Patriarcado e sociedade da mercadoria

Por ROSWITHA SCHOLZ*

Um novo enquadramento teórico marxista-feminista

Nos anos de 1980, após o colapso do Bloco Oriental, culturalismo e teorias da diferença se tornaram especialmente proeminentes nos cursos de estudos femininos, uma disciplina desde então largamente transformada em estudos de gênero. O feminismo marxista, que até o fim de 1980 havia determinado os debates neste campo, foi sendo deixado em segundo plano. Recentemente, entretanto, a deslegitimação crescente do neoliberalismo, conectada com a atual crise econômica, produziu uma ressurgência e crescente popularidade de um conjunto diverso de marxismos.

Até a presente data [2009], entretanto, estes desenvolvimentos mal tiveram um impacto nos campos da teoria feminista ou dos estudos de gênero – além de alguns debates críticos sobre a globalização e estudos especializados interrogando temas como trabalho e dinheiro. A desconstrução é ainda vocalista principal no coro do feminismo universal, especialmente em teoria de gênero. Enquanto isso, afirmações quanto à necessidade de um novo feminismo (em particular um feminismo que uma vez mais inclua um plano materialista de análise) se tornou um lugar comum. O popular argumento dos anos de 1980 e 1990 que reivindica que estamos confrontados como uma “confusão dos sexos” está sendo rapidamente esvaziado. Ao contrário, está se tornando claro que nem a tão professada equalização de gêneros nem o jogo desconstrutivista renderam resultados convincentes.

A “redescoberta” da teoria marxista, de um lado, e o insight de que o feminismo não é de forma alguma anacrônico ou supérfluo, de outro, mesmo se ele não pode mais ser continuado naquelas formas que se tornaram características das décadas passadas, me levam a considerar um novo enquadramento [framework] teórico marxista-feminista capaz de considerar os recentes desenvolvimentos desde o fim do socialismo realmente existente e o início da atual crise econômica global. Deveria estar claro que não se pode conectar perfeitamente conceitos e análises marxistas tradicionais com problemáticas do século XXI.

Sem uma inovação crítica, uma aplicação direta é igualmente impossível para aqueles enquadramentos [framework] teóricos a partir dos quais eu irei basear o que se segue, tais como a teoria crítica de Theodor Adorno, ainda que suas investigações tenham nos fornecido uma importante base para uma teoria crítica do patriarcado no presente. Os debates feministas dos últimos vinte anos que foram baseados na teoria crítica, assim como em Adorno, podem nos servir de inspiração, mas eles também devem ser modificados. Eu não posso elaborar isto aqui[i]. Ao invés disso, eu gostaria de apresentar desde já umas poucas facetas da minha teoria das relações de gênero, ou teoria do valor-dissociação, a qual eu tenho desenvolvido por meio do engajamento com algumas das teorias acima aludidas.

Como irei mostrar, relações de gênero assimétricas hoje não podem mais ser entendidas no mesmo sentido que as “clássicas” relações de gênero modernas; contudo, é essencial fundamentar suas origens na história da modernização. De forma similar, se deve considerar os processos pós-modernos de diferenciação e a relevância de níveis simbólicos culturais que emergiram desde os anos de 1980. A ordem cultural-simbólica deveria ser entendida aqui como uma dimensão autônoma da teoria.

Todavia, esta dimensão autônoma é para ser pensada simultaneamente com o valor-dissociação como um princípio social básico para além de um entendimento da teoria marxiana como puramente materialista. Tal teoria é muito melhor equipada para apreender a totalidade na medida em que os níveis cultural-simbólicos, assim como os sócio-psicológicos, estão incluídos no contexto de um todo social. Economia e cultura não são, portanto, nem idênticas (como “lógica identitária” que violentamente busca subjugar diferenças ao mesmo denominador comum), nem tampouco podem ser separadas uma da outra em um sentido dualista. Ao contrário, sua identidade e não-identidade devem ser concebidas como a incompatibilidade conflituosa que dá forma ao patriarcado produtor de mercadorias como tal: o princípio básico autocontraditório da forma social do valor-dissociação.

 

Valor como um princípio social básico

Além da acima mencionada teoria crítica de Adorno, as referências teóricas primárias são uma nova teoria crítica fundamental do “valor” e do “trabalho abstrato” como aperfeiçoamentos da crítica marxista da economia política, de quem os mais proeminentes teóricos das últimas décadas são Robert Kurz e Moishe Postone.[ii] Pretendo dar a seus textos uma torção feminista.

De acordo com esta nova abordagem da crítica do valor, não é o mais-valor – ou seja, não é exclusivamente a exploração do trabalho pelo capital, externamente determinada, enquanto relações legais de propriedade – que permanece no centro da crítica. Ao contrário, a crítica se inicia num momento anterior, nomeadamente com o caráter social do sistema produtor de mercadorias e, portanto, com a forma de atividade particular do trabalho abstrato. O trabalho como abstração se desenvolve pela primeira vez sob o capitalismo ao lado da generalização da produção de mercadorias e, portanto, não deve ser ontologizado.

A produção generalizada de mercadorias é caracterizada por uma contradição-chave: sob o imperativo da valorização do valor os indivíduos dos empreendimentos capitalistas estão altamente integrados em uma rede e, apesar disto, paradoxalmente engajados em uma produção não-social, enquanto a socialização propriamente é apenas estabelecida via mercado e troca. Como mercadorias os produtos representam trabalho abstrato passado e, portanto, valor. Em outras palavras, mercadorias representam uma específica quantidade de gasto de energia humana, reconhecida pelo mercado como socialmente válida.

