A contabilidade da morte

Imagem: Gratisography

Por LUIZ ROBERTO ALVES*

O Brasil se acostumou à economia da violência

Para Moïse, família e novos imigrantes, minha vergonha

1.

Imagine o horror do ambientalista Zé do Lago, da Márcia e da Joane diante dos demônios-sapiens armados no átimo do fuzilamento. Ao lado, as tartaruguinhas manejadas por essas três pessoas à espera de sua redenção, isto é, chegar à água maior e viver, seguir sua história e sua natureza.

Qual foi a ação de Zé do Lago (belo nome!) e suas queridas mulheres que açulou o fígado dos pequenos ou grandes donos do poder no Pará? Teria sido algo similar ao que faziam Marielle e Chico Mendes, ou menos e, no entanto, suficiente pela fuzilaria brutal?

Chico e Marielle não só queriam viver como tinham tudo para viver: tinham missões claras, já palmilhadas em boa medida e ainda fecundas no futuro breve. Ora, são essas as pessoas escolhidas para a morte no redemoinho demoníaco, pois nessa leitura de mundo o fecundo deve secar a fim de que prospere a secura lucrativa dos privilégios. Entendidas as três mortes como símbolo de tantas outras, podemos esperar sentados pelo encontro dos assassinos e mandantes. A morte de Chico Mendes, 1988, como se sabe, foi um fenômeno local, as pessoas viam os assassinos prá lá e prá cá em Xapuri, esperando a hora e a vez, que chegou, para desgraça da história amazônica e sinal do país injusto e apequenado politicamente.

No entanto, aqueles pobres-diabos (faltou ir atrás de certos latifundiários e sua associação) foram pegos com as armas quentes nas mãos. Mas não fosse o alarde internacional, alguma maracutaia seria feita. Quanto a Marielle e Anderson, o lero-lero das autoridades judiciárias, políticas e policiais cariocas não mostra senão a falência ética geral deste belo e diverso país em que nascemos e vivemos. Eles podem enganar os coitadinhos, pois infelizmente os temos, mas não quem já estudou história do Brasil. Zé do Lago, Márcia e Joane esperam (em nome de nós todos) sua hora e sua vez de garantir a justiça.

Este país se acostumou à economia da violência e à contabilidade da morte, que já entrou até no coração dos castos e supostamente bem-intencionados. Ao mesmo tempo, se descuidou das novas “companhias” do nosso corpo na cibercultura do capitalismo. Ora, se tudo se aproximou, se os corpos humanos no Antropoceno se ampliaram tecnologicamente e foram transversalizados por fenômenos imperceptíveis, também o velho fenômeno demoníaco se aproximou a favor da morte. O demônio deixa de ser astronômico e passa a ser íntimo. Ele se humanizou muito.

No Brasil, os crimes que não podem ser revelados em razão de uma espécie de “razão de grandeza” instituída já na história colonial, ganha alta força política e institucional e as autoridades responsáveis, todas simbolicamente falidas, nada mais fazem senão esperar pelo esquecimento. Que costuma vir na terra violentada sistematicamente. Quanto mais violentada a sociedade, mais capaz de esquecer, pois as violências não acionam a consciência política e sim a consciência cotidiana, interna, que não suporta muitos confrontos. Assim Lukács, Heller e Freire explicam, por extensão, a cumplicidade dos vencidos com o vencedor e a consequente dificuldade de saídas via educação e cultura.

O homem bom, Zé, que foi retratado várias vezes em seu trabalho ecológico com as tartarugas, ali na beira do Xingu, coloca perguntas nas bocas da família que restou:” por que mataram?” Ora, se há tanta violência impune nesta terra, não há um único fenômeno que justifique um único ato de Zé do Lago pela vida dos animais. Tudo o que for levantado é sórdido. Mas a hipótese do nada é mais palatável, principalmente no caso das pessoas que vivem no sertão e nas florestas.

Este país vive a falência ética geral, ampliada desmesuradamente a partir do golpe parlamentar de 2016, da ascensão dos fascistas ao poder e do governo do inominável palaciano (que ainda tem votos, lembremo-nos!).

