Terremoto na Turquia

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Por ANSELM JAPPE*

Construções rápidas nas quais a segurança não é uma preocupação de primeira ordem

O terremoto que atingiu a Turquia e a Síria no dia 6 de fevereiro levou à morte de mais de 50 mil pessoas. Aparentemente, este número é maior do que a quantidade de civis ucranianos mortos durante o primeiro ano da guerra. Mas tais mortes correm o risco de serem rapidamente esquecidas: foi uma “catástrofe natural”, inclusive “uma das maiores catástrofes naturais de nossos tempos”, conforme disse Antônio Guterres, o secretário-geral das Nações Unidas. O que se pode fazer contra uma catástrofe natural? Elas acontecem, paciência. Mas o que significa “natural”?

Qualquer um que se encontrar em um campo ou numa floresta durante um terremoto, mesmo que este seja poderoso, estará correndo pouco risco; apenas os deslizamentos de terra podem constituir um perigo em meio à natureza. Os abalos são perigosos por causa das construções humanas – e tudo depende, portanto, do caráter destas construções. Trata-se de um fato banal, mas frequentemente negligenciado.

Depois do terremoto em Gölcük, em 1999, devido ao qual mais de 17.000 pessoas faleceram, a imprensa turca foi unânime em afirmar: “Assassinos!”. Isso porque todo mundo sabia que se as residências tinham desabado com tanta facilidade, foi porque os construtores haviam utilizado materiais de baixa qualidade – especialmente uma mistura de concreto contendo sal em demasia, uma estratégia para se diminuir os custos em detrimento da estabilidade dos edifícios. No episódio mais recente, os promotores turcos não esperaram os dedos serem apontados a eles; alguns fugiram e foram barrados logo antes de entrar nos aviões. Eles sabiam bem que seriam responsabilizados por esta catástrofe.

A resistência antissísmica não é um privilégio do concreto

Mas em que medida o concreto armado pode ser considerado a causa do número elevado de vítimas? No decorrer da história, casas de pedra não resistiram aos terremotos, que destruíram cidades inteiras. No que diz respeito ao concreto, estamos diante de um fenômeno tipicamente moderno: as construções em concreto armado só se popularizaram verdadeiramente após a Segunda Guerra Mundial – tanto na Europa como no resto do mundo. No entanto, existem construções “antissísmicas” em concreto.

Ademais, a resistência antissísmica não é um privilégio do concreto ou da modernidade: os Incas no Peru utilizavam enormes blocos de pedra que resistiam muito mais aos choques do que os edifícios dos conquistadores espanhóis. Hoje parece ser possível se ter construções em concreto armado que resistem aos abalos, como no Japão. Mas elas custam caro. E é aqui que mora o problema.

É tentador dizer que o problema não é o concreto em si, mas seu uso. No entanto, o concreto tem uma tendência fatal a ser mal utilizado. Trata-se de uma mistura de água, sal, calcário e cascalho. Esta mistura não existe espontaneamente na natureza, mas é produzida pelo homem. Portanto, está suscetível a ser objeto de manipulações, especialmente a utilização de quantidades excessivas de sal para economizar dinheiro. Geralmente, ele é “armado”, isto é, escorre-se o concreto em uma estrutura metálica: outra tentação de se economizar em detrimento da segurança. Por consequência, a corrosão chega rapidamente, e a estrutura cede.

Um material que pode assumir as formas mais diferentes

Outro inconveniente do concreto: ele pode assumir as formas mais diferentes, mas, na prática, ele dá lugar a uma certa uniformidade. Ora, o que pode ser bom nos Países Baixos não o é necessariamente na Turquia, e vice-versa. As formas pré-modernas de se construir sempre eram adaptadas aos contextos locais – e, frequentemente, consideravam as possíveis catástrofes naturais. O concreto, pelo contrário, acaba impondo as mesmas soluções em todos os lugares. Isso porque ele é fácil de se utilizar e é barato.

E isso não traz apenas vantagens, pois leva os detentores de poder político e econômico a patrocinar, muitas vezes por questões de prestígio, projetos gigantescos que não apenas monopolizam uma parcela dos recursos que poderiam ser mais bem utilizados (por exemplo, em moradias populares de qualidade), mas, por vezes, representam verdadeiras ameaças às populações locais, como as barragens e as usinas nucleares.

Construções rápidas nas quais a segurança não é uma preocupação de primeira ordem

O concreto se presta, evidentemente, à construção frenética de grandes quantidades de moradias de baixa qualidade por empresas inescrupulosas. Mas ele também é empregado massivamente nas favelas pelos “autoconstrutores”, que abandonam as construções tradicionais, cuja qualidade passou no teste do tempo, em favor de construções rápidas cuja segurança certamente não é a primeira preocupação.

De fato, as construções em concreto podem ser bastante sólidas. Desde que sejam controladas. Mas em muitos lugares tais controles não são efetivamente realizados, e sua obrigação legal acaba produzindo mais um efeito negativo do concreto: um amplo mercado de corrupção e de complacências, de cumplicidades, clientelismo e de carreiras políticas. Na Itália, a direita ganhou diversas eleições prometendo uma legalização de edifícios construídos sem permissão, ou simplesmente deixando entender que ela toleraria silenciosamente a continuidade destas construções por parte de todas as classes sociais.

*Anselm Jappe é professor na Academia de Belas Artes de Sassari, na Itália. Autor, entre outros livros, de A sociedade autofágica: capitalismo, desmesura e autodestruição (Elefante).

Tradução: Daniel Pavan.

Publicado originalmente pelo jornal Libération.


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