Rosário, Argentina

Rosário, Sanfa Fé, Argentina/ Imagem: Fabian
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Por GLAUBER FRANCO*

O que está acontecendo em Rosário é a realização da velha estratégia fracassada de ofensiva policial, encarceramento em massa e controle prisional

Entre os dias 11 e 15 de março, estive no VII Congresso ALA (Associação Latino-Americana de Antropologia), hospedado no centro da cidade de Rosário, na Argentina. Durante esse Congresso, politicamente intenso como curto em dias, constatei um clima de insegurança social dos trabalhadores com as organizações do narcotráfico rosarino, um vespeiro silencioso sacudido na marca dos 100 dias de um trágico governo, o governo ultraneoliberal de Javier Milei, reconhecido também como o “Bolsonaro argentino”. Com as eleições bipolarizadas por muito tempo, Javier Milei capitulou o peronismo kirchnerista que dominava as eleições.

Apesar do clima político de resistência dos grafites em todo centro da cidade contra Javier Milei (“La patria no se viende”, “Fuera Milei”), seu rechaço cotidiano pelos rosarinos e a dose de esperança com o grande 8 de março em Buenos Aires (Dia Internacional das Mulheres e as tradicionais mobilizações de coletivos feministas), houve nesse período algo frio e planejado.

Em menos de uma semana, houve o assassinato de dois taxistas, de um frentista de posto de gasolina, de um motorista de ônibus e rajadas de tiros a uma penitenciária e a uma delegacia da cidade – vindo de uma sequência de atentados no mês anterior. Muitas dessas ações foram diretamente reivindicadas pela associação das organizações do narcotráfico na região em resposta a repressão do governo nas ruas e nas prisões. Em cima do corpo do frentista do posto de gasolina assassinado, foi deixado um bilhete exigindo “direitos para os presos” e a ameaça de “matar mais inocentes”.

Diante dessas mortes, o governo de Javier Milei, a partir da sua Secretária de Segurança e ex-presidenciável, Patricia Bullrich, montou um comitê de crise e interveio na cidade com as forças de segurança federais e o exército argentino. O governador da província de Santa Fé, Maximiliano Pullaro, do mesmo partido que Bullrich, o “Juntos por el Cambio”, se aliou ao comitê.

Patricia Bullrich, candidata da “lei e da ordem” durante as eleições, em seu perfil na rede social X diz que “O que está acontecendo em Rosário é uma vingança pelo que estamos fazendo nas prisões” e vem adotando com seus cúmplices uma política ostensiva desde dezembro de 2023, quando integrou a gestão de Javier Milei. Entre o narcotráfico em Rosário, que atira em policiais, ameaça políticos e juízes e domina a economia e os territórios na cidade, e o histórico dos governos de ineficácia com seus encarceramentos e ostentações policiais, houveram reações dos cidadãos rosarinos nessa semana de homicídios. Mobilizaram “panelaços” dentro das casas, protestos dos taxistas e greve dos motoristas de ônibus contra o narcotráfico e a maneira irresponsável do governo em conduzir a crise.

Mas veja, a história não começa com esses ataques nas ruas aos trabalhadores de modo aleatório pelas organizações do narcotráfico, tal como as manchetes sensacionalistas e seu maniqueísmo dos “mocinhos x bandidos” tanto aterrorizaram a cidade – que, por muito tempo, teve difundido o termo totalmente desmedido de “Medellín argentina”, em alusão a Pablo Escobar. Na verdade, é possível dar outro nome ao problema do narcotráfico em Rosário, esse nome é: capitalismo. Ora, essa mercadoria-droga não é uma commoditie?

O narcotráfico não busca fatias do mercado, aquisições de capitais (prédios, submarinos, navios, armas, caminhões), influência nas rotas, seu espaço no Estado e, sobretudo, taxas de lucros cada vez maiores explorando a força de trabalho? A cidade ferro-portuária, por exemplo, sofre estruturalmente com suas veias abertas ao imperialismo nesse ramo capitalista. Há, pois, um projeto de sociedade em disputa e uma questão estrutural da Argentina, em geral, e de Rosário, em particular.