Esta representação é, por sua vez, expressa em dinheiro, o mediador universal e simultaneamente um fim em si mesmo da forma do capital. Deste modo as pessoas aparecem como associais e a sociedade aparece como sendo constituída através das coisas, as quais são mediadas pela quantidade abstrata de valor. O resultado é a alienação dos membros da sociedade, enquanto sua própria sociabilidade é apenas concedida a eles pelas mercadorias, coisas mortas, portanto esvaziando inteiramente a sociabilidade em sua forma social de representação do seu conteúdo sensível e concreto. Esta relação pode, por ora, ser expressa pelo conceito de fetichismo, tendo em mente que este conceito, ele mesmo, está ainda incompleto.

Oposta a esta posição, nas sociedades pré-modernas os bens eram produzidos sob diferentes relações de dominação (pessoais em oposição a relações reificadas pela forma-mercadoria). Os bens eram produzidos no campo e nas oficinas primordialmente para seu uso, determinadas por leis específicas das guildas que impediam a busca pelo lucro abstrato. A muito limitada troca pré-moderna de bens não era realizada em mercados e relações de competição em sentido moderno. Não era possível, portanto, nesse ponto da história, falar de uma totalidade social na qual dinheiro e valor se tornaram fins abstratos em si mesmos.

A Modernidade é consequentemente caracterizada pela busca de mais-valor, pela tentativa de gerar mais dinheiro a partir do dinheiro, não como uma questão de enriquecimento subjetivo, mas, ao contrário, como um sistema tautológico determinado pela relação do valor consigo mesmo. É nesse contexto que Marx fala de um “sujeito automático”.[iii] As necessidades humanas se tornam negligenciáveis e a força de trabalho, em si mesma, é transformada em uma mercadoria. Isto significa que a capacidade humana para a produção se tornou externamente determinada – não no sentido de uma dominação pessoal, mas no sentido de mecanismos anônimos e cegos. E é somente por essa razão que as atividades produtivas na modernidade foram forçadas a assumir a forma do trabalho abstrato.

Por fim, o desenvolvimento do capitalismo marca a vida globalmente por meio do automovimento do dinheiro e do trabalho abstrato, os quais emergem apenas sob o capitalismo e aparecem transhistoricamente [ahistorically] como um princípio ontológico. O marxismo tradicional apenas problematizou uma parte do sistema de correlações, nomeadamente a apropriação legal do mais-valor pela burguesia, portanto focalizando a desigual distribuição ao invés do fetichismo da mercadoria. Sua crítica ao capitalismo e a imaginação de sociedades pós-capitalistas estão consequentemente limitadas ao objetivo de uma distribuição uniforme [do mais-valor] dentro do sistema produtor de mercadorias em suas formas não-superadas. Tais críticas falham em ver que o sofrimento resultante do capitalismo emerge das suas próprias relações formais, das quais a propriedade privada é apenas um de muitos resultados.

Consequentemente, os marxismos dos movimentos de trabalhadores estavam limitados a uma ideologia de legitimação dos aperfeiçoamentos e desenvolvimentos imanentes ao sistema. Hoje, esta forma de pensamento é inadequada para uma crítica renovada do capitalismo, na medida em que absorveu (e se apropriou de) todos os princípios básicos da socialização capitalista, em particular as categorias de valor e trabalho abstrato, compreendendo equivocadamente estas categorias como condições transhistóricas da humanidade.

Neste contexto, uma posição radicalmente crítica do valor considera os exemplos passados do socialismo realmente existente como sistemas de produção de valor de modernizações recuperadoras[iv] determinados burocraticamente pelo Estado no Leste e Sul global, os quais, mediados pelos processos econômicos globais e a corrida pelo desenvolvimento de forças produtivas contra o Oeste, teve que colapsar no estágio pós-fordista do desenvolvimento capitalista no fim da década de 1980. Desde então o Ocidente se engajou no processo de retirada das reformas sociais no contexto de crises e globalização.

 

Valor-dissociação como princípio social básico

Os conceitos de valor e trabalho abstrato, eu argumento, não conseguem dar conta da forma básica do capitalismo como uma relação fundamentalmente fetichista. Nós temos também que levar em conta que sob o capitalismo surgem atividades reprodutivas que são principalmente realizadas por mulheres. Consequentemente, o valor-dissociação significa que o capitalismo contém um núcleo de atividades reprodutivas e afetos femininamente determinados, características e atitudes (emotividade, sensualidade e cuidado feminino ou maternal) que são dissociados do valor e do trabalho abstrato. Relações femininas de existência – isto é, atividades reprodutivas femininas sob o capitalismo – são, portanto, de um caráter diferente daquele do trabalho abstrato e é por isso que não podem ser francamente subsumidas sob o conceito de trabalho.

Tais relações constituem uma faceta das sociedades capitalistas que não podem ser capturadas pelo aparato conceitual de Marx. Esta faceta é um aspecto necessário do valor, embora ela ainda exista fora dele e seja (por essa mesma razão) sua precondição. Neste contexto eu tomo emprestada de Frigga Haug a noção de uma “lógica de economia de tempo” que determina um lado da modernidade que é geralmente associado com a esfera da produção, aquilo que Robert Kurz chama de “lógica e utilização (Vernutzung) da administração de negócios” e uma “lógica de dispêndio de tempo” que corresponde ao campo da reprodução. Valor e dissociação, portanto, estão em uma relação dialética entre eles. Um não pode ser simplesmente derivado do outro. Ao contrário, ambos emergem um do outro simultaneamente.

Neste sentido, o valor-dissociação pode ser entendido como uma macroestrutura teórica dentro da qual as categorias da forma-valor funcionam microteoricamente, nos permitindo examinar a socialização fetichista em sua totalidade, ao invés de apenas o valor. Deve-se sublinhar aqui, entretanto, que a sensibilidade que é usualmente percebida, de modo falso, como um a priori imediato nos campos da reprodução, do consumo, e das suas atividades correspondentes, assim como necessidades que precisam ser satisfeitas nesse contexto, emergiram historicamente diante do pano de fundo do valor-dissociação como um processo total.

