A Europa sem rumo

Dora Longo Bahia, Liberdade (projeto para a Avenida Paulista II), 2020 Acrílica, caneta à base de água e aquarela sobre papel 29.7 x 21 cm

Por GILBERTO LOPES*

Alemanha e Inglaterra expressam a estagnação e o declínio do Velho Continente

“O mandato de Angela Merkel será lembrado como o mais paradoxal e cruel na Alemanha e na Europa”, disse o ex-ministro da economia grego Yanis Varoufakis, o principal opositor do programa draconiano de ajuste que a Alemanha e a União Europeia impuseram à Grécia em 2016. Merkel “dominou a política europeia como nenhum outro líder em tempos de paz”. Mas, segundo Varoufakis, o fez de uma forma que condenou a Alemanha e a Europa à estagnação e ao declínio.[i]

Responsabiliza-a por ter provocado uma crise humanitária em seu país para ocultar o resgate dos banqueiros alemães, cujas políticas, em sua opinião, “beiram a criminalidade”. Acusa-a de ter sabotado “todas as oportunidades para unir os europeus”, de ter conspirado para impedir qualquer transição verde na Alemanha ou na Europa, de “ter trabalhado incansavelmente para castrar a democracia e impedir a democratização de uma Europa desesperadamente antidemocrática”.

Não há dúvida de que a Alemanha é hoje mais forte política e economicamente do que era quando Merkel tomou posse em 2005, diz Varoufakis. O segredo, diz ele, está, entre outras coisas, num superávit comercial, que teve um efeito devastador sobre outras economias europeias, e no controle dos gastos, medidas de austeridade sem precedentes que afetaram principalmente a classe trabalhadora alemã e europeia. Principalmente a grega, que foi submetida a um drástico programa de ajuste em troca de recursos bilionários, que, depois de passar pelos bancos gregos, foram pararem seus verdadeiros destinatários, principalmente credores alemães e franceses. Varoufakis diz que só a Grécia devia 102 bilhões de euros aos bancos alemães que, sem o plano de resgate lançado por Merkel, corriam o risco de enfrentar as consequências radicais de seus investimentos arriscados.

Sem saber que estavam realmente pagando pelos erros dos banqueiros franceses e alemães, os eslavos e os finlandeses, os alemães e os franceses acreditavam que estavam carregando as contas felizes de outro país, diz Varoufakis. Aos cidadãos europeus, vendia-se a ideia de que a crise era o resultado do desperdício dos governos dos países do sul, acostumados a gastar mais do que tinham. Uma afirmação que, como vários economistas demonstraram, não tem qualquer sustentação. Assim, diz Voroufakis, “Merkel cultivou as sementes do ódio entre os povos orgulhosos da Europa”. Sobre a dívida regional, um grupo de cem economistas europeus publicou em fevereiro um documento no qual pedi ao “cancelamento da dívida pública mantida pelo Banco Central Europeu (BCE) para que o nosso destino volte às nossas próprias mãos”[ii].

Vertigem

Agora que se vai, o legado de Merkel é tema de debate na Europa, onde a formação do governo que lhe sucederá, após as eleições alemãs de 26 de setembro, é aguardada com ansiedade. A Europa enfrenta “a vertigem da era pós-Merkel”, diz Beatriz Navarro, correspondente em Bruxelas do diário La Vanguardia. Navarro atribui a analistas, diplomatas e altos funcionários de vários países europeus, entrevistados por ela, a expectativa de que seu sucessor tenha a visão geoestratégica “que Merkel nunca teve”. O desafio será “posicionar-se claramente perante os grandes desafios geoestratégicos que se enfrenta: o desprezo dos Estados Unidos, a ascensão da China, a disputa constante com a Rússia de Vladimir Putin…”.

Opinião semelhante foi expressa num editorial do The Observer, do The Guardian londrino: “Merkel, uma construtora exitosa de consensos, ajudou a manter a União Europeia unida durante sucessivas crises financeira, migratória e pandêmica”. Mas não deixam de assinalar que, por outro lado, “é notória sua falta de visão estratégica”. Adam Tooze, diretor do Instituto Europeu da Universidade de Columbia, prevê o fim de uma era em que o debate político esquerda-direita (fundamentalmente, na Alemanha, isso quer dizer entre social-democratas e democratas-cristãos) ficou reprimido. Três dos quatro governos liderados por Merkel foram em aliança com os social-democratas. Mas isso já ficou para trás.

Não foram os democratas-cristãos que puseram fim à divisão esquerda-direita como o centro da política alemã, diz Tooze. Foram os social-democratas do SPD que se voltaram para o neoliberalismo durante o governo de Gerhard Schröder (1998-2005). Junto com seu colega britânico Tony Blair, criaram a chamada “terceira via”, a fórmula neoliberal dos social-democratas europeus, não muito diferente das adotadas em vários países latino-americanos – entre eles Costa Rica, México ou Chile – por partidos que reivindicam uma orientação social-democrata. “Há consenso entre os analistas de que Merkel obteve o lucro político das reformas do mercado de trabalho e do Estado de bem-estar social que Schröder e seus parceiros ecologistas lançaram para fomentar o crescimento econômico e reduzir o desemprego. Essas reformas, um pacote de medidas batizado de Agenda 2010, prejudicaram a população mais modesta e vulnerável – foram criados os chamados mini-empregos, empregos com um salário abaixo de 450 euros por mês quase sem contribuição – e explicam, em boa medida, o milagre econômico alemão”, diz María Paz López, correspondente do La Vanguardia em Berlim.

Tooze lembra que Olaf Scholz foi secretário-geral do SPD durante o governo de Schröder. Blair também ressurge no laborismo britânico, que acaba de realizar sua conferência em Brighton, defendido pelo secretário-geral, Keir Starmer. A conferência terminou mal para Starmer, derrotado em sua proposta de alterar o peso dos votos para eleger as lideranças do partido. A ideia era voltar a um antigo sistema de votação setorial que restabelecia o peso do voto dos parlamentares, tornando mais difícil a eleição de representantes de setores de esquerda do partido, como o ex-secretário geral Jeremy Corbin.

Novo governo

Na Alemanha, por enquanto, o sucessor de Merkel parece ser Scholz, o candidato social-democrata e ministro das finanças do atual governo de coalizão, em que foram ponta de lança do conservador partido democrata-cristão. A ligeira vantagem de seu partido (25,7% frente aos 24,1% da coalizão CDU-CSU) dá-lhe preferência para a formação do governo. Algo que levará tempo (não seria estranho se tivéssemos que esperar até o final do ano, ou mais), no quadro da negociação tradicional para formar um governo na Alemanha. Scholz tem várias opções, mas a que parece estar sobre a mesa em primeiro lugar é com os Verdes (14,8%) e os liberais do FDP (11,5%).

Christian Lindner, presidente do FDP, manifestou em campanha seu desejo de ocupar o ministério das finanças, o cargo atual de Scholz. Prometeu não aumentar os impostos e adotar uma linha dura em relação à dívida. De acordo com as regras europeias, não deveria superar 60% do PIB de cada nação. Mas, mesmo antes da Covid-19, alguns não cumpriam esse limite. Hoje, França, Itália, Espanha, Bélgica e Portugal têm déficits superiores a 100% de seu PIB. “Se o ministro das finanças da Alemanha apoiar os pequenos estados conservadores da UE, que pedem a volta de uma política fiscal ortodoxa, será um desastre para a Europa”, adverte Tooze.

Reabrir o debate esquerda-direita tem riscos para a política alemã, acrescenta ele. Mas há também riscos em achar que essas diferenças não são reais. “Não é exagero dizer que o futuro da Europa está em jogo”. Olhando para o cenário político alemão, Varoufakis é menos otimista. Ele é implacável com Merkel. Mas, olhando para o bando de políticos “grosseiros e burocráticos” que lutam para substitui-la, diz ele, “talvez em breve eu pensarei com mais carinho em sua gestão”.

Para Ignacio Molina, professor da Universidade Autônoma de Madri (UAM), pesquisador no Real Instituto Elcano e editor da Agenda Pública, o substituto de Merkel não encontrará um panorama plácido. Seu principal desafio será “superar o pessimismo em relação ao futuro que hoje domina vastos setores da sociedade alemã e que se reflete nas sombrias projeções demográficas ou nas dificuldades para preservar a convivência num país chamado a ser forçosamente multicultural”. Molina enumera uma série de desafios, mas conclui indicando o de posicionar o país na nova ordem internacional e determinar o futuro das relações com os Estados Unidos no contexto de renovadas tensões com a China e a Rússia.