Nisso, é possível partir de algumas premissas: existe certa “drogafobia” moralizante, um conjunto de mitos e ideologias que tentam sustentar o conceito droga e discriminar quem as usa; a “guerra às drogas” é um fracasso mundial, pois se trata mais de como grupos capitalistas administram o monopólio desse mercado do que uma questão moral, policialesca ou de saúde pública; é tênue e ineficaz a distinção de legal e ilegal, público e privado, e finanças e narcotráfico na análise dessa questão, já que se interligam organicamente dentro do Estado, da sociedade, da economia e da política; e, por fim, é um mercado extremamente lucrativo, apesar dos grandes “custos” com a sua criminalização.

Em meio a essa semana de homicídios, o Congresso ALA foi pego de surpresa, mas também foi expressão acadêmica e política dessa realidade antiga em Rosário. A ALA fez seu VII Congresso, “Antropologias Feitas na América Latina e no Caribe em Contextos Urgentes: Violência, Privilégios e Desigualdades”, e realizou na Universidade Nacional de Rosário, parte da sua rodada na América Latina. Entre simpósios, mesas redondas e exposições artísticas, performáticas e cinematográficas, não à toa o evento se deteve em muitas das urgências que se impõem aos hermanos. Particularmente, diz a equipe organizadora, são preocupantes a neoliberalização crescente e o aumento das direitas políticas latino-americanas. Em meio ao clima alarmante, o evento acadêmico também foi político e realizou a sua programação total.

Um dado estrutural de Rosário

Com 1,3 milhão de habitantes, Rosário possui o principal porto da Argentina, localizado na margem oeste do Rio Paraná, parte da hidrovia Paraná-Paraguai. A cidade é conectada por estradas de ferro com diversas cidades da província de Santa Fé e é interligada pela Puente Nuestra Señora del Rosario, que atravessa o rio Paraná e liga Rosário à cidade de Vitória. Cobiçado historicamente por capitalistas de diversos ramos, é uma região ferro-portuária que sofreu com a forte reestruturação do imperialismo norte-estadunidense depois do fenômeno Pablo Escobar na Colômbia, recebendo parte do seu fluxo do narcotráfico –  contudo, diga-se de passagem, a Colômbia ainda é a maior produtora de cocaína do mundo.

Rosário, além de estar estrategicamente localizada na principal rota do tráfico, a Rota 34, que começa na fronteira com a Bolívia e termina em Rosário, é uma região privilegiada para a saída transoceânica de commodities do circuito Brasil-Bolívia-Paraguai para o abastecimento de muitos países europeus e asiáticos, sendo a cocaína e a maconha uma parte bilionária dessa circulação. É um ponto de grande importância para o Mercosul e o alinhamento geopolítico dos latino-americanos.

Além do mais, durante a pandemia do Covid-19, a produção de drogas em países como o Peru e a Bolívia foi direcionada para essa hidrovia Paraná-Paraguai como uma alternativa à travessia da América do Sul até o porto de Santos, no Brasil, dominado pelo PCC (Primeiro Comando da Capital) — poderosa facção de São Paulo, no Brasil, que atua fortemente dentro e fora dos presídios. Outros portos, como o de Assunção, no Paraguai, também são dominados pelo PCC, atuando no ramo capitalista da mercadoria-droga em países como Bolívia, Peru, Brasil, Paraguai, Argentina e Uruguai. Com essas facções mais próximas do que se imagina, a presença do PCC foi identificada também em várias prisões argentinas, como as das cidades de Resistencia, Misiones e Santa Fé.

Semelhante ao drama brasileiro, a Argentina tem uma história de luta de classes, golpes, disputas de territórios e divisão desigual e combinada do capitalismo imperialista. O país concentra uma classe de proprietários de terras na região dos Pampas (região produtiva dominada pelo agronegócio argentino), a consolidação de um sistema financeiro e comercial internacionalizado e monopolizado, teve a construção do seu cerco industrial a partir do endividamento externo (inclusive já mandou grandes remessas para seu “pagamento”), sofreu com ditaduras militares, e, a partir de 1990, assim como no Brasil, pauperizou-se com a desindustrialização, a hiperinflação, a financeirização, a privatização e o avanço das ideias neoliberais.

