Uma lógica míope

Imagem: Max Avans
image_pdf

Por LUIS FELIPE MIGUEL*

O governo não tem vontade política para transformar a educação em prioridade, enquanto corteja militares ou policiais rodoviários, que não se movem um milímetro para longe do bolsonarismo que continuam a apoiar

Lula recebeu reitores, ao lado do ministro Camilo Santana. Não era um diálogo (quase nunca é); os reitores eram plateia para anúncios do governo. Ainda assim, havia esperança de que sinalizasse alguma solução para a greve de professores e de servidores técnico-administrativos das universidades e institutos federais, que já se arrasta há meses.

Em vez disso, o presidente preferiu atacar os grevistas. “Não é por 3%, 2%, 4% que a gente fica a vida inteira de greve”, disse Lula.

O dinheiro do governo corre solto para os parlamentares picaretas do Centrão, para os bancos, para as igrejas. Mas os profissionais da educação devem pensar que “quem está perdendo é o Brasil e os estudantes brasileiros” e voltar ao trabalho com seus 22% de perdas salariais acumuladas.

Hoje, convém, assinalar, nossa reivindicação é apenas um reajuste em 2024 que cubra a perda salarial com a inflação do próprio ano de 2024. Mas, para o governo, reajuste é para as categorias profissionais que tentaram dar um golpe e melar as eleições de 2022.

Na reunião com os reitores, Lula anunciou também o PAC da Educação, com números altissonantes: são R$ 5,5 bilhões previstos. Uma parte é para recompor o orçamento das IFES, que está estrangulado há muitos anos. Caso o governo realmente libere o que prometeu, o orçamento de 2024 alcançará o nível de 2017 – ou seja, continuamos longe do necessário.

Outra parte é para “expansão”. Além dos míticos 100 novos institutos federais, já anunciados antes, entraram 10 novos campi universitários.

A pergunta é: para quê?

Houve algum estudo que explique por que Sertânia, em Pernambuco, ou São José do Rio Preto, em São Paulo, precisam de um campus de Universidade federal? Há um levantamento de quais cursos seriam necessários? Com matrículas em queda nas universidades de todo o Brasil, a prioridade é mesmo “expansão”?

Devemos mesmo anunciar a criação de novos institutos e universidades sem antes garantir as condições adequadas de funcionamento para aqueles que já existem? Vamos contratar pessoas para esses locais e depois negar a elas boas condições de trabalho e os salários merecidos?

É uma lógica míope, de curto prazo – prédios para inaugurar, obras para licitar, chefes políticos locais para agradar.

Não é só a educação superior. O governo foi incapaz de abrir uma negociação franca com estudantes, professores e administradores escolares no caso do malfadado “novo ensino médio”, preferindo se aliar aos interesses empresariais. Nas muitas unidades da federação que controla, a extrema-direita promove aceleradamente a destruição da escola pública – precarização, militarização, privatização – sem que o governo federal esboce reação.

Pelo contrário, se afasta dos profissionais da área, incapaz de um gesto que marque a disposição de valorizá-los.

Fernando Haddad, curvado à lógica da “austeridade”, não esconde sua simpatia por teses como a abolição do piso constitucional de gastos para a educação e a saúde. A fórmula do governo parece ser: remuneração do capital especulativo como prioridade perene do Estado, políticas compensatórias aos mais pobres como “diferencial da esquerda” – e estamos conversados.

É um governo acovardado, que cede à lógica dos dominantes em tudo, que não compra um único enfrentamento – a não ser, é claro, contra sua própria base social, que, em vez de fortalecer, ele busca derrotar e jogar no desânimo e na apatia.

A conjuntura é desafiadora, mas o governo Lula contribui de forma decisiva para seu próprio insucesso. Não faltam pessoas que pensam a educação, a sério, que estão prontas a colaborar com o governo. O que falta é vontade política para transformar em prioridade, de verdade, aquilo que o discurso sempre diz que é prioridade.

PS. Não sei se temos condições de continuar a greve, diante da intransigência do governo. Talvez tenhamos que encerrá-la, reivindicando a recomposição orçamentária (necessária, ainda que insuficiente) como uma vitória do movimento.

Mas não nos enganemos: fomos derrotados. Todos nós. Professores, servidores. A esquerda. O governo.

A “vitória” de Lula, dobrando um setor que sempre esteve engajado na defesa da democracia, deixa cicatrizes. Já vimos esse filme antes, no primeiro mandato, quando Lula ferrou o funcionalismo público em geral. Mas ali o cenário era outro e ele tinha gordura para queimar.

Hoje, não. E aqueles que ele corteja, como militares ou policiais rodoviários, não se movem um milímetro para longe do bolsonarismo que continuam a apoiar.

