Como funciona a cabeça de um entreguista?

Imagem: Geancarlo Peruzzolo
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Por JEAN PIERRE CHAUVIN*

A reeleição de Donald Trump voltou a atiçar sem-corações e dementes entreguistas. Certamente haverá quem defenda o “tarifaço” trumpista, como se confirmasse a virtude de um estadista

Dentre as aberrações pseudopolíticas que se popularizaram justamente por soar e agir de modo bruto – de red pills a senadores, sem esquecer o enxame de marombeiros – está a figura peculiar do patriota-entreguista.

Frequentemente, esse tipo é o primeiro a se colorir de verde-e-amarelo, espetar súmulas brasileiras em seu veículo caro e/ou superpotente, quando não se enrodilhar na bandeira nacional, caprichando na indumentária, feito orgulhoso bobo da corte.

Seu discurso é orientado pela reprodução de clichês, tais como “meu partido é o Brasil” e, nos diálogos com outros seres de sua estirpe, diz odiar “política” e ser contra a “polarização”, mesmo porque não se vê como representante da ideologia conservadora.

O “homem de bem” está em muitos lugares e é facilmente detectável: sua postura supostamente isenta transparece, por exemplo, no discurso de um jovem atleta bem-nascido, muitas vezes empresariado pelos familiares, que proclama “não ser de um lado, nem do outro”; na chamada do entrevistador dos canais de streaming, que “dá oportunidade para todos os lados se manifestarem” (em nome dos patrocinadores e da audiência, é claro); e, obviamente, persiste na redação dos jornais corporativos mais lidos neste território, que nem a Deus pertence.

Assim como acontece no sujeito que precisa realçar sua índole virtuosa, ainda que não a distingamos, o entreguista chama atenção sobre si mesmo reivindicando patriotismo exacerbado, embora passe mais tempo fora do mapa – de preferência em Orlando – absolutamente alheio à miséria social do país que tanto diz “amar” e cujos interesses jura “defender”.  

O falso patriota é, em suma, um exclusivista. Ele acredita (ou finge acreditar) que, assim como ele, há (poucas) pessoas melhores e mais capazes em seu pedaço, o que explica o dinheiro que conquistou “com muito trabalho”; o êxito profissional, o cargo (in)útil superbem remunerado; a diversificação de (seus) altos investimentos…

Se pretendermos ser contemplados com a dádiva da sua amizade, em qualquer situação, nosso discurso não poderá recair em termos “ideológicos”, como inclusão, assistência social, combate à desigualdade, privilégio etc.

Até mesmo o conceito de democracia (a única faceta branda do neoliberalismo rentista) tem sido alvo de sua ira. Porque, assim como grande parte da classe média brasileira, o maior temor do entreguista é ser confundindo com essas “gentes diferenciadas” que conspurcam a sua região, o seu bairro – que agora conta com corredores de ônibus e estações de metrô.

Um dos maiores sintomas do entreguismo é justamente a descrença no país (o que, só na mente alienada “justifica” carregar cartazes em inglês, do tipo “USA, help US”), especialmente quando governado por sujeitos capazes de nomear e reconhecer os problemas. O mais “perto” que o Brasil chegou do comunismo foi durante um comício em que João Goulart se solidarizou com o discurso dos trabalhadores, em 1964. O “governo de transição” ficou vinte e um anos no poder, a repetir as bravatas contra o comunismo, servilmente importadas aos Estados Unidos, “terra da democracia e da liberdade”.

Para além de apontar irresponsabilidades, o livre trânsito de fake news (em nome da “liberdade de expressão”) e do analfabetismo político, tendemos a supor que, numa democracia representativa, a câmara de deputados e o congresso nacional sumarizam o modo de pensar (ou de reproduzir) das corporações e indivíduos.

Se esse for o retrato legítimo do país, uma conta ligeira mostrará a mesma proporção de latifundiários, pseudorreligiosos e plutocratas tanto no Distrito Federal quanto na Vereança e na Assembleia Legislativa de vários Estados, por exemplo o de São Paulo – que de Tucanistão (durante três décadas) virou à extrema direita, apelidada de “bolsonarismo light” pela imprensa patronal – financiada por conglomerados financeiros e obcecada em derrotar o “lulopetismo”.

A reeleição de Donald Trump voltou a atiçar sem-corações e dementes entreguistas. Certamente haverá quem defenda o “tarifaço” trumpista, como se confirmasse a virtude de um estadista preocupado em salvar a economia de seu país e “melhorar” a vida dos citizens. Não seria preciso calcular quanto esses mesmos “patriotas” espumariam de raiva se o Presidente do Brasil, defendendo a soberania nacional e a maior independência econômica em relação ao dólar, agisse de modo similar ou discursasse em defesa do povo.

O patriotismo-entreguista é a versão requentada e menos inteligente do integralismo e do verdeamarelismo, que, nas palavras de Marilena Chaui, foi “elaborado no curso dos anos pela classe dominante brasileira como imagem celebrativa do ‘país essencialmente agrário’ e sua construção coincide com o período em que o ‘princípio da nacionalidade’ era definido pela extensão do território e pela densidade demográfica. De fato, essa imagem visava legitimar o que restara do sistema colonial e a hegemonia dos proprietários de terra durante o Império e início da República”[i].

Afora a inapetência confessa, banhada em hipocrisia, contradições morais e limitações cognitivas, parece haver nesses espécimes um desejo enrustido por sujeitos fardados; a vontade de lamber o cano da espingarda; a sanha por empunhar facas e calçar botas, estilizando uma espécie de Rambo: aquele que “libertou” os prisioneiros de guerra no “totalitário” Vietnã (um dos traumas de guerra insuperados pelo país que o personagem representa).

A proliferação desses “heróis de guerra” nos trópicos é apenas um sintoma de como parte de nossa sociedade é estruturalmente autoritária e violenta. Sádica, se orgulha por protagonizar a repetição do lema “o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil”, enquanto se vangloria por sua posição social olímpica.

*Jean Pierre Chauvin é professor de Cultura e literatura brasileira na Escola de Comunicação e Artes da USP. Autor, entre outros livros de Da arte de (se) orientar [para pós-modernos e geração Z] (Ponta de Lança).

Nota


[i] Brasil: mito fundador e sociedade autoritária. São Paulo, Perseu Abramo, 2000, p. 32.


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