A partir de 1990, houve também intensas políticas para o controle privado da estrutura pública de transporte, armazenagem e comercialização de grãos, sendo a Argentina a terceira grande exportadora de soja do mundo. Projetos de industrialização, desprimarização da economia e fomento do mercado interno são rapidamente combatidos no país pela direita liberal-conservadora.

Não coincidentemente, os Tobas, povos indígenas organizados hoje em Rosário, tiveram a partir de 1990 a intensificação do processo de migração forçada para a cidade, acirrando contra eles a disputa de territórios — uma realidade antiga dos Tobas desde a colonização e a “unificação nacional”. Os Tobas, hoje, denunciam a destinação de terras improdutivas para as suas famílias nos processos de reforma agrária. Semelhante à violência do projeto de embranquecimento no Brasil, os Tobas são discriminados como “mestiços” nas cidades, intensificado com o projeto de imigração europeia para a Argentina. São pressionados por mecanismo de desidentificação e da subalternização dos seus traços étnicos, econômicos e culturais no objetivo de dificultar a reivindicação dos seus direitos de origem nas terras produtivas.

Com a desindustrialização em Rosário a partir de 1990 e a histórica dependência das suas exportações de commodities pelo agronegócio, que invertem as prioridades do mercado de trabalho, a juventude foi uma massa da força de trabalho organizada por facções do capitalismo narcotraficante na medida em que foi perdendo seu direito ao trabalho formal. Esse processo se aliou com a privatização dos portos na mesma década, desresponsabilizando o Estado e desprotegendo a força de trabalho da juventude, que possibilitou o avanço da estruturação do sistema monocultor e de exportação de modo empresarial e com grupos armados privados.

Nesse contexto, por exemplo, surgem termos como “crianças-soldados”, não só pela pobreza e vulnerabilidade, mas também por um aspecto técnico, suas mãos pequenas conseguem operar nos “bunkers” (estruturas fortificadas de armazenamento e defesa). Essas “crianças-soldados” são o principal alvo de Bullrich, que desde sua campanha eleitoral propõe pautas para a redução da maioridade penal para 14 anos e a militarização das prisões.

Ou seja, assim como em toda empresa capitalista atualmente, é possível observar a divisão capitalista do narcotráfico. Nesse ramo existem seus capitalistas, que lucram com a mercadoria-droga, sendo eles o agronegócio monoprodutor e exportador, os vendedores de armas, os donos dos portos, das rotas comerciais, dos meios de transporte e das clientelas; e seus trabalhadores, sendo eles os produtores diretos, vendedores, transportadores, gerentes, subgerentes e agentes de segurança, em geral, envolvidos no trabalho manual, pouco remunerado (tendo em vista a lucratividade do ramo) e sendo a parte que mais morre, mata e é presa.

Esses jovens organizados pelo narcotráfico em Rosário são de bairros empobrecidos, como o Empalme Granero, Nuevo Alberdi, 7 de Septiembre, Santa Lucia, Villa Banana, Cristalería e Parque Casas, e que tem essa estrutura exportadora já enraizada e histórica, limitando suas oportunidades e sonhos. O território é disputado por diferentes facções, como Los Monos, que fatura, além da mercadoria-droga, na oferta de “proteção de empresas” (muitas vezes chantageiam empresários a aceitarem seus serviços) e no mercado imobiliário a mais de duas décadas na cidade.

Contudo, mesmo sendo um negócio internacional, predomina em Rosário grupos regionalizados, existem diferentes organizações do narcotráfico e muitas facções são desorganizadas. Muito embora, desafiando a oposição dentro x fora das prisões por grandes lideranças do narcotráfico, é possível perceber a ineficiência do encarceramento dessas lideranças, que constroem espécies de “bunkers” nos presídios e nos próprios bairros para o controle dos seus negócios.

São negócios capitalistas que não se dissociam da questão de um Estado ampliado, determinado pelo lobby e pela confusão do público e privado. O contexto não motiva ações governamentais de mudanças estruturais, com educação, emprego, saúde e assistência social que possibilite segurança e impeça o crescimento capitalista do narcotráfico em cima da força de trabalho da juventude. Dentro do Estado é disputado o orçamento destinado à estruturação exportadora em oposição à destinação para política social, típico do neoliberalismo na periferia. O narcotráfico se insere dentro da estrutura exportadora. Essa gestão da pobreza e da criminalidade é um caso flagrante de subdesenvolvimento argentino.

