As ideias precisam circular. Ajude A Terra é Redonda a seguir fazendo isso.

Ainda Mazzucato

Marcel Duchamp, Milhas de Barbante, 1943
Whatsapp
Facebook
Twitter
Instagram
Telegram

Por ELEUTÉRIO F. S. PRADO*

Resposta ao comentário crítico de Gilson Schwartz.

O autor desta nota escreveu um comentário crítico – publicado no site A Terra é Redonda, em 21/04/21 – ao livro de Mariana Mazzucato, O valor de tudo – produção e apropriação na economia global, postado sob o título O valor de tudo. Ele não foi bem acolhido por Gilson Schwartz que, por isso, endereçou-lhe uma crítica severa, também publicada A Terra é Redonda no dia 27/04/21, sob o título O valor de Mazzucato.

O seu objetivo consistiu em fazer uma “defesa da economista, a partir da crítica de Eleutério Prado”. Ora, quem lê o seu artigo poderá notar que ele não adianta nenhum argumento teórico em favor da tese defendida pela economista italiana. Também pelas várias imprecisões do seu texto, parece que realmente não se deu ao trabalho de ler o livro dessa autora que, como se sabe, tem expressão internacional. Diferentemente, o seu texto se dedica exclusivamente a desqualificar “a crítica de Eleutério Prado” a partir dela mesmo.

Nessa crítica, Schwartz acusa o adversário escolhido de “fazer uma crítica que se aplica ao seu autor” e não aos seus argumentos. Ora, isso é falso. Não há no artigo deste adversário qualquer argumento ad hominem endereçado à economista Mazzucato, tal como poderá verificar quem tiver a paciência de lê-lo. A sua argumentação é respeitosa; busca ficar estritamente no plano da lógica. Se tiver a paciência adicional de ler o artigo de Schwartz, poderá ver também que ele está construído em seu todo como uma crítica ad hominem a Eleutério Prado.

Segundo ele, “Prado situa o pensamento de Mazzucato na vertente norte-americana da ideologia francesa”. Isso é falso, pois a nota diz simplesmente que ela se situa no campo do pós-modernismo porque trata explicitamente a questão do valor em economia como uma questão de narrativa. Para Prado, ademais, segundo ele, “o livro O valor de tudo volta-se para um mito moderno: a criação de valor na economia”. Ora, quem diz isso é a própria Mazzucato e não o seu comentador.

Segundo ele ainda, “a opção “científica” oferecida por Prado é a teoria do valor-trabalho”. Ora, isso também é falso já que esse tema não está abordado na nota. Esta última diz apenas que Mazzucato, ao invés de identificar valor com valor de uso deveria encontrar uma explicação discutindo o valor de troca tal como Smith, mas também – acrescenta-se – Ricardo, Marx, Marshall, Walras, Jevons, Keynes etc. Ademais, a nota não ataca o “reformismo heterodoxo” nem diz que “sem revolução, não há solução”, como afirma.

Agora, a nota deste adversário afirma, sim – e prova logicamente –, que o trabalho teórico de Mazzucato não sustenta “uma práxis crítica não apenas reprodutora do existente, mas verdadeiramente transformadora”. Diz, sim, que não sustenta a própria tese defendida pela economista italiana, a saber, que o Estado é crucial na acumulação capitalista (tese com que este notário concorda), e que ele, por meio de parcerias público-privadas, deve passar a liderar o desenvolvimento nos países capitalistas avançados (rumo que este otário – tal como ele foi criado por seu acusador – discorda já que defende o socialismo democrático e não endossa nenhuma forma de socialismo autoritário).

Quem conhece Gilson Schwartz sabe que ele se considera como um grande intelectual, alguém que sempre traz à público grandes ideias inovadoras. Em sua própria crítica a Prado, ele se perfila ao lado de Marcos Muller, Roberto Schwarz, Gerard Lebrun e Paulo Arantes. Grandes parcerias! O grande crítico, com perdão pelo exagero, emparelhou-se com gigantes!

Nesse ponto sobretudo, o autor desta nota difere dele, pois conhece o seu lugar como um mero economista insatisfeito que optou pela senda difícil da crítica economia política. Declara, por fim, que sente certa vergonha por participar de uma polêmica inútil. Se Schwartz tivesse defendido teoricamente a tese de Mazzucato como deveria ter feito, a polêmica poderia ter sido informativa para os leitores de A terra é redonda. Mas ele teria de ler o livro dessa autora primeiro.

*Eleutério F. S. Prado é professor titular e sênior do Departamento de Economia da USP. Autor, entre outros livros, de Complexidade e práxis (Plêiade).

 

AUTORES

TEMAS

MAIS AUTORES

Lista aleatória de 160 entre mais de 1.900 autores.
José Raimundo Trindade Daniel Costa José Dirceu Tarso Genro Valério Arcary Lorenzo Vitral Mário Maestri André Singer Jorge Branco Vanderlei Tenório Chico Alencar Tales Ab'Sáber João Sette Whitaker Ferreira Dennis Oliveira Luiz Renato Martins Jorge Luiz Souto Maior Bento Prado Jr. Marcos Silva Leonardo Avritzer Ladislau Dowbor Érico Andrade Carla Teixeira Eugênio Trivinho Otaviano Helene Berenice Bento Lincoln Secco Carlos Tautz Anselm Jappe Leonardo Boff Luiz Eduardo Soares Luiz Roberto Alves Vladimir Safatle Eleutério F. S. Prado Michael Löwy João Feres Júnior Francisco Fernandes Ladeira João Carlos Salles Gilberto Lopes Jean Marc Von Der Weid Vinício Carrilho Martinez Marcus Ianoni Antônio Sales Rios Neto Leda Maria Paulani Ricardo Abramovay Gabriel Cohn Marjorie C. Marona Fernão Pessoa Ramos José Geraldo Couto Mariarosaria Fabris Juarez Guimarães Atilio A. Boron Annateresa Fabris Marcelo Guimarães Lima Daniel Afonso da Silva Ronald León Núñez Eliziário Andrade Thomas Piketty Salem Nasser Benicio Viero Schmidt Priscila Figueiredo Boaventura de Sousa Santos Tadeu Valadares Walnice Nogueira Galvão Chico Whitaker Denilson Cordeiro Luiz Costa Lima Paulo Martins Eugênio Bucci Alexandre de Lima Castro Tranjan Henry Burnett Henri Acselrad Leonardo Sacramento Marilena Chauí Kátia Gerab Baggio Remy José Fontana Roberto Bueno Bruno Machado Rubens Pinto Lyra Luiz Marques Francisco de Oliveira Barros Júnior Renato Dagnino Milton Pinheiro Celso Frederico Lucas Fiaschetti Estevez José Machado Moita Neto Fábio Konder Comparato Caio Bugiato Bernardo Ricupero Ricardo Fabbrini Antonino Infranca João Carlos Loebens Elias Jabbour Marcelo Módolo Dênis de Moraes André Márcio Neves Soares Heraldo Campos Gerson Almeida Luiz Carlos Bresser-Pereira Antonio Martins Michael Roberts Ricardo Musse Fernando Nogueira da Costa Luiz Bernardo Pericás Ricardo Antunes Manuel Domingos Neto Claudio Katz Eduardo Borges Luciano Nascimento Roberto Noritomi Ronaldo Tadeu de Souza Rodrigo de Faria Airton Paschoa Daniel Brazil Valerio Arcary Ari Marcelo Solon Bruno Fabricio Alcebino da Silva Sergio Amadeu da Silveira João Lanari Bo Flávio Aguiar Armando Boito Julian Rodrigues Andrew Korybko Yuri Martins-Fontes Rafael R. Ioris Maria Rita Kehl José Micaelson Lacerda Morais Afrânio Catani Marilia Pacheco Fiorillo Everaldo de Oliveira Andrade Osvaldo Coggiola Igor Felippe Santos Liszt Vieira Eleonora Albano Alexandre Aragão de Albuquerque João Adolfo Hansen Luís Fernando Vitagliano Alysson Leandro Mascaro Anderson Alves Esteves Samuel Kilsztajn Paulo Capel Narvai Ronald Rocha Celso Favaretto Manchetômetro Paulo Nogueira Batista Jr Marcos Aurélio da Silva Gilberto Maringoni Alexandre de Freitas Barbosa Francisco Pereira de Farias Plínio de Arruda Sampaio Jr. Flávio R. Kothe João Paulo Ayub Fonseca José Costa Júnior José Luís Fiori Luiz Werneck Vianna Luis Felipe Miguel Jean Pierre Chauvin Sandra Bitencourt Slavoj Žižek Paulo Sérgio Pinheiro Paulo Fernandes Silveira

NOVAS PUBLICAÇÕES

Pesquisa detalhada