Amar o ódio

Imagem: tarasov_film_ph
image_pdf

Por SAMUEL KILSZTAJN*

O universalismo propõe que a própria humanidade é a única pátria digna de um amor incondicional, rejeitando as lealdades tribais que alimentam o ódio

1.

Philip Roth, um dos escritores norte-americanos mais premiados de sua geração, era acusado de odiar a si mesmo, de ser antissemita. Por ocasião do julgamento de Adolf Eichmann, Gershom Scholem acusou Hannah Arendt de não demonstrar amor pelo povo judeu; ao que ela respondeu, “Você tem toda a razão de que eu não tenho esse amor, e isso por dois motivos. Primeiro, nunca em minha vida ‘amei’ algum povo ou coletivo – nem o povo alemão, francês ou americano, nem a classe trabalhadora ou qualquer coisa deste gênero que envolva lealdade. A verdade é que amo apenas os meus amigos e sou completamente incapaz de qualquer outro tipo de amor. Segundo, esse tipo de amor aos judeus me pareceria suspeito, já que eu mesma sou judia. Eu não amo a mim mesma ou qualquer coisa que sei pertencer à substância do meu ser.”

De minha parte, como humanista e internacionalista, diria, nunca amei um povo, amo apenas a humanidade e todos os povos. E, vegetariano, acrescentaria que, por humanidade, compreendo toda a fauna. Enquanto houver abatedouros, haverá guerras!

Quando eu ainda me dizia judeu, nunca considerei pejorativo o termo gentio, goy em yiddish, a minha língua materna. Goy não era o “outro”, era o diferente. E eu sempre gostei muito de me relacionar com o diferente, porque o diferente amplia a minha condição humana. Aliás, eu me definia como judeu, budista, xangô e corinthiano. Hoje me defino como palestino budista (sem prejuízo à minha identidade xangô e corinthiana).

Palestino porque nasci em Jaffa, a cidade eminentemente árabe que, mesmo de acordo com o draconiano Plano de Partição da Palestina de 1947, foi reservada como enclave árabe. Ou seja, a ocupação de Jaffa por Israel em 1948 é ilegal de acordo com as Nações Unidas. A Palestina, durante o Império Otomano, era habitada por 92% de árabes e 8% de judeus.

O sionismo, até o final da Primeira Guerra Mundial, era uma ideologia exótica e inofensiva. Só passou a ser implementado quando a Inglaterra, que então ainda governava o mundo, ganhou a Palestina “de presente” da Liga das Nações e, por interesse próprio, incentivou a imigração de judeus que estavam fugindo do Leste Europeu. Mesmo assim, os judeus só começaram a imigrar em massa para a Palestina após a ascensão dos nazistas ao poder na Alemanha em 1933 e, principalmente, a partir das Leis de Nuremberg de 1935, quando os judeus foram declarados cidadãos de segunda categoria.

2.

Meus amigos vivem me alertando que os antissemitas, os palestinos e os judeus vão continuar me considerando judeu. Aí eu respondo, educadamente, que este problema não é meu, é problema dos antissemitas, dos palestinos e dos judeus (algumas vezes também respondo de forma menos educada).

Não estou me assumindo palestino para escapar ao destino que os antissemitas querem dar aos judeus, nem espero que os palestinos me aceitem (como é que um palestino pode confiar em um judeu?). Não me identifico com os judeus que, em sua grande maioria, embora com diferentes nuances, são a favor de Israel e sequer assumem a violência contra os nativos palestinos desde o início do Mandato Britânico da Palestina em 1920.

Um amigo, que entre suas várias ascendências étnicas e culturais tem uma avó judia, descobriu que seria considerado judeu de acordo com as Leis de Nuremberg. Mas eu nunca precisei me debruçar sobre aquele complicado “organograma racial”, porque os meus quatro avós eram judeus e eu só nasci porque meus pais sobreviveram ao destino reservado a 9 a cada 10 familiares, 9 a cada 10 judeus das cidades onde nasceram e 9 a cada 10 judeus poloneses.