É difícil mensurar quanto de Rosário é operada pela lavagem de dinheiro dos capitalistas narcotraficantes, isto é, é difícil caracterizar quanto da reintrodução dos seus lucros na economia formal e sua normalização estão operando a vida social rosarina, de modo oculto ou não. Por exemplo, é comum observar na mídia e nas ruas expressões do tipo “prefeitos narcos”. Assim, além da lavagem de dinheiro, constituem-se formas cotidianas que naturalizam a presença do narcotráfico, dentro e fora do Estado. Por exemplo, as lideranças são proprietárias de diversos estabelecimentos comerciais nas cidades, administram a existência dos “bunkers” já conhecidos pelos moradores da região e, até mesmo, agem nos times de futebol (tal como no Rosario Central e Newell’s Old Boys), nas torcidas organizadas e no agenciamento de jogadores de futebol negociados internacionalmente. Quase metafórico, existe uma técnica no transporte das mercadorias-droga da mistura da cocaína ou da maconha com os cereais na exportação pelos portos.

A Argentina compartilha extensas fronteiras com dois importantes centros produtores dessas commodities, a cocaína na Bolívia, e a maconha no Paraguai, precariamente monitoradas. A cocaína boliviana muitas vezes chega à cidade por terra ou pelo ar, enquanto a maconha paraguaia muitas vezes chega pelo rio, expressando a diversidade logística do narcotráfico. O Estado tem dificuldades de intervir nas regiões com sua alta complexidade de ocupação e disputa territorial. Além disso, o narcotráfico expande a guerra para os campos, as florestas e os rios, criando migrações forçadas e a consequente criminalização desses migrantes nas cidades.

Por exemplo, no Congresso ALA foi apresentado um trabalho com o objetivo de analisar como o Estado da Colômbia enfrentava dificuldades em estabelecer a sua política de paz em uma região onde tinham diferentes e inconciliáveis ocupações, sendo elas: quilombolas, empresas multinacionais, narcotraficantes, FARC (Forças Armadas Revolucionárias), indígenas e posseiros, cada um com seus projetos e interesses.

A guerra territorial, a geopolítica, a criação de rotas para a circulação interna e externa das commodities, a acumulação de capital, as migrações, o lobby, a lavagem de dinheiro, a inversão de prioridades no orçamento, a disputa pelo Estado e a organização da juventude formam um complexo problema da realização das mercadorias-droga em Rosário. Também extrapola a questão que se resume apenas em discutir estritamente a produção nos campos pelo agronegócio, pois existe a intensa e brutal exploração da força de trabalho da juventude rosarina no processo circulação e nas relações de poder dentro das cidades. As estradas de ferro, as hidrovias, o tráfego aéreo e os portos estão sendo foco de investimentos e disputa territorial por múltiplos agentes, nacionais e internacionais. Nessa complexidade toda, surge um “bufom” no governo federal da Argentina nada sensível.

Governo ultraneoliberal na Argentina

Nos cem dias do governo ultraneoliberal de Javier Milei, na Argentina, o PIB encolheu, houve hiperinflação, não foram reajustados os salários dos trabalhadores e houve sua perda do poder de compra, aumento da pobreza, redução de subsídios governamentais para setores importantes da economia (transporte, combustíveis, entre outros), fechamento de uma agência pública e estatal de notícias, enxugamento ministerial do Estado em setores importantes para os direitos e políticas dos trabalhadores, a “auditoria” em programas sociais para os trabalhadores e a desregulamentações dos serviços médicos e dos aluguéis para os capitalistas. A mais recente reforma econômica de Javier Milei é a mudança do cálculo da previdência, que está gerando protestos dos trabalhadores.