*Luis Felipe Miguel é professor do Instituto de Ciência Política da UnB. Autor, entre outros livros, de Democracia na periferia capitalista: impasses do Brasil (Autêntica). [https://amzn.to/45NRwS2]

Postado nas redes sociais do autor.


A Terra é Redonda existe graças aos nossos leitores e apoiadores.
Ajude-nos a manter esta ideia.
CONTRIBUA

Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
Para além de Marx, Foucault, Frankfurt
25 Jan 2026 Por JOSÉ CRISÓSTOMO DE SOUZA: Apresentação do autor ao livro recém-publicado
2
Avaliação e produtivismo na universidade
23 Jan 2026 Por DANICHI HAUSEN MIZOGUCHI: A celebração das notas da CAPES diante do estrangulamento orçamentário revela a contradição obscena de uma universidade que internalizou o produtivismo neoliberal como nova liturgia acadêmica
3
O Conselho da Paz de Donald Trump
24 Jan 2026 Por TARSO GENRO: Da aridez de Juan Rulfo ao cinismo da extrema direita mundial, Tarso Genro denuncia a transição da cena pública para uma era de tirania privada, em que a gestão do caos e a aniquilação de povos desafiam a humanidade a resgatar o frescor de suas utopias perdidas
4
Hamnet – a vida antes de Hamlet
19 Jan 2026 Por JOÃO LANARI BO: Comentário sobre o filme dirigido por Chloé Zhao, em cartaz nos cinemas
5
Notas sobre a desigualdade social
22 Jan 2026 Por DANIEL SOARES RUMBELSPERGER RODRIGUES & FERNANDA PERNASETTI DE FARIAS FIGUEIREDO: A questão central não é a alta carga tributária, mas sua distribuição perversa: um Estado que aufere seus recursos majoritariamente do consumo é um Estado que institucionaliza a desigualdade que diz combater
6
A ilusão da distopia
27 Jan 2026 Por RICARDO L. C. AMORIM: O novo capitalismo não retorna ao passado bárbaro; ele o supera com uma exploração mais sofisticada, onde a submissão é voluntária e a riqueza se concentra sem necessidade de grilhões visíveis
7
Júlio Lancellotti
28 Jan 2026 Por MARCELO SANCHES: A relevância de Padre Júlio está em recolocar a fé no chão concreto da vida, denunciando o cristianismo que serve ao poder e legitima a desigualdade
8
Enamed e cretinismo parlamentar estratégico
27 Jan 2026 Por PAULO CAPEL NARVAI: É mais prático e eficaz fechar cursos e colocar um fim na farra da venda de diplomas disfarçada de formação. Mas não é nada fácil fazer isso, pois quem consegue enfrentar congressistas venais?
9
O teto de vidro da decolonialidade
29 Jan 2026 Por RAFAEL SOUSA SIQUEIRA: A crítica decolonial, ao essencializar raça e território, acaba por negar as bases materiais do colonialismo, tornando-se uma importação acadêmica que silencia tradições locais de luta
10
Poder de dissuasão
23 Jan 2026 Por JOSÉ MAURÍCIO BUSTANI & PAULO NOGUEIRA BATISTA JR.: Num mundo de hegemonias em declínio, a dissuasão não é belicismo, mas a condição básica de soberania: sem ela, o Brasil será sempre um gigante de pés de barro à mercê dos caprichos imperiais
11
O declínio da família no Brasil
21 Jan 2026 Por GIOVANNI ALVES: A explosão de lares unipessoais e a adultescência prolongada são duas faces da mesma moeda: a desintegração da família como infraestrutura antropológica, substituída por uma solidão funcional ao capital financeirizado
12
Qual Estado precisamos?
23 Jan 2026 Por ALEXANDRE GOMIDE, JOSÉ CELSO CARDOSO JR. & DANIEL NEGREIROS CONCEIÇÃO: Mais que uma reforma administrativa, é preciso um novo marco de Estado: que integre profissionalização e planejamento estratégico para enfrentar desigualdades estruturais, superando a falsa dicotomia entre eficiência e equidade
13
Hamnet
24 Jan 2026 Por RICARDO EVANDRO SANTOS MARTINS: Entre a fitoterapia de Agnes e a poética de Shakespeare, o filme revela como o saber silenciado das mulheres e o trabalho de luto desafiam a fronteira da morte
14
Por que Donald Trump quer a Groenlândia?
22 Jan 2026 Por PAULO GHIRALDELLI: O interesse de Trump pela Groenlândia não é geopolítica, mas um presente pessoal às Big Techs: um ato performático de um líder sem projeto nacional, que troca recursos por lealdade em sua frágil trajetória política
15
No caminho do caos
16 Jan 2026 Por JOSÉ LUÍS FIORI: O direito à guerra das grandes potências, herança westfaliana, acelera a corrida ao abismo e consolida um império do caos sob a hegemonia norte-americana
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES