50 anos da derrota dos EUA no Vietnã

Imagem: Thanh Long Bùi
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Por JOÃO SANTIAGO*

Passados 50 anos do fim da Guerra do Vietnã precisamos destacar a coragem de um povo que expulsou os colonialistas franceses em1954 e lutou bravamente contra o exército mais poderoso do mundo

Em 30 de abril de 1975, Saigon, a capital do Vietnã do Sul, foi tomada pelos revolucionários do Vietcong. O maior exército do mundo, o exército do imperialismo norte-americano, havia sido derrotado.

Esse acontecimento se deu em plena efervescência da “guerra fria”, onde intervieram as duas grandes potências mundiais, os Estados Unidos, como o maior país imperialista do mundo e a ex-URSS, um estado operário controlado pela burocracia stalinista do Kremlin. Ou seja: foi uma expressão da luta de classes mundial entre a burguesia e o proletariado, com o mote de uma luta anti-colonialista e de unificação nacional e da derrota dos Acordos de Potsdam (julho de 1945) e de Genebra de 1954, no pós-guerra, que havia dividido o Vietnã no paralelo 16, Vietnã do Norte e Vietnã do Sul, e todo o seu povo entre as potências vencedoras na guerra contra o nazi-fascismo.

O historiador Max Hastings, em seu livro “Vietnã: uma tragédia épica, 1945-1975” narrou da seguinte forma a tragédia imperialista: “A queda de Saigon em 1975 representou uma humilhação para o país mais poderoso do planeta: revolucionários camponeses tinham prevalecido sobre a vontade, a riqueza e o aparato norte-americano. A imagem da escada por onde, na noite de 29 de abril, fugitivos subiram para tomar um helicóptero, como se buscando a proteção da cavalaria, garantiu um lugar entre as imagens simbólicas daqueles tempos”.[i]

Em 16 anos de guerra (1959-1975) o saldo de mortes para os vietnamitas foi terrível, cerca de 2 milhões de mortos(algumas fontes falam em até 4 milhões de mortos), diante de apenas 58 mil soldados norte-americanos dizimados, ou 39 vietnamitas mortos para cada norte-americano.

Dentre as imagens simbólicas mais terríveis da guerra temos a menina de 9 anos Phan Thi Khim Phuc correndo nua de um bombardeio imperialista em sua vila Trang Bang, sob controle dos norte-vietnamitas, com bombas de napalm no dia 8 de junho de 1972.

Dentre os episódios mais cruéis perpetrados pelo imperialismo norte-americano contra o povo vietnamita, o massacre de My Lai, uma pequena aldeia, do Vietnã do Sul, foi o mais emblemático. Em quatro horas, no dia 16 de março de 1968, foram massacrados 500 pessoas entre idosos, mulheres e crianças pela Pelotão Charlie.

Sem contar os 80 milhões de litros de herbicidas e desfolhantes, como o “agente laranja”, despejados sobre as florestas vietnamitas do Sul de 1961 a 1971, que destruíram 16% do território do Vietnã do Sul.

O significado e as lições da derrota imperialista no Vietnã

Nahuel Moreno, trotsquista argentino, caracterizou que, com a derrota do imperialismo no Vietnã, abria-se uma nova etapa da luta de classes mundial, muito mais favorável ao movimento de massas: “A vitória do Vietnã na guerra parece ser o ponto de partida da nova etapa, pois significou a primeira derrota militar do imperialismo norte-americano em toda a sua história(…) A derrota norte-americana encorajou, redobrou as forças do ascenso revolucionário no planeta inteiro. Queremos insistir em que a vitória do Vietnã não foi apenas uma derrota parcial para o imperialismo norte-americano, e sim que provocou sua primeira crise aguda, a crise de sua burguesia, que não sabe qual caminho adotar frente ao ascenso da revolução mundial”.[ii]

Com essa derrota inaugurava-se a famosa “síndrome do Vietnã”, ou seja, o efeito psicológico que a guerra e a derrota causaram no povo norte-americano e em sua burguesia, impedindo os Estados Unidos de intervirem militarmente de forma direta nos países, como aconteceu quatro anos depois com a revolução nicaraguense, onde o imperialismo não pode intervir para salvar o seu ditador aliado Anastasio Somoza. Ao invés disso, teve que se contentar em financiar grupos mercenários como os “contra” para tentar quebrar a revolução a partir das fronteiras de Honduras.