Javier Milei se alinha ao nível do irracionalismo ideológico e estético da extrema direita brasileira. O trágico como fundamento do político é atravessado pelo cômico na estetização desse sujeito. Como o neopentecostalismo não é forte na Argentina, Javier Milei precisou de outro misticismo, ele se consulta no além com seu cachorro morto, Conan (do filme Conan, o bárbaro), a quem homenageou em seu evento de posse. Fantasia-se de “bufom”, um tipo de bobo da corte contemporâneo, no caso, a corte norte-estadunidense. Contrapõe seus adversários com generalizações, taxando-os de “burros” que “não sabem nada de economia” e apresentando “dados irrefutáveis”. Mais cômico ainda, anda com uma réplica de motosserra esbravejando aos seus eleitores que irá “passar a motosserra nos parasitas”, no caso, nos funcionários públicos e na “casta política”.

É, em resumo, um ultraneoliberal, pois o leque dos seus autoproclamados nomes não foge do escopo da antiga cartilha neoliberal praticada na América Latina, aprofundando-as na particularidade histórica. Ele segue todo o receituário: ataca os servidores públicos, os chamando de “parasitas” (até mesmo o Banco Central ele ameaça fechar), propõe passar a motosserra no ensino (criando vouchers), nas empresas públicas e nas obras públicas, é elogiador de “traders” (transformação do capital financeiro em um tipo de jogo), nomeia-se como “miniarquista”, propondo o “Estado mínimo”, defende a isenção fiscal para os ricos e a cobrança de impostos para os pobres, executa uma política brutal de superávit primário e reforça a cotidianização argentina do dólar.

A Argentina, hoje, sofre com a maior inflação do mundo na gestão de Javier Milei que, paradoxalmente, prometeu acabar com a inflação aumentando-a. Sua expressão mais liberalóide é um grande sonho do mercado, ele é a favor da venda de órgãos.

Javier Milei criou um “inimigo interno”, no combate à “casta política” pela ideologia anti-sistema. Ataca a América Latina, a Rússia e a China em alinhamento ao EUA. Reivindica-se “anarcocapitalista”, levando todo mínimo debate a uma questão moral e cultural, personificando a luta contra o “gramscismo cultural”. Propôs em toda a sua campanha a saída da Argentina do Mercosul e de romper comércio com a China, no pretexto de serem todos comunistas. Isto é, incorpora o velho anticomunismo. Materializou-se parte dessa ideologia em sua formalização, logo em dezembro de 2024, para a saída do BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul).

Para ele, em pleno genocídio palestino, apenas o Estados Unidos e Israel são o “mundo livre”, não são comunistas. O presidente Lula, liderança econômica, comercial e política no Cone Sul, para ele é “comunista e corrupto”, semelhante ao ataque de Javier Milei ao Papa Francisco, que é comunista e “representante do maligno na terra”. Contraditoriamente, Javier Milei é a favor das liberdades individuais, mas contra o aborto. De igual modo, ele ataca a educação sexual nas escolas e a linguagem neutra — focando no ESI argentino (Educación Sexual Integral).

Seus afetos agem a partir do medo e da insegurança, criando a emergência das ações imediatistas e desesperadas. Seus afetos criam a urgência de uma pauta bomba segundo seus interesses. A manipulação sobre a hiperinflação, nesse caso, é a tática da política de austeridade fiscal mais perigosa na Argentina. A partir dela é possível a instrumentalização do medo com um dado real: a depreciação cotidiana e aberta do consumo de bens e serviços essenciais. Javier Milei opera segundo a necessidade de um salvador “anti-sistema”, assim como a experiência de Jair Bolsonaro, no Brasil. E isso não pode ser uma novidade, porque vários dos seus técnicos de campanha, como o consultor político Fernando Cerimedo, foram assessores das campanhas da família Bolsonaro e de José Antonio Kast, presidenciável da extrema-direita no Chile. Javier Milei, na extrema direita política, está hegemonizando a ideologia anti-sistema contra essa posição que antes era ocupada pela esquerda.

Nesses seus 100 dias de governo, Javier Milei já mandou ao Congresso um “Decreto de Necessidade e Urgência” (DNU), que visa desregulamentar a economia do país, “tornando a Argentina livre”. O megadecreto, em conjunto com a “Lei Ómnibus” (pacote liberazante), forma o núcleo duro das suas ambiciosas reformas ultraneoliberais, que extrapolam até mesmo noções conservadoras de República e de democracia, tornando-o superpoderoso. Em conjunto, a DNU e a Lei Ómnibus, somam mais de mil artigos que, segundo Javier Milei, tentam “desmontar a máquina de impedir”.

