A política externa russa

Imagem: Max Mishin
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Por CAIO BUGIATO*

Cinco pontos de discurso de Putin que falam da guerra da Ucrânia e relações exteriores

Em 21 de fevereiro de 2023 o presidente russo Vladimir Putin fez um discurso à Assembleia Federal russa. Como manda a Constituição o presidente discursa anualmente ao Parlamento sobre a situação e as perspectivas internas e externas do Estado nacional. Destacamos cinco pontos do discurso, do qual retiramos trechos que embasam as afirmações enumeradas abaixo sobre a guerra na Ucrânia e relações exteriores em geral.

Não sabemos se as palavras se transformarão em medidas concretas. Mas as consideramos um importante indicativo do que será a política externa do Estado russo. Daí a relevância do trabalho em extrair alguns pontos que entendemos como fundamentais no discurso. Este está disponível em português no site Sputnik News Brasil.

1.

O Ocidente liderado pelos EUA é o agressor, do qual é preciso de defender.

Estávamos abertos e sinceramente prontos para um diálogo construtivo com o Ocidente (…). Mas, em resposta, recebemos uma reação indistinta ou hipócrita, no que diz respeito às palavras. Mas também houve ações: a expansão da OTAN para nossas fronteiras, a criação de novas áreas de implantação de defesa antimísseis na Europa e na Ásia – eles decidiram nos proteger sob um “guarda-chuva” – implantação de contingentes militares, e não apenas perto das fronteiras da Rússia.

Gostaria de frisar – aliás, isso é notório – que nenhum outro país tem tantas bases militares no exterior quanto os Estados Unidos. Existem centenas delas – quero enfatizar isso – centenas de bases em todo o mundo; o planeta está coberto por elas, e basta uma olhada no mapa para ver isso. (…)

Deixe-me reiterar que foram eles que começaram esta guerra, enquanto nós usamos a força e a estamos usando para parar a guerra. (…)

A elite ocidental não esconde seu objetivo, que é, cito, “a derrota estratégica da Rússia”. O que isso significa para nós? Isso significa que eles planejam acabar conosco de uma vez por todas. Em outras palavras, eles planejam transformar um conflito local em um confronto global. É assim que entendemos e responderemos de acordo, porque isso representa uma ameaça existencial ao nosso país.

2.

A Ucrânia passou por um processo de nazificação e assume a posição de fantoche do Ocidente.

Estamos defendendo vidas humanas e nosso lar comum, enquanto o Ocidente busca poder ilimitado. Já gastou mais de US$ 150 bilhões para ajudar e armar o regime de Kiev. Para se ter uma ideia, de acordo com a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico, os países do G7 destinaram cerca de US$ 60 bilhões em 2020-2021 para ajudar os países mais pobres do mundo. (…)

Gostaria de lembrar que, na década de 1930, o Ocidente praticamente abriu caminho para o poder dos nazistas na Alemanha. Em nosso tempo, eles começaram a transformar a Ucrânia em uma “anti-Rússia” .(…)

O Ocidente acelerou a implementação deste projeto hoje, apoiando o golpe de 2014. Foi um golpe sangrento, anti-estatal e inconstitucional. Eles fingiram que nada aconteceu e que é assim que as coisas deveriam ser. Eles até disseram quanto dinheiro gastaram com isso. A russofobia e o nacionalismo extremamente agressivo formaram sua base ideológica. Muito recentemente, uma brigada das Forças Armadas da Ucrânia recebeu o nome de Edelweiss em homenagem a uma divisão nazista cujo pessoal estava envolvido na deportação de judeus, execução de prisioneiros de guerra e condução de operações punitivas contra guerrilheiros na Iugoslávia, Itália, Tchecoslováquia e Grécia.

Temos vergonha de falar sobre isso, mas eles não. O pessoal que serve nas Forças Armadas da Ucrânia e na Guarda Nacional Ucraniana gosta particularmente de divisas anteriormente usadas por soldados das divisões Das Reich, Totenkopf , Galizien e outras unidades da SS. Suas mãos também estão manchadas de sangue. Veículos blindados ucranianos apresentam insígnias da Wehrmacht alemã nazista. Os neonazistas são abertos sobre de quem eles se consideram herdeiros. (…)

O Ocidente está usando a Ucrânia como um aríete contra a Rússia e como campo de testes.

3.

Como resposta a todo o auxílio da OTAN à Ucrânia, o governo anuncia modernização das forças armadas e suspensão do acordo Novo Start (sobre armas nucleares).

Colegas, como vocês sabem, um plano 2021-2025 para construir e desenvolver as Forças Armadas foi aprovado por uma Ordem Executiva Presidencial e está sendo implementado e ajustado conforme necessário. É importante ressaltar que nossos próximos passos para reforçar o Exército e a Marinha e garantir o desenvolvimento atual e futuro das Forças Armadas devem ser baseados na experiência real de combate adquirida durante a operação militar especial, que é extremamente importante, eu diria mesmo absolutamente inestimável para nós. Por exemplo, os sistemas mais recentes respondem por mais de 91%, 91,3%, das forças de dissuasão nuclear da Rússia. Reiteramos, com base em nossa experiência recém-adquirida, que devemos acessar um nível de qualidade igualmente elevado para todos os outros componentes das Forças Armadas. (…)

