Socialismo moreno

Imagens: Tabitha Mort
image_pdf

Por BRUNO MACHADO*

O PDT precisa de sindicatos, movimentos sociais e Universidades

A ascensão de Lula como líder sindical fez do PT o principal partido de esquerda, tendo como principal rival no campo da esquerda o PDT de Leonel Brizola. Com as vitórias eleitorais do PT a partir dos anos 2000, o partido tomou grande dianteira como o maior partido de esquerda da atualidade brasileira.

As duas décadas de liderança do PT na esquerda brasileira, que reuniu apoio de partidos da centro-direita a partidos comunistas, é uma realidade concreta difícil de ser alterada. Entretanto, a forte queda de popularidade do PT desde o impeachment/golpe contra Dilma Rousseff deixou uma brecha para novas forças políticas diferentes emergirem.

No lado da direita, desapareceu o PSDB e surgiu o bolsonarismo, na esquerda, entretanto, nenhuma alternativa emplacou até o momento. O maior candidato a sucessor de Lula como liderança de esquerda é Ciro Gomes, e o principal partido que busca superar o PT, é o PDT.

Apesar de sua vantagem eleitoral, não foram os resultados das urnas que fizeram do PT o principal partido de esquerda no Brasil. Na verdade, o desempenho eleitoral do PT foi resultado da hegemonia do partido nos sindicatos, nos movimentos sociais e nas Universidades. Se não fosse majoritário nessas três frentes, o PT não seria majoritário na disputa eleitoral.

O principal foco de atuação política do PT eram os sindicatos. Compostos por trabalhadores organizados e em boa parte mais escolarizados do que o trabalhador médio brasileiro, o partido conseguiu fortalecer sua base com os trabalhadores sindicalizados, vencendo disputas com o capital e conquistando também parte da classe trabalhadora brasileira não sindicalizada. Os sindicatos são o eixo principal de atuação de qualquer partido de esquerda que busque apoio popular nas massas para implantar políticas públicas socialistas que necessitem algum grau de ruptura com a estrutura social e econômica.

É o sindicalismo que organiza as greves em diversos setores do trabalho, principalmente no serviço público, e as greves são a maneira mais eficaz de organização política dos trabalhadores e a, em grande medida, o único instrumento eficaz de conquistas trabalhistas. Acontece que, no mundo do trabalho de hoje, a terceirização e precarização reduziu o aspecto coletivo dos trabalhadores e levou a uma situação de cada um por si. É um grande desafio ao sindicalismo brasileiro e mundial reorganizar os trabalhadores de diversos setores da economia.

Além dos sindicatos, o Partido dos Trabalhadores também conquistou forte simpatia e parceria estratégica com movimentos sociais, sendo o principal deles o MST. Os movimentos sociais cumprem um papel de serem organizações populares que reúnem trabalhadores precarizados, subempregados e desempregados. Além de atingirem parte da população marginalizada e que não entra no radar de organização dos sindicatos. Em um país subdesenvolvido como o Brasil, onde metade dos trabalhadores não tem formalização, os sindicatos sozinhos não atingem um volume necessário de trabalhadores para que haja força política nas ruas para que grandes transformações estruturais e rupturas com o sistema sejam possíveis. Dessa forma, uma organização da classe trabalhadora precisa não só dos sindicatos, mas também dos movimentos sociais.

São os movimentos sociais os grandes pilares de realização de ações de desobediência civil que questionem a ordem social capitalista e evidência os conflitos de classe do país. Além de servirem de plataforma para a formação de militâncias e lideranças políticas que vão além do partidarismo. As ações dos movimentos sociais costumem reunir um radicalismo maior do que a atuação sindical. O que é esperado já que a população mais marginalizada tem menos a perder do que trabalhadores assalariados, o que os imprime mais coragem e ousadia no enfrentamento ao sistema.

Por outro lado, não somente de massas vive um partido de esquerda. Há também a necessidade de uma vanguarda intelectual que discuta a realidade e contribua para que os trabalhadores tenham um programa de governo eficiente e uma estratégia de chegada ao poder eficaz. Além disso, um partido não é composto apenas por militantes e lideranças, mas também pelos seus quadros. Nesse sentido, um partido próximo à Universidade é um partido com melhores quadros.

Se os sindicatos reúnem a classe média e os movimentos sociais as classes sociais mais marginalizadas, as universidades são compostas, de maneira geral, pelas classes mais altas dentro da classe trabalhadora e parte da pequena burguesia nacional. Apesar de distantes da realidade mais dura dos trabalhadores médios brasileiros, as classes mais altas e mais escolarizadas sempre cumpriram um papel nas transformações sociais que representaram vitórias da classe trabalhadora brasileira.

Dessa maneira, se um partido de esquerda, como o PDT de Ciro Gomes, tiver a pretensão de superar o PT de Lula como o partido que une a esquerda no Brasil, é necessário não apenas focar em estratégias eleitorais e alianças partidárias, mas direcionar sua militância para a conquista das universidades, dos sindicatos e dos movimentos sociais. Pois, se a direita brasileira pode ser simplificada como composta pelo tripé bancos, agro e militares; a esquerda pode ser vista como a união das universidades, dos sindicatos e dos movimentos sociais.