Essa “megareconstrução” da Argentina almejada por Javier Milei prevê um “revogaço”, a revogação do regime de empresas estatais e regulamentos que impedem a privatização de empresas públicas, a revogação da lei do aluguel (que protege os inquilinos de contratos abusivos, tal como a referência pelo dólar), a revogação da proibição dos clubes de futebol se tornarem sociedades anônimas (isto é, a privatização e transnacionalização dos clubes de futebol) e a revogação da proibição da transferência total ou parcial da participação acionária da Aerolíneas Argentinas, empresa reestatizada de grande importância para economia argentina e um dos principais alvos das privatizações no país. Dentre outras muitas propostas desregulamentadoras, liberalizantes e privatizantes.

O decreto pretende revogar a “Lei de Abastecimento”, que prevê sanções contra empresas em casos de escassez de determinados produtos (desregulamentação dos preços) e a “Lei de Gôndolas” (o fim de uma política que incentiva a compra de pequenas empresas), desregulamentando ainda mais os mercados de consumo, essenciais para classe trabalhadora. Além disso, as medidas ainda incluem a reforma do Código Aduaneiro, no objetivo de facilitar a internacionalização do comércio e “proibir a proibição de exportações”, reforçando o subdesenvolvimento argentino de exportação de bens primários.

Contra os movimentos sociais, a “Lei Ómnibus” aprofunda a criminalização e a burocratização dos movimentos sociais, que já precisam negociar com as polícias para organização de movimentos sociais. A medida aumenta a punição a quem organizar protestos sociais e “impedir a livre circulação do público”, obriga o porte de cartões para participar das mobilizações (!) e dá mais permissividade à polícia de agir a partir – da já conhecida na polícia brasileira – “legítima defesa”.

Mas, diferente do Brasil de Jair Bolsonaro, o que ainda freia Javier Milei é a sua falta de maioria no Parlamento e a oposição dos governadores provinciais, além da sua grande falta de governabilidade. Milei corta verbas das províncias contra os governadores e ignora o Congresso em suas negociações quando não consegue realizar a sua desregulamentação total. Diante desse impasse, Javier Milei ainda ameaça a governar por plebiscitos, e, quando mais moderado, recorre à oposição “dialoguista” – semelhante ao “centrão brasileiro”.

Isso se estende à sua imagem internacional, Javier Milei não cansa de elogiar Margaret Thatcher, a “dama de ferro”, ex-primeira-ministra do Reino Unido que formou a tríade neoliberal com Ronald Reagan, ex-presidente do Estados Unidos, e Augusto Pinochet, ditador chileno. Paradoxalmente a esses elogios, a Argentina é pressionada historicamente com uma ocupação militar do Reino Unido bem perto da sua costa, nas Ilhas Malvinas (ou melhor, nas “Falkland Islands”), resultado da derrota da Argentina na guerra contra o Reino Unido pela ocupação do território justamente pelo comando da “dama de ferro”.

A derrota da guerra desencadeou o fim de um período de ditadura na Argentina e a alta de popularidade de Margaret Thatcher, um preço ainda alto para a história e a soberania nacional. Nessa questão sensível ao povo argentino, Javier Milei apela para a “diplomacia e confiança” na retomada dessas ilhas sob o governo britânico, sendo pauta desde sua campanha eleitoral. Enquanto isso e opostamente, seu país vizinho, o Chile, que foi laboratório experimental do neoliberalismo pelo ditador Pinochet, faz grande resistência à memória da luta contra o neoliberalismo e o fascismo que atravessou o país. Gabriel Boric, acirrado com José Antonio Kast, ganhou as eleições chilenas em 2021 pela coalizão de esquerda “Apruebo Dignidad” contra o candidato da extrema direita.