Também teve que apoiar com armas o Iraque para deter a revolução iraniana, que havia derrubado o Xá Reza Phalevi, um aliado imperialista de primeira hora no Oriente Médio ao lado de Israel. Somente depois da queda do “Muro de Berlim” e da ex-URSS foi que o imperialismo norte-americano se aventurou a agir diretamente no Iraque e Afeganistão, também com derrotas fragorosas e sem conseguir impor sua ordem nesses países, aprofundando ainda mais sua crise de dominação política, econômica e militar.

Passados cinquenta anos do fim da Guerra do Vietnã precisamos destacar a coragem de um povo que expulsou os colonialistas franceses em1954 e sua dominação de cem anos da Indochina, sob a liderança de Ho Chi Min e o Partido comunista do Vietnã e logo em seguida teve que lutar bravamente contra o exército mais poderoso do mundo, o exército dos Estados Unidos. Esta coragem, aliada às grandes mobilizações anti-guerra dentro dos Estados Unidos, levou à vitória, cujo resultado foi a reunificação do país sob o controle do Partido Comunista, de viés stalinista.

Passados cinquenta anos o que o triunfo do Vietnã tem a nos ensinar hoje, quando não existe mais a URSS e os estados operários, e o próprio Vietnã promoveu a restauração do capitalismo a partir de 1986 com a chamada “Renovação Abrangente” com a fachada de “economia de mercado sob orientação socialista” sob o controle férreo do Partido Comunista, tal como a faz a China? Hoje, grandes empresas capitalistas, como a TCL chinesa, o Mac Donalds, fazem parte do cotidiano da classe trabalhadora vietnamita; grandes empresas multinacionais estão saindo da China e buscando o Vietnã por conta de sua mão de obra barata, controlada pela ditadura do Partido Comunista, tal como fazem os dirigentes capitalistas do PC chinês.

Passados cinquenta anos o que o triunfo do Vietnã tem a nos ensinar hoje quando o capitalismo imperialista está submerso em sua crise econômica crônica, mergulhado em outra guerra no coração da Europa, a guerra de Vladimir Putin contra a Ucrânia, quando o principal imperialismo tem a frente um presidente de extrema-direita que está causando uma nova “desordem mundial” e legitimando o genocídio do povo palestino na Faixa de Gaza, quando nenhum dos novos dirigentes ditos de “esquerda” se propõem a derrubar o capitalismo ou fazer uma nova revolução de caráter socialista?

Pelo menos duas lições importantes tiramos desse grande acontecimento. Primeiro, o imperialismo capitalista não é invencível, pois foi derrotado por um povo onde a maioria era de camponeses, mas que lutou contra todas as armas sofisticadas, aviões, tanques, trazidas da América do Norte e conseguiu reunificar o país.

Segundo, ao não ter uma direção socialista e revolucionária consequente à frente dessas vitórias, podem se transformar em derrotas, como vimos com os ex-Estados operários do Leste Europeu e a ex-URSS, controlados por uma burocracia stalinista aliada do imperialismo, a mesma que no pós-segunda guerra mundial concordou em dividir o Vietnã e a Alemanha.

Hoje, mais do que nunca, faz-se necessário aprender com essas traições das lutas da classe trabalhadora e construir partidos e organizações socialistas e revolucionárias que estejam dispostas a derrotar o imperialismo capitalista no mundo inteiro e as direções que compactuam com a burguesia e seus imperialismos.

*João Santiago é professor de sociologia na Universidade Federal do Pará (UFPA).

Notas


[i] Max Hastings. Vietnã, uma tragédia épica, 1945-1975. Tradução Berilo Vargas. Rio de Janeiro: Intrínsica, 2021; pág.19.

[ii] Nahuel Moreno. Para a Atualização do Programa de Transição. Tradução Arnaldo Schreiner e Silvana Foá. São Paulo: CS Editora, 1992; pág.33.

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