A revolta de Atlas

Willem de Kooning with Harold Rosenberg, Revenge (in-text plate, folio 8) from 21 Etchings and Poems, 1960

A revolta de Atlas

Por RAFAEL GALVÃO DE ALMEIDA*

Comentário sobre o livro de Ayn Rand.

“Quem é John Galt?” é a pergunta que apareceu em vários outdoors espalhados por cidades brasileiras no ano passado.[i] A resposta a essa pergunta é tanto simples quanto complexa: é simples porque John Galt é um personagem do livro Atlas Shrugged, escrito pela escritora e ativista Ayn Rand e publicado em 1957, traduzido no Brasil em duas edições diferentes: Quem é John Galt?, e agora como A revolta de Atlas.

A resposta complexa se refere à influência de John Galt na sociedade. Apesar dos escritos de Ayn Rand não serem bastante difundidos no Brasil, John Galt é um ícone americano. De acordo com dados do Ayn Rand Institute, os livros dela venderam 30 milhões de cópias[ii]. A Wikipédia tem uma lista de pessoas conhecidas influenciadas por ela, incluindo seu fundador[iii]. A Penn State University publica o periódico The Journal of Ayn Rand Studies, que é um espaço em que sua obra pode ser discutida, analisada e criticada em um sistema de resenha por pares.

A pergunta “Quem é John Galt?” está relacionada à pergunta “Quem é Ayn Rand?” Para aqueles que reconhecem o nome da fundadora do Objetivismo, sua reputação a precede. Paragono da liberdade ou líder de culto? Arauto do egoísmo iluminado ou fraude hipócrita? Uma coisa é certa: ela tinha uma personalidade forte e vivia da controvérsia. É quase impossível de se permanecer neutro em relação a ela. Sua vida é bastante discutida em biografias – uma delas, a biografia acadêmica de Jennifer Burns, é aptamente intitulada The Goddess of Market (“A Deusa do Mercado”).[iv] Por isso, já adianto que a minha avaliação tende a não ser muito positiva por causa das minhas discordâncias. Eu não faço parte do alvo demográfico primário dela. Porém, esse não foi motivo pelo qual escrevi esse texto.

Eu já sabia da reputação de Rand e por isso a evitava. Mas tenho um projeto de pesquisa sobre a evolução da percepção sobre o empreendedor no pensamento econômico e de como ele se tornou um “herói” do capitalismo. Essa mudança ocorreu não só por causa de discussões acadêmicas. Intelectuais públicos foram importantes, algo que alguns cientistas tendem a ignorar. Um leigo querendo saber sobre algo vai jogar na barra de pesquisa e o primeiro resultado tem grandes chances de ser a Wikipédia ao invés de um artigo acadêmico. E Rand definitivamente foi uma influência bastante grande ao moldar a narrativa do empreendedor como herói. Zizek argumentou que existe algo revolucionário em seu aparente conformismo.[v]

Um breve esboço biográfico: nascida em 1905, filha de uma família judaica abastada residente em São Petersburgo, Rússia, como Alisa Zinovyevna Rosenbaum. Tanto as biografias de Jennifer Burns e Andrea Heller relatam que suas ideias sobre egoísmo como virtude surgiram logo na sua infância, assim como sua paixão pelo cinema e literatura. Ela presenciou aos 12 anos a Revolução Russa e a sua família nunca recuperou a riqueza que uma vez teve. Ela migrou para os Estados Unidos em 1926, com o sonho de trabalhar em Hollywood. Ao chegar em Nova York, com destino à Califórnia, ela mudou seu nome para Ayn Rand, para enfatizar sua nova vida. Ao chegar na Califórnia, ela conseguiu um estágio com Cecil B. DeMile. A partir de então, ela se tornaria uma escritora e ativista, construindo uma grande rede de apoiadores a leitores.

Ela difundiu suas ideias por meio de livros de ficção e não-ficção, mas o alcance dos seus livros de ficção é maior. Entre as suas obras de ficção estão We the Living (1934, obra semiautobiográfica sobre suas adversidades na Rússia soviética), Cântico (1938), A Nascente (1943) e sua obra mais conhecida A revolta de Atlas/Quem é John Galt, que pode ser considerada a síntese de suas ideias filosóficas em formato de novela. Se Georg Lukács definiu a novela como a epopeia burguesa[vi], A revolta de Atlas definitivamente leva essa definição a um passo além.

Para esse texto, vou me focar em Revolta de Atlas em si (daqui em diante AS, porque eu li a edição em inglês publicada pela Signet[vii]). Vou me esforçar para manter as referências à biografia de Rand mínimas, embora entendendo o contexto da vida de Rand explica muita coisa sobre AS.

As duas personagens mais importantes do livro são Dagny Taggart e Hank Rearden. Dagny é vice-presidente da Taggart Transcontinental, uma ferrovia que existiu por décadas, fundada pelo patriarca Nathan Taggart, um homem que construiu sua fortuna do nada, através do seu puro esforço. Hank é presidente da Rearden Steel e criador do miraculoso metal Rearden, que certamente revolucionará a siderurgia. Eles são os heróis cujo desenvolvimento acompanhamos.

Eles são complementados por Eddie Willers, o principal ajudante de Dagny e que a apoia incondicionalmente; Francisco d’Anconia, herdeiro da D’Anconia Copper, playboy extraordinário; e, é claro, John Galt, uma figura que se tornou uma força misteriosa e medonha.

Dagny e Hank são personagens que acima de tudo, são apaixonados pelo que fazem. Recusam-se a gastar seu dinheiro valioso em consumo conspícuo. Estão sempre correndo atrás da melhor matéria-prima, dos melhores trabalhadores. Hank se recusa a cometer fraude. Em uma cena um tanto interessante, Dagny está perdida no meio dos Estados Unidos e ainda assim vê oportunidades de melhorar a produção de uma cidade pequena por meio de um sistema de transporte melhor. Rand escreveu eles para serem empreendedores no sentido mais puro da palavra, e isso inclui intolerância contra a mediocridade.

Tal mediocridade está presente nos vilões da história: James Taggart, irmão de Dagny e presidente da companhia, incapaz de tomar as decisões necessárias para fazer prosperar a empresa; Wesley Mouch, lobista de Hank e posteriormente seu traidor; Dr. Floyd Ferris, um biólogo que denuncia o conceito de racionalidade em si, que só quer obter mais poder sobre os outros; e Robert Stadler, físico brilhante, mas que entregou seus dons ao estado coletivista.

Na novela, os Estados Unidos são uma ilha produtiva circundada por um mar de coletivismo. Todos os países do mundo viraram “Repúblicas Populares” e suas economias estão em frangalhos. Mesmo os Estados Unidos estão indo na mesma direção, com leis sendo promulgadas envolvendo sequestro de ativos dos produtores, congelamento de salários e emprego, e introdução de grãos de soja orientais na dieta.

Os heróis precisam ser pessoas fortes e tomar decisões impopulares. Eles resistem às tentativas dos “looters[viii]” do governo de se apropriarem de suas criações. Obras de caridade são vistas como um insulto porque, no fim, eles estão disponibilizando o que eles criaram a pessoas que não merecem. O produtor não deve nada a ninguém, nem trabalhadores, nem governo, nem mesmo a seus acionistas. Ele deve fazer as coisas para si mesmo.

Quando Hank é cobrado pelas pessoas a quem ele deve contas, ele responde “Apenas um homem que nunca fez um dia de trabalho honesto na vida poderia pensar ou dizer isso […] Você não entenderia se eu dissesse que o homem que trabalha, trabalha para si mesmo, mesmo que ele carregue todos os imbecis como você. Agora eu acho que você está pensando: vá adiante, diga que eu sou mau, que sou egoísta, arrogante, cruel. Eu sou. E eu não quero nada ver com essa bobagem de trabalhar para os outros”.

Dagny e Hank representam o empreendedor comum. Afinal, independente da afiliação ideológica, quem nunca se sentiu importunado ao preencher a declaração da receita federal? Ou com uma vista da agência sanitária? Ou teve que lidar com um empregado problemático? Ao lhes dar o papel de protagonistas, Rand cria um artifício pelo qual o leitor pode se identificar com as suas lutas e desejos. O empreendedor não entra em seus negócios somente para lucrar, mas para se expressar. As empresas heroicas têm os nomes dos seus fundadores, enquanto que as vilãs têm nomes anônimos. O artista e o empreendedor são irmãos.

Mas eles não são perfeitos.

O primeiro a chamar a atenção para isso é Francisco. O único personagem não americano relevante da obra, Francisco é herdeiro e magnata da usina de cobre construída pelo seu ancestral que fugiu da Inquisição espanhola para a Argentina. Lá, cada geração dos d’Anconias fizeram com que o negócio crescesse. Não se nasce um d’Anconia, torna-se um. E Francisco tinha muito potencial. Amigo de infância e primeiro amor de Dagny, ela sempre comentava que tudo o que Francisco fazia, não importando se ele era um novato, ele facilmente se sobressaía sobre Dagny. Ele mesmo diz “Dagny, não há nada de maior importância na vida a não ser quão bem você faz seu trabalho”.

Porém algo muda nele. Francisco se torna em um playboy, interessado em cantar mulheres e dar festas extravagantes. Não somente isso, ele usa seu monopólio sobre o cobre para quebrar o mercado de cobre, mesmo que isso signifique a destruição dos seus negócios. Isso decepciona Dagny, mas existe uma razão. Ele se torna eloquente. Seu discurso sobre o dinheiro é uma das partes mais conhecidas do livro. “Amar uma coisa é saber e amar sua natureza. Ao amar o dinheiro é saber e amar o fato de que o dinheiro é a criação do melhor poder dentro de você…O dinheiro é o barômetro da virtude” e os Estados Unidos é a maior nação do mundo por reconhecer isso, “um país de razão, justiça, liberdade, produção, recompensas…” e o “mais alto tipo de ser humano” é o “industrialista americano”.

Dagny observa a atitude de amor à vida de Francisco, incapaz de entender porque ele tomou esse caminho. Francisco responde que um dia ela entenderá. “Contradições não existem. Sempre que você estiver diante de uma contradição, cheque suas premissas. Você verá que uma delas está errada”.

Enquanto isso, o outro produtor imperfeito em questão, Hank, está passando por problemas. Seu metal Rearden é visto pelo governo como um “perigo social”, porque vai fazer com que seus concorrentes se tornem obsoletos e frustrar os planos da lei de igualdade de oportunidades. Ainda assim o governo quer seu metal.

Hank e Dagny começam um caso. Hank já era casado com Lilian, mas ela era uma mulher terrível. Eu não me importei com o romance porque não compartilho dos fetiches de Rand, então eu não vou me deter nesse ponto, mas o adultério é demonstrado como algo simpático a ambos e Lilian é uma mulher que pode ser ignorada por ser um empecilho à Hank.

Mesmo assim, sua parceria vai além do romance. Dagny quer construir sua ferrovia e ligar o Atlântico ao Pacífico, enquanto que Hank a vê como um dos poucos clientes digno do seu metal. Enquanto ela constrói, ela é ainda atormentada pela frase “Quem é John Galt?”, que já virou um lugar comum no país. Então ela decide fazer o impensável: nomeia sua ferrovia de Ferrovia John Galt.