Do outro lado do Canal da Mancha

Foram-se os tempos em que os jornais britânicos podiam estampar manchetes como “Neve no Canal, continente isolado”. As filas de carros nos postos de combustível e estantes vazias nos supermercados não eram imagens comuns em países como a Inglaterra. Mas agora são.

As dificuldades nas cadeias de abastecimento, responsáveis pela escassez, poderiam durar até o natal, disse o primeiro-ministro britânico Boris Johnson. De acordo com a imprensa britânica, as pessoas brigavam nos postos de combustíveis enquanto professores e profissionais de saúde não podiam realizar suas tarefas diárias. As lojas não ficarão vazias, mas a quantidade de produtos disponíveis será reduzida.

Para o colunista do The Guardian Jonathan Freeland, a causa da escassez de combustível e de produtos nos supermercados é o Brexit. As estantes vazias nos supermercados, assim como os pubs com falta de cerveja, são o resultado dos problemas nas cadeias de abastecimento. “Em outras palavras, da falta de caminhoneiros”, diz Freeland.

Um panorama cinza para a Inglaterra também foi pintado por Steve Smith, membro do Centro de Pesquisa de Economia Política, escrevendo para a BBC. “Dezoito meses depois da pandemia de Covid-19, outro inverno muito difícil parece cada vez mais provável, com temores de um ressurgimento do vírus, combinado com o aumento da inflação e uma crise energética e na cadeia de abastecimento”, disse ele.

Uma recuperação econômica mais rápida do que o esperado exerceu pressão sobre os preços das matérias-primas. O preço do gás quase triplicou na Grã-Bretanha desde o início do ano. “O Brexit piorou toda a situação porque muitos trabalhadores da cadeia de abastecimento alimentar procediam do continente e já não têm permissões para trabalhar no Reino Unido”.

Por outro lado, “para manter a economia, o Banco da Inglaterra cortou, nos últimos anos, as taxas de juro a mínimos históricos e injetou enormes quantidades de dinheiro na economia, na forma de flexibilização quantitativa”. Um aumento das taxas de juros poderia significar que a dívida pública futura também se tornará mais cara, levando o governo a restringir ainda mais o gasto público.

É provável que os pagamentos do setor público sejam reduzidos, como aconteceu na última revisão das despesas, e se a inflação se mantiver elevada, “resultará num corte significativo dos salários em termos reais”. Nesse cenário, era esperado que o trabalhismo inglês concentrasse sua atenção na crise que o país enfrenta. Mas não tem sido assim.

Keir Starmer, seu secretário-geral, tentou um golpe na conferência trabalhista para restabelecer um sistema de votação ponderada para a eleição das lideranças do partido. A manobra tinha como objetivo reduzir as possibilidades da esquerda dentro do partido. Mas Starmer teve que retirar sua proposta face à oposição dos sindicatos. Também tentou reabilitar o ex-primeiro-ministro Tony Blair, o mesmo que, junto com o presidente norte-americano George W. Bush e o chefe do governo espanhol José María Aznar, garantiram ao mundo que tinham notícias reais sobre as armas de destruição em massa do Iraque, que utilizavam para justificar a invasão desse país.

Após uma década com o partido tentando apagar as memórias de Blair, Starmer decidiu recuperar seu legado. O resultado é que, longe de sua promessa de unir os trabalhistas depois dos anos sob a liderança de Jeremy Corbyn, o partido acabou “mais dividido do que nunca”, de acordo com os dirigentes e jornalistas que acompanharam a conferência. Agora teremos que esperar pelas eleições francesas de abril próximo para colocar mais uma peça sobre um tabuleiro em que o destino da Europa está em jogo.

*Gilberto Lopes é jornalista, doutor em Estudos da Sociedade e da Cultura pela Universidad de Costa Rica (UCR). Autor de Crisis política del mundo moderno (Uruk).

Tradução: Fernando Lima das Neves

Notas


[i] Ver “Angela Merkel”. Disponível em https://aterraeredonda.com.br/angela-merkel/?doing_wp_cron=1633549022.0865349769592285156250

[ii]O texto com a lista de signatários profissionais, encabeçada por Thomas Piketty, pode ser visto aqui: https://elpais.com/opinion/2021-02-04/anular-la-deuda-publica-mantenida-por-el-bce-para-que-nuestro-destino-vuelva-a-estar-en-nuestras-manos.html.