Escravidão na serra gaúcha

Imagem: Omar William
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Por EDSON BALESTRIN*

Hoje, os bisnetos dos imigrantes italianos vivem bem, mas muitos o fazem explorando os necessitados

Nós, nascidos, criados e moradores da região da serra gaúcha, precisamos parar, olhar para nossas origens e repensar o que somos, fazemos e queremos. Excetuando-se, por ora, o apagamento da trajetória indígena, nossa região está às portas de completar 150 anos por conta da chegada dos imigrantes italianos. E sejamos objetivos quanto a nossas bisavós.

Muitos de nós já tiveram a oportunidade de conhecer a casa natal dos antepassados, invariavelmente um casarão insalubre em que várias famílias dividiam áreas comuns nos poucos momentos em que não estavam trabalhando as terras de um senhor para receber a terça, e olhe lá. Analfabetos, mas sem culpa, pouco tinham como se defender num momento de intensa reorganização política, econômica e social pelo qual passava não só a Itália, mas praticamente toda Europa impactada pela segunda Revolução Industrial.

Alguns até puderam dar-se ao luxo de decidir pela migração à ’Mérica, mas muitos foram expulsos porque eram um peso para a nação que se estabelecia. Além de que há registros de que alguns foram expatriados por crimes cometidos. Ma da romai i era tuti bona gente.

Os italianos que foram para São Paulo substituíram a mão de obra dos escravos negros quase nas mesmas horrendas condições, enquanto que os italianos chegados ao Rio Grande do Sul tiveram a sorte de poder fazer a própria sorte. Mas isso significava derrubar uma floresta, enfrentar animais, epidemias, entre mil outros medos. Com muito sparagnar e outro tanto de desprezo pela educação, aos poucos o capital se acumulou, bem como a discriminação, o racismo, a xenofobia. A região tornou-se uma potência de riqueza e de falso moralismo.

A soberba de uma superioridade étnica e moral deslumbra os bisnetos. O que não falta é gringo enaltecendo-se pela narrativa da superação dos bisavôs. Poucos destes cidadãos de bem se interessam em pesquisar que o bisnonno teve que detonar os pulmões trabalhando em mina de carvão por uns trocados que permitissem iniciar uma lavoura na colônia, que o nonno teve que ser agregado pela terça na colônia alemã para pagar as contas, que o outro nonno implorou para pode ajudar na instalação da ferrovia em troca de uns pilinhas que dessem um pouco de segurança além do cotidiano escambo.

Mas aqueles que conhecem a história além do estereótipo sabem transpor o entendimento das condições precárias passadas para um exercício de empatia por quem vive a mesma situação contemporaneamente – e com a acréscimo de choques elétricos e spray de pimenta em caso de atrito. E há quem ache ruim que não varriam o alojamento e buscavam alívio na bebida.

Hoje, os bisnetos dos imigrantes italianos vivem bem, mas muitos o fazem explorando os necessitados tal qual um dia aconteceu com os próprios bisnonnos. Arrotam polifenóis dizendo que política assistencial é para vagabundo, quando na verdade só estão aqui porque os bisnonnos sem-terra tiveram auxílio do governo – e muito –, seja para obter um lote, para adquirir ferramentas, para ter direito a parcelamentos e até anistias.

Decantam notas cítricas para dizer que baiano por aqui não serve, como se há 150 anos não tivessem sido nossos bisnonnos que se submeteram a condições brutais em razão da sobrevivência tal qual fazem agora os baianos, tal qual fizeram os do oeste catarinense, os da fronteira sul, todos que vêm para cá, porque é sempre o pobre que se submete, é sempre o pobre que não tem escolha e precisa se submeter ao gringo que olha de cima para baixo, os pobres que são pessoas cheias de incertezas, que apostam tudo para recomeçar a vida, abandonando familiares e partindo para um lugar distante, desconhecido, inóspito.

Uma comunidade com a história de precariedade como a nossa votar em política de opressão, apontar dedo, julgar sem provas, rechaçar quem pensa diferente e humilhar quem depende de auxílio só pode colher prejuízo. E o prejuízo desse preconceito exacerbado virá, na dificuldade em vender nosso vinho, no desaparecimento de turistas. Já somos manchete na Folha de S. Paulo, recebemos intermináveis minutos de destaque no Jornal Nacional, temos abaixo-assinados e notas de repúdio provenientes de todo o país.

Caso a Serra Gaúcha não consiga compreender o próprio passado de dificuldade e reverter isso numa cultura de respeito para com o outro, caso não reflita sobre a imagem que está consolidando perante o Brasil, o dano vem. E vai faltar vinho para afogar as mágoas.

*Édson Balestrin é juiz aposentado.

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