Ela vai atrás do melhor pessoal e melhor material, incluindo rumores de que um engenheiro inventou um motor de energia infinita – algo perfeito para os trens da Taggart Continental. Começa então um trabalho de detetive atrás do motor que leva Dagny por vários pontos dos Estados Unidos. Enquanto isso, problemas de infraestrutura se tornam cada vez mais comuns. As luzes por todo o país começam a se apagar e membros da classe produtiva começam a desaparecer. Muitos dos potenciais funcionários que Dagny tenta contratar dizem que não podem aceitar porque existe algo que eles devem fazer.

Hank, por outro lado, é acossado pelos órgãos do governo. Eles utilizam o seu caso com Dagny para o chantagear. Ele é forçado a ceder seu metal Rearden, agora “metal miraculoso”. Ele faz isso para preservar a honra de Dagny, o que é uma “troca” – uma ação egoísta ao invés de “sacrifício” altruísta falso e maligno.

Com isso cubro as duas primeiras partes. Resumir AS é uma tarefa difícil porque o livro tem mais de mil páginas e tem tantas coisas acontecendo, cuja relevância muitas vezes é duvidosa (até temo ter esquecido alguma coisa relevante, por isso vou tentar me focar nos pontos importantes ao meu argumento). Rand amava colocar discursos enormes sobre a superioridade moral dos seus heróis e o ódio niilista dos seus vilões. Os vilões são pessoas malignas ou covardes (que acabam malignas como Robert). Sua hipocrisia é infinita, ao anunciar que fazem para o bem comum, mas só pensam em si mesmos, ou são idiotas demais para perceberem que são hipócritas. Temos banqueiros e industrialistas traidores de classe que se gabam de nunca terem lucro.

Cooperativas, como a Twentieth Century Motors, caem no momento em que distribuem o poder entre os trabalhadores, ao invés de confiar nas decisões de um produtor. O vilão mais simpático é o sindicalista Fred Kinnan, que consegue se safar no final; muitos leitores acreditam que ele era um agente de Galt infiltrado, embora provavelmente seja porque Rand percebeu que o livro ficou grande demais e o varreu para debaixo do tapete.

A decadência da economia é consequência da fraqueza moral dessas pessoas. Nenhuma parte do livro tem tanto desdém por essas pessoas quanto a cena em que um dos trens de Dagny, tomado pelos looters, é destruído por vários fatores, incluindo falta de manutenção e controle (porque todos os membros produtivos desapareceram). Todos morrem e Rand descreve em detalhes como todos os passageiros do trem mereceram morrer.

Dagny entra em depressão, obviamente não pela morte dessas pessoas, mas por isso ter sido um golpe duro contra sua empresa. É neste ponto que Francisco diz a ela que ela é seu maior inimigo e que deve abrir mão de sua ferrovia em nome de algo maior. Foi o que ele fez com sua mineradora. Porém, Dagny ama demais a sua ferrovia para aceitar essas palavras. Isso a pressiona ainda mais a buscar por John Galt. Ela finalmente consegue uma pista que o permite seguir, pilotando um avião pelos cânions do Colorado. Porém, o avião quebra e, em suas últimas palavras enquanto o avião cai, Dagny grita “Que diabo! Quem é John Galt?”

A terceira parte é o clímax da obra. Dagny acorda e percebe que foi resgatada do seu destino. Esse resgatador a traz para seu esconderijo: um vale protegido da influência do mundo decadente, um lugar onde a elite produtora pode viver seus sonhos mais íntimos ao lado de pessoas que pensam o mesmo que eles, onde há abundância e paixão. A Atlântida, a Utopia da Cobiça, a Ravina de Galt. Não importa o nome, cada um chama o lugar do que deseja, pois é o paraíso na terra. Logo Dagny descobre a verdadeira identidade de seu salvador: John Galt.

Dagny é levada a um tour pelo vale e aprende como funciona. Não há regras nem leis, apenas o costume de nunca usar a palavra-tabu: “dar”. Ninguém recebe nada de graça, cada um trabalha, incluindo Dagny. Mesmo quando outros pagam algo por ela, ela recebe um compromisso para pagar de volta.

Dagny também conhece várias pessoas e revê algumas pessoas que ela encontrou pela sua jornada, de filósofos a artistas. Todas elas criando coisas maravilhosas e revolucionárias para desfrute apenas de seus correligionários no vale. O mundo lá fora não merece seus talentos e criações, pois, na sua natureza de looters e moochers, exigem que eles os disponibilizem sem pagar o devido reconhecimento. Numa conversa com Ellis Wyatt, magnata do petróleo, Dagny pergunta porque ele abandonou sua posição de privilégio para ficar no vale, ele responde “Eu agora trabalho para uso, não por lucro – meu uso, não lucro dos looters. Apenas para aqueles que adicionam à minha vida, não àqueles que a devoram, são meu mercado”.

Comentarei mais sobre o vale adiante. Por ora, basta dizer que Galt e seus associados fazem um ultimato a Dagny: ela deve escolher entre amar sua ferrovia e amar a si mesma. O mesmo vale para Hank, que também é aguardado no vale no momento que fizer a decisão. Era isso que Francisco estava tentando dizer a ela e é por isso que ele deixou quebrar a sua mineradora, porque existem coisas melhores, das quais os looters não podem se apropriar. Todos os residentes do vale fizeram isso ao se juntarem à greve. Por isso que o principal “vilão” da história de Dagny é ela mesma. E ela deve fazer a escolha breve, pois o dia do julgamento se aproxima.

Enquanto os vilões se preparam para executar seus planos, que são na realidade os últimos suspiros da sociedade coletivista, John Galt toma o controle da rádio oficial quando presidente estava prestes a fazer um discurso. Rand passou dois anos escrevendo o que pode ser o resumo de suas ideias não só filosóficas, mas também sobre como viver a vida – sua teoria de tudo pessoal, por assim dizer. Ela certamente escreveu mais trabalhos filosóficos, mas o centro de suas ideias está no discurso.

Para John Galt existe uma crise moral em que os mestres e produtores da economia são explorados por outras pessoas menos brilhantes que eles. Eles são forçados a dar os seus produtos, criados por meio de seu suor, sangue e lágrimas por uma merreca. Esses sub-humanos, looters e moochers, são os que ocupam os cargos políticos e organizações não-governamentais. Eles são auxiliados por produtores que traíram seu chamado e agora conspiram contra os verdadeiros heróis.

“Vocês se proclamam de aproveitar as forças da matéria inanimada, e ainda assim se propõem a se aproveitarem das mentes de homens que são capazes de alcançar feitos que vocês não podem. Vocês proclamam que não podem sobreviver sem nós, e ainda assim se propõem a ditar os termos da nossa sobrevivência. Vocês proclamam precisar de nós, e ainda assim indulgem a impertinência de asseverar seu direito de dominar sobre nós pela força – e esperam que nós, que não temos medo daquela natureza física que os enchem de terror, fiquemos com medo com a visão de qualquer palhaço que os convenceu a lhe eleger para uma chance de nos comandar”.

Foi por isso que ele entrou em greve. E não só ele, mas toda a classe produtora. Galt propõe um caminho mais perfeito. Através da racionalidade humana, o domínio sobre as emoções pode ser alcançado e o homem pode se tornar senhor de si mesmo. A é A. “Se a devoção à verdade é a verdadeira marca da moralidade, então não há maior, mais nobre e heroica forma de devoção do que o ato de um homem que assume a responsabilidade do pensar”.

Demonstrando a influência das conversas que Rand teve com Ludwig von Mises, Galt proclama que “o homem descobriu que a natureza era uma firma” e que o sistema de preços é fundamental para o domínio sobre a natureza. Por isso, burocratas não devem interferir.

Não-interferência é algo fundamental no discurso de John Galt. Como foi enfatizado muitas e muitas vezes, o produtor não deve nada a ninguém, nem ao governo, nem aos seus empregados, nem aos acionistas, muito menos ao público e à sociedade. Ele cria porque é da sua natureza criar. E sendo mestre de si mesmo, ele pode se tornar mestre de qualquer coisa – por isso Francisco sempre vencia Dagny quando jovens, por isso os produtores do Vale não se importavam em assumir trabalhos servis. E também por isso que Robert Stadler não podia se juntar a eles, mesmo sendo um gênio em física: ele era apenas um gênio em física. Quando o egoísmo iluminado pelo objetivismo é praticado, o resultado só pode ser o melhor para todos os outros. Esse é o sentido da Utopia da Cobiça no Vale. Por isso ele termina com a frase que sumariza a sua cosmovisão: “Eu juro – pela minha vida e pelo meu amor por ela – que eu nunca vou viver por outro homem e nem pedir a qualquer outro homem para viver a dele por mim”.

Após a transmissão, os vilões estão encurralados. Revoltas ocorrem por todo os Estados Unidos. A grande união americana começa a se despedaçar e os vilões imploram por dias para que John Galt os ajude.

No lado dos heróis, Eddie tem uma revelação: o trabalhador braçal com quem ele construiu uma amizade, retratada no começo da novela, no fim era John Galt disfarçado de trabalhador de trilha, “o mais baixo dos trabalhadores de trilha”. Galt, de fato, esteve observando Dagny e sua ferrovia por 10 anos, aprendendo sobre ela, apaixonando-se pela paixão de Dagny.

Com a continuação das revoltas e a agonia da sociedade coletivista, os homens no poder ficam ainda mais desesperados. Eles imploram a ajuda de Galt enquanto que o ameaçam matar – como se isso fosse ajudar em qualquer coisa. Mesmo quando eles conseguem o localizar e o prender, eles continuam sendo humilhados pela capacidade de Galt de denunciar a farsa e se recusar a comprometer seus princípios.

De fato, nessa parte tem a parte mais engraçada do livro. Quando Galt é encurralado e eles perguntam se ele gostaria de cooperar com eles, ele se recusa, dizendo, “Eu levei três horas no rádio para dizer a vocês o porquê. ” Eu ri muito aqui, porque é aqui que a novela quase que tem um momento de self-awareness. Isso fica no quase, porém.

No fim, Galt é resgatado por seus correligionários. Dagny e Hank tomam uma decisão e atingem a perfeição e lideram o grupo que resgata John Galt. Dagny até mesmo mata um trabalhador que se recusou a tomar uma decisão. Eles salvam Galt, os vilões são destruídos por sua incompetência. Os heróis retornam ao Vale para se reunirem e planejar a nova sociedade, de heróis e indivíduos criativos.

“‘A estrada está limpa’, disse Galt. ‘Estamos de volta ao mundo’. Ele levantou a mão e sobre a terra desolada ele traçou o símbolo do dólar”.

E assim termina a história e estou livre dela. 1100 páginas de um mundo composto de caricaturas e idealizações gladiando entre si. Demonstrando influência do cinema soviético, não há espaço para o meio-termo, apenas o Bem e o Mal e os leitores devem escolher o Bem definido pela autora caso não queira fracassar moralmente. Rand sempre faz questão de enfatizar que seus heróis são pessoas bonitas e saudáveis – sem dúvida algo que ela aprendeu em Hollywood, que já foi parodiado em filmes como O último grande herói, com Arnold Schwarzenegger – e os vilões são pessoas terríveis, hipócritas e que nunca param de falar sobre quão terríveis e hipócritas eles são. Rand abraçou o estilo camp[ix] do cinema. Independentemente de ser herói ou vilão, todos amam declamar discursos sem fim.