Estas categorias não devem ser mal interpretadas como imediatas ou naturais, não obstante o fato de comer, beber e amar não serem somente conectados à simbolização (como o construtivismo vulgar poderia reivindicar). As categorias tradicionais disponíveis para a crítica da economia política, entretanto, estão em falta também em outro aspecto. O valor-dissociação implica uma relação sócio-psicológica particular. Certas qualidades desvalorizadas (sensibilidade, emotividade, deficiências de pensamento e caráter e daí por diante) são associadas com a feminilidade e estão dissociadas do sujeito moderno masculino. Estes atributos específicos de gênero são uma característica fundamental da ordem simbólica do patriarcado produtor de mercadorias.

Tais relações assimétricas de gênero deveriam, acredito, no que diz respeito à teoria, serem examinadas focalizando apenas a modernidade e a pós-modernidade. Isto não quer dizer que essas relações não tenham uma história pré-moderna, mas para insistir que sua universalização as dotou de uma qualidade inteiramente nova. A universalização de tais relações de gênero no início da modernidade significou que as mulheres se tornaram então responsáveis pelos menos valorizados (em oposição ao masculino, produtor de capital) campos da reprodução, os quais não poderiam ser representados em termos monetários.

Nós devemos rejeitar o entendimento de relações de gênero sob o capitalismo como um resíduo pré-capitalista. O pequeno núcleo familiar tal como o conhecemos, por exemplo, apenas emergiu no século dezoito, assim como as esferas públicas e privadas tal como as entendemos hoje apenas emergiram na modernidade. O que eu reivindico aqui, portanto, é que o início da modernidade não apenas marcou o nascimento da produção capitalista de mercadorias, mas que ele também viu a emergência de um dinamismo social que repousa sobre a base de relações do valor-dissociação.

 

Patriarcado produtor de mercadorias como modelo civilizatório

Seguindo Frigga Haug, eu parto do pressuposto de que a noção de um patriarcado produtor de mercadorias deve ser considerado um modelo civilizatório; porém, eu gostaria de modificar as afirmações de Haug levando em conta a teoria do valor-dissociação.[v] Como bem se sabe, a ordem simbólica do patriarcado produtor de mercadorias é caracterizada pelos seguintes pressupostos: política e economia são associadas com a masculinidade; a sexualidade masculina, por exemplo, é geralmente descrita como individualizada, agressiva ou violenta, enquanto as mulheres frequentemente operam como meros corpos.

O homem é, portanto, considerado humano, homem de intelecto e transcendente ao corpo, enquanto as mulheres são reduzidas a um status não-humano, puramente ao corpo. A guerra carrega uma conotação masculina, enquanto mulheres são vistas como pacíficas, passivas, desprovidas de vontade e espírito. Homens devem aspirar por honra, coragem e ações imortalizantes. Homens são pensados como heróis e capazes de grandes feitos, o que requer deles subjugar produtivamente a natureza. Homens estão o tempo todo em competição uns com os outros. Mulheres são responsáveis pelo cuidado de indivíduos bem como da humanidade em si. Porém, as suas ações permanecem socialmente desvalorizadas e esquecidas no processo de desenvolvimento teórico, enquanto a sexualização das mulheres é a fonte da sua subordinação aos homens e garante a sua marginalização social.[vi]

Esta noção também determina a ideia de ordem subjacente às sociedades modernas como um todo. Mais que isso, a habilidade e a disposição para produzir e o dispêndio de tempo racional, econômico e efetivo também determinam o modelo civilizacional nas suas estruturas objetivas como uma totalidade de relações – tanto seus mecanismos e história quanto as máximas da agência individual. Uma formulação provocativa poderia sugerir que o gênero masculino deve ser entendido como o gênero do capitalismo, tendo em mente que tal entendimento dualista de gênero é, claro, a concepção dominante de gênero na modernidade. O modelo civilizacional produtor de mercadorias que isto requer tem a sua fundação na opressão e na marginalização de mulheres e no simultâneo descaso com a natureza e o social. Sujeito e objeto, dominação e subjugação, homem e mulher são, assim, dicotomias típicas, contrapartes antagônicas internas ao patriarcado produtor de mercadorias[vii].

Porém, é importante evitar mal-entendidos a esse respeito. Valor-dissociação é, nesse sentido, algo a ser entendido como um metaconceito, já que estamos preocupados com a exegese teórica em um alto nível de abstração. Isto significa, para unidades ou sujeitos empíricos singulares, que estes não são capazes nem de escapar a padrões socioculturais e nem de se tornar parte destes padrões. Além disso, como veremos, modelos de gênero estão sujeitos a mudanças históricas. Portanto, é importante evitar interpretações simplificadas da teoria do valor-dissociação que se assemelhem, por exemplo, à ideia de “nova feminilidade” associada ao feminismo da diferença dos anos 1980 ou mesmo ao “princípio de Eva”, atualmente sendo propagado por conservadores alemães[viii].

