Morte em Veneza – a peça teatral

Dama Bárbara Hepworth, Três formulários, 1969
image_pdf

Por EDUARDO SINKEVISQUE*

Comentário sobre a encenação, em cartaz em São Paulo, por Vinicius Coimbra e Roberto Cordovani

Há um ano mais ou menos, conversei com Roberto Cordovani sobre as idades, sobre o chegar à idade madura, à velhice etc. Roberto me disse que definitivamente faria espetáculos (isso já ocorre há muito) em que ele pudesse dizer essencialmente o que deseja dizer, julgar ter que dizer, dizer o que é imprescindível; segundo sua ética.

Assim se dá em Morte em Veneza que, para além da discussão do amor homo afetivo, encena o debate sobre o belo, a beleza, seus modelos socioculturais, artísticos, humanos, “demasiadamente humanos” num tempo, hoje, em que o padrão de beleza é estabelecido por redes sociais e por intervenções, muitas vezes, cirúrgicas.

Morte em Veneza, um espetáculo mais que pertinente, necessário, põe o expectador frente à discussão sobre o belo em tempos em que o feio, o torpe, parece reinar.

A ação da peça se passa em Veneza, como indicado no nome do espetáculo, mesmo nome do livro, cuja adaptação inédita para o teatro é assinada por Vinicius Coimbra, que também dirige o espetáculo, e Roberto Cordovani, que atua no palco, tendo Guilherme Cabral, em projeção audiovisual, no papel de Tadzio, contracenando com Cordovani no papel do escritor alemão Gustav Von Aschenbach.

A estreia internacional (Morte em Veneza fará carreira viajando pelo Brasil e pelo exterior) foi no dia 21 de abril, no novo Teatro Paiol, em São Paulo.

Em Morte em Veneza, o escritor Gustav Von Aschenbach (Roberto Cordovani) está em crise criativa na sua cidade Munique. Isso ocorre nos primeiros anos do século XX. Gustav decide partir de férias para Veneza.

Gustav Von Aschenbach é rigoroso, obcecado pela perfeição e por atingir a beleza ideal em arte.

Ao chegar a Veneza, hospeda-se em um luxuoso hotel a beira mar. Encontra o jovem Tadzio (Guilherme Cabral). O jovem tem uma beleza natural que, aos olhos do escritor, supera todos os parâmetros por ele já pensados, por ele já definidos em termos de belo artístico, principalmente. Com o passar do tempo, Gustav por observar, tal qual um voyeur, Tadzio em suas atividades físicas, em trajes mínimos, como outros jovens na praia, uma paixão inesperada se instaura no coração do escritor.

As projeções audiovisuais não apenas as que Tadzio aparece, mas as de lugares em Veneza levam a plateia a viajar junto com o protagonista do espetáculo. Não são meras projeções, como pano de fundo ou para contextualizar a ação. Roberto Cordovani passeia por elas, interage com elas, interagindo à maneira do escritor Gustav com Tadzio.

O espetáculo é belo, fazendo jus à discussão temática. Luz, trilha sonora, cenário e, principalmente, figurinos são de muita elegância. A direção encontrou soluções ótimas em um monólogo em que não se tem apenas um ator em cena. As vozes em off, sejam de personagens secundárias, seja quando Gustav está pensando em silêncio, são exemplos de soluções ótimas.

Roberto Cordovani desenha um Gustav Von Aschenbach com todas as nuances de um velho que, ao amar rejuvenesce e que, ao se ver neste delírio e ao adoecer, envelhece mais. É nítido esse processo de rejuvenescer e voltar a envelhecer da personagem, que o talento de Roberto Cordovani põe em carne e osso e em verdade cénica.

A paixão por Tadzio, mais a peste que se dissemina em Veneza, levarão o escritor Gustav à reflexão sobre a tensão entre o artístico e a vida pessoal. Gustav Von Aschenbach vive sentimentos também conflituosos como os de lutar contra a passagem do tempo, entender a decadência do corpo, e a doença, entendida, no espetáculo, como metáfora de um mundo agonizante.

