Abordagem estruturalista da economia brasileira

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Por FERNANDO NOGUEIRA DA COSTA*

O Brasil é peculiar: a agricultura tem peso superior à média dos grandes países, e a indústria de transformação perdeu e depois recuperou participação, não chegando a reforçar apenas uma especialização primário-exportadora.

1.

Países com grandes populações possuem um grande mercado interno e não são tão dependentes de exportação, para adicionar valor ao PIB, fato demonstrado pela baixa relação entre fluxo comercial e PIB dos países no ranking dos dez maiores, exceto os europeus atuantes no bloco comercial da União Europeia. O maior valor adicionado está em serviços, e não em agricultura e indústria, como acontece na economia brasileira.

A liberal “Teoria das vantagens competitivas” de David Ricardo não explica a atual realidade de globalização ou cadeias globais de valores com empresas transnacionais em todos esses países.

Esses três pontos interconectados apresentam níveis distintos de análise: estrutural, estatístico e teórico.

No primeiro plano, está o mercado interno e dependência das exportações: grandes populações propiciam grandes mercados internos. Países como EUA, China, Índia e Brasil têm um PIB fortemente sustentado pelo consumo doméstico.

Por exemplo, nos EUA, o consumo das famílias responde por ~70% do PIB, e as exportações representam apenas ~12% do PIB. Na China, mesmo sendo potência exportadora, a parcela do mercado interno cresceu muito: o setor de serviços já é mais de 52% do PIB.

Índia é outro caso típico: mais de 60% do PIB vem de serviços e a inserção em cadeias industriais globais é relativamente pequena, apesar da grande população.

Europa Ocidental e União Europeia apresentam outra lógica. Países médios/pequenos (Alemanha, França, Holanda) dependem mais das exportações, porque seus mercados domésticos não têm escala comparável a China ou EUA. A integração do bloco europeu permite diluir essa limitação, mas aumenta o peso relativo das exportações no PIB.

O maior valor adicionado nas economias avançadas e populosas acontece em serviços (finanças, tecnologia, logística, saúde, educação, cultura etc.). Agricultura é residual (<2% do PIB nos EUA, UE, China e Índia).

Indústria mantém peso estratégico, mas tende a representar 20–30% do PIB (China mais próxima de 27%, EUA ~18%). No Brasil. caiu para ~12%, mas recuperou-se na pandemia pela queda do consumo de serviços. Em 2023, a Indústria de Transformação atingiu 15,2% do PIB e, em 2024, caiu para 14,4%.

A Indústria Geral, após o distanciamento social, atingiu 26,3% em 2022, embora, posteriormente, em 2024, tenha caído para 24,7%. Naquela alta, o destaque foi a Indústria Extrativa ter atingido 5,5%.

2.

O Brasil se diferencia por uma desindustrialização precoce porque serviços passaram de 70% do PIB, entre 2014 e 2020, mas não têm a sofisticação típica de serviços em países centrais (alta P&D, TICs, finanças globais). Há forte peso de commodities agro minerais na pauta exportadora, apesar de sua baixa participação no PIB. Isso gera a contradição: PIB dominado por serviços de baixa produtividade, mas exportações baseadas em setores primários.

No entanto, tem de se observar a limitações da teoria ricardiana de abertura externa e liberalização plena do comércio exterior na Era da globalização. David Ricardo (1817) formulou a Teoria das Vantagens Comparativas supondo: cada país especializado em um setor; comércio entre países soberanos e separados; estruturas produtivas nacionais relativamente autônomas.

As Cadeias Globais de Valor (CGV) e empresas transnacionais desafiam essa visão. A produção fragmentada, por exemplo, um celular da Apple envolve design nos EUA, semicondutores de Taiwan/Coreia, montagem na China, logística global.

Não se trata mais de vantagem comparativa nacional, mas de vantagens competitivas corporativas dentro de redes transnacionais. As “vantagens” passam a ser tecnologia, propriedade intelectual, controle de logística e finanças – e não apenas dotação de fatores (terra, capital, trabalho).

Há teorias mais recentes para explicar essa realidade como a nova teoria do comércio com ênfase em economias de escala, concorrência imperfeita e papel da inovação. A teoria das cadeias globais de valor foca no poder das transnacionais de organizar redes de fornecedores globais.

A economia política crítica/estruturalista da escola de Campinas mostra como países periféricos ficam presos em elos de baixo valor agregado (commodities, manufaturas simples) enquanto países centrais controlam os elos de maior valor (design, P&D, finanças, propriedade intelectual).

Os países com grandes populações têm menor dependência de exportações porque sustentam seu crescimento em mercados internos amplos e dinâmicos. O valor adicionado maior está em serviços sofisticados, enquanto no Brasil predominaria, na visão neoliberal, a combinação de serviços de baixa produtividade e exportações primárias.

A teoria ricardiana não dá conta da realidade das cadeias globais de valor. Hoje, mais relevante diante a “vantagem comparativa nacional” é o posicionamento nas redes transnacionais controladas por grandes corporações.

3.

Grandes populações (EUA, China, Índia, Indonésia, Brasil, Rússia) sustentam mercados internos robustos, com demanda diversificada e escala de produção doméstica. Isso implica uma baixa relação comércio exterior / PIB (exportações + importações – fluxos comerciais – relativamente menores em proporção ao PIB). Já países menores e altamente integrados a blocos regionais (Alemanha, França, Reino Unido) dependem mais do comércio internacional para manter dinamismo.

Quanto abertura ao comércio internacional: exportação + importação como % PIB em 2023: o médio foi 95%. O valor mais alto foi em Luxemburgo: 386% e o valor mais baixo foi em Sudão: 7%. Os Estados Unidos só o superam com 25%.

