O milagre chinês acabou?

Imagem: João Jesus
Whatsapp
Facebook
Twitter
Instagram
Telegram

Por YAO YANG*

O governo da China está tomando medidas ousadas, apesar dos custos de curto prazo

O desempenho econômico da China no último ano tem sido decepcionante – tanto que alguns observadores argumentam que o crescimento já atingiu o pico, e que tudo está descendo a partir daqui. Mas é muito cedo para descartar a resiliência econômica da China.

Quando 2023 começou, o levantamento das restrições draconianas “zero-COVID” alimentou uma espécie de euforia doméstica, refletida no aumento do consumo. Mas o quadro logo escureceu, pois o segundo trimestre trouxe exportações em declínio, vendas estagnadas no varejo, lucros corporativos encolhidos, cortes de gastos do governo local e um setor imobiliário enfraquecido. A confiança empresarial chinesa despencou e as empresas estrangeiras se assustaram. Em novembro, a China registrou seu primeiro déficit trimestral em investimento estrangeiro direto.

Mesmo assim, a economia da China provavelmente crescerá pelo menos 5% neste ano – uma taxa respeitável, para os padrões internacionais. Mais importante, a economia da China ainda tem muito combustível no tanque: uma taxa de poupança recorde significa que ainda tem muito financiamento barato para investimento e inovação.

A China já está investindo pesado nas tecnologias – como energia renovável, veículos elétricos e inteligência artificial – que moldarão a economia global nas próximas décadas. A China também está desenvolvendo rapidamente sua capacidade em tecnologias emergentes como fusão nuclear, computação quântica, comunicação quântica e semicondutores fotônicos. Sabemos que essa estratégia funciona: outras economias bem-sucedidas, como o Japão nas décadas de 1970 e 1980, provaram isso.

Mas a China enfrenta ventos contrários ao crescimento. As tensões geopolíticas – em particular, o esforço liderado pelos Estados Unidos para “desacoplar” economicamente da China – estão desencorajando os investimentos estrangeiros, assim como estão estimulando as empresas a diversificar sua produção para longe da China. Mas, em vez de deixar a China completamente, muitas empresas estrangeiras estão adotando uma estratégia “China+1”, abrindo novas instalações em um terceiro país, mantendo suas operações chinesas.

A razão é simples: com 30% do valor agregado total da manufatura mundial – um montante igual às participações da Alemanha, Japão e EUA combinados – a China ainda oferece às empresas uma enorme vantagem de custo. Acrescentando a existência de um enorme excesso de capacidade, é possível ver que o setor manufatureiro da China continuará a prosperar. Na verdade, a única coisa que o esforço de dissociação dos EUA ao fim e ao cabo conseguirá é estimular a China a acelerar o desenvolvimento de suas próprias capacidades de fabricação no exterior, assim como o Japão tem feito desde a década de 1980.

O provável impacto de tendências demográficas desfavoráveis sobre o crescimento de longo prazo é igualmente exagerado. Sim, a população da China está envelhecendo e encolhendo rapidamente. Mas, à medida que a inteligência artificial permite a automação de um número crescente de tarefas, a produtividade aumentará e a demanda por trabalho humano cairá. Junto com a melhoria da educação, isso deve mais do que compensar a contração da força de trabalho – possivelmente até criando o problema oposto: poucos empregos.

Então, o que explica a lenta recuperação da China da pandemia de COVID-19? A resposta está na política governamental.

Nos últimos anos, o governo central tem trabalhado para combater os desequilíbrios que ameaçam as perspectivas de crescimento de longo prazo da China – começando com dívidas maciças detidas por empresas estatais, empresas privadas (como incorporadoras imobiliárias) e governos locais. Se a China aprendeu alguma coisa com os EUA, é que a financeirização excessiva pode destruir o setor manufatureiro de um país. É por isso que as autoridades chinesas estão empenhadas em desalavancar, ou seja, conter o avanço da financeirização.

Os governos locais são uma prioridade máxima nesta frente. Desde 2010, a China tem buscado duas grandes rodadas de expansão fiscal e monetária, cada uma das quais levou a um aumento nas dívidas comerciais dos governos locais. Após a primeira rodada, em 2014-18, o governo central permitiu que os governos locais emitissem títulos de longo prazo no valor de 8 trilhões de ienes (US$ 1,1 trilhão), para que pudessem pagar suas dívidas comerciais – uma espécie de programa de troca de dívida. Mas os governos locais foram novamente forçados a contrair empréstimos pesados durante a pandemia de COVID-19, acumulando ainda mais dívidas que as autoridades ainda estão trabalhando para resolver.

Outra prioridade para o governo central é acabar com a comercialização excessiva de alguns setores. Considere o setor de tutoria: as famílias pagam às empresas de educação privada pelas aulas extracurriculares, na esperança de dar aos filhos uma vantagem sobre seus colegas. Mas essas empresas cobram preços altos, que os pais lutam para pagar, mas oferecem poucos benefícios aos alunos, que já estão trabalhando duro na escola. Assim, em 2021 – com a indústria de tutorias privadas tendo aumentado para US$ 120 bilhões – as autoridades proibiram a tutoria pós-escolar com fins lucrativos em disciplinas essenciais.

O terceiro desequilíbrio fundamental que o governo da China está tentando reduzir está no setor imobiliário, que é simplesmente muito grande, respondendo por cerca de um quarto de todo o investimento fixo entre 2013 e 2021. Com algumas grandes incorporadoras agora lutando para pagar suas dívidas, estabilizar o setor se tornou uma prioridade para os formuladores de políticas.

Nenhum desses desequilíbrios representa uma ameaça iminente ao crescimento chinês. Mas reduzi-los reforçará a saúde econômica de longo prazo da China. É por isso que o governo da China está tomando medidas ousadas, apesar dos custos de curto prazo. Por exemplo, as vendas de imóveis despencaram cerca de 40% desde meados de 2021, em grande parte devido aos esforços do governo para controlar o setor.

A boa notícia é que o governo estabeleceu o crescimento como sua principal meta para este ano e implantou novas políticas monetárias e fiscais expansionistas. Notavelmente, com as autoridades monetárias incentivando os bancos a retomarem os empréstimos a incorporadoras, espera-se que o setor imobiliário volte ao normal este ano.

*Yang Yao é professor no Centro de Pesquisa Econômica da China e na Escola Nacional de Desenvolvimento da Universidade de Pequim.

Tradução: Eleutério F. S. Prado.

Publicado originalmente no portal Project Syndicate.


A Terra é Redonda existe graças aos nossos leitores e apoiadores.
Ajude-nos a manter esta ideia.
CONTRIBUA

Veja neste link todos artigos de

AUTORES

TEMAS

MAIS AUTORES

Lista aleatória de 160 entre mais de 1.900 autores.
Marcos Aurélio da Silva Fernão Pessoa Ramos Jorge Luiz Souto Maior Francisco Pereira de Farias Marcus Ianoni Ricardo Antunes José Costa Júnior Mário Maestri Leda Maria Paulani Luiz Renato Martins Dênis de Moraes Paulo Fernandes Silveira Andrew Korybko Marcelo Guimarães Lima Manchetômetro Paulo Capel Narvai Antonino Infranca Eugênio Bucci Denilson Cordeiro Mariarosaria Fabris Jean Marc Von Der Weid Julian Rodrigues Thomas Piketty Gilberto Maringoni João Carlos Salles Daniel Costa Bento Prado Jr. Juarez Guimarães Armando Boito Berenice Bento João Carlos Loebens Lorenzo Vitral Gerson Almeida Marilia Pacheco Fiorillo Francisco Fernandes Ladeira Chico Whitaker Milton Pinheiro Ronald Rocha Ronaldo Tadeu de Souza Marcos Silva Maria Rita Kehl Alexandre Aragão de Albuquerque Vinício Carrilho Martinez Ricardo Fabbrini Eduardo Borges Rafael R. Ioris Ladislau Dowbor Salem Nasser Antonio Martins Sergio Amadeu da Silveira Michael Roberts Luciano Nascimento Ricardo Abramovay Dennis Oliveira Anselm Jappe Luiz Roberto Alves Ricardo Musse Jean Pierre Chauvin Flávio Aguiar Carlos Tautz Michael Löwy João Lanari Bo Marjorie C. Marona Eugênio Trivinho Rodrigo de Faria Daniel Afonso da Silva Tarso Genro Luis Felipe Miguel João Paulo Ayub Fonseca João Adolfo Hansen Renato Dagnino José Dirceu Matheus Silveira de Souza Eleonora Albano José Geraldo Couto Boaventura de Sousa Santos Ronald León Núñez Gabriel Cohn Chico Alencar Henri Acselrad Valerio Arcary Valerio Arcary Walnice Nogueira Galvão Fernando Nogueira da Costa Annateresa Fabris Paulo Sérgio Pinheiro Sandra Bitencourt Luiz Werneck Vianna Celso Favaretto Eliziário Andrade Marilena Chauí José Raimundo Trindade Elias Jabbour Tales Ab'Sáber Alexandre de Lima Castro Tranjan Caio Bugiato Benicio Viero Schmidt Gilberto Lopes Tadeu Valadares João Sette Whitaker Ferreira Claudio Katz Bernardo Ricupero Celso Frederico Priscila Figueiredo José Machado Moita Neto Igor Felippe Santos Lincoln Secco Lucas Fiaschetti Estevez André Singer Anderson Alves Esteves Leonardo Boff Michel Goulart da Silva Atilio A. Boron Rubens Pinto Lyra Samuel Kilsztajn Alexandre de Freitas Barbosa João Feres Júnior Remy José Fontana Luís Fernando Vitagliano Fábio Konder Comparato Luiz Eduardo Soares Vladimir Safatle Francisco de Oliveira Barros Júnior Bruno Machado Everaldo de Oliveira Andrade Kátia Gerab Baggio Slavoj Žižek Heraldo Campos Luiz Marques José Luís Fiori Daniel Brazil Plínio de Arruda Sampaio Jr. Leonardo Avritzer Luiz Carlos Bresser-Pereira Antônio Sales Rios Neto José Micaelson Lacerda Morais Alysson Leandro Mascaro Eleutério F. S. Prado Liszt Vieira André Márcio Neves Soares Marcelo Módolo Afrânio Catani Ari Marcelo Solon Osvaldo Coggiola Carla Teixeira Yuri Martins-Fontes Otaviano Helene Bruno Fabricio Alcebino da Silva Jorge Branco Vanderlei Tenório Andrés del Río Henry Burnett Flávio R. Kothe Manuel Domingos Neto Paulo Nogueira Batista Jr Leonardo Sacramento Luiz Bernardo Pericás Airton Paschoa Érico Andrade Paulo Martins

NOVAS PUBLICAÇÕES

Pesquisa detalhada