Quem, se não um homem em idade madura, idoso, doente, solitário, frustrado talvez, faria a si mesmo perguntas existenciais sobre a beleza, que não é beleza apenas física, aparente, mas beleza incorpórea, da alma? Gustav Von Aschenbach interroga-se, como quem interroga à vida, ao mudo, critérios para o belo. Seu fascínio sobre a questão incide sobre o jovem Tadzio ganhando proporções muito além do carnal.

Grosso modo, o belo em Platão (340 a. C.) é o ideal da perfeição que só podendo ser contemplado em sua essência por meio de um processo de evolução filosófica e cognitiva do indivíduo por meio da razão, proporcionaria conhecer a verdade harmônica do cosmo. Daí, dizer-se paixão platônica, amor platônico, idealizado, que vive no mundo das ideias e não desceu ainda (quase nunca desce) para o mundo da empiria.

Para Aristóteles (384 a. C), o belo é o bom, o útil, o esplendor da ordem, inerente ao homem.

Nos primeiros anos do século XX, tempo da ação de Morte em Veneza, Thomas Mann para escrever seu romance, adaptado agora para o teatro, vale-se de histórias bíblicas e germânicas, assim como ideias de Goethe, Nietzsche e Schopenauer.

Para Goethe, por exemplo, o belo é uma manifestação de leis secretas da natureza, que, se não se revelassem a nós por meio do belo, permaneceriam eternamente ocultas. Para Nietzsche o belo em si não seria mais que uma miragem ou um ludíbrio, pois se trata de mero espelhamento daquilo que tomamos por belo ou perfeito, ou seja, uma vaidade da espécie.

Em Schopenauer, o belo tem explicação metafísica. O conhecimento do belo se eleva sobre o conhecimento ordinário e o científico, pois esse tem, pelo lado objetivo, os fenômenos relativos e fugazes do princípio de razão, e pelo subjetivo, o sujeito subordinado à vontade. O conhecimento do belo consiste, pelo lado objetivo, nas ideias eternas e arquetípicas de Platão, a objetivação mais adequada possível da vontade, e pelo subjetivo, o puro e atemporal sujeito do conhecimento destituído de vontade e sofrimento.

Em Morte em Veneza, vê-se a euforia e a tentativa de apreensão do belo sublimado, desejo e vontade, delírio; sofrimento e agonia. Gustav Von Aschenbach, na pele, carne, inteligência e sensibilidade de Roberto Cordovani, convida o expectador a refletir sobre a beleza e sobre a projeção dela no humano, para usar novamente um termo de Nietzsche, “demasiadamente humano”.

Morte em Veneza desloca quem assiste ao espetáculo a outros padrões de beleza que não o dos procedimentos estéticos, não o das academias de ginástica, não o padrão de beleza dos filtros do instagram.

*Eduardo Sinkevisque é pós-doutor em teoria literária pelo Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Referência


Morte em Veneza
Adaptação da novela de Thomas Mann e direção: Vinicius Coimbra.
Adaptação e estruturação teatral: Roberto Cordovani.
Elenco: Roberto Cordovani e Guilherme Cabral.
Vozes off: Debora Olivieri, Ruben Gabira, Vinicius Coimbra.
Trilha Sonora: Sacha Amback.
Cenário: Kerrys Aldalbalde.
Figurinos: Renaldo Machado.
Teatro Paiol – Rua Amaral Gurgel, 164 / São Paulo-SP.
Até 04 de julho. Sextas e sábados às 21:00 hs; domingos às 20:00 hs.