Pirotecnia ultraneoliberal em Rosário

O que está acontecendo em Rosário é a realização da velha estratégia fracassada de ofensiva policial, encarceramento em massa e controle prisional. Em torno disso, manipula-se uma pirotecnia eleitoral por operações via rede social X e via manchetes sensacionalistas para cálculo político. E a escolha da rede social X não é uma coincidência, a rede social é o antigo Twitter que foi comprado pelo bilionário Elon Musk, conhecido por seu apoio à extrema-direita no mundo, pela sua falta de regulamentação dos discursos de ódio e por suas falas golpistas, onde disse “”Vamos dar golpe em quem quisermos”, respondendo às críticas de Evo Morales em um caso onde Elon Musk e o governo do EUA objetivavam o acesso ao lítio boliviano.

Javier Milei, Patricia Bullrich, Pullaro e o prefeito de Rosário, Pablo Javkin, reforçam a ideia ultraneoliberal de que o Estado serve apenas como força assassina. Somado a isso, Javier Milei transforma a questão em um caso ideológico, culpando os socialistas. Essa direção de governo projeta a oposição justiça emancipadora x justiça punitivista, Estado democrático x Estado neoliberal e direitos humanos x violações da dignidade humana.

Patricia Bullrich, elogiando e seguindo a mesma pirotecnia do presidente de El Salvador, Nayib Bukele, publicizou uma foto de líderes do crime organizado sendo amarrados, nus, no pátio de prisões, além de sistematicamente piorar suas vidas nas prisões. Nayib Bukele, aclamado pela extrema-direita salvadorenha, promoveu em seu governo o encarceramento em massa como “política de segurança pública” – apesar das diversas denúncias de violações aos direitos humanos e de prisões arbitrárias – e Bullrich replicou suas receitas, inaugurando um tipo de bukelismo e populismo vingativo.

Algo semelhante já havia acontecido em Rosário, em 2014, quando o governo fez uma operação cinematográfica com helicópteros sobrevoando a cidade como forma de intimidar o narcotráfico diante de uma crise que estava passando. A América Latina já tinha experimentado também, em janeiro de 2024, uma invasão ao vivo da máfia com armas e capuzes no Equador, durante a gestão de Daniel Noboa Azin. Noboa prometeu “mão firme” e “restaurar a paz nas famílias” (das máfias) diante de uma crise na segurança pública, com aumento das taxas de homicídios. Los Choneros, Los Lobos, Los Tiguerones ou a máfia balcânica controlam grandes regiões no Equador. Na campanha, Noboa apostou na mesma proposta fracassada de Patricia Bullrich, controle carcerário, inovando com proposta de instalação de prisões flutuantes em barcaças para confinar criminosos perigosos e cortar suas comunicações de dentro das prisões, e penalizar ainda mais o consumo de drogas em pequena escala e monitorar rotas.

Essas práticas por parte do governo já conhecíamos com Jair Bolsonaro no Brasil, que além de usar como artifício eleitoral, contribuiu com a ideologia do “bandido bom é bandido morto” nas policiais brasileiras. Nesse contexto, muitos governos americanos estão de olho na vitória de Donald Trump para unificarem a sua ostentação neofascista, cada país com sua particularidade. Portugal já assinalou na Europa o avanço neofascista, com o partido Chega, de André Ventura, exercendo grande poder de pressão sobre o governo de Luís Montenegro, ao ter significativos deslocamentos de votos à direita e à extrema direita. Do mesmo modo acontece com a alta adesão à Geert Wilders, líder da extrema direita holandesa.

Esse movimento da extrema direita tem em comum a ideia difundida de encarceramento em massa, operações policialescas e a privatização total de presídios, tendo Rosário grandes taxas de encarceramento em relação à Argentina. Fomentando essa realidade, existe um entendimento na segurança pública por esse movimento da oposição entre o “flagrante” e a “investigação”, que consequentemente faz a polícia e o narcotráfico irem para o tudo ou nada como uma certeza de morte, pois não haveria investigação para ambas as partes. Do mesmo modo, existe uma grande oposição entre a polícia militar e a polícia civil, que não integram as suas ações, acabando por reproduzir esse fracasso para dentro do Ministério Público, que endossa muitas vezes flagrantes precários.

Dentro das prisões o processo pode ser resumido, em geral, numa tragédia experimentada também pelo Brasil: o governo reprime e sucateia os presídios superlotados, os detentos se organizam no ódio, reagem e, assim, cria-se um ambiente vingativo, odiento e violento de insegurança para a ação irrestrita da polícia militar contra o narcotráfico na promoção de operações assassinas.