Para uma pessoa fora do alvo demográfico pode parecer um mistério como esse livro ficou tão conhecido. O livro não tem a pior prosa, mas não tem todo o mérito artístico que seus fãs defendem ter. Particularmente detestei o pirata Ragnar. G. K. Chesterton uma vez disse que uma boa novela diz algo sobre sua história, enquanto que uma ruim diz algo sobre seu autor[x]. E AS diz muito sobre Rand. Tendo lido a biografia de Rand antes, posso dizer que as experiências de vida de Rand influenciaram bastante a sua escrita.

Por exemplo, no fim do livro, quando as revoltas galtianas se espalham, ela narra que uma mulher foi admitida num hospital com uma fratura na mandíbula após um transeunte bater nela após ouvir ela ordenar seu filho de cinco a dar seus melhores brinquedos aos seus vizinhos. A biografia de Heller[xi] relata um episódio similar na vida de Rand, quando ela tinha cinco anos, em que a sua mãe disse que ela teria que desistir de seus brinquedos por um ano para que ela pudesse apreciar eles. Após um ano, ela estava ansiosa para ter seus brinquedos de volta, porém sua mãe disse que tinha doado eles. Uma das origens de sua filosofia, diz Heller, foi nesse episódio. A realidade é mais estranha que a ficção. Até imagino que, se alguém respondesse a esse texto dizendo que esse episódio é apócrifo, não ficaria surpreso.

No fundo, o livro pode ser considerado uma parábola sobre os perigos do coletivismo, do poder criador do produtor e que a destruição criativa é algo a ser abraçado ao invés de temido. O problema é que Rand tinha outras expectativas. No posfácio, ela diz que “ninguém pode me dizer que homens como os que escrevo não existem. O fato deste livro ser escrito e publicado é prova disso”. Não me parece que ela escreveu isso apenas como um encorajamento metafórico. Por suas expectativas não serem cumpridas ela entrou em depressão. “John Galt não se sentiria assim”, ela chegou a confessar.

O objetivismo continua sendo uma doutrina obscura. Até mesmo em conferências liberais, poucos autores e palestrantes vão dizer que “A é A” (e eles podem até ser considerados excêntricos até mesmo por outros liberais). As pessoas promovendo AS vão se focar na história de “grandes homens fazendo grandes coisas” e de “trabalho é empoderador”, ocultando convenientemente a parte sobre egoísmo ilimitado. Fãs vão ler e reler AS e depois fazer doações à caridade e não verão nenhuma contradição. A maioria das análises não considera o quanto Ayn Rand sofreu daquilo que Roland Barthes chamou de “morte do autor”[xii] – algo que Rand lutou contra durante a sua vida, pois ela queria que seus escritos tivessem o efeito que ela desejava.

O alvo demográfico era os empreendedores. Como Burns escreveu, muitos deles consideraram o livro revolucionário, assim como foi A nascente, em 1943. “Dúvidas e conflitos são coisas do passado”, “um dia eu recomendei seus livros na minha classe e repeti o Juramento de Fidelidade ao Eu”, “foi como se meus olhos se abrissem pela primeira vez”, entre tantos outros milhares de cartas de apoio. Lisa Duggan relata que Rand tem vários leitores na comunidade LGBT e outras minorias por sua mensagem antitradicional e foco nos feitos de grandes homens[xiii]. Ela cita o caso do diretor de teatro belga gay e socialdemocrata Ivo van Hove que fez uma peça teatral baseada em A Nascente, enfatizando a luta de Howard Roarke contra a mediocridade, após se sentir inspirado pelo livro.

À primeira vista, o principal problema seria que o livro inculca os preconceitos da autora, pois não há, nesse mundo, uma ação governamental boa (“pesquisa científica governamental é uma contradição de termos”). Rand não era anarquista, mas os habitantes do Vale são tão iluminados que eles não precisam de governo. O patriarca Taggart é elogiado pelos rumores de ter matado um político que o opunha. Enquanto isso, na vida real, Mariana Mazzucato já demonstrou que tecnologias arriscadas não são produzidas unicamente por empresários corajosos, mas com consórcios de investimento com enorme quantidade de investimentos públicos[xiv]. Mesmo que consideremos o motor de energia infinita de Galt como uma metáfora do potencial ilimitado, ele ainda precisa ser sustentado por uma vasta rede de apoiadores.

Fãs também citam Ayn Rand como uma precursora da teoria da escolha pública[xv]. A escolha pública é uma abordagem que aplica o modelo do homem econômico racional para demonstrar que os políticos são egoístas e potencialmente prejudicar a economia – essa teoria foi associada com uma visão cínica da política. Como Douglass North disse, a escolha pública errou ao tratar o Estado apenas como se fosse uma “gigantesca máquina de roubo”[xvi]. Só recentemente, com a pesquisa da Elinor Ostrom sobre os recursos comuns, a escolha pública está se afastando desse estigma[xvii].

Obviamente, isso pode ser ignorado como “é só ficção”. Mas, como foi demonstrado, tanto Rand quanto seus seguidores querem ir mais além. Eu considero a parte mais importante do ponto de vista do leitor ser a revelação de que o amigo de Eddie, o mais baixo trabalhador de trilha, era John Galt disfarçado. É aqui que Galt, engenheiro miraculoso, o Übersmench randiano, que transforma toda empreitada que ele toma em uma obra de arte – desde cavar buracos até motores de energia infinita –, é também o Everyman do dia-a-dia.