O que devemos trazer para o primeiro plano nisso tudo é que o trabalho abstrato e o trabalho doméstico, junto com os conhecidos padrões culturais de masculinidade e feminilidade, determinam um ao outro simultaneamente. A velha questão “o ovo ou a galinha” não tem sentido nesse contexto. Ainda assim, tal abordagem não-dialética é característica de críticos desconstrutivistas que insistem que a masculinidade e a feminilidade devem, inicialmente, ser produzidas culturalmente antes que uma distribuição das atividades por gênero possa acontecer[ix]. Frigga Haug também parte do pressuposto ontologizante de que o significado cultural se amarra ao longo da história a uma divisão do trabalho previamente definida em termos de gênero.[x]

Dentro do moderno patriarcado produtor de mercadorias se desenvolvem, novamente, uma esfera pública, que em si mesma reúne um número de esferas (economia, política, ciência e daí por diante) e uma esfera privada. A esfera privada é principalmente atribuída às mulheres. Estas diferentes esferas são, por um lado, relativamente autônomas e, por outro, mutuamente determinadas – isto é, estão em relação dialética uma com a outra. É importante, então, que a esfera privada não seja mal-entendida como uma emanação do valor, mas, antes, como uma esfera dissociada.

O que é requerido é uma esfera para a qual ações de cuidado e amor possam ser deportadas e que esteja em posição oposta às lógicas do valor, de poupar tempo e da sua moralidade (competição, lucro, desempenho). Esta relação entre esfera privada e o setor público também explica a existência de alianças e instituições masculinas que se fundaram, por meio de uma divisão afetiva, contra tudo o que é feminino. Como consequência, a própria base do Estado e da política modernas, bem como os princípios de liberdade, igualdade e fraternidade, repousam sobre a fundação de alianças masculinas desde o século dezoito.

Isto não quer dizer, entretanto, que o patriarcado reside nas esferas criadas por esse processo de dissociação. Por exemplo, as mulheres sempre foram ativas, em alguma medida, na esfera da acumulação. Ainda assim, a dissociação se torna aparente também aqui já que, apesar do sucesso de Angela Merkel e outras, a existência de mulheres na esfera pública é geralmente desvalorizada e as mulheres permanecem amplamente impedidas de uma mobilidade ascendente. Tudo isto indica que o valor-dissociação é um princípio social formal universal que é localizado em um alto nível de abstração correspondente e que não pode ser mecanicamente separado em diferentes esferas. Isto significa que os efeitos do valor-dissociação penetram todas as esferas, incluindo todos os níveis da esfera pública.

 

Valor dissociação como princípio social básico e a crítica da lógica identitária

O valor-dissociação como prática crítica impede abordagens de crítica identitária. Isto é, não permite abordagens que reduzam a análise ao nível de estruturas e conceitos que subsumam todas as contradições e não-identidades, tanto em relação à atribuição de mecanismos, estruturas e características do patriarcado produtor de mercadorias a sociedades que não produzem mercadorias, quanto à homogeneização de diferentes esferas e setores dentro do próprio patriarcado produtor de mercadorias, ignorando diferenças qualitativas.

O ponto de partida necessário não é somente o valor, mas a relação do valor-dissociação como estrutura social fundamental que corresponde ao pensamento androcêntrico universalista. Afinal, o que é importante aqui não é somente que a média de tempo de trabalho ou o trabalho abstrato determinem o dinheiro como forma equivalente. Mais importante é a observação de que o próprio valor precisa definir como menos valioso e dissociar o trabalho doméstico, o não-conceitual, e tudo relacionado à não-identidade, ao sensível, ao afetivo e ao emocional.

Entretanto, a dissociação não é congruente com o não-idêntico em Adorno. Mais precisamente, o dissociado representa o lado oculto do próprio valor. Aqui, a dissociação deve ser entendida como uma pré-condição que garante que o contingente, o irregular, o não analítico, aquilo que não pode ser compreendido pela ciência, permaneça escondido e não iluminado, perpetuando um pensamento classificatório que não é capaz de registrar e manter qualidades particulares, diferenças inerentes, rupturas, ambivalências e assincronias.

Inversamente, isto significa para a “sociedade socializada” do capitalismo, para tomar emprestado uma expressão de Adorno, que estes níveis e setores não podem ser entendidos em relação uns com os outros como elementos irredutíveis do real, mas que eles também devem ser examinados, em primeiro lugar, nas suas relações objetivas internas correspondentes à noção de valor-dissociação como princípio formal da totalidade social que constitui uma determinada sociedade ao nível da ontologia e da aparência. Porém, em todos os momentos o valor-dissociação também reconhece as suas próprias limitações como teoria.

A auto-interrogação da teoria do valor-dissociação aqui deve ir longe o bastante para evitar se posicionar como um princípio absoluto da forma social. Aquilo que corresponde ao seu conceito não pode, afinal, ser elevado ao status de contradição principal, e a teoria do valor-dissociação pode, como a teoria do valor, não ser entendida como uma teoria da lógica unitária [logic of the one]. Na sua crítica da lógica identitária, portanto, a teoria do valor-dissociação permanece fiel a si mesma e pode persistir somente na medida em que ela se relativiza e, em certos momentos, se desautoriza. Isso também significa que a teoria do valor-dissociação deve abrir o mesmo espaço para outras formas de disparidade social (incluindo disparidade econômica, racismo e antisemitismo).[xi]

 

Valor-dissociação como processo histórico

De acordo com as premissas epistemológicas da formação da teoria do valor-dissociação, nós não podemos recorrer a modelos analíticos lineares ao examinamos os desenvolvimentos em uma variedade de regiões globais. Desenvolvimentos geralmente determinados pela forma-mercadoria e a forma associada do patriarcado não se realizam da mesma maneira e sob as mesmas circunstâncias em todas as sociedades (especialmente em sociedades que foram anteriormente caracterizadas por relações de gênero simétricas e as quais não adotaram inteiramente relações de gênero da modernidade até os dias de hoje).

