Capitalismo superindustrial

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Por FERNANDO HADDAD

Apresentação do autor ao livro recém-lançado

1.

“Essa história fala de você”. Em sua versão original em latim – De te fabula narratur –, a expressão é usada mais de uma vez por Karl Marx em O capital. Essa obra maior foi escrita e publicada pela primeira vez em alemão, portanto um projeto pensado originalmente para o público germânico. E, no entanto, seu objeto é a Inglaterra.

Ele explica: “O que eu tenho de investigar nesta obra é o modo de produção capitalista e as relações de produção e de troca que lhe correspondem. O seu lugar clássico tem sido, até agora, a Inglaterra. Esta é a razão pela qual ela serve de ilustração principal do meu desenvolvimento teórico. Se, contudo, o leitor alemão farisaicamente encolher os ombros ante a situação dos operários ingleses da indústria e da agricultura ou se optimistamente se tranquilizar porque na Alemanha durante muito tempo as coisas ainda não estarão tão más, terei de lhe lembrar: De te fabula narratur”.

A história do capitalismo é a história mundial, fala sobre todos nós. Mas os caminhos que modernizaram cada país ou região foram muito singulares, por isso precisam ser entendidos em suas particularidades e na maneira como se integram a um mesmo processo. Daí minha preferência pela expressão “mundialização” em detrimento de “globalização”. O termo “globalização” obscurece as realidades históricas bastante diferentes a partir das quais chegamos aqui.

Em tempos ruidosos como os nossos, há pouca clareza sobre o significado de experiências de modernização que nos levaram à etapa atual, em que a força de trabalho se tornou mercadoria nos quatro cantos do mundo – a mais notável expressão do capitalismo mundializado. Novas disputas e novos desafios se sobrepõem, como a mercantilização do conhecimento por meio de novas enclosures, sem que tenhamos tempo de digerir o que passou.

Ainda hoje, vemos críticos à direita e à esquerda convergirem no pressuposto de que o sistema soviético, do começo ao fim, foi uma experiência socialista, bem como se aproximarem na avaliação de seus resultados. Para os primeiros, teria sido uma experiência fracassada, o que comprova a inviabilidade de qualquer projeto socialista e achata o horizonte das lutas de emancipação. Para os últimos, foi algo entre fracasso e realização abortada, o que permanece sendo matéria de debate, nem sempre proveitoso.

2.

Ideias e ideais podem ser e são instrumentalizados por lutas políticas. Mas um período histórico deve ser julgado por seus resultados concretos, e não pelos ideais que eventualmente motivaram determinadas transformações. Karl Marx tratou disso quando discutiu as revoluções burguesas, que prometeram igualdade, liberdade e fraternidade, sem entregar exatamente o que havia sido prometido.

Analisando o sistema soviético a posteriori, pode-se dizer que ele aparentemente criou as condições para que sociedades despóticas ou semidespóticas, em especial Rússia e China (epicentros das revoluções comunistas), pudessem estabelecer as bases de uma sociedade capitalista autônoma.

Considerar o sistema soviético sob a ótica exclusiva do fracasso de suas metas expressas parece ser uma opção que negligencia alguns resultados que ele realmente alcançou e que, portanto, são sua verdadeira essência. Enquanto não nos livrarmos do ervaçal ideológico que obscurece o debate sobre esse tema, para usar uma expressão de Engels, estaremos fadados a focalizar o movimento social sob a perspectiva de suas promessas ideais e não de sua efetividade.

Lembremos que a queda do Muro de Berlim e o fim da União Soviética foram e ainda são compreendidos por grande parte dos liberais como “o fim da história”, expressão cunhada por Francis Fukuyama e que se tornou um mantra da vitória do capitalismo. Daí a febre com que se celebrou a globalização neoliberal marcada pelo Consenso de Washington. O que parecem não ter concebido é que o fato de o capitalismo vencer, mundializar-se, não significa o mesmo que os Estados Unidos e a Europa vencerem.

Assim como a concorrência entre empresas é uma determinação do capitalismo, a concorrência interestatal também o é. Celebraram a vitória que acreditavam ser sua, mas esqueceram de combinar, literalmente, com os russos – e, sobretudo, com os chineses.

Ao longo dos quinhentos anos que sucederam o surgimento do modo burguês de produção, vimos diferentes países ocuparem a posição hegemônica. Nos primórdios, Espanha e então Holanda. Foi na Inglaterra que o sistema se consolidou e, com o final da Segunda Guerra, a hegemonia passou a ser norte-americana.

3.

Essa hegemonia foi primeiramente desafiada pelo poderio militar soviético; mais adiante, pelo poderio econômico do Japão, mas ambas as tentativas de romper com a hegemonia americana fracassaram. Agora, os Estados Unidos estão diante de um terceiro desafio, em que uma grande nação, com 1,4 bilhão de habitantes, tem poderio militar e econômico (incluindo as bases tecnológicas do arranjo produtivo) para ameaçar a hegemonia que se estabeleceu desde 1945.