O conceito de falência ética geral vale para todo o sistema de segurança do país, ainda que haja dentro do sistema gente comprometida com a justiça. Desde aqueles que devem ter olhado as cenas do crime que vitimou Josés do Lago e Moïses (e nada fizeram) até os tribunais e seus estranhos escaninhos decisórios. De seu lado, a ação dos justos, em sua limitada ação, não alcança valores simbólicos capazes de romper a falência ética. Portanto, o melhor raciocínio que existe para um país em que se mata diariamente muitas mulheres, muitas pessoas dos movimentos LGBTss, meninos e meninas de etnia afrodescendente, trabalhadores do eito, da floresta e dos rios é que já se deu, por extração do modo de organização e funcionamento da sociedade, a falência ética geral.

A mudança deste estado exigirá muita lisura, muitíssima revelação dos casos encobertos, fim do lero-lero que inverte campos semânticos e produz deslavadas mentiras nos jogos policiais e judiciários; enfim, uma revolução que envolva posturas, técnicas de trabalho, compaixão profunda, implosão dos modos como se lê a palavra e o mundo nesta terra “remissa e relaxada” como escreveu Anchieta há um bocado de tempo.

Este é o tema central de uma mudança via eleição, mas provavelmente não será assunto dos comícios porque a ética é sempre (mal) associada a moralismo e termina sempre mais “eleitoral” prometer matar a fome dos miserabilizados, oferecer mais salários, reorganizar sistemas produtivos e investir em infraestrutura social, isto é, assuntos do velho economês dos anos de 1960. Isto é, temas falsamente tidos como “econômicos”, mas de fato não o são, posto que as motivações centrais que induzem tais ações são cultural-educativas, ou de direitos humanos.

Guimarães Rosa tinha e tem razão. O livro dedicado a Ara, Araci, o “anjo de Hamburgo” fornece na dedicatória as primeiras pistas sobre a existência do mal no mundo; no caso, a nazista, hoje com novas raízes.

O diabo (está) na rua, no meio do redemoinho. É o que se lê. Mas o diabo, sempre maneiro, não roda sozinho. Nas formas de sua falsidade, a ciranda “daquele que ri”, o debochado, o escarnecedor, produz uma roda inclusiva do sapiens, que folgadamente se justifica pela sua queda, pela fraqueza, pela incompletude. A rigor, a inclusão no redemoinho é especial para o sapiens, pois não seria possível levar para o redemoinho os beija-flores, os cervos e os gatos, a despeito dos filmes de terror que incluem, maldosamente, esses últimos.

Ademais, qualquer ato redentor de arrependimento do homo sapiens, via doações, gritos e socos no peito, pode ser feito mais tarde e quando mais velho, talvez numa das igrejas do quarteirão mais próximo. Arrependimento também implica planejamento na sociedade do coach espiritual, dos adjutórios financeiros espetaculares, da exposição e da simulação. Muitas vezes os redemoinhos se transferem para o interior de certas igrejas.

Há, pois, enorme paralelismo e por vezes convergências entre as relações de trabalho, a exploração dos que dependem dos poderosos, o desvalor da vida das pessoas, bem como as práticas político-eleitorais e as relações entre o “moço” ou “o capiroto” e o sapiens, fartamente ilustradas pela literatura mundial e pela literatura especificamente sagrada. E não só a judaico-cristã. No redemoinho do demo-sapiens é mais fácil a assunção folgada e lucrativa da falência ética geral. Seguimos, pois, por esta estrada larga. A despeito de tantas igrejas e tantos crentes, a estrada seguida pelos supostos pastores e suas multidões é aquela anti-evangélica, pois a literatura bíblica só admite a caminhada pela porta estreita e difícil. Na porta estreita não há lugar para os redemoinhos.

 

2.

É tempo sobretudo
de deixar de ser apenas
a solitária vanguarda
de nós mesmos.
Se trata de ir ao encontro.
(Dura no peito, arde a límpida
verdade dos nossos erros)
Se trata de abrir o rumo.
Os que virão, serão povo,
e saber serão, lutando.
(Thiago de Mello, Para os que virão)

 

Frente à verdade ferida
pelos guardiães da injustiça,
ao escárnio da opulência
e o poderio dourado
cujo esplendor se alimenta
da fome dos humilhados,
o melhor é acostumar-se,
o mundo foi sempre assim.
Contudo, não me acostumo.
(Thiago de Mello, Não aprendo a lição)

 

Duas estrofes de Thiago de Mello. Elas criam conexões com o texto 1, não pelos prováveis “conteúdos” da dor, da injustiça e da inconformidade, mas pelo acento, pelo tom e pelo jogo de posturas que o eu poético constrói para se localizar no mundo. Trata-se de intuir que muitos poemas de Thiago caminham próximos a essas estrofes, entre eles a Canção para os fonemas da alegria, elaborado pela convivência do poeta com a prática educacional de Paulo Freire e Os Estatutos do Homem, elaboração tão livre quanto fortemente sinalizadora dos direitos humanos.

Os poemas de Thiago, como é comum no campo da poética, mais é do que diz, porque os grandes sentimentos do humano-poeta trabalham com obsessões dirigidas ao futuro, capaz de relacionar o que já se realizou com algo que não sinaliza mudanças presentes, embora fundamentais, pois o poeta também elaborou significações para o futuro quando foi passado, quando foi jovem, quando aprendeu a se colocar no mundo. Seus incômodos vêm de longe”. Deste modo, a poesia se afasta do regime judiciário, que julga o passado e o presentifica na atualização de penas e absolvições encarnadas nos julgados.

Mas também se afasta da política, que tenta viver um eterno presente e não percebe sua velhice, ou até mesmo a sua caduquice ou obsolescência, quando a condição humana se desnorteia e a sociedade se afasta da representação tradicional. A poesia é a representação plena do humano no mundo, pois a organização sonora é a sensitividade do modo de estar no mundo. Thiago, por exemplo, esteve sempre incomodado, como se lê: “… cujo esplendor (do poderio) se alimenta da fome dos humilhados”. Não se trata de uma frase política e localizada, mas sim cósmica, que fala aos ouvidos e corações de toda a vida e sinaliza um inconformismo também cósmico. No entanto, quem se coloca como ouvinte atento e carinhoso, sensível à vida das pessoas, pode provocar no seu ser mudanças. Por isso, em todo o mundo, pessoas do mundo rural e das cidades, trabalhadores, sempre citaram poetas. De fato, aprenderam a significação da poesia.

Exilados, Thiago e Paulo Freire compreenderam bem o significado poético do país (que poderia ser) redimido pelas leituras de palavra e mundo. As palavras apreendidas/aprendidas solicitam o mundo para não se esvaziarem tão depressa quanto foi o tempo do aprendizado. De fato, o mundo já se realiza na sua soletração, pois seja tijolo, enchente, casinha ou menino preto, o mundo se dá nos sentidos evocados e vividos no cotidiano dos pobres, dos milhões. Aí se compreende tanto a situação dos exilados e migrantes quanto sua criação e o alcance humano da criação.

Daí nasceram a pedagogia do oprimido e o poema Canção para os fonemas da alegria. Talvez os ditadores tivessem uma razão objetiva para exilar Thiago e Freire (como outros e outras), assim como os assassinos e mandantes de Zé do Lago, Chico Mendes e Marielle tiveram suas razões, isto é, construíram razões suas, ao arrepio de todo o arcabouço brasileiro da justiça em falência. Mas entre essas razões e a RAZÃO tem de haver uma distância abissal, o que não ocorre neste belo e enfeiurado país.

Há uma mentira generalizada no país, que é a existência de crimes perfeitos, complicados, intrincados, sem pistas. A inteligência e os salários postos a serviço da segurança das pessoas teria a obrigação ética de deslindar, esclarecer e apenar todos os malfeitores desses redemoinhos, seja de Marielle, Zé do Lago e dos meninos pretos, símbolo maior de todos os demais injustiçados. Fora disso, é mentira e tergiversação. A falência do sistema de segurança e justiça.

 

3.

Outra falência, o economês deteriorado em tempo de Antropoceno.

Uma palavra sobre os supostos, ou assumidos, planos gerais de economia de algumas candidaturas, postos à luz e assinados por pessoas próximas a candidatos de 2022 nas páginas da Folha de São Paulo do início do ano. Importa pouco se são balões de ensaio; são textos organizados e devem dizer alguma coisa. Escreveram Pastore, Mantega, Marconi e Meirelles.

Dado que a pauta foi economia e os quatro textos foram obedientes a ela, quatro asserções devem ser feitas neste tempo do capitalismo de vigilância (Zubof) da mineração do dado alheio (vários autores), das tecnologias exponenciais e dos novos governos (kivernu, da cibernética).

