Por PAULO GHIRALDELLI*
Ou nos parecemos com o que a Inteligência artificial e a internet nos fornece, ou não acreditamos na nossa própria realidade! Estamos no mundo, ontologicamente, se estamos na infosfera
Dois ensaios de Jürgen Habermas (1929-2026) deixaram traços no meu percurso como filósofo. O primeiro tratou do “esgotamento das energias utópicas da sociedade do trabalho”, de 1987, dois anos antes da Queda do Muro de Berlin. O segundo recebeu o título de “Lidando com contingências – o retorno do historicismo”, publicado em 1996, cinco anos depois do fim da União Soviética.
No ensaio de 1987,[i] Jürgen Habermas se perguntava se a “utopia da sociedade do trabalho”, responsável por marcas substanciais nos principais programas políticos do século XX – o comunismo soviético, o nazi-fascismo e a social-democracia – ainda fornecia algum entusiasmo para as populações de então. Jürgen Habermas se mostrou cético diante de qualquer resposta positiva. O trabalho, como fato e valor, não mais dava mostras de orientar práticas de esperança política.
No ensaio de 1995,[ii] Jürgen Habermas avaliava a reentrada em cena do pragmatismo americano enquanto um novo historicismo, levado adiante pelos livros de sucesso de Richard Rorty (1931-2007). Enquanto Richard Rorty pedia o abandono de todo tipo de fundamento metafísico para o pensamento e, até mesmo, para a filosofia, Jürgen Habermas insistiu na ideia de validade universal para certas posturas teóricas.
Para Richard Rorty, nunca poderíamos dispensar data e lugar na consideração de uma audiência. Para Jürgen Habermas, haveria uma chance dessa dispensa. Concordando que uma frase ideológica é de dominação, antes dessa sua tarefa ser concluída ela, a frase, teria de ser compreendida. Essa compreensão reclamaria por uma instância universal. Pensa-se então na necessidade de postular um modo de cognição universal pertencente aos humanos.
Do modo como eu encaminhei minhas reflexões sobre ambos os assuntos – a questão do trabalho e a teoria da verdade – posso dizer que Richard Rorty me seduziu de modo mais eficaz que Jürgen Habermas.
A filosofia da linguagem de Donald Davidson (1917-2003) foi requisitada por Richard Rorty e lhe deu legitimidade para seguir dizendo que nós nos entendemos por processos sociais de conversação, e que isso dispensaria o projeto de encontrar fundamentos filosóficos no próprio entendimento, para então legitimar outros saberes.
Mas, quanto ao problema do descrédito da “utopia da sociedade do trabalho”, Jürgen Habermas e Richard Rorty não diferiam muito. Não foi necessária qualquer opção da minha parte. Ambos filósofos diziam que iríamos ver a democracia liberal passar por abalos e sentiríamos no mundo a falta do Welfare State. Todavia, nem Richard Rorty, falecido em 2007, e nem Jürgen Habermas, falecido agora, tiveram olhos focados nos processos de mudança da forma da acumulação do capital, o que nos levou à financeirização e, enfim, o que determinou a mudança tecnológica que vivemos atualmente.
2.
Richard Rorty era fundamentalmente um leitor de livros. Tinha pouca curiosidade para fenômenos de comunicação no sentido amplo da palavra, ainda que se sentisse um davidsoniano, alguém que vê a linguagem como fenômeno social. Jürgen Habermas, por sua vez, construiu algo que leva o nome de “teoria do agir comunicativo”, mas não se sentiu atraído pelos problemas do advento da “fábrica social digitalizada”, que é o que se tornou a cidade de nossa época, o sistema de semiocapitalismo, da maneira que desenvolvi na esteira dos “operaístas”.[iii]
A internet e a algoritmização não lhes pareceram fenômenos que poderiam redesenhar o mundo. É como se eles nunca tivessem tido algum impacto com A sociedade do espetáculo, de Guy Debord, publicado em 1967. Ambos, Richard Rorty e Jürgen Habermas, quando questionados sobre a internet, nunca disseram qualquer coisa que o senso comum crítico não poderia dizer.
Ocorreu diferente com Gilles Deleuze (1925-1995). Ele foi o pensador que melhor mapeou o que iríamos viver nos dias atuais. Seu artigo “Post-scriptum: sociedade do controle”,[iv] é a melhor peça que conheço para descrever em termos filosóficos esse nosso mundo atual, fruto da simbiose entre a hegemonia da lógica da financeirização e hegemonia da mídia colonizada pela internet e pela Inteligência artificial.
O produto dessa simbiose é o “capitalismo de plataforma”.[v] Junto com uma intuição retirada de Peter Sloterdijk, Gilles Deleuze me deu os elementos para arriscar a confecção de uma narrativa sobre a nossa vida atual.
Gilles Deleuze me forneceu a noção de homem cifrado. Peter Sloterdijk[vi] me trouxe para a observação do histérico. Nenhum desses termos deve ser tomado em suas acepções corriqueiras. No âmbito da minha narrativa, eles são termos técnicos.
Eis o que vivemos nos últimos cinquenta anos. A lógica da financeirização pediu passagem por meio da política neoliberal. Quando essa nova lógica se instituiu, a “sociedade do trabalho” cedeu espaço para a “sociedade do empreendedor” que logo em seguida se tornou a “sociedade do investidor”. O trabalhador perdeu valor diante do “empresário de si mesmo”.
Jürgen Habermas notou essa mudança e, de certa forma, traduziu o movimento de época falando do esgotamento das “energias utópicas” do projeto social democrata. Por sua vez, Richard Rorty notou muito bem o problema americano da perda de empregos, então transferidos para a China – o que, sabemos hoje, acendeu o reacionarismo e o desencanto na classe operária branca americana, tendo como resultado a ascensão de Donald Trump.
3.
Esse declínio da ligação entre o valor do trabalho e a emancipação também foi tematizado pelo artigo referido de Gilles Deleuze, mas de um modo bastante original. Ele viu a nossa sociedade contemporânea como sujeita a fluxos e modulações de fluxos. Nada mais teria fim ou delimitação nítida. Nesse contexto ganharíamos cifras, senhas, e então entraríamos em fluxos comunicacionais diversos, segundo identidades diversas.
Como ocorre hoje: não escapamos das plataformas para trabalho ou lazer. Nelas, recebemos senhas e, em seguida, identidades. Estas, então, são produzidas pelo rastro nosso, de usuários diante de algoritmos e, agora, mais ainda, diante de inteligências artificiais. Cada identidade se diz um “eu” que podemos assumir, mas não se trata de outra coisa senão caricaturas de nós mesmos. São produtos da Inteligência artificial e da algoritmização, que nos dizem, pelo nosso percurso, quem somos.
Nosso percurso é marcado por vícios de consumo e direcionamento algorítmo. Somos essas caricaturas que são mostradas como sendo nós. Acreditamos tanto nisso que muitos de nós dizem que o Google ou qualquer Inteligência artificial se parece com um excelente psicanalista, ou mesmo um demiurgo. “Eles sabem tudo de mim, mais que eu mesmo”. Quem já não ouviu isso?
Uma pessoa assim, cifrada e caricaturizada, se torna então um conjunto infinito de imagens de si mesma, e como tais imagens são também imagens para outros (reais ou não, tanto faz), ela própria acaba colaborando com a caricaturização, em um processo de crescente ansiedade de se mostrar. Nasce aí o indivíduo atual como o perfeito histérico, diz Peter Sloterdijk. Cada um teatraliza a si mesmo o mais que pode. Mas também nisso a internet, os algoritmos e a Inteligência artificial estão de prontidão.
Eles colaboram com a teatralização de si mesmo. Assim fazem construindo todo tipo de imagem que se possa desejar de si mesmo: fundos de fotos são trocados, vídeos imaginativos são confeccionados a granel, e, enfim, filtros para rosto de todos os tipos são um arsenal infinito. Isso sem contar a produção de textos por Inteligência artificial, que podem “dialogar” com o usuário, lhe dizendo que é ele, afinal.
