Por JOSÉ CRISÓSTOMO DE SOUZA*
Apresentação do autor ao livro recém-publicado
Os dois materiais que constituem o pequeno volume que leva esse título tratam de expor uma cartografia geral do pensamento filosófico crítico, político, dos nossos dias, ele próprio em uma crise que alcança as ciências humanas e a esquerda política. São dois textos que aqui se completam, polêmicos e propositivos, tanto conceituais quanto de sobrevoo, que, tratam de sugerir coisa melhor. O primeiro texto é uma ampla entrevista concedida por mim a dois ilustres colegas norte-americanos, Linda Alcoff e Goyo Papas. O segundo desenvolvi enquanto estava em Berlim, fazendo um estágio pós-doutoral com Rahel Jaeggi, teórica crítica alemã da última geração da Escola de Frankfurt, com quem dialogo.
Combinados, os dois materiais me permitem desdobrar e testar, no enfrentamento do que aí está, uma posição própria, um ponto de vista prático-produtivo, apelidado por mim de “poética-pragmática”, generosamente descrito por Linda como “uma nova tendência, fascinante, que captura a criatividade e a contingência da história, e que aponta, nesses tempos difíceis, para uma via de pensamento esperançosa e democrática, mas também realista e concreta.” É bem isso que gostaríamos de representar com relação às demais alternativas de pensamento crítico contemporâneo, ao pós-estruturalismo, ao pragmatismo, ao marxismo do nosso tempo.
Filósofas e filósofos têm o papel de perguntar pelos pressupostos e termos mais gerais de nossa compreensão ou incompreensão das coisas. Do mesmo modo que têm de examinar e justificar os seus próprios, os que adota ou propõe, não tendo nada de filósofos, nem muito menos de críticos, se não fizerem isso. Desde suas origens, o pensamento crítico-político, a cuja conjuntura de crise nos referimos, tem a ver, indissociavelmente, com filosofia, e não se pode resolver nada de sua crise sem desdobrar sua discussão nesse nível. Se daí têm advindo problemas, daí também deveriam vir soluções, não só de alcance estritamente teórico, mas também de melhores consequências práticas: políticas, culturais, acadêmicas.
Nessa linha é que percorro criticamente as contribuições de Marx, da teoria crítica alemã e do pragmatismo, para o qual a “Teoria” tem pendido cada vez mais. É também assim que percorro a contribuição da chamada Teoria francesa, pós-estruturalista, particularmente Foucault, que sucede à Teoria Alemã e a Marx, de certo modo, como mostraremos, como sua “derivação”. Em conexão como esse conjunto de posições, digo também alguma coisa sobre política popular, com a qual tive uma experiência formadora durante a Ditadura.
É em relação a esse campo que trato de chamar atenção para “o problema com a virada linguística’, discursiva, que acometeu praticamente toda a filosofia contemporânea, as humanidades em geral, por fim a política dita progressista, de esquerda. Trato desse vicioso linguocentrismo pelo lado de seus problemas e consequências, em particular nos termos daquilo que a filosofia e a teoria têm para constituírem-se como “críticas”: sua normatividade, quer dizer, as bases e critérios de seus ajuizamentos de valor e de seus ideais de transformação. Em relação a essa questão, trato da “epistemologia” e da “ontologia” desse campo.
Por fim, este pequeno livro se oferece como um passo adiante em relação a outro, que em alguma medida pressupõe: O Avesso de Marx: Conversas filosóficas para uma filosofia com futuro (Ateliê de Humanidades, 2024). Aí trato de ir, bem mais extensa e detalhadamente, às raízes de problemas filosóficos decisivos do próprio Marx, que me ocupo em mostrar insofismavelmente, até linha por linha, em sua obra. No Avesso fico quase que só nisso, para deixar esse passo suficientemente resolvido e assentado, pois é em Marx que, apesar de suas virtudes prático-materialistas, nossa cartografia filosófica põe o começo dos desenvolvimentos problemáticos e das dificuldades atuais, aqui tratados.
Quanto à forma de expressão, ainda uma palavra. Como o leitor que me conhece pode imaginar, em ambos os textos procuro me expressar de modo razoavelmente coloquial, dialógico, mesmo em seu lado mais técnicos, o que pode incluir alguma reiteração. Pode incluir também alguma irreverência, pois não vejo nada de inatingível nem transcendental na produção filosófica metropolitana de que trato, embora veja bastante o que contestar, discutir e mudar, por um outro paradigma, melhor. Junte-se a nós.
*José Crisóstomo de Souza é professor do Departamento de Filosofia da UFBA. Autor, entre outros livros, deO avesso de Marx: conversas filosóficas para uma filosofia com futuro (Ateliê de Humanidades) [https://amzn.to/3XGbMUn]
Referência

José Crisóstomo de Souza. Para além de Marx, Foucault, Frankfurt: Por uma filosofia da práxis como poiésis. Rio de Janeiro, Ateliê de Humanidades Editorial, 2026, 150 págs. [https://amzn.to/4qQtZKQ]






