A Terra é Redonda existe graças aos nossos leitores e apoiadores.
Ajude-nos a manter esta ideia.
CONTRIBUA

Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
Para além de Marx, Foucault, Frankfurt
25 Jan 2026 Por JOSÉ CRISÓSTOMO DE SOUZA: Apresentação do autor ao livro recém-publicado
2
Avaliação e produtivismo na universidade
23 Jan 2026 Por DANICHI HAUSEN MIZOGUCHI: A celebração das notas da CAPES diante do estrangulamento orçamentário revela a contradição obscena de uma universidade que internalizou o produtivismo neoliberal como nova liturgia acadêmica
3
O teto de vidro da decolonialidade
29 Jan 2026 Por RAFAEL SOUSA SIQUEIRA: A crítica decolonial, ao essencializar raça e território, acaba por negar as bases materiais do colonialismo, tornando-se uma importação acadêmica que silencia tradições locais de luta
4
A ilusão da distopia
27 Jan 2026 Por RICARDO L. C. AMORIM: O novo capitalismo não retorna ao passado bárbaro; ele o supera com uma exploração mais sofisticada, onde a submissão é voluntária e a riqueza se concentra sem necessidade de grilhões visíveis
5
O Conselho da Paz de Donald Trump
24 Jan 2026 Por TARSO GENRO: Da aridez de Juan Rulfo ao cinismo da extrema direita mundial, Tarso Genro denuncia a transição da cena pública para uma era de tirania privada, em que a gestão do caos e a aniquilação de povos desafiam a humanidade a resgatar o frescor de suas utopias perdidas
6
Júlio Lancellotti
28 Jan 2026 Por MARCELO SANCHES: A relevância de Padre Júlio está em recolocar a fé no chão concreto da vida, denunciando o cristianismo que serve ao poder e legitima a desigualdade
7
Notas sobre a desigualdade social
22 Jan 2026 Por DANIEL SOARES RUMBELSPERGER RODRIGUES & FERNANDA PERNASETTI DE FARIAS FIGUEIREDO: A questão central não é a alta carga tributária, mas sua distribuição perversa: um Estado que aufere seus recursos majoritariamente do consumo é um Estado que institucionaliza a desigualdade que diz combater
8
Enamed e cretinismo parlamentar estratégico
27 Jan 2026 Por PAULO CAPEL NARVAI: É mais prático e eficaz fechar cursos e colocar um fim na farra da venda de diplomas disfarçada de formação. Mas não é nada fácil fazer isso, pois quem consegue enfrentar congressistas venais?
9
Hamnet – a vida antes de Hamlet
19 Jan 2026 Por JOÃO LANARI BO: Comentário sobre o filme dirigido por Chloé Zhao, em cartaz nos cinemas
10
Energia nuclear brasileira
06 Dec 2025 Por ANA LUIZA ROCHA PORTO & FERNANDO MARTINI: Em um momento decisivo, a soberania energética e o destino nacional se encontram na encruzilhada da tecnologia nuclear
11
Poder de dissuasão
23 Jan 2026 Por JOSÉ MAURÍCIO BUSTANI & PAULO NOGUEIRA BATISTA JR.: Num mundo de hegemonias em declínio, a dissuasão não é belicismo, mas a condição básica de soberania: sem ela, o Brasil será sempre um gigante de pés de barro à mercê dos caprichos imperiais
12
Hamnet
24 Jan 2026 Por RICARDO EVANDRO SANTOS MARTINS: Entre a fitoterapia de Agnes e a poética de Shakespeare, o filme revela como o saber silenciado das mulheres e o trabalho de luto desafiam a fronteira da morte
13
O exemplo de Sorbonne
29 Jan 2026 Por EVERTON FARGONI: A recusa da Sorbonne aos rankings é um ato de insubordinação: nega a redução do conhecimento a métricas e reafirma a universidade como espaço de crítica, não de produtividade alienada
14
Entradas: fotografias — Um ensaio de antropologia visual
25 Jan 2026 Por ANNATERESA FABRIS: Comentários sobre o livro de Carlos Fadon Vicente
15
O declínio da família no Brasil
21 Jan 2026 Por GIOVANNI ALVES: A explosão de lares unipessoais e a adultescência prolongada são duas faces da mesma moeda: a desintegração da família como infraestrutura antropológica, substituída por uma solidão funcional ao capital financeirizado
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES