O internacionalismo das ruas

Imagem: Florian Olivo
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Por LUIZ MARQUES*

Da fabricação do “capital humano” à militarização das Big Techs, o projeto neoliberal desemboca em uma “democracia cara dura” que só o internacionalismo das ruas pode enfrentar

“… tudo em minha volta / anda às tontas / como se as coisas / fossem todas / afinal de contas” (Paulo Leminski)

1.

O estudo sobre as normas impostas aos humanos é fundamental para compreender de que modo penetram nossa subjetividade. A fonte das reflexões acha-se em Nascimento da biopolítica, o curso dado por Michel Foucault no Collège de France (1978-1979), publicado postumamente em 2004.

O desafio foucaultiano é revelar o poder no interior das relações econômicas, orientado pela bússola da biopolítica: “fazer viver e deixar morrer”. As técnicas e estatísticas sobre os fenômenos de delinquência, higiene, saúde, etc. fornecem as informações úteis para estipular as normativas para o controle sobre a vida dos indivíduos. A divisória entre o liberalismo do século XIX e o neoliberalismo no século XX reside, não em se o governo e a legislação devem intervir, mas em como obter os efeitos desejados. O conhecimento ajuda o intento.

A marcha acelera a partir dos anos setenta, quando Friedrich Hayek (1974) e Milton Friedman (1976) ganham o Prêmio Nobel de Economia. O paradigma da concorrência ampla e irrestrita forja o Homo economicus. Os meios de comunicação de massas entram na onda. O Big Brother Brasil (BBB) celebra o individualismo no contexto torturante e humilhante do fratricídio, dito “um jogo”. O próprio aparelho estatal é regulado e financeirizado pelos critérios ambiciosos de rentabilização do mercado.

O termo “capital humano” aplicado às pessoas mostra que não somos mais uma força de trabalho com um preço, senão o simulacro de uma empresa cujo capital de competências guia os rendimentos. O indivíduo é o empresário de si mesmo com a obrigação de fazer escolhas para otimizar os seus ativos. Nada a ver com uma ética tradicional das virtudes. É o neoliberalismo, camarada. “Onde os fracos não tem vez”.

O desempenho governamental e as leis são avaliados sob a ótica mercadológica em um tribunal permanente contra os governos. São descartadas as análises panorâmicas do processo econômico e, idem, o planejamento. Os quesitos admitidos advêm da autovalorização do capital humano, que todos possuem, sendo o que separa os vencedores (winnners) dos perdedores (losers). “O mercado é um novo deus”, frisa Christian Laval, no ensaio Foucault, Bourdieu e a questão neoliberal.

A concentração do mal no Estado alimenta a fantasmagoria da sociedade civil virgem de poderes, crendo que a “modernização” corresponde à crise de acumulação. Ignora que a revolução de 1968 quando bombava o capital antecede 1973, o embargo petrolífero. A crise é mais profunda do que imaginam. Incide nas instituições em geral, em razão da desativação metódica de todas instâncias de participação democrática.

O economicismo não percebe o movimento da moral e costumes, e os afetos envolvidos na propagação das inovações tecnológicas no cotidiano. Não mede o impacto subjetivo provocado no caleidoscópio de expectativas sobre o futuro, no contexto de uma realidade tão líquida quanto a política de tarifaços.

2.

Ontem, emprego, renda, bens sociais eram trocados por novos alvos: a estabilidade dos preços, o equilíbrio orçamentário comparado ao das famílias, privatização levava ao progresso. Hoje, as catástrofes solapam a governança. A emergência afrouxa a fiscalização de atos administrativos. A especulação cresce nas tragédias após o furacão Katrina em Nova Orleans.

Amanhã, certo mesmo é o reforço da indústria armamentista que prepara a tempestade perfeita (perfect storm), para breve. O sagrado dogma da desregulamentação dos mercados nacionais, com o esvaziamento dos órgãos multilaterais, transfere-se para o conjunto das conexões entre as nações.

O governo estadunidense, com aporte recente de 800 milhões de dólares para tornar seu espaço aéreo intransponível, aumenta em 50% os gastos militares para 2027 e bate na cifra impressionante de 1,5 trilhão de dólares. A União Europeia endossa a corrida insana. Em 2024 gastou 343 bilhões de euros em rearmamento e, em 2025, 392 bilhões de euros. Dinheiro que falta aos serviços prestados pelo Estado de bem-estar social.

A inserção das Big Techs no complexo financeiro-militar realoca o imperialismo fragilizado pela desindustrialização inevitável. A Inteligência artificial e as plataformas digitais ocupam, agora, o centro da guerra e da defesa. O Conselho de Segurança da ONU desaparece. O ocaso do direito internacional ecoa a beligerância. O sequestro de Nicolás Maduro e Cilia Flores não seria possível sem um Comando Cibernético para os cortes de energia e de internet, na aventura em Caracas.

Para José Luís Fiori, no artigo “No caminho do caos” – postado no site A Terra é Redonda: “O projeto estratégico de Donald Trump representa uma aposta radical na conquista unipolar de um império militar global, capaz de impor pela força as regras do jogo e a arbitragem final dos Estados Unidos. Regras e arbítrio que poderão variar segundo os seus interesses”. O “Conselho da Paz” aposta na pacificação do Oriente Médio, com o extermínio dos palestinos.

A Justiça teve a chance de prender o “elemento” pelos crimes no Capitólio – Capitolium, templo de Júpiter na antiga Roma, nomeia prédios legislativos de relevo. Para evitar a certificação das eleições de 2020, em Washington, seguidores – visto heróis, adiante anistiados – violam a sede simbólica da institucionalização dos conflitos na democracia liberal. Uma zorra.

Na América Latina, Augusto Pinochet jacta-se da “democracia autoritária”. Na Europa, Viktor Orbán acena a “democracia iliberal”; nos EUA , Donald Trump funda a “democracia cara dura” (“hard-faced democracy”). Não é coincidência. A regra é o desrespeito às liberdades pessoais. Vide os assassinatos de norte-americanos por agentes de imigração, em Minneapolis. O trio de brutos obriga-se a conservar o substantivo porque a democracia é a chave mestra de distinção da política moderna.

No mapa-múndi, as manifestações de protesto animam a consciência anticolonialista e disseminam o espírito de luta. Mas para barrar os avanços da tirania é preciso que a práxis política transformadora sintetize o internacionalismo das ruas e a ira dos justos. A esperança vive. “Bem sabes encontrar o caminho, a fim de procurar o que amas!” (Jeremias 2:33).

*Luiz Marques é professor de ciência política na UFRGS. Foi secretário estadual de cultura do Rio Grande do Sul no governo Olívio Dutra.

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