Territórios da catástrofe e da resistência

Imagem: Andreea Ch
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Por TARSO GENRO*

O essencial e universal neste momento, todavia, é salvar vidas

São duas cidades relativamente distantes no mapa gaúcho que estão abaladas pelo mesmo e trágico destino. Ele envolve questões políticas imediatas e questões estruturais, dentro da própria formação e composição do território. O essencial e universal neste momento, todavia, é salvar vidas: minorar sofrimentos, estender a mão e não permitir que disputas e versões atrapalhem – dentro e fora do campo da esquerda – a solidariedade e a empatia que os povos podem construir em momentos de desastre.

A destruição parcial ou integral das cidades pela guerra, por incêndios ou por fenômenos naturais – provocados ou não pelos seres humanos – é uma constante na história. Para nós, todavia, isso pode parecer distante e excepcional, pois o absurdo e o terror só se tornam reais quando eles batem a nossa porta. Este destino, contudo, têm responsáveis, mas sua busca não pode agora bloquear o essencial.

Sartre se referia à categoria da “fragilidade” quando se indagava sobre os absurdos da destruição, “quando o ser volta ao nada” e se esfuma como forma impalpável aos nossos sentidos imediatos. A fragilidade, todavia, está contida e alerta: tanto na estrutura da cidade que invadiu o equilíbrio natural, como nos laços que unem os humanos na sua socialidade cotidiana.

Nas grandes catástrofes que vitimaram as cidades no seu percurso milenar duas constantes podem ser identificadas: a emergência da solidariedade perante a dor e perante a morte, bem como a emergência da desumanidade, que concorre com os movimentos solidários dos humanos e pode aniquilá-los. Esta ambivalência, que comunica o humano que escolhe entre alternativas, e a natureza – com suas leis previsíveis – é o território da catástrofe e da resistência.

A evidência da brutalidade do inimigo na guerra que ocupou a cidade conquistada – ou a força da natureza que gerou a dor coletiva – podem causar rupturas nas correntes de solidariedade interna da cidade destruída. E o fazem, tanto pela passagem de parte da comunidade da cidade para o apoio ao inimigo ocupante – unido com o puro e simples banditismo interno – ou pela emergência de um novo banditismo organizado.

O banditismo organizado interno é o mais fácil de enfrentar, a partir de mecanismos da legalidade não-natural – a “legalidade jurídica” criada pela socialização dos humanos – que é a única que pode bloquear a captura da cidade por esse banditismo organizado. Tanto para bloquear o inimigo ocupante como para relativizar as leis naturais que só permitem a sobrevivência do mais apto.

Tudo isso são traços da história, quando a diferenciação do interno com o externo eram verificáveis, empiricamente, mas isso muda quando temos ciência que o interno e o externo não existem mais: bandidos daqui são bandidos de fora que, pelas ginásticas logarítmicas, falam com as pessoas certas com mensagens certas e aproveitam as suas mentes fragilizadas pela perversão para minar a solidariedade e instaurar o mal absoluto.

Hoje, 12 de maio de 2024, circula nas redes especializadas em “fake news” um vídeo de um estranho canalha que – virtual ou real – diz que as autoridades do Estado brasileiro – em conluio com a China – estão causando deliberadamente a tragédia climática aqui no Sul, provocando artificialmente chuvas para gerar o caos, a morte e desesperança, visando os fins “políticos” de esquerda.

Essa é uma pequena e brutal demonstração da tara e da perversidade da extrema direita global, que monetizando a sua maldade absoluta pretende minar o exemplo magnífico de solidariedade que hoje atravessa o Rio Grande – de sul ao norte – com a maioria das suas organizações políticas e representações da sociedade civil.

Um ensaio de Adson Cristiano Bolli e Ramatis Lima (Arquitexto, 131.04- ano 11 -abril 2011) cita um importante texto de Hans-Georg Gadamer sobre a irreversibilidade da destruição das cidades, mencionando eventos históricos destrutivos nos episódios de Hiroshima, New York (incêndio de 1776), Dresden, Havre, mostrando que a reconstrução parcial das cidades – como deverá ocorrer aqui em várias regiões do Rio Grande do Sul – bem como a reconstrução total de cidades como Roca Sales e Eldorado, não farão as cidades retornar ao que eram.

Sobre as cinzas, cicatrizes e destroços dos espaços destruídos, as cidades não serão mais as mesmas, pois ela será sempre outra depois de um impacto de gravidade que atinge a sua alma e a sua materialidade lacerada. “Algumas partes quebradas e retorcidas” deverão ser expostas “como memória da cidade desaparecida”, que permanecerá intacta na consciência dos que sobreviveram ao desastre.

O que vai pendurar é imaterial: os atos de bravura, a visão do outro como irmão, as memorias dos mortos e desaparecidos, a coragem dos destemidos, os campeões da solidariedade material e imaterial – civis e militares – que poderão ficar como “ethos” superior da outra cidade recomposta. Mas para que esta memória possa ser forte e livre, os destruidores do humano devem responder por seus crimes, para que o Estado de direito mostre a grandeza das suas leis e as possibilidades da República e da democracia, também em reconstrução no nosso país ainda adoentado pelo bolsonarismo odioso e pelo negacionismo climático.

*Tarso Genro foi governador do estado do Rio Grande do Sul, prefeito de Porto Alegre, ministro da Justiça, ministro da Educação e ministro das Relações Institucionais do Brasil. Autor, entre outros livros, de Utopia possível (Artes & Ofícios). [https://amzn.to/3ReRb6I]


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