Apresentaremos amplamente a tecnologia mais recente para garantir padrões de alta qualidade no Exército e na Marinha. Temos projetos-piloto correspondentes e amostras de armas e equipamentos em cada área. Muitos deles são significativamente superiores aos seus homólogos estrangeiros. Nosso objetivo é iniciar a produção em massa. Este trabalho está em andamento e está ganhando ritmo. É importante ressaltar que isso depende da pesquisa nacional e da base industrial e envolve pequenas e médias empresas de alta tecnologia na implementação da ordem de defesa do estado. (…)

Agora, eles estão usando a OTAN para nos dar sinais, o que, na verdade, é um ultimato pelo qual a Rússia deve, sem perguntas, implementar tudo com o que concordou, incluindo o Novo Tratado START, enquanto eles farão o que quiserem. Como se não houvesse conexão entre armas ofensivas estratégicas e, digamos, o conflito na Ucrânia ou outras ações ocidentais hostis contra nosso país. Como senão houvesse reivindicações vociferantes sobre eles tentando nos infligir uma derrota estratégica. Isso é o cúmulo da hipocrisia e do cinismo, ou o cúmulo da estupidez, mas eles não são idiotas. Afinal, eles não são estúpidos. Eles querem nos infligir uma derrota estratégica e também chegar às nossas instalações nucleares. A esse respeito, sou obrigado a anunciar hoje que a Rússia está suspendendo sua participação no Novo Tratado START.

4.

Há uma tendência para construir uma coalizão não-Ocidental com os projetos de infraestrutura direcionados a aliados no Oriente.

Em que áreas devemos focar a parceria do estado, das regiões e das empresas nacionais? Primeiro, vamos expandir os promissores laços econômicos estrangeiros e construir novos corredores logísticos. Já foi tomada a decisão de estender a via expressa Moscou-Kazan para Yekaterinburg, Chelyabinsk e Tyumen e, eventualmente, para Irkutsk e Vladivostok, com ramificações para o Cazaquistão, Mongólia e China. Isso nos permitirá, em parte, expandir consideravelmente nossos laços com os mercados do Sudeste Asiático. Desenvolveremos os portos do Mar Negro e do Mar de Azov.

Daremos especial atenção ao corredor internacional Norte-Sul, como bem sabem aqueles que nele trabalham todos os dias. Embarcações com calado de até 4,5 metros poderão passar pelo Canal do Mar Cáspio-Volga este ano. Isso abrirá novas rotas para a cooperação comercial com a Índia, Irã, Paquistão e países do Oriente Médio. Vamos continuar desenvolvendo este corredor.

Nossos planos incluem a modernização acelerada das ferrovias orientais – a Ferrovia Transiberiana e a Ferrovia Baikal-Amur (BAM) – e a construção do potencial da Rota do Mar do Norte. Isso criará não apenas tráfego de carga adicional, mas também uma base para alcançar nossas metas nacionais de desenvolvimento da Sibéria, do Ártico e do Extremo Oriente. A infraestrutura das regiões e o desenvolvimento da infraestrutura, incluindo comunicações, telecomunicações e ferrovias receberão um forte impulso. No próximo ano, 2024, colocaremos em boas condições pelo menos 85% de todas as estradas das maiores metrópoles do país, bem como mais da metade de todas as estradas regionais e municipais. Tenho certeza de que vamos conseguir isso.

5.

O projeto do governo Putin é o desenvolvimento de um capitalismo nacional autônomo e burguesia nacional russa é a principal beneficiada pelas políticas internas e externas do Estado.

Em segundo lugar, precisaremos expandir significativamente as capacidades produtivas de nossa economia e aumentar a capacidade industrial doméstica. Novos termos para clusters industriais entraram em vigor este ano, incluindo um menor ônus fiscal e administrativo para as empresas residentes e ordens e subsídios estatais de longo prazo para apoiar a demanda por seus produtos inovadores, que estão entrando no mercado. (…)

Lembramos quais problemas e quais desequilíbrios a economia soviética enfrentou em seus estágios posteriores. É por isso que após o colapso da União Soviética e de seu sistema planejado, no caos dos anos 1990, o país começou a construir sua economia nos moldes das relações de mercado e da propriedade privada. No geral, essa foi a coisa certa a fazer. Os países ocidentais foram em grande parte um exemplo a seguir a esse respeito. Como vocês sabem, seus conselheiros custavam dez centavos a dúzia e parecia suficiente simplesmente copiar seus modelos. É verdade que lembro que eles ainda discutiam entre si – os europeus discutiam com os americanos sobre como a economia russa deveria se desenvolver. E o que aconteceu como resultado? Nossa economia nacional era amplamente voltada para o Ocidente e, em sua maior parte, como fonte de matérias-primas. (…)

Existe outra opção [em relação ao Ocidente]: ficar na Pátria, trabalhar para os seus compatriotas, não só abrir novos negócios, mas também mudar a vida ao seu redor nas cidades, vilas e em todo o país. Temos muitos empresários assim, verdadeiros lutadores em nossa comunidade empresarial, e a eles associamos o futuro de nossos negócios. Todos devem saber que as fontes de sua prosperidade e futuro só podem estar aqui, em

seu país natal, a Rússia. Se o fizerem, criaremos uma economia muito forte e autossuficiente que não ficará alheia ao mundo, mas aproveitará todas as suas vantagens competitivas. O capital russo, o dinheiro ganho aqui, deve ser colocado a serviço do país, do nosso desenvolvimento nacional. Hoje, vemos um enorme potencial no desenvolvimento de infraestrutura, no setor manufatureiro, no turismo doméstico e em muitas outras indústrias.

*Caio Bugiato é professor de ciência política e relações internacionais da UFRRJ e do programa de pós-graduação em relações internacionais da UFABC.

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