Além disso, nós devemos colocar em primeiro plano relações e estruturas paternalistas alternativas que, embora amplamente sobrepostas pelo patriarcado ocidental no contexto dos desenvolvimentos econômicos globais, não perderam totalmente as suas idiossincrasias. Além do mais, nós devemos considerar o fato de que ao longo da própria história da modernidade ocidental ideias de masculinidade e feminilidade variaram. Tanto a concepção moderna de trabalho quanto o entendimento dualista de gênero são produtos e andam de mãos dadas com os desenvolvimentos específicos que levam à dominação do capitalismo.

Foi somente no século XVIII que aquilo que Carol Hagermann-White chama de moderno “sistema dual de gênero” emergiu, o qual levou àquilo que Karen Hausen chama de “polarização das características de gênero”. Antes disso mulheres eram amplamente consideradas como apenas outra variante de homem, que é uma das razões pelas quais as ciências históricas e sociais sublinharam ao longo dos últimos quinze anos a universalidade do modelo de gênero único sobre o qual as sociedades pré-burguesas eram baseadas. Mesmo a vagina era, no contexto deste modelo, frequentemente entendida como um pênis, invertido e empurrado para a parte inferior do corpo[xii].

Apesar do fato de que as mulheres eram amplamente consideradas como inferiores, antes do desenvolvimento de uma esfera pública moderna de larga escala ainda existia para elas uma variedade de possibilidades para ganhar influência social. Em sociedades pré-modernas e no início da modernidade o homem ocupou uma posição amplamente simbólica de hegemonia. As mulheres não estavam ainda exclusivamente confinadas à vida doméstica e à maternidade, como tem acontecido desde o século dezoito. As contribuições das mulheres para a reprodução material em sociedades agrárias eram consideradas como igualmente importantes às contribuições dos homens[xiii].

Embora as modernas relações de gênero e as polarizações características dos papéis de gênero se encontrassem inicialmente restringidas à burguesia, elas rapidamente se espalharam a todas as esferas sociais com a universalização da família nuclear no contexto de ascensão do fordismo até seu predomínio na década de 1950.

O valor-dissociação não é, portanto, uma estrutura estática, como uma série de modelos estruturalistas sociológicos reivindicam, mas deveria, pelo contrário, ser compreendido como um processo. Na pós-modernidade, por exemplo, o valor-dissociação adquire uma nova valência. Mulheres são agora amplamente consideradas como aquilo que Regina Becker-Schmidt chama de “duplamente socializadas”, o que significa que elas são igualmente responsáveis pela família e pela profissão[xiv]. O que é novo sobre isto, entretanto, não é este fato em si.

Afinal de contas, mulheres têm sido ativas em uma variedade de profissões e negócios. A característica particular da pós-modernidade a respeito disto é que a dupla socialização das mulheres ao longo dos últimos anos iluminou as contradições estruturais que acompanham este desenvolvimento. Como indicado acima, uma análise deste desenvolvimento deve se iniciar com um entendimento dialético do relacionamento entre indivíduo e sociedade. Isto significa que o indivíduo não está em nenhum momento inteiramente subsumido dentro de padrões culturais e estruturais objetivos, nem podemos assumir que estas estruturas se encontrem em uma relação puramente externa com relação ao indivíduo. Deste modo nós estamos aptos a ver claramente as contradições da dupla socialização que estão conectadas à crescente diferenciação do papel das mulheres na pós-modernidade, a qual emerge ao lado das tendências em direção à individualização característica da pós-modernidade. Análises atuais de filmes, publicidade e literatura também indicam que as mulheres não mais são vistas principalmente como mães e donas de casa.

Consequentemente, não é apenas desnecessário, mas, de fato, altamente suspeito, sugerir que nós devemos desconstruir o moderno dualismo de gênero, como reivindicam a teoria queer e sua voz principal, Judith Butler. Esta vertente da teoria enxerga a subversão interna do dualismo de gênero burguês por meio de repetidas práticas de paródia que podem ser encontradas nas subculturas gay e lésbica como uma tentativa de revelar a “incredulidade radical” da identidade moderna de gênero[xv]. O problema com tal abordagem, entretanto, é que aqueles elementos que deveriam ser parodiados e subvertidos já se tornaram obsoletos em sentido capitalista. Já há algum tempo nós temos testemunhado a desconstrução realmente existente, que se torna visível na dupla socialização das mulheres, mas também quando examinamos a moda e os hábitos transformados de homens e mulheres.

Contudo, isto tem acontecido sem erradicar fundamentalmente a hierarquia de gênero. Ao invés de criticar tanto o imaginário de gênero classicamente moderno quanto o pós-moderno e flexível, Butler, em última análise, meramente afirma a realidade (de gênero) pós-moderna. A abordagem puramente culturalista de Butler não pode oferecer respostas para as questões atuais, e na verdade nos apresenta o próprio problema das relações hierárquicas de gênero na pós-modernidade em um disfarce progressista como uma solução.

 

A dialética da essência e aparência e o asselvajamento[xvi] do patriarcado produtor de mercadorias na era da globalização

Na tentativa de analisar relações de gênero pós-modernas é importante insistir na dialética entre essência e aparência. Isto significa que mudanças nas relações de gênero devem ser entendidas em relação aos mecanismos e estruturas do valor-dissociação, que determinam o princípio formal de todos os planos sociais. Aqui torna-se aparente que, em particular, o desenvolvimento das forças produtivas e da dinâmica de mercado, ambos dependendo do valor-dissociação, minam a sua própria pré-condição na medida em que encorajam o desenvolvimento das mulheres para além do seu papel tradicional.