Isso é um projeto em curso. Por que não se investe em prevenção, inteligência, treinamento e tecnologia para o combate ao narcotráfico, seguindo o dinheiro e as transferências ao invés da juventude e a guerra de território? Essa prioridade chegaria em suas fontes de financiamento e, sobretudo, produziria um efeito multiplicador contra os diferentes fronts do combate ao narcotráfico: diminuiria os confrontos polícia x narcotráfico e suas diversas consequências, diminuiria a carga judicial nos tribunais, diminuiria a superlotação dos presídios, entre outros efeitos.

Nessa prioridade seria tratar o narcotráfico como um ramo capitalista, buscando seu núcleo fundamental: o lucro e o poder. Por que não se investe em política social para a juventude, criando oportunidade de escolaridade e trabalho formal? Isso concorreria estruturalmente com a demanda ao narcotráfico.

Ao invés disso, Patricia Bullrich iniciou o “Plano Bandeira” já em meados de dezembro de 2023, alinhando as forças federais às forças provinciais e criando pavilhões de segurança máxima para separar os detentos por categorias, isto é, uma política de policiamento e controle carcerário. Nos jornais, a paz é dificultada, não se referem à Rosário como uma grande e importante cidade argentina, mas como a “cidade mais violência da Argentina”. A semiótica é parte essencial dessa pirotecnia, que se utiliza das altas taxas de homicídios e encarceramento da cidade para produzir insegurança. Colocam as forças armadas nas ruas, avançam em territórios dominados pelo narcotráfico e torturam e humilham nos presídios. O discurso, aos poucos, vai substituindo a expressão “narcotraficantes” para “narcoterroristas” e disseminando o terror com um “inimigo interno”.

O Brasil não é para amadores

O Brasil, nessa questão, não é para amadores no assunto. O Brasil está em processo com dois projetos que compartilham as experiências da Argentina. Depois de passar por um miliciano na presidência da República, hoje, no governo do Lula III, o Parlamento está prestes a aprovar a limitação das “saidinhas” (momento que os detentos podem visitar seus parentes e desenvolver atividades de integração fora da instituição) e acontece cotidianamente o avanço da privatização dos presídios nos estados brasileiros. Isso acontece na realidade de um país que ocupa a terceira colocação de encarceramento em massa, dominada pela disputa de facções, tendo umas das polícias que mais mata e mais morre do mundo e com presídios totalmente inconstitucionais.

Existe um grande contingente de pessoas encarceradas que estão ainda aguardando julgamento, com um judiciário extremamente lento e desigual, e outro grande contingente de pessoas encarceradas apenas pela posse de pequena quantidade de maconha. Projetos de uso de câmeras nas fardas e nos veículos das polícias e distinções de “porte” para “tráfico” são passos muito disputados e a custo de muita negociação e concessão no Brasil.

Existe uma forte divisão das polícias no Brasil que privilegia as polícias militares em detrimento das polícias civis. A polícia militar porta fuzil em bairros com casas de famílias nas favelas de maioria negra e pobre. Muitas das vezes não há processo legal, criminal ou jurídico para o negro periférico no Brasil, e há um grande Tribunal Militar específico para julgar os militares.

A milícia não é um poder paralelo no Brasil, é o próprio Estado, que disputa com outras organizações na exploração dos trabalhadores. Possui escritórios para administrar assassinatos, tem parlamentares eleitos e organizados em bancadas (por exemplo, a “bancada da bala”), tem redutos de escoamento de orçamento público e casos sistemáticos de lavagem e roubo de dinheiro público. O caso mais trágico do Brasil é a família Bolsonaro, com membros em diversos níveis do poder. Os assaltos a celulares, as fugas das prisões e o aumento do feminicídio recrudescem a constelação de afetos para a extrema-direita crescer e continuar reproduzindo as chacinas, por exemplo, as que aconteceram e ainda estão acontecendo nos estados brasileiros de São Paulo, Bahia, Pernambuco e Rio de Janeiro.

*Glauber Franco é mestrando em filosofia na Universidade Federal de Alagoas (UFAL).


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