O socialismo moreno de Leonel Brizola só terá vez no Brasil se antes conquistar esses três terrenos férteis da esquerda no país. Enquanto crer-se na ideia de conquistar uma parcela da burguesia nacional para colocar em prática um projeto nacional de desenvolvimento, o Partido Democrático Trabalhista corre o risco de nunca retornar ao tamanho que já foi. Já que é sabido que mesmo a parcela menos atrasada da burguesia brasileira só tolela políticas trabalhadoras se houverem trabalhadores organizados nas ruas fazendo pressão pela implementação de suas políticas.

Se o PT realmente abandonou suas antigas pretensões socialistas e a nova militância do PDT pretende retomar o brizolismo e lutar pelo PND de Ciro, há todas essas necessárias transformações a serem realizadas nos sindicatos, nos movimentos sociais e nas universidades para que a esquerda brasileira mude de cara para uma proposta mais socialista e mais ousada do que o petismo se tornou.

*Bruno Machado é engenheiro.


A Terra é Redonda existe graças aos nossos leitores e apoiadores.
Ajude-nos a manter esta ideia.
CONTRIBUA

Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
Em defesa das bibliotecárias e bibliotecários
12 Mar 2026 Por FELIPE SANCHES: As bibliotecas estão atravessadas pela política e, se negarmos seu papel político, fechamos os olhos ao seu papel estratégico no desenvolvimento cultural, educacional, científico e econômico do Brasil
2
Fim da guerra no Irã?
11 Mar 2026 Por LISZT VIEIRA: A guerra revelou que força militar sem estratégia política cobra um preço alto, e quem controla a escalada controla também o desfecho
3
No radar geopolítico – EUA x Irã
14 Mar 2026 Por RUBEN BAUER NAVEIRA: O que o Irã pretende é forçar os americanos a pedirem por negociações que não serão por algum "cessar-fogo", mas que envolverão concessões dolorosas, como o fim de todas as sanções e o desmantelamento das bases militares americanas no Oriente Médio
4
Hamnet – a vida antes de Hamlet
11 Feb 2026 Por GUILHERME E. MEYER: Comentário sobre o filme de Chloé Zhao, em cartaz nos cinemas
5
Os impactos da guerra no Irã
16 Mar 2026 Por LUIS FELIPE MIGUEL: Ao atacar o Irã sem estratégia, Trump revela o vazio de sua política externa e a submissão a Israel; no Brasil, o impacto imediato é a alta dos combustíveis, que exige do governo Lula coragem para romper de vez com a paridade internacional e proteger a economia popular do choque inflacionário
6
Um país (des)governado
13 Mar 2026 Por PAULO GHIRALDELLI: A guerra no Irã não é imperialismo, é o espasmo de um país sem projeto, governado por um homem que trocou promessas por bombas
7
Uma batalha depois da outra
11 Mar 2026 Por WALNICE NOGUEIRA GALVÃO: Considerações sobre o filme de Paul Thomas Anderson, em exibição nos cinemas
8
A “filosofia” do cérebro podre
15 Mar 2026 Por EVERTON FARGONI: Uma crítica radical à colonização algorítmica da consciência, onde a promessa de prazer imediato culmina na falência do pensamento, da autonomia e da vida democrática
9
Contraste entre lulismos
12 Mar 2026 Por FERNANDO NOGUEIRA DA COSTA: O ponto cego atual da esquerda é ela ganhar no PIB, ganhar no emprego, ganhar na redução da pobreza, mas perder na pergunta fundamental: “para onde estamos indo?”
10
Linguagem inclusiva
12 Mar 2026 Por BEATRIZ DARUJ GIL & MARCELO MÓDOLO: Mais sintaxe, menos torcida: permitir não é prescrever, inovar não é normatizar
11
Daniel Vorcaro e o "novo capitalismo" brasileiro
10 Mar 2026 Por JALDES MENESES: O novo capitalismo brasileiro forja um Estado Predador onde o rentismo digital, o crime organizado e a política se fundem numa aliança que corrói o pacto de 1988
12
A imprensa como ideologia
11 Mar 2026 Por LUIZ MARQUES: A neutralidade da imprensa é a mais eficaz das ideologias: faz o golpe parecer democracia e o genocídio, conflito
13
Pecadores
16 Mar 2026 Por BRUNO FABRICIO ALCEBINO DA SILVA: Comentário sobre o filme dirigido por Ryan Coogler , premiado com quatro estatuetas no Oscar 2026
14
A escolha de Donald Trump
13 Mar 2026 Por MICHAEL ROBERTS: Trump descobriu que decapitar um regime não é o mesmo que subjugar uma nação: o Irã resiste e o preço do petróleo cobra a fatura
15
O comunismo como festa
11 Mar 2026 Por FELIPE MELONIO: O comunismo como festa não é metáfora, mas a afirmação de que a vida em comum só vale quando transborda os enquadramentos do poder
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES