Valor econômico ou da Globo News dar um pio.

A pegada do atual Ministro da Economia nos remete a Palocci 2003, evoca a triste “Carta aos Brasileiros” – quando Lula acreditava que tinha que provar para “Casa Grande” que não comia criancinhas. E quando ele ainda pensava que havia espaço para compor com nossa burguesia – depois que colocaram-no na cadeia Lula é outra pessoa, perdeu tais ilusões (o que não quer dizer que reviu sua estratégia de sempre: reformismo moderado).

Qual a tarefa do PT, da esquerda, dos movimentos sociais, da intelectualidade crítica, dos socialistas? Nosso desafio é apoiar Lula, mas de forma ativa e crítica. Defender nosso governo contra as direitas, mas gritar, mobilizar, cobrar, tensionar. Governismo acrítico não ajuda o governo, que sofre todo tipo de pressão dos neoliberais e oposição ferrenha dos neofascistas.

Temos que construir um apoio crítico, apresentando reivindicações, batalhando pelo cumprimento da nossa pauta, puxando para a esquerda, fazendo um contraponto à pressão da direita. Para Lula poder mediar (a nosso favor) deve haver muita força do lado de cá. Bajulação e “passação de pano” não ajudam nem o governo democrático-popular nem o povo.

Fernando Haddad não é Antonio Palocci nem Joaquim Levy – trata-se de um intelectual muito mais sofisticado. Trata-se de um social-liberal progressista, ou um socialdemocrata moderado (ao gosto do leitor). Mas parece que está confortável demais nesse papel de homem da tesoura, de amigo dos mercados, de chefe da ala responsável de um governo supostamente populista.

O tempo é escasso. Não dá para perder o primeiro ano de governo. É preciso abrir as torneiras. Investir, jogar dinheiro pelo helicóptero. Aumentar salários, melhorar os serviços públicos, aumentar o poder de compra dos pobres, rodar a maquininha.

(Não, a inflação não sairá do controle. Estamos com uma baita capacidade produtiva e de consumo reprimida. E um pouquinho de inflação é muito bem melhor do que recessão e arrocho, by the way).

Ou seja: mais Keynes, Furtado, Conceição, Belluzzo, Pochmann, Mantega, Lara Resende. Menos Hayek, Roberto Campos, Fraga, Paulo Guedes. Mais Unicamp e menos PUC-RJ per favore!

Entonces, é o seguinte: nossa principal tarefa agora é derrotar o pacote econômico haddadista. E pressionar o governo Lula para que cumpra suas promessas de campanha. Gastar, gastar e gastar! Desenvolvimento, políticas sociais e distribuição de renda. Porrada nos fascistas e neoliberais. Levantar nossas bandeiras vermelhas. Mobilizar, polarizar, organizar, disputar.

Antes que seja tarde. Não está dado que Lula terminará seu mandato. Se não melhorarmos rapidamente a vida do povão tudo vai se complicar. O melhor “governismo”, que realmente ajuda a avançar é aquele que luta pela linha justa, não o que apenas reverbera acriticamente nossas realizações.

*Julian Rodrigues é jornalista, professor, ativista LGBTI e de DH, militante do PT.

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