Os desafios para 2021

Imagem: Luiz Armando Bagolin

Por CAMILA MORENO*

Um necessário giro estratégico para derrotar o neofascismo e o ultraliberalismo

Pra começar…

O golpe de 2016 contra Dilma Rousseff marcou uma ruptura histórica no Brasil. Marcou uma mudança qualitativa. O pacto constitucional de 1988, que instituiu uma frágil democracia liberal no Brasil, foi desconstituído. O golpe, operado pelas classes dominantes locais, foi uma articulação internacional, patrocinada pelos EUA, de caráter estratégico e geopolítico. Expressão de uma nova etapa na acumulação capitalista global.

O capital financeiro e o imperialismo amalgamaram, tendo como base o programa de radicalização ao neoliberalismo, um amplo leque de forças que patrocinaram a desestabilização econômica e a fragilização política e mobilização de massas contra o governo Dilma. A operação “Lava Jato”, gestada dentro dos aparatos do Estado norte-americano foi peça-chave para o sucesso do golpe.

Na sequência, viabilizaram a prisão política ilegal de Lula e seu afastamento do pleito de 2018. Jair Bolsonaro nunca foi o candidato preferido da elite brasileira e não era o candidato oficial do golpismo, que preferia o PSDB, mas, tornou-se o único candidato capaz de vencer Fernando Haddad, o candidato do PT e do Lula. Diante desse cenário a direita tradicional brasileira não teve dúvida: apoiou Bolsonaro para a Presidência da República. E foi assim que chegamos até aqui.

2020 e os desafios para 2021

2020 foi um ano difícil para o mundo. O enfrentamento a um vírus desconhecido desafiou cientistas, governantes e toda a população. No Brasil, as dificuldades foram além do enfrentamento à pandemia. Nosso país perdeu mais de 220 mil vidas para a Covid-19 diante de um governo que negou a gravidade da doença, não tomou as precauções necessárias para garantir que passássemos com menos dificuldades por um processo que por si só já seria difícil. Recomendou remédios sem qualquer comprovação científica, ameaçou a democracia diversas vezes e agora se nega a elaborar com seriedade um plano de vacinação para a população brasileira, que deveria ser a primeira prioridade do país.

Os respiros de resistência em 2020 foram os atos antifascistas e antirracistas construídos pelas torcidas organizadas, historicamente marginalizadas e criminalizadas no país, compostas em sua maioria pela periferia brasileira; por movimentos sociais, pelo movimento negro e de juventude; e a eleição de diversas mulheres, jovens, negras, de esquerda para o legislativo nas grandes cidades brasileiras.

Tais respiros de luta foram protagonizados por aqueles e aquelas que estão fora da política institucionalizada e burocratizada. Por quem ousou sonhar, incomodar o status quo e fazer política de forma coletiva, plural e transformadora.

Se 2020 foi um ano muito difícil, 2021 não promete ser diferente. O ano já começou com o anúncio do encerramento das fábricas da Ford no Brasil e com invasão de supremacistas brancos no Congresso Nacional dos Estados Unidos.

Os índices de desemprego no Brasil batem recordes, a pobreza cresce em todas as esquinas e cantos do país e se tornará ainda mais nítida com o criminoso fim do auxílio emergencial. Alcançamos o auge do processo de desindustrialização e desnacionalização. O neoliberalismo trouxe de volta a miséria e a fome para o nosso país.

O retrocesso econômico e social é gigantesco, assim como o retrocesso político e ideológico. Espalham-se mentiras negacionistas e anticiência. Quem imaginaria que estaríamos em 2021 nos vendo obrigados a defender a importância da vacinação e que a Terra não é plana?

O retrocesso é também no campo dos direitos. A misoginia do governo Bolsonaro empodera o machismo, o racismo e o preconceito e discriminação contra a população LGBT em todo o país. Casos de feminicídio, assassinatos de jovens negros e violência contra LGBTs são notícia todos os dias.

Em meio a esse triste cenário, Artur Lira, candidato do Bolsonaro, foi eleito para a Presidência da Câmara dos Deputados, mesmo com uma tentativa de ampla articulação que envolveu do PSL e do DEM aos partidos de esquerda para apoiar Baleia Rossi, candidato de Rodrigo Maia. Conforme a vitória de Lira se anunciava, partidos e parlamentares da direita anunciavam seu desembarque dessa articulação e migravam o apoio para o campo vitorioso, tornando cada vez mais nítido que a existência de uma direita democrática no Brasil é uma ficção e que enquanto colocarmos todas as nossas esperanças em saídas institucionais de acordos com a direita, acumularemos derrotas – no Congresso e principalmente para o povo.

