Uma diplomacia do espetáculo

Imagem: Shashank Kumawat
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Por KRISTIAN FEIGELSON*

O tempo tradicional da diplomacia se transforma em shows televisivos ao estilo americano: comentaristas qualificam Anchorage como “cúpula do fracasso”, com discussões conduzidas por equipe reduzida de especialistas

Uma nova diplomacia midiática de força se desenrola hoje após a reunião dos iludidos entre Donald Trump e Vladimir Putin, em 15 de agosto no Alasca, seguida pela demonstração militar massiva de 3 de setembro passado em Pequim, com os três ditadores — o chinês, o norte-coreano e o russo — na Praça Tian’An Men, símbolo dos assassinatos de milhares de estudantes em 4 de maio de 1989.

Essa diplomacia do espetáculo vem junto com novas perdas na Ucrânia e bombardeios russos incessantes. Apesar do fortalecimento da OTAN, a Europa está enfraquecida e ameaçada em suas fronteiras, com uma intrusão sem precedentes de drones e aviões russos atualmente na fronteira da Europa, na Estônia, Lituânia, Polônia, Romênia, em um contexto novo onde Donald Trump e Vladimir Putin, cada um à sua maneira, contribuem para estabelecer um sistema complexo de deformação da realidade.

O tapete vermelho de Anchorage

A última reunião entre Donald Trump e Vladimir Putin, em 15 de agosto no Alasca, teria selado um novo acordo de ilusão às custas da Ucrânia, testemunho das novas táticas de um ditador russo desesperado, implementando novas estratégias? Ou seria simplesmente mais uma reviravolta, após 17 ultimatuns do presidente americano, sucedidos de abraços no tapete vermelho — ou seja, novas maneiras evidentes de contornar uma diplomacia tradicional?

Lembremos da visita humilhante, em 28 de fevereiro de 2025, do presidente Volodymyr Zelensky, acusado de não ter cartas na mão, no escritório oval em Washington, amplamente divulgada na mídia mundial. Ela simbolizou a verdadeira mudança norte-americana, em favor de Vladimir Putin, de um Donald Trump implicado desde o fim dos anos 1980 em negócios com a Rússia.[i] Nessa nova diplomacia do “deal”, feita de espetáculos e cortinas de fumaça, a Ucrânia, já exangue, foi pressionada a assinar rapidamente um acordo para a exploração de seus minerais pelos EUA. Diante de Donald Trump, o presidente russo, acusado como criminoso de guerra por um tribunal internacional, mas nunca questionado em seus deslocamentos, não tinha intenção de negociar ou ceder algo em Anchorage, antes de embarcar para a China para consolidar suas posições.

Já estávamos acostumados às excentricidades e ao espírito de improvisação de Donald Trump em várias questões internacionais importantes, começando pelas recentes taxas aduaneiras, e seu projeto de repartição do mundo, com a anexação da Groenlândia e do Canadá — para, literalmente, “tornar a América maior” (a Rússia se apoderaria então do Cáucaso e da Ucrânia). Donald Trump ainda anunciou de improviso, nesta ocasião no Alasca, possíveis “trocas” de territórios com a Rússia.

Essa ingenuidade foi repudiada por seu ex-conselheiro de segurança nacional, John Bolton, acusado de desviar informações confidenciais e que hoje é processado pela Justiça Federal norte-americana. Durante seu primeiro mandato, John Bolton foi seu terceiro chefe de segurança nacional, e eles se opuseram sobre o Irã, Afeganistão e Coreia do Norte. O FBI revirou, em agosto passado, os escritórios de Bolton, agora em campo oposto a Donald Trump após a publicação de seu livro sobre esses temas, acusando Donald Trump de falta de firmeza com a Rússia.

John Bolton narra, entre outras coisas, como Donald Trump pressionou, em 2019, o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, a fornecer informações comprometedoras sobre o filho de Joe Biden, Hunter Biden, em troca de ajuda militar. Recentemente, em entrevista ao Financial Times, Bolton revelou que o presidente dos Estados Unidos raramente se preparava para seus encontros internacionais.[ii]

Na véspera da sua reunião em Anchorage, Donald Trump considerava este encontro como “uma reunião para medir a temperatura”, convencido de que perceberia rapidamente se as negociações deveriam avançar ou se a guerra deveria continuar. O tempo longo tradicional da diplomacia hoje se transforma em breves shows televisivos ao estilo americano, mas em benefício do presidente russo, enquanto comentaristas renomados qualificam Anchorage como “cúpula do fracasso”.

As discussões foram conduzidas por uma equipe reduzida de especialistas americanos em segurança internacional. E por uma razão: desde sua posse em janeiro, Donald Trump demitiu muitos quadros de política externa e segurança nacional. Segundo Eric Rubin, presidente da American Foreign Service Association (AFSA, o sindicato dos diplomatas americanos), 25% dos agentes do serviço exterior, considerados “politicamente incorretos”, foram exonerados.

Hoje, entre demissões e saídas voluntárias, vários postos-chave da administração ligados à Rússia e à Ucrânia estão vagos. Por exemplo, a embaixadora americana em Kyiv, Bridget Brink, uma democrata especialista na área pós-soviética, foi recentemente demitida.

