O assassinato de Quentin Deranque

Imagem: James Garman
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Por LUIS FELIPE MIGUEL*

A morte de Quentin Deranque escancara o dilema da esquerda francesa: ao responder à violência estrutural com violência aberta, fortalece a narrativa da direita e obscurece as raízes da opressão, exigindo uma reflexão que transcenda o conforto moral das posições absolutas

1.

O assassinato de Quentin Deranque, no último dia 14 em Lyon, se tornou uma questão maior na política francesa. O ativista identitário de 23 anos – na França a palavra designa os defensores da “herança cultural” europeia, branca e cristã – foi espancado até a morte durante uma briga entre seu grupo e antifascistas, por ocasião de uma palestra da ativista pró-Palestina e eurodeputada Rima Hassan.

Os suspeitos são integrantes da “Jeune Garde” (guarda jovem), uma milícia vinculada ao partido La France Insoumise, de Jean-Luc Mélenchon. Ou, formalmente, ex-integrantes, já que a organização foi dissolvida no ano passado, acusada de promover violência (a dissolução está sendo contestada junto ao Conselho de Estado francês).

Ainda há muita névoa sobre o episódio. Propagandistas ligados à extrema direita se apressaram em nominar culpados, fazendo acusações que, em alguns casos, já se provaram falsas (uma acusada, por exemplo, nem estava no país na data do conflito). Mas, como a briga entre a Jeune Garde e os identitários ocorreu, muitos suspeitos negam o assassinato, mas não a violência e Quentin Deranque foi mesmo espancado durante a briga, o indicitamento dos militantes de esquerda parece óbvio.

O governo e a imprensa franceses já condenaram, antes mesmo de qualquer processo. Entre os nove detidos, sete rapazes e duas moças, dois foram estagiários de um deputado da France Insoumise. Sébastien Lecornu, primeiro-ministro francês e fiel de Emmanuel Macron, subiu o tom e disse que a esquerda precisa fazer uma depuração completa de seus quadros.

Já a extrema direita encontrou uma oportunidade de ouro para tentar se livrar da pecha de violenta, jogando-a sobre os adversários. Não ajudou, porém, o fato de que a manifestação que fez em Lyon, pedindo justiça para seu militante, foi marcada por saudações nazistas.

Dentro da frente de esquerda, também há burburinho e o episódio é usado contra Jean-Luc Mélenchon, que já sofre o desgaste de uma liderança excessivamente personalista e autoritária. Raphaël Glucksmann, filho do nouveau philosophe André Glucksmann, declarou que a morte de Quenti Deranque inviabiliza qualquer acordo com a France Insoumise para a eleição presidencial do ano que vem. Vindo da direita, ele fundou um pequeno partido de centro-esquerda, bem mais de centro que de esquerda, Place Publique, e sonha ser candidato a presidente com apoio dos socialistas.

(Os nouveaux philosophes, hoje quase esquecidos, eram ex-maoístas que se converteram à direita neoliberal no final dos anos 1970 e ganharam enorme projeção midiática.)

2.

A líder dos insubmissos na Assembleia Nacional (a Câmara dos Deputados francesa), Mathilde Panot, reclamou que não se vê comoção similar quando a extrema direita comete um assassinato, o que, aliás, ocorre com frequência muito maior. É verdade. Mas uma organização de esquerda que espera fair play na ordem política burguesa não é apenas ingênua: é incompetente.

Eu confesso que minha antipatia começa quando uma organização de esquerda assume o nome “guarda”. Evoca, para mim, a Revolução Cultural chinesa e um militarismo que sempre conduziu a desastres.

Entendo que, nas condições atuais mais do que nunca, a esquerda precisa ter mecanismos de autodefesa. Mas o risco sempre é a exaltação da violência, que transita como “firmeza revolucionária”, que alimenta bravatas do tipo “fascista se trata no braço”, que se realiza em memes de reacionários apanhando, que ganha voz em teóricos da revolução formados em academias de jiu-jítsu – e que, na ausência de qualquer análise minimamente sólida da correlação de forças, leva a graves reveses.

Isto é a fuga para um mundo de fantasia. Se a luta for transferida para este terreno, nós “sifu”, como se dizia antanho. Como agora, na França. O episódio limpa a cara da direita e cola – com evidências! – na esquerda o rótulo de violenta, autoritária, antidemocrática. De fato, a restrição moral ao uso da violência na política age quase sempre em favor dos interesses dos dominados. Não devemos abrir mão dela.

A relação entre violência e política é complexa. A violência sempre fez parte da política, mas a política também é uma forma de evitar a violência e resolver os conflitos por outros meios.

Para a maior parte da teoria política, a violência é um fato desagradável sobre o qual é melhor não pensar. As teorias da democracia operam como se ela fosse negligenciável. Mas a questão do uso da violência amplifica o drama maquiaveliano da política: a busca de efetividade na ação em tensão com a observância de princípios normativos.

3.

É possível dizer, como o pensador ultraconservador René Girard, que a ordem política se constitui tendo por objetivo esconjurar a violência. O fato de que a política busca prevenir a irrupção daquilo que está em seu substrato reforça a tensão referida antes.

Em toda essa discussão, porém, o foco está na violência aberta. A violência estrutural ou sistêmica, vinculada às formas de dominação e opressão vigentes, é deixada de lado e não é marcada como um desvio em relação ao fazer político aceitável. Mas seus efeitos materiais são tão claros quanto os da violência aberta.

Eu discuti esta questão em um capítulo do livro Dominação e resistência (Boitempo). Minha conclusão é que não há como discutir a relação entre violência e política focando apenas na violência aberta. Isto deixa de fora metade da história. A violência estrutural é tão discricionária, tão física, tão material e tão prenhe de consequências quanto a violência aberta – ou ainda mais. Fazem parte dela, de maneira central, os mecanismos ideológicos que a invisibilizam.

Mas fica a questão da violência revolucionária ou, de maneira mais amplas, das reações violentas (abertas) à violência (estrutural) de uma sociedade injusta.

Não é razoável apenas inverter a positividade e passar a glorificar automaticamente a violência dos dominados (por ser “dos dominados”), da mesma forma como ela é, em geral, automaticamente condenada (por ser “violência”). É uma posição que associa, de maneira ingênua, insustentável e com consequências potenciais nefastas, a condição dominada de um grupo (ou indivíduo) com alguma posição de pureza moral, que lhe franquearia o direito absoluto de agir como melhor lhe conviesse.

Também é insuficiente absolver apenas os atos com caráter reativo, como as respostas à repressão policial, posição que acaba por obscurecer a violência estrutural. Se ela entra no raciocínio, toda a violência dos dominados pode contar como reativa, e recaímos na posição anterior.

4.

A diferenciação entre violência contra o patrimônio e contra a pessoa, posição capaz de angariar simpatias, possui problemas um pouco mais complexos. Por um lado, a reflexão sobre a violência estrutural contribui para esmaecer a fronteira entre bens materiais e pessoa: a negação sistemática ou a retirada do acesso a determinadas riquezas está na raiz do dano causado às pessoas. A violência sobre os dominados não discrimina entre patrimônio e pessoa e a autorrestrição na resposta significa, também, colocar-se de partida numa posição de inferioridade.

Por outro lado, é difícil negar legitimidade a certas ações de grupos dominados, em situação de desespero, que envolvem a violência cometida contra pessoas. Penso em rebeliões escravas, no sequestro de funcionários governamentais por grupos indígenas, em guerras de libertação nacional, na resistência contra regimes policiais. A questão passa a ser, então, de entender o peso diferenciado de ações contra patrimônio e ações contra pessoas, aceitando que medidas mais extremas precisam de justificativas mais fortes para serem legitimadas.

Há, por fim, um elemento crucial vinculado às consequências: o resultado líquido da violência dos dominados é, muitas vezes, a ampliação da repressão sobre eles. Justamente por isso, como indicou James Scott, sua ação política costuma ser camuflada por manifestações ostensivas de aquiescência à ordem instituída e deferência aos superiores sociais.

Se não é possível adotar uma visão cínica e pragmática, em que o mérito da ação é medido exclusivamente pelos fins que alcança, abdicando da pretensão de fazer uma crítica normativa da política (o “maquiavelismo” no sentido pejorativo da palavra), muito menos o é prescindir da dimensão consequencialista, festejando a violência dos dominados apenas pelo elemento de inconformismo que se identifica nela (a postura que só é factível a partir do lugar protegido do intelectual “radical”).

Algumas formas de violência aberta dos dominados são provavelmente aceitáveis a partir de um determinado quadro normativo. Aquelas que não contribuem para reduzir a dominação, nem no curto nem no longo prazos, certamente não estão entre elas.

A posição de quem condena toda forma de violência é cômoda – é uma posição que ou está cega à violência estrutural ou não se preocupa em indicar como combatê-la. Para uma compreensão mais matizada e complexa da dinâmica que interrelaciona dominação, violência e política, não há posição confortável.

O dilema que caracteriza a relação entre política e violência precisa ser mantido como dilema. Não existe uma posição normativa absoluta, muito menos uma solução prática. Devemos lidar com essa tensão, reencenando-a permanentemente, mantendo a sensibilidade para as diferentes facetas que se recombinam nas conjunturas particulares, sem congelá-la em “soluções” que se mostram ilusórias.

*Luis Felipe Miguel é professor titular de Ciência Política na Universidade de Brasília (UnB). Autor, entre outros livros, de Democracia na periferia capitalista: impasses do Brasil (Autêntica). [https://amzn.to/45NRwS2].

Publicado originalmente nas redes sociais do autor.

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