A terra e as cinzas

Imagem: Pierre Blaché
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Por DANIEL BRAZIL*

Comentário sobre o livro recém-lançado de Francesc Escribano.

Em 1985, um jovem jornalista catalão de 26 anos, Francesc Escribano, viaja pela primeira vez ao Brasil para entrevistar outro catalão ilustre: Dom Pedro Casaldáliga. Se depara com o final de uma longa ditadura militar, e também com um cenário de violência no campo, de desigualdade e miséria que o deixa chocado. Ao mesmo tempo, fica tão impressionado com a coragem do franzino bispo de São Félix de Araguaia, ameaçado de morte por fazendeiros e jagunços, que este se torna uma referência em sua vida.

Francesc Escribano volta ao Brasil várias vezes, e escreve uma biografia de Pedro Casaldáliga, Descalzo sobre la Tierra Roja (1999), que é premiada e vira minissérie televisiva na Europa. Escreve outros livros, se envolve com a produção audiovisual, mas a figura magnética de Pedro Casaldáliga o faz retornar ao ponto de partida.

Em 2021, o bispo morre, após longa luta (“convívio”, dizia ele) contra o Parkinson, que o deixou em cadeira de rodas no final da vida. Em uma viagem de reconexão com o que deu um sentido à sua carreira, o jornalista encontra um país dividido, polarizado e contraditório.

Francesc Escribano lança agora o livro A Terra e as Cinzas, que tem o subtítulo de Brasil: viagem ao coração do país de Lula, Bolsonaro e Casaldáliga. O desafio é tentar entender os processos que fizeram com que os anos do PT no poder desaguassem numa reação conservadora que ignorou todos os avanços sociais, ou pior, que surgiu por causa desses avanços.

O autor se coloca em primeira pessoa, revelando suas dúvidas e angústias à medida em que vai percorrendo o país e entrevistando personagens de todos os matizes ideológicos. Logo no início recorre a Lévi-Strauss e Stefan Zweig para balizar o olhar estrangeiro com que pretende decifrar o paradoxo.

Sua viagem começa por Batatais, SP, onde morreu Pedro Casaldáliga. Ali se encontra uma comunidade claretiana (ordem à qual Dom Pedro pertencia), que mantém um centro universitário e assistencial. Vai a Brasília, onde conversa com representantes do PT, como Gilberto Carvalho e Paulo Maldos, jornalistas internacionais, direitistas como Kim Kataguiri, e líderes evangélicos da periferia.

A questão religiosa ganhou relevância nos últimos anos pela ascensão das igrejas neopentecostais no campo e nas cidades, e sua estreita ligação com políticos conservadores, que desembocou no apoio ao capitão-miliciano. A Teologia da Libertação, representada por Pedro Casaldáliga, foi sufocada pelo Vaticano, e o jornalista constata, com espanto, que muitas comunidades que saíram da semi-escravidão e da opressão do agronegócio graças ao empenho dos “esquerdistas”, hoje apoiam políticos de direita.

A própria São Félix do Araguaia, onde o bispo é reverenciado até hoje, tem uma prefeita bolsonarista, que é devidamente entrevistada. Francesc Escribano conversa com várias lideranças, vai à sede do MST, visita aldeias indígenas, e relata com detalhes esta reviravolta ideológica. Habilmente extrai dos entrevistados possíveis explicações, expondo ao leitor um leque de visões com a isenção que só um observador estrangeiro poderia ter.

Obviamente, o autor não é imune às causas políticas, tem simpatia pelas esquerdas no âmbito das políticas sociais, mas não está envolvido com as paixões incendiárias da política brasileira. Coloca-se como um indivíduo em busca de explicações, e consegue sintetizar, neste pequeno grande livro, grande parte do enigma social brasileiro.

No último capítulo, após voltar onde tudo começou, o jornalista reconhece que sente “uma sensação contraditória”. Feliz por constatar que o legado de Dom Pedro Casaldáliga deixou marcas duradouras, que suas batalhas não foram em vão, mas “indignado pelo pouco respeito que continua havendo pela vida humana e pela destruição sistemática do meio ambiente.”

Tudo aquilo contra o que o bispo lutou ainda persiste. O trabalho escravo, a fome, o genocídio indígena, a violência, o racismo e a pobreza. A conclusão é a de que suas causas continuam vivas, e muito presentes. O que permanece é “a luta, sempre a luta”.[1]

*Daniel Brazil é escritor, autor do romance Terno de Reis (Penalux), roteirista e diretor de TV, crítico musical e literário.

Referência

Francesc Escribano. A terra e as cinzas. Brasil: Viagem ao coração do país de Lula, Bolsonaro e Casaldáliga. São Paulo, Editora Fórum Social, 2024, 192 págs. [https://amzn.to/4e6SEER]

Nota

[1] Em agosto de 2024 o livro foi lançado no Brasil, com a presença do autor. Coerentemente, no Armazém do Campo, simbólico ponto de resistência e solidariedade do MST em São Paulo.


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