A música na literatura brasileira

Wassily Kandinsky, Composição VII, 1913.
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Por DANIEL BRAZIL*

Considerações sobre a obra fundamental de José Ramos Tinhorão, o historiador recém-falecido

Longe de ser em ensaio ou artigo acadêmico, este artigo é uma rememoração pessoal. Posto isso, vamos começar situando (sempre achei “contextualizando” meio pedante) época e local.

São Paulo, anos 1990. Trabalhava numa emissora de TV, e fui escalado para dirigir uma entrevista com o famoso e temido crítico musical José Ramos Tinhorão. Digo dirigir, porque a nossa repórter era fraquinha, e precisava de um apoio. Não tinha envergadura, bagagem e traquejo para entrevistar um Tinhorão. Por prudência, lá fui eu, roteirista e diretor-adjunto, com ela e a equipe. Cá entre nós, eu também não era lá essas coisas. Sabia quem era o cara, e isso bastou para que eu fosse escolhido “diretor de reportagem”.

Tinhorão havia acabado de lançar um livro interessantíssimo (com a devida vênia a Mario de Andrade), onde mapeava a Música Popular no Romance Brasileiro (Oficina de Livros, 1992). O primeiro volume analisava a produção literária dos séculos XVIII e XIX.

Passei umas dicas para a apresentadora do programa, a entrevista foi razoável. Difícil foi arrumar um local adequado para gravação, já que o apartamento na rua Maria Antônia, em São Paulo, era atulhado de livros de tal forma que para ir ao banheiro você tinha de andar de lado. As paredes dos corredores eram ocupadas por prateleiras abarrotadas com alfarrábios de vários séculos, além de centenas de discos de muitas rotações.

Após meia hora de entrevista gravada, dispensei a equipe e o camburão da emissora. Tínhamos muito mais que o necessário para um programa matinal de variedades, mas decidi ficar. Já era fã de seu clássico ensaio Os Sons Que Vem das Ruas, onde pesquisou os pregões, serenatas e choros, muitas vezes anônimos, que eram a trilha sonora das ruas urbanas antes do rádio e da televisão. Eu, aluno, dei um golpe de mestre: abri a mochila e pedi um autógrafo no volume, publicado por “Edições Tinhorão”. Puxei uma conversa, me declarei amante da música popular brasileira, cantarolei um samba do Nelson Cavaquinho, e perguntei sobre onde almoçar ali perto.

Bom, ele foi até o boteco comigo, dividimos um franguinho (era uma quinta-feira. A entrevista de “cultura” do programa ia ao ar sempre na sexta). Tinhorão comentou que havia um movimento dos moradores do prédio para expulsá-lo, porque o peso dos livros e discos estaria comprometendo as estruturas do edifício. Falei do meu amor pelo choro, ele me indicou a leitura do Animal,[1] que eu não conhecia. Lembro que depois de uma(s) cerveja(s) fiz uma provocação.

– Não é possível ler toda a produção literária brasileira, mestre! Certamente há obras menos conhecidas, que não entraram na pesquisa…

Não seria uma tarefa normal para um humano, claro. Mas Tinhorão era sobre-humano. Na volta ao apartamento, que ele havia transformado num verdadeiro apertamento, me levou até um quarto e apontou para uma parede atulhada:

– Aqui estão todos os romances brasileiros publicados desde 1843, a começar por O Filho do Pescador, de Teixeira e Souza. Abra qualquer um, e veja se não tem marcações e anotações!

Nem tentei. De todos os volumes sobressaíam papeizinhos marcadores de páginas. Não havia só ficção, mas também a obra crítica. Creio ter sido a primeira vez com que me deparei com os sete volumes de História da Inteligência Brasileira, de Wilson Martins. Ou os livros de José Veríssimo e Sílvio Romero.

Havia confirmado o que suspeitava: o cara era o mais obsessivo e meticuloso pesquisador da música popular desse país. Quando encetou o ambicioso projeto de ler todos os romances brasileiros já tinha na cabeça vários ensaios literários: os sons que vem das ruas, a música popular, a origem do fado, as polcas e marchinhas, os lundus e as matrizes do samba.

Além de efetuar minuciosa pesquisa em todas as mídias existentes (sua discoteca de 78 rpm era fenomenal!), jornalista que era, intuiu que o universo ficcional poderia trazer referências sentimentais, memorialísticas, até documentais, que a imprensa cotidiana não registrava. Dessa leitura percuciente surgiram várias obras fundamentais para a cultura brasileira e portuguesa. Tudo isso virou artigo, ensaio e livro.

No decorrer deste inesquecível dia, não ousei levantar o tema bossa-nova ou tropicália. Conhecia a ojeriza do historiador à moderna MPB. Lembro-me apenas de uma pequena referência a Gilberto Gil, que tocou no alto-falante do boteco, que ele apontou como “muito talentoso”, mas que devia parar de copiar aquelas estrangeirices, guitarra elétrica, etc.

Despedimo-nos com a promessa de um novo encontro, que nunca ocorreu. O acervo está nas mãos do Instituto Moreira Salles, depois de uma epopeia mirabolante, e a lembrança do crítico sarcástico e impiedoso com seus coetâneos já foi devidamente esmiuçada. Resta a nós, que algum contato tivemos com esse personagem fascinante, colorir um pouco a história de sua trajetória, nesse país onde a cultura é tão menosprezada.

A leitura de Música Popular no Romance Brasileiro é fonte inesgotável de revelações. Aponta incongruências, preconceitos, descrições errôneas, idealizações sem noção. Também contém acertos, intuições e achados preciosos. Herança fundamental para as gerações vindouras, deixada por um iluminista-marxista que nunca se submeteu aos modismos.

*Daniel Brazil é escritor, autor do romance Terno de Reis (Penalux), roteirista e diretor de TV, crítico musical e literário.

Nota


[1] “Animal” é o pseudônimo de Alexandre Gonçalves Pinto, carteiro e músico amador (1870-1940). Publicou em 1936 o livro O Choro – reminiscências dos chorões antigos, referência fundamental para a história da música popular brasileira.

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