Vou dar alguns exemplos expressivos desse indicador relativo: Coreia do Sul 88%, Alemanha 83%, México 73%, Espanha 72%, França 71%, Canadá 66%, Itália 66%, África do Sul 65%. Estes estão entre os 100 maiores. Reino Unido alcança 64% em 102º. lugar. Japão em 127º atinge 45% e em seguida vem Índia também com 45%. Rússia chega a 41%, China 36%, Brasil a 34%, Argentina 27% e Estados Unidos 25% somente mais aberto diante o Sudão (7%). Confira neste link.

Quanto à exportação de bens e serviços como percentagem do PIB, a maior relação foi a de Luxemburgo com 218% e o Brasil atingiu 18%, pouco abaixo da China com 19% e acima do Estados Unidos com 11%. Não dá para generalizar o mesmo diagnóstico e receita para diferentes casos…

Confira neste link.

Quanto à composição setorial do valor adicionado. Serviços predominam no PIB dos países mais ricos e populosos (EUA, China, Índia, Brasil, Japão,). Indústria ainda tem peso importante em emergentes industrializados (China, Coreia do Sul). Agricultura só tem relevância relativa em países de renda média ou baixa.

O Brasil é peculiar: a agricultura tem peso superior à média dos grandes países, e a indústria de transformação perdeu e depois recuperou participação, não chegando a reforçar apenas uma especialização primário-exportadora.

Diante dessa realidade, observa-se as limitações da teoria ricardiana (vantagens comparativas). David Ricardo (1817) formulou a teoria em um mundo de comércio entre nações autônomas, com fatores produtivos (trabalho, capital, tecnologia) imobilizados.

A realidade atual é de cadeias globais de valor (CGV). Empresas transnacionais fragmentam a produção entre países. Não se negocia apenas bens finais, mas etapas do processo produtivo (insumos, componentes, serviços de P&D, design, marketing). Isso gera “vantagens competitivas dinâmicas”, baseadas em: inovação e tecnologia; logística e integração em redes globais; capacidade de internalizar serviços de maior valor agregado.

A especialização simples, sugerida por David Ricardo (“cada país produz aquilo com menor custo relativo”), não explica (i) por qual razão a China não se limita a produtos industriais baratos, mas escala para alta tecnologia; (ii) por qual razão os EUA mantêm liderança em serviços digitais e financeiros, apesar de não serem os mais “eficientes” em manufatura; (iii) por qual razão o Brasil fica preso em commodities mesmo tendo grande mercado interno. Alguns “especialistas” dizem ser devido a fatores estruturais como baixa inserção em cadeias globais de valor de alto valor, políticas industriais frágeis, dominância financeira.

4.

Em síntese, país com mercado interno robusto tem menor dependência de exportação. Valor adicionado global está concentrado em serviços e intangíveis, não em bens primários. Ricardo é insuficiente para explicar hoje a lógica de redes transnacionais, inovação e poder das empresas globais.

Sem “complexo de vira-lata”, em lugar de só ver o indicador de fluxo comercial diante do PIB, os brasileiros deveriam observar sim a dimensão populacional e o mercado interno do país. Países de grande população (EUA, China, Índia, Indonésia, Brasil) conseguem gerar uma base de demanda doméstica robusta. Isso lhes garante um amortecedor frente a choques externos, ao contrário de países pequenos e muito abertos, por exemplo, Chile com 61%, Coreia do Sul com 88%, Vietnam com 165% e Singapura com 309%, cuja relação comércio/PIB é elevada.

Abaixo está um quadro comparativo ao mostrar a composição do PIB (agricultura, indústria e serviços) e o grau de dependência do comércio internacional (relação comércio/PIB) dos 10 maiores países em termos de PIB nominal, com base nos dados mais recentes disponíveis.

PaísAgricultura (%)Indústria (%)Serviços (%)Comércio/PIB (%)
Estados Unidos1,0%19,0%80,0%24,9%
China6,9%40,5%51,6%36,4%
Japão0,9%30,1%68,7%45,1%
Alemanha0,8%19,1%80,0%82,8%
Índia16,2%22,0%61,0%45,0%
Reino Unido0,6%19,1%80,3%64,0%
França1,7%25,1%70,9%70,6%
Brasil6,0%25,0%69,0%33,6%
Canadá1,6%25,1%70,9%66,2%
Itália1,9%25,1%70,9%66,1%

Fontes:

Composição do PIB por setor: List of countries by GDP sector composition

Relação comércio/PIB: List of countries by trade-to-GDP ratio

A exceção europeia se explica pela integração do bloco: cada país, isoladamente pequeno, amplia seu mercado ao operar no interior da União Europeia. Eleva, por isso, o grau de abertura.

Nos maiores PIBs, o setor serviços predomina (EUA ~77% do PIB; Japão ~69%; Reino Unido ~80%). Isso ocorre porque serviços como finanças, tecnologia, logística, saúde, educação e propriedade intelectual concentram valor e dependem menos de comércio físico.

No Brasil, a participação de serviços (~69%) é similar à dos países ricos, mas agricultura e indústria têm peso relativamente maior na pauta exportadora, diante o valor adicionado no PIB. Isso cria uma aparente contradição mal interpretada: exporta bens primários (soja, minério, petróleo), supostamente com baixo valor agregado em comparação setorial, mas não em termos do sucesso financeiro-empresarial de agronegócio, petronegócio e exportação de minérios, enquanto o mercado interno sustenta serviços de menor sofisticação tecnológica.

*Fernando Nogueira da Costa é professor titular do Instituto de Economia da Unicamp. Autor, entre outros livros, de Brasil dos bancos (EDUSP). [https://amzn.to/4dvKtBb]

Link para download do livro Resistência antifascista:

Fernando Nogueira da Costa – Resistência Antifascista – ago 2025

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