Por VALERIO ARCARY*
Longe de ser um bloco anti-imperialista ou multipolar, os Brics representam uma aliança defensiva e precária de potências com interesses divergentes. Sua formação reflete um debilitamento relativo da Tríade, mas não uma mudança estrutural na ordem mundial
A carapuça é para quem a enfia (Provérbio popular português)1.
1.
Quatro mudanças qualitativas no mercado mundial, nos últimos vinte anos, aceleraram transformações que provocaram um relativo debilitamento da Tríade, e explicam o contexto de oportunidade da formação dos Brics: (a) a estagnação econômica na Tríade pós-2008, agravada pelo impacto da pandemia; (b) o crescimento econômico acelerado na Ásia, em especial da China, com façanhas de obras de infraestrutura e inovação científica, que elevou a demanda por commodities; (c) uma inversão, ainda que parcial, nas condições das relações de troca na periferia, com a valorização de commodities no início do século XXI, que favoreceu, entre outros, Rússia e Brasil; (d) o agravamento da crise ambiental e o início, mesmo que titubeante, de uma transição energética. Mas, embora indiquem uma tendência, nenhuma destas transformações foi, por enquanto, estrutural ou irreversível. Está ocorrendo uma acelerada corrida de investimentos em novas tecnologias – nanotecnologias de microprocessadores, biotecnologias e inteligência artificial – que irão produzir reestruturações produtivas. Simultaneamente, estamos diante de uma nova corrida armamentista mundial.
2.
Há variadas interpretações exageradas sobre os Brics. A mais ingênua, mas não menos idealizada, herdeira nostálgica de fantasias campistas do papel da URSS no passado, é que os Brics seriam uma articulação de governos de esquerda ou socialistas. Não são, nem remotamente. Rússia e Índia são governadas por partidos de extrema-direita. Putin consolidou um regime político autoritário bonapartista que, embora tenha popularidade interna, não respeita as mais elementares liberdades democráticas. Modi domina com uma ideologia nacional hinduísta. A mais sectária, herdeira de posições antidefensistas da URSS no passado, considera que os Brics seriam uma iniciativa chinesa de afirmação de um campo de confronto com os EUA, e defende a necessidade de independência incondicional diante tanto de Washington quanto de Pequim. Dessa caracterização errada resultaria a defesa de ruptura do Brasil com os Brics. Mas ela é unilateral e perigosa porque a China não tem interesse em tencionar as relações com Washington, e tem respondido de forma firme, porém cuidadosa, aos rompantes de Trump.
3.
Por último, herdeiros tardios de ilusões “terceiro-mundistas” abraçam a posição de que os Brics seriam o instrumento de uma idealizada Frente do Sul Global. Se compreendemos Sul Global como sinônimo da histórica periferia de países que foram colônias dos países centrais imperialistas, ou seja, América Latina, África, sobretudo, subsaariana e Sudeste Asiático, não é assim. A Rússia não é um país da periferia do capitalismo, mas um Estado imperialista, uma potência militar excluída pela Tríade. A Índia é um Estado com escudo nuclear e, apesar de ter sido atingida duramente por sanções tarifárias de Trump, mantém relações estreitas com Washington. A China é a segunda potência econômica mundial e, apesar de excluída do G-7, tem interesse em manter acesso aos maiores mercados internacionais.
4.
Entre as interpretações equivocadas, talvez a mais difundida seja a que defende os Brics, inocentemente, como um bloco anti-imperialista. Não é por três razões: (a) a China aposta em uma estratégia defensiva de ganhar tempo e acumular forças, uma coexistência pacífica a qualquer preço, porque precisa manter acesso aos mercados europeu, norte-americano e japonês para escoar sua capacidade produtiva fundamentada em exportações, e não tem interesse em desafiar a Tríade; (b) a Índia tem disputa de hegemonia regional, e até conflito de fronteiras com a China, e mantém relações estratégicas com os EUA e o Reino Unido, desde o desenvolvimento de sua indústria nuclear via Israel, em função da rivalidade com o Paquistão; (c) o Brasil defende uma estratégia diplomática de ambiguidade estratégica pela influência dos EUA na América Latina. Não deveria nos surpreender que os Brics não tenham ido além de declarações diplomáticas diante do genocídio de Israel na Faixa de Gaza, impotentes diante do imperativo de ruptura de relações diplomáticas.
5.
Enganam-se, também, aqueles que consideram que já existe algum tipo de multipolaridade no mundo. A supremacia dos EUA tem sido debilitada, mas não ruiu. Mantém-se uma ordem imperialista dirigida pela Tríade, ainda que em crise interna. As transições de papel hegemônico no sistema internacional de Estados são processos históricos complexos que são condicionados por muitos fatores. Nunca aconteceu passagem de poder para um novo Estado sem vitória na guerra. Londres só conquistou supremacia no século XIX depois da derrota de Napoleão em Waterloo. Os EUA já eram a maior economia capitalista no início do século XX, mas foi só depois da Segunda Guerra Mundial que sua supremacia se afirmou. Nunca é monocausal, apesar da importância da força econômica. O lugar de cada país no mundo só pode ser compreendido considerando seu papel no mercado mundial, mas em outro grau de abstração, seu lugar no sistema de Estados, e eles não coincidem, necessariamente. O sistema internacional de Estados é muito mais rígido que as variações de peso relativo dos países no mercado mundial. Apesar de um grau maior de desordem, o sistema mantém um centro, e não mais do que um, a Tríade, com os EUA no papel de potência hegemônica, pela esmagadora superioridade militar, e pela força de gravitação de seu sistema financeiro ancorado no dólar como principal moeda de entesouramento. Quando considerados estes e outros fatores a hegemonia norte-americana permanece. Os Brics não desafiam esta posição porque são somente uma trincheira defensiva, ou uma aliança diplomática precária, mas necessária diante de uma relação de forças adversa, como demonstrado diante da guerra de genocídio de Israel contra os palestinos, e a recente guerra dos EUA e Tel Aviv contra o Irã.
*Valerio Arcary é professor de história aposentado do IFSP. Autor, entre outros livros, de Ninguém disse que seria fácil (Boitempo). [https://amzn.to/3OWSRAc].
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