Quem é John Galt? Você é John Galt – ou pode ser tornar se seguir os seus preceitos, cuja epítome é o discurso de John Galt.

John Galt é o self idealizado do produtor, ao qual o leitor-alvo pode se identificar. Isso é uma prática comum de best-sellers, com exemplos de Bella Swan da série Crepúsculo, Wade Watts de Jogador Número Um e Kirito Kirigaya de Swort & Art Online. Isso mostra outro ponto ignorado pelos analistas de Rand: AS também pode ser encarado como ficção de autoajuda, tal como O Alquimista, de Paulo Coelho[xviii]. Mas Rand, diferente das outras obras citadas, tentou criar uma nova filosofia.

O principal argumento de Rand é que se removermos os produtores a sociedade cai[xix], por isso que eles devem ser celebrados. John Galt é um novo Jesus Cristo, Francisco seu João Batista e Dagny seu Pedro misto com um Judas gnóstico, que acaba o traindo acidentalmente, mas se redime ao salva-lo. Galt é incapaz de odiar seus inimigos, mas também não sente pena ou culpa. O seu discurso tem tantas referências à religião e como ela é ruim e antirracional, mas a única referência religiosa relevante é a mãe de Hank. Burns escreve que Rand tinha planejado ter um padre, chamado de Amadeus, que aprende a verdade do objetivismo, mas foi cortado porque ela achava que religiosos não mereciam nem isso[xx].

O protótipo da sociedade que Rand via como ideal está no Vale. Ali, todos os produtores produzem o que eles querem enquanto sustentam a infraestrutura. Ninguém tem vergonha de trabalhar como lavrador, atendente de loja, mesmo que sejam qualificados para profissões mais complexas. O mercado livre funciona à base do ouro do banco de Midas Mulligan e os preços são extremamente baratos. Não somente industrialistas estão lá, mas também filósofos, acadêmicos, profissionais liberais e até trabalhadores braçais. Todos convencidos por John Galt, que toma o papel de mecânico. Todos sem lugar no mundo coletivista.

Porém, como já foi notado por Alan Clardy, o lugar falha como utopia[xxi]. O Vale é, na realidade, uma fantasia escapista. Rand nunca encara os potenciais problemas de sua utopia, como a própria existência de bens públicos e a celebração do monopólio como algo virtuoso, benéfico para todos. Um dos habitantes mostra como ele derrubou um concorrente com um produto melhor e ganhou o monopólio do aço no vale e o seu concorrente aceitou graciosamente o resultado. Ele aguarda ansiosamente pelo dia em que Hank Rearden o derrotará, “ele triplicaria a produção de todo o mundo”. Agora me pergunto: que tipo de empresário simplesmente aceitaria ser derrotado dessa forma? Que tipo de CEO aceitaria perder o seu nicho de mercado só porque veio um novo concorrente? A chance é que ele vai tentar comprar o concorrente e o remover do mercado, como é o que ocorre na prática.

A prática se distancia da utopia fantástica. Se posso falar sobre algo positivo do livro, seria sobre como ele retrata os produtores. Eles se recusam a agir corruptamente, buscam sempre o melhor material e pessoal para seus negócios, são frugais e não gastam à toda. A honestidade é inegociável. Em contraste, muitos CEOs estão sempre procurando formas de evadir impostos, criar formas de obsolescência planejada – uma prática suja para o “objetivista” – e são contratados exatamente para atividades corruptas[xxii].

Como demonstrou Miya Tokumitsu, pessoas com paixão pelo trabalho são constantemente exploradas por seus empregadores, que os forçam a aceitar salários e benefícios menores, porque eles imaginam que “fazer o que amam” significa que eles podem receber salários menores[xxiii]. Eles proliferam os bullshit Jobs[xxiv], incentivam uma cultura de trabalho tóxica mesmo quando jornadas de trabalho menores são mais produtivas. Ironicamente, eles recorrem a AS para que sejam deixados em paz, enquanto eles não chegam nem aos pés de John Galt.

Por exemplo, Lisa Duggan comenta que Donald Trump é praticamente um vilão randiano, “um empresário que recorre ao clientelismo e manipulação do governo, advoga interferência nos assim chamados mercados livres, pratica bullying contra grandes empresas para fazer o que ele quer, que não lê. Sua corrupção pública e pessoa reflete as rotinas de seus personagens como traidores e sujos. Trump incentivava o nacionalismo em sua retórica e algumas de suas políticas, e acena para conservadores religiosos – ambas ideologias que Rand odiava”. Ainda assim, ele se considerava um fã de Ayn Rand e seu governo estava cheio de outros fãs dela. Obviamente eles não estão vendo o que Rand queria que eles vissem. Então o que eles viram?

Eu creio que a resposta está em Eddie Willers, o personagem mais trágico do conto. Eddie tinha a mesma paixão de Dagny pela ferrovia. Quando a situação exigiu ele tomou um passo à frente e assumiu as rédeas. Mas a narração e os personagens frequentemente notam que ele não tem um talento, um je ne sais quois para isso. Durante todos os anos em que ele conversou com John Galt disfarçado, parece que Galt nunca comentou sobre o Vale, nem indiretamente. Como resultado, Eddie termina o livro tentando salvar a ferrovia condenada e fracassa. Ele é abandonado no meio do nada, deixado para morrer. Metafórica ou literalmente, tanto faz.