O enigma da China nos coloca questões de importância maior no que diz respeito à leitura dos dilemas do atual estágio do capitalismo, que caracterizo como superindustrial. Capitalismo superindustrial é um conceito que reconhece que a indústria é o padrão de reprodução material e espiritual da sociedade, que uma nova grande transformação ocorreu por meio da mercantilização do conhecimento e seus efeitos sobre a distribuição do produto social, e que isso fragmentou as classes não-proprietárias de uma forma não prevista pela teoria.

Nesse sentido, entender o que foi a experiência soviética, seu processo de acumulação primitiva que viabilizou nesses países a constituição do modo de produção capitalista, nos permite conhecer melhor os competidores que atualmente disputam hegemonia no capitalismo superindustrial. Esforço idêntico precisa ser feito para compreender a experiência de outros processos de acumulação primitiva na periferia do capitalismo que não obtiveram o mesmo sucesso econômico. Para tanto, procurei indicar caminhos na primeira parte deste volume.

Neste livro, reúno estudos de mestrado e doutorado realizados por mim entre o final dos anos 1980 (Partes II, III e IV) e a segunda metade dos anos 1990 (Parte V), que foram publicados nos livros O sistema soviético  e Trabalho e linguagem. O material inédito se concentra na Parte I, em que desenvolvo e atualizo ideias sobre a acumulação primitiva de capital na periferia do capitalismo – apresentadas de maneira breve na introdução de O sistema soviético –, e no capítulo final da Parte V, em que confronto minha análise do capitalismo superindustrial com vertentes contemporâneas do pensamento progressista.

4.

A Parte II, “O marxismo oriental”, é dedicada às transformações da teoria marxista até a conformação daquilo que Herbert Marcuse chamou apropriadamente de marxismo soviético e sua primeira contestação a leste, o trotskismo. A Parte III, “A dissidência ocidental”, trata das teorias que, rompendo com Leon Trótsky, passaram a considerar o sistema soviético um novo modo de produção, denominado capitalismo de Estado, coletivismo burocrático ou sociedade gerencial, formações sociais que teriam superado o capitalismo clássico sem correspondência com os ideais socialistas.

A Parte IV, “O desenvolvimento histórico não linear”, guarda semelhança com a anterior, porém descarta a hipótese de que a nova formação fosse sucessora do capitalismo, avaliando-a como proveniente de uma formação social estranha ao Ocidente, o modo asiático de produção, que teria características distintas do feudalismo ocidental.

As Partes III e IV podem parecer anacrônicas aos olhos do leitor, mas abordam duas questões teóricas persistentes, a saber, o conceito de modo de produção e o conceito de classes sociais, temas que voltaram a ser debatidos com intensidade nos últimos anos. Elas nos preparam, pois, para escapar das armadilhas comuns que se nos apresentam quando esses temas tão centrais são tratados com vistas à ação política. A centralidade do conhecimento como fator de produção, ou, se quisermos, a mercantilização do conhecimento, emerge das discussões ali propostas e abre caminho para o conceito de capitalismo superindustrial.

A Parte V, “Capitalismo superindustrial”, apresenta justamente uma visão do estágio em que nos encontramos: a mercantilização do conhecimento e sua incorporação como fator de produção, a natureza superindustrial (ou hiperindustrial, como alguns preferem) do capitalismo contemporâneo e as implicações teóricas e práticas sobre a nova configuração de classes sociais.

Já nos anos 1990, defendia a tese de que as classes proprietárias haviam se fragmentado três – cognitariado, proletariado e precariado, para usar uma terminologia que se firmou recentemente – e que isso impunha ao campo progressista forjar um programa emancipatório que não se desdobraria mecanicamente a partir da economia, mas exigiria um esforço relevante de imaginação política.

Por fim, no capítulo 12, mostro que essa abordagem traz vantagens em relação ao debate que se seguiu, a partir do ano 2000, notadamente a teoria do capitalismo cognitivo e a teoria do tecnofeudalismo, com relação aos dois conceitos-chave mencionados. As Partes I e V, portanto, são o que tenho de original a apresentar, e acredito que elas tenham resistido ao teste do tempo.

Espero que esse esforço de compreensão nos permita renovar a perspectiva de que a luta pela emancipação não acabou – o que nos obriga a pensar as formas que ela vai assumir no mundo contemporâneo. Um desafio que não é pequeno e diante do qual não podemos nos intimidar.

*Fernando Haddad, professor do Departamento de Ciência Política da USP, é atualmente Ministro da Fazenda. Autor, entre outros livros, de O terceiro excluído (Zahar).

Referência


Fernando Haddad. Capitalismo superindustrial: caminhos diversos, destino comum. Rio de Janeiro, Zahar, 2026, 454 págs. [https://amzn.to/4a0LZfM]

O lançamento do livro na cidade de São Paulo será neste sábado, 7 de fevereiro, a partir das 11 hs. no Sesc-14 Bis, rua Dr. Plínio Barreto, 285.

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