Desde a década de 1950 um número cada vez maior de mulheres foi integrado ao trabalho abstrato e ao processo de acumulação, acompanhado por uma gama de processos de racionalização da vida doméstica, mais opções para o controle de natalidade, e a equalização gradual do acesso à educação[xvii]. Consequentemente, a dupla socialização das mulheres também passou por mudanças, e agora reside em um nível mais alto da hierarquia social e, analogamente, gera níveis mais altos de autovalorização para as mulheres. Mesmo que atualmente uma grande porcentagem das mulheres tenha sido integrada à sociedade oficial elas ainda são responsáveis pela vida doméstica e pelas crianças, precisam lutar mais que os homens para ascender na hierarquia profissional e os seus salários são, em média, significativamente menores que os dos homens.

Portanto, a estrutura do valor-dissociação mudou, mas o princípio continua bastante vivo. Neste contexto, pode não ser surpreendente sugerir que nós aparentamos experimentar um retorno a um modelo de gênero único, porém com o mesmo conteúdo familiar: as mulheres são homens, só que diferentes. Porém, como este modelo também passou pelo clássico processo moderno do valor-dissociação ele se manifesta de forma diferente do que em tempos pré-modernos[xviii].

As tradicionais relações de gênero burguesas não são mais apropriadas para o atual “turbo-capitalismo” e a sua rigorosa demanda por flexibilidade. Uma gama de identidades flexíveis compulsórias emerge, mas essas são, no entanto, ainda representadas como diferenciadas por gênero[xix]. A velha imagem da mulher se tornou obsoleta e a mulher duplamente socializada se tornou o papel dominante. Além disso, análises recentes sobre globalização e relações de gênero sugerem que, após um certo período no qual parecia que as mulheres seriam finalmente capazes de gozar de maiores liberdades imanentes ao sistema, nós também testemunhamos um crescente asselvajamento do patriarcado.

É claro que, também neste caso, devemos considerar a variedade de diferenças sociais e culturais que correspondem a uma variedade de regiões globais. Da mesma forma, devemos observar a posição diferentemente situada das mulheres em um contexto em que a lógica de vencedores e vencidos ainda domina, mesmo que os vencedores estejam sob ameaça de desaparecer no abismo aberto pela atual destruição da classe média[xx]. Como mulheres bem situadas são capazes de pagar pelos serviços de trabalhadoras imigrantes mal remuneradas, nós estamos testemunhando uma redistribuição de, por exemplo, cuidado pessoal, de idosos e crianças dentro do plano de existência feminino.

Para uma grande parte da população o asselvajamento do patriarcado significa que podemos esperar condições similares às dos guetos negros dos Estados Unidos ou das favelas de países do Terceiro Mundo: mulheres serão, da mesma forma, responsáveis pelo dinheiro e pela sobrevivência. As mulheres serão crescentemente integradas ao mercado mundial sem ter a oportunidade de assegurar a própria existência. Elas educam crianças com a ajuda de mulheres da família e vizinhas (outro exemplo de redistribuição de cuidado pessoal e áreas de trabalho correlatas), enquanto os homens vêm e vão, se movem de um emprego para outro e de uma mulher para outra, que periodicamente tem de sustentá-los.

O homem não mais ocupa a posição de provedor dada a crescente precariedade de relações de emprego e a erosão de tradicionais estruturas familiares[xxi]. A crescente individualização e atomização das relações sociais procede ante o pano de fundo de formas de existência sem garantias, e continua mesmo em tempos de grave crise econômica sem principalmente erradicar a tradicional hierarquia de gênero, paralelamente a uma ampla erradicação do Estado de Bem-estar Social e das medidas compulsórias de administração da crise.

O valor-dissociação como princípio social formal, consequentemente, meramente se retira das restrições estáticas e institucionais da modernidade (em particular, a família e o trabalho). O patriarcado produtor de mercadorias, portanto, experimenta um crescente asselvajamento sem abandonar as relações existentes entre valor (ou melhor, trabalho abstrato) e os elementos dissociados da reprodução. Aqui também precisamos ressaltar que estamos, atualmente, experimentando um correspondente acirramento da violência masculina, variando da violência doméstica a homens-bomba.

Em relação a estes últimos, devemos ainda notar que não é somente o Islã fundamentalista que tenta reconstruir “autênticas” relações de gênero religiosas patriarcais. De fato, é o modelo de civilização patriarcal ocidental que deve ser o foco da nossa crítica. Simultaneamente, nós também somos confrontados com uma transição em nível psicológico. Na pós-modernidade emerge um “código afetivo de gênero” que corresponde ao tradicional código afetivo masculino[xxii]. Ainda assim, velhas estruturas afetivas necessariamente continuam também a ter um papel importante já que elas garantem que, mesmo nos tempos das relações pós-modernas de gênero único, as mulheres continuem a assumir responsabilidades dissociadas, possibilitando a universalidade da mulher com diversas crianças que ainda dá um jeito de ser doutora, cientista, política e muito mais. Isso pode ocorrer na forma de um retorno a papéis e ideais femininos tradicionais, particularmente em tempos de grande crise e instabilidade.

Embora o turbo-capitalismo demande identidades flexíveis específicas de gênero, não podemos presumir que os modelos de gênero pós-modernos correspondentes, como o modelo da mulher duplamente socializada, sejam permanentemente capazes de estabilizar a reprodução no contexto da crise capitalista de hoje. Afinal de contas, o atual estágio do capitalismo é caracterizado pelo “colapso da modernização” e uma inversão associada do racionalismo em irracionalismo[xxiii]. A dupla socialização da mulher individualizada deve neste contexto (aparentemente de forma paradoxal) ser entendida como servindo um papel importante e funcional ao patriarcado produtor de mercadorias, mesmo que este último esteja lentamente se desintegrando.

Organizações dedicadas à administração da crise em países do Terceiro Mundo, por exemplo, são frequentemente lideradas por mulheres (embora deva-se também reconhecer que as atividades de reprodução no geral têm crescentemente desempenhado um papel subordinado). Exemplar do desenvolvimento no Ocidente neste aspecto é Frank Schirrmacher [jornalista conservador e co-editor do Frankfurter Allgemeine Zeitung]. No seu livro de 2006 Minimum ele descreve “a queda e o renascimento da nossa sociedade”, contexto no qual Schirrmacher quer atribuir às mulheres o papel de administradoras da crise, acreditando que elas desempenham uma importante função como mulheres dos escombros [Trummerfrauen] e como pessoal de limpeza e descontaminação.[xxiv] Como forma de justificar tais afirmações Schirrmacher mobiliza linhas de argumentação biológicas e antropológicas rasas para explicar o colapso generalizado das relações sociais e de gênero e para oferecer pretensas soluções a serem carregadas nas costas das mulheres.

Como forma de evitar pseudo-soluções é necessário analisar as crises sociais atuais em relação com os seus contextos sociais e históricos, como a teoria do valor-dissociação enfatiza. Partindo desta base, também é possível perguntar quais conclusões teóricas e práticas importantes devem ser derivadas dos dilemas da socialização de um valor-dissociação que hoje cada vez mais reduz o homem e a natureza aos níveis mais básicos da existência e que não pode mais ser endereçado com programas reformistas da velha esquerda ou keynesianos.

No mesmo sentido, abordagens desconstrutivistas e pós-coloniais, que por exemplo interpretam o racismo de forma puramente cultural, são incapazes de lidar com a crise atual, assim como abordagens pós-operaístas que se recusam integralmente a lidar com o problema geral da socialização do valor-dissociação e, ao contrário, buscam refúgio em noções religiosas de multidão e agem como se este conceito incluísse respostas ao racismo e ao sexismo[xxv]. O que é requerido aqui, portanto, é uma nova virada em direção à crítica da economia política.

Tal crítica, no entanto, não pode mais ser levada a cabo na sua forma tradicional focada em uma metodologia androcêntrica-universalista que faça uma ontologia do trabalho, mas, ao contrário, deve incluir uma virada em direção à teoria radical do valor-dissociação e as suas consequências epistemológicas.

 

Conclusão

O que tentei demonstrar esquematicamente neste ensaio é a necessidade de pensar economia e cultura em sua identidade contraditória e não-identitária a partir da (ela mesma contraditória) perspectiva do valor-dissociação como um princípio social básico. Valor-dissociação, então, deve também ser entendido não como uma estrutura estática, mas, ao invés disso, como um processo historicamente dinâmico. Esta abordagem recusa a tentação da crítica identitária de forçosamente subsumir o particular dentro do geral.

Ao contrário, ela lida com a tensão entre conceito e diferenciação (sem dissolver o conceito dentro do indistinto, do infinito) e está, portanto, apta a falar do processo atual de homogeneização e diferenciação de maneiras que podem também endereçar conflitos relacionados, incluindo a violência masculina.

É importante notar que a teoria do valor-dissociação, na medida em que o último constitui um princípio social básico (e, portanto, não está unicamente preocupado com relações de gênero em um sentido estrito) deve às vezes negar a si mesma, na medida em que ela deve abrir espaço igual, ao lado do sexismo, para análises do racismo, antissemitismo, e disparidades econômicas, evitando qualquer reivindicação em direção à universalidade. Apenas relativizando sua própria posição e papel desta maneira a teoria do valor-dissociação será capaz de existir em primeiro lugar.

*Roswitha Scholz é téorica marxista, vinculada ao grupo que edita a revista Exit!. Autora, entre outros livros, de Homo sacer e os ciganos (Antígona).

Tradução: Daniel Manzione Giavarotti & Clara Lemme Ribeiro.

Revisão: Ana Carolina Gonçalves Leite.

Publicado originalmente no livro Marxism and critique of value

 

Notas

[i] Ver, por exemplo, SCHOLZ, Roswitha. Das Geschlecht des Kapitalismus. Feministische Theorie und die postmoderne Metamorphose des Patriarchats. Unkel: Horlemann, 2000, pp. 61 e seguintes, 107 e seguintes, 184 e seguintes*, e SCHOLZ, Roswitha. “Die Theorie der geschlechtlichen Abspaltung und die Kritische Theorie Adornos”. In: KURZ, Robert, SCHOLZ, Roswitha e ULRICH, Jörg (eds.) Der Alptraum der Freiheit. Perspektiven radikaler Gesellschaftskritik. Blaubeuren: Verlag Ulmer Manuskripte, 2005.

Nota dos tradutores: cf. tradução de excertos para o português. SCHOLZ, Roswitha. O sexo do capitalismo [excertos]. Disponível em: http://www.obeco-online.org/roswitha_scholz6.htm.

[ii] KURZ, Robert. O colapso da modernização. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992; KURZ, Robert. Kapitalismus: ein Abgesang auf die Marktwirtschaft. Frankfurt: Eichborn Verlag, 1999; POSTONE, Moishe. “Anti-semitismo e nacional-socialismo”. Sinal de Menos, ano 4, número 8, 2012, pp. 14-28; POSTONE, Moishe. Tempo, trabalho e dominação social. São Paulo: Boitempo editorial, 2014.

[iii] Nota dos editores: Ver MARX, Karl. “A fórmula geral do capital”. In: MARX, Karl. O Capital, v. 1, t. 1. São Paulo: Abril Cultural, 1983.

[iv] Nota dos tradutores: sugerimos a substituição desta expressão por outra, qual seja, “modernização retardatária”, já adotada quando da publicação d’O colapso da modernização de Robert Kurz (1993) no Brasil, de modo a reiterar a ideia de que tais esforços modernizadores nunca lograram alcançar os níveis de produtividade do capital dos países centrais, mantendo-se sempre numa posição irremediavelmente retardatária com relação àqueles.