(1) Os quatro autores de textos primam pelo economês, o que não seria problema se o saber econômico tivesse o direito de ser dominante, como foi na experiência desenvolvimentista, especialmente durante a ditadura militar. Estranho que os quatro autores trabalham como se estivessem em 1956 ou 1979, ou ainda na redemocratização. Demonstram unânime incapacidade em tratar de assuntos que já começam a ser vistos noutra chave (como diria Oscar Niemeyer, “em busca do inesperado”). O liberalismo capitalista suposto como necessário e indispensável, como se fosse a nossa roupa de cada dia, de fato é uma prótese incômoda que não sabe fazer mais nada do que ciranda financeira e fabricação de miséria, especialmente em países sempre vulneráveis, como o Brasil. O economês desses autores já virou mito há bastante tempo e parece que eles não perceberam isso,

(2) O capitalismo como é e deve ser, hoje, unha e carne das corporações mundiais de tecnologias de consumo e vigilância (big techs) que armam, em todo o mundo, o governo cibernético, pouco tem a ver com política pública, que é o que interessa a governos e governanças. A associação entre economia e sistema econômico é fora de lugar, porque a economia que interessa à sociedade real, movida por interações sociais concretas, é a que se revaloriza no interior da educação, do sistema de transporte, da habitação, das ações ecológico-ambientais, da saúde etc. O capitalismo de governos mundiais que não foram votados em nenhuma urna não interessa e é incompatível com todas as nossas necessidades. Por que esses quatro senhores se submetem a eles e não buscam outra linguagem, talvez de algo que trabalhe com valores e processos mas ao qual não será dado o nome de economia. Será que os candidatos e as candidatas ainda farão discursos como se estivessem em 1956?

(3) Todo o sistema científico se move por novos processos interativos, que nascem da interdisciplinaridade e podem chegar a transdisciplinaridades, quando muitos saberes se associam a grandes temas de alta transversalidade. Não se dá somente que um pesquisador ou agente público esteja ao lado de outro para pensar assunto comum. Ocorre que todos os modos de conhecer o mundo e a vida (porque o mundo está em nossas mãos e nossas mãos são movidas pelo mundo) estão a mudar vertiginosamente e, deste modo, teremos de trabalhar nos governos com atitudes novíssimas de concepção, organização, realização e avaliação. É impossível repetir modos anteriores. O próprio capitalismo, como pensado e vivido em alguns séculos, não vê seu caminho e por isso está agarrado ao governo onde o dinheiro se move brutalmente, que não é o nosso mundo, pois só pode prover a morte e a acumulação infinda e desnecessária. O capitalismo liberal que conhecemos não tem mais lugar no planeta em mutação e convulsão. Ele se revelou desmesurado e não cabe noutra linguagem (verde, social, ecológico, de direitos humanos). Esse regime não nos serve. A humanidade mutante deve abandonar o capitalismo liberal e todos os outros capitalismos que se apresentem. É roupa inútil para novos corpos em novo tempo-espaço. Imaginar um saber dominante a controlar e subordinar outros saberes e projetos sociais lembra mais 1960 do que 2022. Deste modo, o que fazer com os textos centralizados em operações antigas da economia, como é o caso desses quatro?

(4) Carece-se de pensar ética, estética e modo de conhecer, o caminho que Paulo Freire chamava carinhosamente epistemologia, pois ele queria que muito mais gente usasse esta palavra e não somente os iniciados no jogo do pensar. Ocorre que teremos de dirigir e orientar governos fazendo passar as éticas, estéticas, conhecimentos, compartilhamentos, educatividade, planejamento etc. ao fio da navalha, a fim de demonstrar o final de modos de fazer política obsoletos e francamente atrasados e o advento do que realmente nos permita fazer sociedades menos feias, se possível bonitas, capazes de inspirar confiança na juventude, redimir radicalmente a biosfera castigada, superar racismos e muitos outros ismos que somente nos diminuem como sapiens.

A linguagem dos quatro textos de “economia” lembra papiros e, mesmo assim, papiros copiados de algum outro lugar. Parecem muito distantes do agora que estudamos e vivemos. Ora, assim não vamos. Mas precisamos ir noutro rumo.

*Luiz Roberto Alves é professor sênior da Escola de Comunicações e Artes da USP.