Uma das ênfases do discurso de Galt é que uma pessoa não nasce um Homem – ele se torna um por meio de grande esforço. Francisco enfatiza que ele se tornou um d’Anconia. Porém, o que o livro demonstra é uma verdade simples: nem todos os seres humanos podem se transformar em “Homens”. Isso é óbvio com os vilões, mas isso também se aplica a outros que podem ser simpáticos à mensagem, mas lhes falta algo. O fim é claro: Eddie Willers não é um Homem. Ele não está incluído em “Eu juro – pela minha vida e pelo meu amor por ela – que eu nunca vou viver por outro homem e nem pedir a qualquer outro homem para viver a dele por mim”.

Já que sentir pena vai contra as doutrinas “objetivistas”, Galt não pode sentir pena de Eddie. Não sendo um Homem, Eddie deve trabalhar para os Homens e tem duas opções: adorar os produtores e seguir obedientemente suas ordens ou questionar seu lugar no mundo, negando que A seja A e ser esmagado. Sua dedicação e bondade não têm efeito algum, pois ele não é um Homem, tendo mais em comum com looters e moochers do que com os heróis. Assim, se algum dia Eddie se tornar um obstáculo, mesmo que acidentalmente, ele deve ser esmagado –e é o dever de um Homem esmagar ele.

Incidentalmente, o destino de Eddie é discutido até ainda hoje. Na adaptação de 2014 para o cinema – uma odisseia por si só no mesmo estilo de The Room, de Tommy Wiseau – durante a cena final, os heróis fazem questão de comentar que eles vão resgatar Eddie. Para uma pessoa que era capaz de intimar judicialmente qualquer tentativa de se apropriar do nome de suas personagens (se Rand ficasse sabendo de alguma comunidade que tinha John Galt no título, ela mandava uma intimação para cessar e desistir), fica a dúvida se Rand aceitaria tal mudança. Burns nota que um fã enviou uma carta a Rand perguntando sobre Eddie e ela respondeu que numa sociedade coletivista, Eddie seria explorado e numa sociedade livre ele prosperaria. Dado o seu plano para uma sociedade perfeita, parece uma resposta óbvia.

Mesmo que se faça o argumento que o produtor trabalha pelos Eddies, os Eddies não têm agência nesse modo de produção. Mesmo que Rand tivesse dito que qualquer um poderia sair da pobreza, isso é contradito pelo destino de Eddie na novela. Os Eddies são “eles”, nunca “nós”. Rand, por outro lado, corrobora isso ao defender a matança de povos nativos americanos por eles serem um obstáculo para o progresso, “selvagens” que não reconheciam direitos de propriedade e que deveriam ser caçados por esse motivo. Ela nominalmente era contra o racismo, chamando-o de coletivismo, mas seus personagens sempre foram monocromáticos. Parece que ela imaginava que todos se tornarão racionais como objetivistas novaiorquinos.

Nada deve ficar entre o produtor e o progresso. Se alguém for destruído no processo, que assim seja. Por isso ela também criticava o movimento ambientalista. A natureza só pode reagir ao discurso de Galt com uma indiferença ensurdecedora. O coronavírus não se importa com o que Galt proclama como verdade absoluta. A mensagem é clara: destrua-a. Destroce-a. Transforme-a. Podemos levar até a redução ao absurdo: destrua a natureza para que os looters não desfrutem dela. Mudança climática, destruição de ecossistemas, nada disso importa ao produtor.

O inculcamento de preconceitos liberais é um problema menor quando comparado com a legitimação da exploração do homem pelo “Homem”. Essas questões mais complicadas são simplesmente varridas para debaixo do tapete. A ênfase no poder criativo sem limites omite inúmeros problemas ao enfatizar uma narrativa de empoderamento egoísta. A pandemia, que levou à instalação dos outdoors citados acima é um lugar que isso é mais óbvio. “Trabalhadores essenciais” da pandemia, que precisam ser sacrificados para manter a ambição dos produtores, enquanto que estes ficam implorando pela abertura, não importando o custo de mortes – afinal sendo um custo, pode ser facilmente reorganizado em outros fatores de produção.

“Sou eu o guardador do meu irmão?”[xxv] A resposta de Rand a essa questão é “não”, tanto através da hipocrisia dos vilões quanto pelos ideais dos heróis. Poderia ela também ter respondido a essa questão dessa forma? No fim da vida, após ser abandonada porque seu amante, Nathan Branden, preferiu uma mulher mais nova, e ver suas organizações desmoronarem por causa do escândalo, ela se dedicou a cuidar do seu marido, Frank. Ele sempre foi uma pessoa taciturna e se tornou um alcoólatra após esses eventos e foi acometido de demência. Fico imaginando o que ela pensava a respeito. As biografias não são muito claras, a não ser que Rand parecia realmente amar ele após tudo isso. Poderia ela ter cometido um pecado “objetivista” e sentir culpa? Pena?

Os ideais “objetivistas” são baseados na força da mente da pessoa. Tudo pode ser controlado por uma pessoa forte o suficiente, incluído emoções. Por isso que os livros de Rand voltam à pauta durante crises como a atual. Porém será que não estamos colocando ênfase demais na força? Posso comparar a um jogo chamado Spec Ops: The Line (2012), que conta a história de um soldado americano, Martin Walker, lutando em uma Dubai devastada por tempestades de areia. Suas influências são O Coração das Trevas de Joseph Conrad (1902) e o filme Platoon (1986).

O jogo, que à primeira vista parece uma fantasia imperialista, torna-se um horror psicológico que leva os jogadores a questionarem porque eles estão jogando o jogo em primeiro lugar. Walker chega à última fase após matar tanta gente e o antagonista (ou sua alucinação) comenta, após o Walker negar que ele causou toda a destruição do jogo, “É necessário um homem forte para negar o que está na frente dele. E se a verdade é inegável, você cria a sua própria”[xxvi].