[v] HAUG, Frigga. Frauen-Politiken. Berlim: Argument, 1996, pp. 229 e seguintes.

[vi] Nota dos tradutores: registramos aqui nosso incômodo com a ausência de qualquer menção ao processo de racialização imanente à imposição do patriarcado como modelo civilizacional, entendida aquela também como forma de manifestação da dissociação, como a própria autora afirma na conclusão deste artigo e em outros de seus ensaios. Está em aberto, por outro lado, o tratamento crítico a este problema à luz do argumento da autora que nos convida a considerar a crise que o moderno patriarcado produtor de mercadorias vem desencadeando no padrão de reprodução das práticas e características historicamente atribuídas a homens e mulheres, o que igualmente se manifesta nos processos de racialização. Embora Achille Mbembe fale de um “devir-negro do mundo” (2018), tese que confirma o caráter processual da racialização e sua modificação na crise, não parece haver dúvidas de que negros e brancos experimentam aquela última de formas diferentes.

[vii] Ibid

[viii] HERMAN, Eva. Das Eva-Prinzip. Munique: Pendo, 2006.

[ix] GILDMEISTER, Regine e WATTERER, Angelika. “Wie Geschlechter gemacht werden. Die soziale Konstruktion der Zwei-Geschlechtlichkeit und ihre Reifizierung in der Frauenforschung”. In: Traditionen Brüche. Entwicklungen feministischer Theorie. Friburgo: Kore, 1992, pp. 214 e seguintes.

[x] HAUG, Frigga. Frauen-Politiken, pp. 127 e seguintes.

[xi] Já que o foco da investigação que temos em mãos é as relações de gênero modernas, não sou capaz de discutir essas outras formas de disparidade social em detalhe. Para uma análise mais substancial, ver SCHOLZ, Roswitha. Differenzen der Krise — Krise der Differenzen. Die neue Gesellschaftskritik im globalen Zeitalter und der Zusammenhang von “Rasse”, Klasse, Geschlecht und postmoderner Individualisierung. Unkel: Horlemann, 2005. Nota dos tradutores: cf. tradução do índice em http://www.obeco-online.org/livro_crise_diferenca.html e artigo de síntese do argumento do livro em http://www.obeco-online.org/roswitha_scholz3.htm.

[xii] LAQUEUR, Thomas. Inventando o sexo: corpo e gênero dos gregos a Freud. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1990.

[xiii] HEINTZ, Bettina e HONEGGER, Claudia. “Zum Strukturwander weiblicher Widerstandsformen”. In: HEINTZ, Bettina e HONEGGER, Claudia (eds.) Listen der Ohnmacht. Zur Sozialgeschichte weiblicher Widerstandsformen. Frankfurt: Europäische Verlagsanstalt, 1981, p. 15.

[xiv] Nota dos tradutores: em países de modernização retardatária como o Brasil a mulher duplamente socializada foi uma figura constante na reprodução das famílias trabalhadoras urbanas embora, seguindo o raciocínio de Roswitha Scholz, tal não tenha significado uma superação do valor-dissociação como princípio formal básico da experiência social.

[xv] BUTLER, Judith. Problemas de gênero. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.

[xvi] Nota dos tradutores: a ideia de um asselvajamento do patriarcado não nos parece adequada, dado que reitera uma concepção iluminista do processo civilizatório em oposição a um estado de natureza selvagem e, portanto, violento. Preferimos pensar como um processo de recrudescimento do patriarcado provocada pela crise do capital e o trabalho.

[xvii] BECK, Ulrich. Sociedade de risco. São Paulo: Editora 34, 2011. p. 147 e seguintes.

[xviii] HAUSER, Kornelia. “Die Kulturisierung der Politik. ‘Anti-Political-Correctness’ als Deutungskämpfe gegen den Feminismus”. In: Bundeszentrale für politische Bildung: Aus Politik und Zeitgeschichte. Bonn: Beilage zur Wochenzeitung das Parlament, 1996, p. 21.

[xix] Comparar com SCHULTZ, Irmgard. Der erregende Mythos vom Geld. Die neue Verbindung von Zeit, Geld und Geschlecht im Ökologiezeitalter. Frankfurt: Campus Verlag, 1994, pp. 198 e seguintes e WICHTERICH, Christa. Die globalisierte Frau. Berichte aus der Zukunft der Ungleichheit. Reinbeck: Rowohlt, 1998.

[xx] Comparar com KURZ, Robert. “O último estádio da classe média”, Folha de São Paulo, 19 de setembro de 2004. Disponível em: http://www.obeco-online.org/rkurz173.htm.

[xxi] Comparar com SCHULTZ, Mythos, pp. 198 e seguintes.

[xxii] Comparar com HAUSER, “Kulturisierung”, p. 21.

[xxiii] Para uma análise mais detalhada do estágio atual do capitalismo e o seu afastamento das formas clássicas da modernidade, bem como as origens do termo “colapso da modernização”, ver KURZ, O colapso da modernização. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 1992.

[xxiv] Nota dos editores: Mulheres que ajudaram a limpar os destroços após a Segunda Guerra Mundial – literalmente: “mulheres dos escombros”. Ver também: THÜRMER-ROHR, Christina. “Feminisierung der Gesellschaft. Weiblichkeit als Putz- und Entseuchungsmittel”. In: THÜRMER-ROHR, Christina (ed.) Vagabundinnen. Feministische Essays. Berlim: Orlanda Frauenverlag, 1987.

[xxv] Cf. HARDT, Michael e NEGRI, Antonio. Império. Rio de Janeiro: Record, 2001 e SCHOLZ, Differenzen der Krise — Krise der Differenzen, pp. 247 e seguintes.