A direita neoliberal brasileira, embora tuíte contra certas radicalidades do bolsonarismo, permanece defendendo a agenda neoliberal de Paulo Guedes que trouxe de volta a fome para o nosso país. Não é à toa que decidiram não aceitar abrir o processo de impeachment de um Presidente que atenta contra a vida do povo brasileiro cotidianamente porque desagradaria o mercado.

Também não é à toa que os ataques ao PT e à Lula não cessem mesmo diante dessa grave conjuntura. Assusta ao tal mercado a nossa capacidade de polarizar a disputa do país à esquerda. O silêncio dos grandes conglomerados de comunicação sobre o fim da farsa da Lava Jato com as novas conversas divulgadas entre Moro e os Procuradores do Ministério Público não é à toa. A elite brasileira sabe que fortalecer Lula é fortalecer uma alternativa à barbárie neoliberal e é justamente por isso que defender Lula significa muito mais do que permitir que o principal nome da esquerda brasileira possa ser candidato. É um requisito básico para a retomada da construção democrática no Brasil. Defender Lula é defender nossa história, é defender a justiça.

Diante desse cenário, não resta outra saída para o PT, para a esquerda, para os trabalhadores e para os movimentos sociais senão lutar. 2021 começou dando nítidas demonstrações que só a luta será capaz de nos tirar dessa falsa polarização entre neofascistas e neoliberais, que se retroalimentam.

Mais do que conjecturas e alianças para 2022, é necessário que 2021 seja de disputa de consciência, de luta social, de reorganização nos territórios, de enfrentamento real ao retrocesso ideológico provocado pela disseminação do pensamento neofascista e de retomar para o centro da nossa atuação a luta de classe e a identidade com o povo.

O momento exige um giro na chave da esquerda brasileira: prioridade na luta social frente a disputa da institucionalidade. Defender a vacinação para todos pelo SUS e a continuidade do auxílio emergencial. Precisamos ser uma esquerda realmente capaz de derrotar o projeto neofascista e isso só ocorrerá com a retomada do trabalho de base, a compreensão das mudanças ocorridas no mundo do trabalho, capacidade de mobilização de massa, programa nítido, campanhas permanentes e luta concreta.

É preciso criar uma estratégia digital que seja capaz de renovar a linguagem, fazer cotidianamente monitoramento de redes, dando respostas imediatas às questões que aparecem. Uma comunicação que dialogue para além da nossa própria bolha, que tenha estratégia. Não há dicotomia entre redes e ruas. É preciso falar e mobilizar milhões: nas redes e nas ruas.

Precisamos ser uma esquerda que compreenda que a pauta de direitos é central para a construção de um outro projeto de sociedade e não podem ser enxergadas como uma divisão na luta de classe, como se a classe trabalhadora não fosse composta por jovens, mulheres, negros e LGBTs. O feminismo, o enfrentamento ao racismo, os direitos sexuais e reprodutivos, as lutas da juventude não podem ser apenas um canto do nosso programa, precisam ser estruturantes.

A potência necessária para retomar a disputa do povo brasileiro está em uma profunda transformação, com renovação, programa e prática socialistas, sem concessões, enfrentando a dura batalha ideológica e cultural contra o bolsonarismo. Não podemos nos esconder, fingir o que não somos. Precisamos encarar a disputa de valores do porquê somos socialistas, defendemos que todos e todas tenham emprego, o fim da fome, da pobreza e da miséria. O fim do machismo, do racismo e da discriminação contra LGBTs, a liberdade religiosa e o Estado laico. A solidariedade frente à competição, os direitos frente à falsa ideia de meritocracia, a justiça frente à violência: um outro mundo possível, mais solidário, justo e igual.

2021 exigirá de nós capacidade inventiva, criativa, de mobilização e formação e que coloquemos em prática nossa resolução de ano novo: lutar incansavelmente, porque só a luta muda a vida, só a luta mudará a conjuntura, só a luta nos salvará da barbárie do fascismo e do neoliberalismo.

Sem medo de ser feliz, sem medo de ser socialista!

*Camila Moreno é feminista, antifascista, socialista e membro da Executiva Nacional do PT.