A é A. E se A não for A, tem algo errado nas premissas. Mas, para uma pessoa “forte” A é A se ele assim quiser[xxvii]. Em contraste, estamos sempre barganhando com nós mesmos e isso deve ser levado em conta para construir um mundo melhor – ela mesmo escreve em A nascente “Amar é fazer exceções”. Por mais que lutemos contra as emoções (ou emocionalismo, como Rand chamava), muitas vezes é como lutar contra a tempestade. Não se pode ganhar. Apesar de ter deixado de lado muitos pontos e problemas do livro nesse texto, posso dizer que ler AS junto com as biografias de Rand não foi uma perda de tempo, mas aprendi algo sobre a natureza humana.

*Rafael Galvão de Almeida é doutor em economia pela UFMG.

Referência

Ayn Rand. A Revolta de Atlas. Tradução: Paulo Henriques Britto. São Paulo, Saraiva, 1216 págs.

Notas


[i] https://tab.uol.com.br/noticias/redacao/2020/05/21/quem-e-o-icone-do-egoismo-homenageado-com-outdoors-em-meio-a-pandemia.htm

[ii] https://ari.aynrand.org/press-releases/ayn-rand-hits-a-million-again/

[iii] https://en.wikipedia.org/wiki/List_of_people_influenced_by_Ayn_Rand

[iv] Jennifer Burns. The Goddess of Market. Oxford: OUP, 2009.

[v] Slavoj Zizek. The Actuality of Ayn Rand. Journal of Ayn Rand Studies, v. 3, n. 2, 2002.

[vi] Georg Lukács. A teoria do romance. São Paulo: Editora 34, 2000.

[vii] Ayn Rand. Atlas Shrugged. New York: Signet, 2005.

[viii] A tradução é “saqueadores”, mas o termo é tão icônico que decidi manter para o texto. O mesmo vale para “moochers” (ladrões).

[ix] Camp é uma gíria própria do cinema que significa exageros estéticos e cafonas que são celebrados ao invés de rejeitados. Um símbolo de dinheiro enorme no Vale definitivamente se encaixa nisso. Ver em https://pt.wikipedia.org/wiki/Camp.

[x] G. K. Chesterton. Heretics. https://gutenberg.org/files/470/470-h/470-h.htm. O capítulo 15 inteiro pode ser aplicado a AS.

[xi] Anne C. Heller. Ayn Rand and the world she built. New York: Doubleday, 2009.

[xii] Roland Barthes. A morte do autor. Em: O rumor da língua. São Paulo: Martins Fontes, 2004.

[xiii] Lisa Duggan. Mean Girl: Ayn Rand and the Culture of Greed. Oakland: UCLA Press, 2019.

[xiv] Mariana Mazzucato. O Estado Empreendedor. São Paulo: Portfolio, 2014.

[xv] Bryan Caplan. Atlas Shrugged and Public Choice. In: Edward Younkis (ed.). Perspectives on Ayn Rand’s Contributions to Economic and Business Thought. Lanham: Lexington, 2018.

[xvi] Entrevista a R. Spencer e D. Macpherson. Lives of Laureates. Cambridge: MIT Press, 2014. Dissertei sobre isso na minha tese de doutorado, Dreaming of Unity: Essays on the History of New Political Economy, UFMG, 2019.

[xvii] Mateus Cesar, Ivette Luna, Ellie Perkins. De tragédia a solução: a atualidade teórica e empírica dos recursos comuns no Brasil. Nova Economia, v. 30, n. 1, 2020.

[xviii] Pode parecer, mas não estou usando o termo “autoajuda” pejorativamente. Autoajuda, especialmente na tradição americana, tem uma história interessante, pois ela começou como uma revolta dos trabalhadores contra patrões opressores, mas se tornou o que pode ser chamado de “voluntarismo mágico”, a ideia de que o homem só depende de si mesmo por meio de seu desejo (Joshua Gunn, Dana Cloud. Agentic orientation as magical voluntarism. Communication Theory, v. 20, 2010). Ver o vídeo do canal WiseCrack. https://www.youtube.com/watch?v=qMmgDeyhamI

[xix] Ver o documentário fictício Um Dia sem Mexicanos (2004) para uma premissa semelhante que chama a atenção para a importância da etnia latina nos Estados Unidos.

[xx] Irônico quando o grupo dela tinha muitas características de culto, com ela microgerenciando a vida dos seus estudantes e sua própria cultura de cancelamento. Não vou entrar nesse ponto porque não vem ao caso, estou tentando julgar AS por seus méritos apenas; porém, o cheiro de Rand permeia todo o livro. Ver The Ayn Rand Cult, de Jeff Walker (1995), mas tal conclusão pode ser alcançada lendo até mesmo suas biografias mais neutras.

[xxi] Alan Clardy. Galt’s Gulch: Ayn Rand’s Utopian Delusion. Utopian Studies, v. 23, n. 1, 2012.

[xxii] Ling Harris et al. Recruiting dark personalities for earnings management. Journal of Business Ethics, 2021. https://doi.org/10.1007/s10551-021-04761-z

[xxiii] Miya Tokumitsu. Do what you love: and other lies about success. San Francisco: Regan Arts, 2016.

[xxiv] David Graeber. Bullshit Jobs: a theory. New York: Simon & Schuster, 2018.

[xxv] Gênesis 4:9.

[xxvi] Ver a cena completa em https://www.youtube.com/watch?v=RMCgYkvUpS0.

[xxvii] A ponto de alguns objetivistas rejeitarem a física quântica, pois ela complica a relação “A é A” (Warren Gibson, Modern Physics vs. Objectivism. Journal of Ayn Rand Studies, v. 13, n. 2, 2013).