Por SÉRGIO GADINI*
A taxa Selic nas nuvens é menos uma ferramenta técnica e mais um instrumento de poder, que garante lucros extraordinários ao sistema financeiro, custeados pelo Tesouro Nacional e pela população
1.
2025 foi um ano marcado por sucessivos aumentos na taxa básica de juros – a Selic vai de 12,25% ao ano em janeiro para 15% em junho/2025 – , fechando o segundo semestre com a manutenção de amargos 15% na última reunião realizada em 10 de dezembro. Esta foi a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, impondo limites ao crescimento econômico do País pela restrição do acesso ao crédito, ao mesmo tempo em que eleva o endividamento da União e assegura lucros invejáveis aos banqueiros ou financistas sediados no Brasil.
Ao povo, ora, as contas e o arrocho, pois à direção ‘independente’ do Banco Central (agora, todos nomeados pelo atual governo federal) o objetivo seria conter a inflação no centro da meta: 3% em 2025. Nas oito reuniões feitas pelo Banco Central no ano, as quatro do primeiro semestre elevaram a taxa básica de juros e os quatro encontros do segundo semestre apenas mantiveram a Selic em 15% ao ano. O que significa, na prática, a pretensa independência do Banco Central no Brasil? Salvo engano, tudo indica e confirma um visível alinhamento aos interesses dos proprietários de bancos e investidores.
Estudos da Auditoria Cidadã da Dívida (ACD), feitos a partir de dados do próprio Banco Central, revelam que um ponto percentual (1%) a mais na taxa básica de juros (a Selic) representa um aumento aproximado de R$ 50 bilhões ao ano na dívida pública do Brasil, pois é o tesouro nacional que deve custear os serviços da dívida para pagar juros aos detentores dos títulos, na maioria dos casos de posse dos bancos, fundos financeiros e afins.
Os dados são de conhecimento público, mas infelizmente boa parte da mídia não contextualiza tal informação e explicar o significado prático do aumento e manutenção da taxa Selic em 15% ao ano. Por consequência, como a desinformação não surge do acaso, mas é incentivada com dados parciais controlados pelo ‘mercado financeiro’. Assim, as fontes ouvidas e sequer lembram dos benefícios aos banqueiros e detentores dos títulos da dívida, que enriquecem um pouco mais cada vez que o Comitê de Política Econômica (Copom) do Banco Central do Brasil aumenta a taxa Selic.
2.
A mesma maioria dos veículos que se colocam como porta-vozes dos bancos – seja divulgando avaliações de assessorias, consultores de investimento ou mesmo jornalistas, que assumem o papel de defensores da política da desigualdade econômica – cobram responsabilidade do governo federal quando se trata não de investimento em políticas públicas: austeridade, redução do que chamam de gastos (com saúde, educação, segurança pública e demais serviços essenciais), sem ao menos relacionar que o rombo das contas reside mesmo em um sistema de dívida, que é controlado por bancos e implementado pelo próprio Banco Central através de imposição de juros abusivos.
Na prática, materializa-se uma reiterada estratégia de desinformação, pois além da ausência de contexto predomina a versão de interessados diretos em juros elevados, sem qualquer esforço e preocupação editorial com a pluralidade noticiosa.
E, assim, a mesma mídia hegemônica (aliada ou sob controle parcial do mercado financeiro) que silencia quando o Banco Central garante dinheiro para banqueiro reproduz com naturalidade avaliações que insistem na manutenção da Selic em patamares que beneficiam apenas um pequeno setor da economia, é a responsável pela ‘cobertura’ pautada na urgência de reformas na gestão pública – administrativa, previdenciária, segurança e afins – para limitar o acesso da maioria da população aos serviços essenciais, que precisam ser mantidos, de acordo com a Constituição Federal.
É claro que a redução da desigualdade avança com a aprovação da lei que, a partir do próximo ano, isenta de imposto de renda cerca de 10 milhões de contribuintes com salário de até 5 mil mensais, mas é um passo deveras modesto diante do acumulo de lucros de bilhões divulgados nos balanços bancários, devidamente assegurados por juros abusivos, piorando os índices de concentração de riquezas nas mãos de poucas empresas e famílias. Oportuno lembrar ainda que dos 212 milhões de brasileiros, a própria Receita Federal estima que apenas 141 mil pessoas têm uma renda mensal superior a R$ 50 mil reais, o que revela uma desigualdade secular na distribuição de renda no País
É impossível apenas noticiar os aumentos e a manutenção da taxa de juros nas nuvens como se fosse normal e sem alertar que dá o tom (ou ordem) ao colegiado do Banco Central é o mesmo ‘mercado financeiro’ que fala, diuturnamente, através de porta-vozes que operam em campanhas permanentes de desinformação para manter ou elevar taxas abusivas. E, pois, é a divulgação – supostamente neutra e desinteressada – que legitima as decisões previsíveis do Copom que, por sua vez, parece mesmo preocupado em agradar banqueiro, ignorando que a justificativa não tem nada de técnica, mas é uma opção política para beneficiar poucos às custas das maiorias silenciosas (ou silenciadas) pela reiterada desinformação que circula na mídia hegemônica em todo o país, como se fosse quase verdade.
Por fim, vale lembrar que a Auditoria Cidadã da Dívida (https://auditoriacidada.org.br/) é a entidade sem fins lucrativos que monitora os gastos públicos com a dívida e é responsável pela campanha pela aprovação de um limite máximo na taxa de juros no País. Mas quem consegue ouvir as vozes que insistem em direitos sociais quando a força da grana que ergue, destrói se impõe pela força de bilhões de reais garantidos por uma espécie de ‘agiotagem’ institucionalizada na res-pública? Informar e denunciar a prática da desinformação é uma necessidade, que precisa de repercussão ao longo de 2026.
Sérgio Gadini é professor do curso de jornalismo Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG).






