4.
O simulacro e o real se plasmam, e em determinando momento só o hiperreal, vindo do simulacro, tem status de real.[vii] Ou nos parecemos com o que a Inteligência artificial e a internet nos fornece, ou não acreditamos na nossa própria realidade! Estamos no mundo, ontologicamente, se estamos na infosfera.
Toda essa situação não foi criada pela tecnologia, mas pela financeirização que requisitou a tecnologia. Computadores, internet, inteligência artificial etc. são frutos do capitalismo enquanto um sistema que se fez pela entrada da lógica da financeirização no apagar das luzes do pacto fordista-keynesiano.
Esse novo sistema passou a requisitar do processo de produção e circulação a meta do tempo zero. Essa aceleração avançada junto com a subsunção da vida ao capital, que caracteriza o regime de biopoder e biopolítica atuais, é a base da tecnologia que nos domina. Quando nos esquecemos disso, entramos para o campo do fetiche da tecnologia.
Começamos a culpar (ou abençoar) as máquinas sem olhar para a “fuga coletiva para a frente”[viii] provocada pelo “poder da finança”, quando da busca do capital por novas formas de acumulação a partir dos anos 1980. Se perdemos isso de vista, não entendemos que o capitalismo de plataforma é um regime de semiocapitalismo, em que há a inflação semiótica e a deflação semântica, ou seja, a ampliação de símbolos sem significado.
O que vivemos hoje é o império do fim da necessidade de hermenêutica. Há uma proliferação do agenciamento sem que se precise entender o que se pensa e o que se faz. Instauram-se os “processos sem sujeito”.[ix] Esses processos são regidos pelo capital enquanto um “operador semiótico”, ou seja, um selecionador de símbolos que se conectam com símbolos, fazendo fluxos de informação consubstanciarem a infosfera atual, centrada na rede mundial de computadores.
O papel do humano nisso tudo é o de desempenhar uma função algorítmica a mais. Ele se pensa usuário, quando na verdade é peça utilizada pelo agenciamento maquínico.
“Processos sem sujeito” é uma expressão da professora Olgária Matos. Tomei essa expressão para falar, em nossa época, da base da nossa subjetividade atual, a subjetividade maquínica. Toda a esperança social que tenho está, de certo modo, como luz que acendo por sobre os fenômenos atuais, para compreender essa subjetividade.
*Paulo Ghiraldelli, filósofo, youtuber e escritor, é pós-doutor em Medicina Social pela UERJ. Autor, entre outros livros, de Capitalismo 4.0: sociedades e subjetividades (CEFA Editorial). [https://amzn.to/3HppANH].
Notas
[i] Jurgen Habermas. A nova intransparência. In: Novos Estudos CEBRAP.São Paulo, 1987.
[ii] Jurgen Habermans. Coping with contingencies – the return of Historicism. In: Niznik, J. and Sanders, J. Debate of state of Philosohy. London: PRAEGER, 1996.
[iii] Paulo Ghiraldelli. Semiocapitalismo. São Paulo/São Paulo. CEFA Editorial, 2023.
[iv] Gilles Deleuze. Conversações. São Paulo: Editora 34, 2000.
[v] Nick Srnicek. Plataform capitalism. Cambridge: Polity Press, 2017.
[vi] Peter Sloterdijk, Pós-Deus. Petrópolis: Vozes, 2029.
[vii] Paulo Ghiraldelli. Capitalismo 4.0. Sociedades e subjetividades. São Paulo/Ibitinga: CEFA Editoril, 2025.
[viii] François Chesnais. A finança mundializada. São Paulo: Boitempo, 2005, p. 27.
[ix] Olgária Matos. Apud Renata Marinho. Olgária Matos e a crítica da tecnologia. A Terra é redonda, 22/12/2023.






