Para a porta-voz adjunta americana, Anna Kelly: “sob a direção do presidente Trump e graças às funções conjuntas do secretário de Estado Marco Rubio, o Conselho de Segurança Nacional é mais relevante e influente do que nunca, e seria errado pensar que mais pessoal equivale a melhores resultados. Ao defender a eficácia otimizada por meio de uma reorganização do Departamento, nos tornamos mais leves…”. Tivemos um exemplo dessa leveza na última coletiva de imprensa do presidente, em 18 de setembro, em Londres, afirmando diante do primeiro-ministro britânico “resolver o conflito entre o ‘Aberbaijão’ (sic) e a Albânia!”. Os Estados Unidos, sem realmente avançar seus peões contra a Rússia, concederam finalmente um reconhecimento significativo ao legitimá-la na cena internacional.

O putinismo de guerra

Vladimir Putin, por outro lado, é conhecido tanto por seu domínio dos assuntos engajados em reuniões quanto por sua habilidade em enganar o interlocutor, como demonstrou frente a Nicolas Sarkozy que veio negociar em Moscou durante a guerra Rússia-Geórgia de 2008, para finalmente endossar um fato consumado.

Hoje, a Geórgia está novamente sob vigilância russa após eleições fraudadas em outubro passado.[iii] No espaço pós-soviético, é sintomático ver Vladimir Putin insistindo particularmente sobre Geórgia e Ucrânia, duas repúblicas que souberam fundar, após 1918, curtas experiências de democracia antes de serem esmagadas pelo poder bolchevique.

Para os russos, trata-se de ganhar tempo contra os americanos para conquistar terreno e negociar em posição de força. Há outro símbolo de uma época soviética ainda não superada na Rússia hoje: ao se dirigir ao Alasca, Vladimir Putin fez escala em Magadan, cidade industrial às margens do Pacífico e terra de desolação, tristemente famosa por seus campos de trabalho forçado, onde milhões de prisioneiros de todo o mundo foram internados em condições de frio extremo.

O objetivo de sua visita a Magadan não eram os Gulags, nunca mencionados, mas a inauguração de uma fábrica de processamento de óleo de peixe, o apoio a uma equipe de hóquei de jovens russos e a comemoração de um monumento em memória da ponte aérea dos americanos no Alasca, durante a Segunda Guerra Mundial, em sua assistência militar a Stalin agora reabilitado na Rússia. Após décadas de silêncio, a ajuda americana é oportunamente relembrada na viagem de Vladimir Putin, em detrimento da história trágica dessa região.

Magadan foi também um lugar de exclusão e despejo para certo número de americanos que vieram evangelizar esses territórios remotos e que pereceram em Kolyma. Ao chegar a Anchorage, Vladimir Putin pôde até mesmo evocar, com ironia, o Alasca como sendo uma espécie de “América russa”, cedida aos Estados Unidos em 1867 pela Rússia por uma ninharia. O Alasca está a apenas 80 quilômetros da fronteira russa.

Convergências e negociações

A reunião entre Donald Trump e Vladimir Putin reforça as convergências de dois presidentes autoritários e suas negociações recíprocas às custas da Ucrânia.[iv] Donald Trump enrola entre cessar-fogo e paz global e acaba por alinhar-se às posições de Moscou, enquanto está pronto para fornecer armas à Ucrânia, que agora precisa ser financiada pela Europa.

Os Estados Unidos vendem, mas não emprestam mais, buscando reescrever as propostas de Istambul de 2022. Reunidos em 18 de agosto na Casa Branca após a cúpula americana-russa, desta vez com Donald Trump e Volodymyr Zelensky, os sete líderes europeus saíram enfraquecidos, com garantias americanas vagas e sem qualquer perspectiva de resolução do conflito. Donald Trump se alinhou às posições russas, confirmando seu discurso desde a chegada ao poder.

A Ucrânia se compromete a comprar armas americanas por 100 bilhões de dólares, com financiamento europeu pelo acordo, uma forma de exportar esses contratos pela Europa. E de fato, no que foi negociado, ela surge capturada pelos novos interesses americanos. Por sua vez, os EUA podem fechar um acordo de 50 bilhões de dólares para a produção de drones, sob certas condições, com empresas ucranianas.

Mas, novamente, tudo isso ainda está obscuro, enquanto os Estados Unidos continuam a jogar com as fortes incertezas decorrentes da intransigência russa.

*Kristian Feigelson é professor de sociologia na Universidade Sorbonne Nouvelle. Autor, entre outros livros, de La fabrique filmique: Métiers et professions (Armand Colin).

Publicado originalmente na Revue Telos (http://telos-eu.com/fr/politique-francaise-et-internationale/une-diplomatie-du-spectacle.html)

Tradução: Fernão Pessoa Ramos.

Notas


[i] Ver artigo recente sobre o tema de Frantçoise Thom em Desk-Russie  e Régis Genté, Notre homme à Washington: Trump dans la main des Russes, Paris, Grasset, 2024.

[ii] John Bolton, La pièce où ça s’est passé: 453 jours dans le bureau ovale avec Donald Trump, Paris, Talent , 2020.

[iii] Cf. Kristian Feigelson et Tamara Svanidze, «Géorgie: vers un nouvel autoritarisme?», Telos, 28 octobre 2024; et Kristian Feigelson «L’impasse impériale», Telos, 14 mars 2025.

[iv] Ver Kristian Feigelson, «Trump et Poutine: la double face de Janus?», Telos, 27 mars 2025.

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