Apesar do meu manifesto Máquinas, máquinas!, perguntei ao ChatGPT, “Amar a si mesmo é amar o seu povo e odiar os demais povos?” E ele respondeu: “Não necessariamente – e, na verdade, essa ideia é perigosa. Amar a si mesmo pode significar reconhecer sua dignidade, cuidar de si, valorizar sua história e sua comunidade. Amar o próprio povo, nesse sentido, é preservar sua cultura, memória, tradições e direitos. Mas isso não implica, de forma alguma, odiar os outros povos. O amor pode ser expansivo: quanto mais alguém se conhece e se valoriza, mais tende a respeitar a alteridade.”

“O problema aparece quando o amor a si mesmo ou ao próprio grupo é confundido com exclusivismo, chauvinismo ou nacionalismo agressivo – que só se afirmam pela negação e hostilidade em relação aos demais. Povos que se amam verdadeiramente não precisam odiar os outros para existir; ao contrário, podem dialogar, aprender, trocar e enriquecer-se mutuamente”.

3.

E, como eu já estava com a mão na massa, coloquei também o título deste artigo do ponto de vista político no ChatGPT, que me retornou: “‘Amar o ódio’ é uma expressão paradoxal – quase um oxímoro. Do ponto de vista político, amar o ódio é transformar o inimigo em eixo de identidade coletiva, mobilizando paixões negativas como força de união e poder.”

Comecei este artigo citando Hannah Arendt e o polêmico julgamento de Eichmann em Jerusalém. O serviço de informação israelense, Mossad, havia capturado e contrabandeado o nazista Eichmann. Seu julgamento em 1961 foi amplamente divulgado, televisionado e transmitido internacionalmente para mostrar ao mundo os crimes dos nazistas durante o Holocausto e, de acordo com as autoridades israelenses, inibir o antissemitismo. Contudo, as declarações e seu conceito de banalidade do mal custaram a Hannah Arendt a inimizade dos intelectuais sionistas, que lhe exigiam solidariedade incondicional ao povo judeu após o Holocausto.

Shulem foi o primeiro livro que escrevi (2012) e Salaam Aleikum, Palestina! o último (2025). Mas, se fosse hoje, não faria a pesquisa e muito menos escreveria o primeiro, embora mesmo esse já seja declaradamente antissionista. Também pouco me importa a minha língua materna, embora considere Yiddish o livro mais radical (radix, raiz) que escrevi, pela valorização da cultura humanista, internacionalista, pacifista e racionalista dos judeus da diáspora.

Continuo solidário às vítimas judias da Segunda Guerra Mundial, mas, frente ao papel de algozes que a esmagadora maioria dos judeus está assumindo no presente, não consigo me interessar minimamente pela questão. Contudo, penso sim nos meus parentes, a maioria vivendo na Palestina, que foram criados em cima de uma mentira e se recusam a acordar.

*Samuel Kilsztajn é professor titular em economia política. Autor, entre outros livros, de Salaam Aleikum, Palestina! [https://amzn.to/47pJJfE]


A Terra é Redonda existe graças aos nossos leitores e apoiadores.
Ajude-nos a manter esta ideia.
C O N T R I B U A

Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
Em defesa das bibliotecárias e bibliotecários
12 Mar 2026 Por FELIPE SANCHES: As bibliotecas estão atravessadas pela política e, se negarmos seu papel político, fechamos os olhos ao seu papel estratégico no desenvolvimento cultural, educacional, científico e econômico do Brasil
2
Lévi-Strauss
06 Mar 2026 Por AFRÂNIO CATANI: Comentário sobre a biografia do antropólogo realizada por Emmanuelle Loyer
3
Erro de cálculo?
07 Mar 2026 Por PAULO NOGUEIRA BATISTA JR.: A resistência do Irã e a coesão interna do país só aumentaram com a decisão realmente estúpida, tomada por Estados Unidos e Israel, de assassinar o aiatolá Ali Khamenei
4
Fim da guerra no Irã?
11 Mar 2026 Por LISZT VIEIRA: A guerra revelou que força militar sem estratégia política cobra um preço alto, e quem controla a escalada controla também o desfecho
5
Marx, a técnica e o fetichismo tecnológico
07 Mar 2026 Por ANTONIO VALVERDE: Artigo da coletânea recém-lançada “Figuras do marxismo”.
6
Daniel Vorcaro e o "novo capitalismo" brasileiro
10 Mar 2026 Por JALDES MENESES: O novo capitalismo brasileiro forja um Estado Predador onde o rentismo digital, o crime organizado e a política se fundem numa aliança que corrói o pacto de 1988
7
Trabalho e desenvolvimento no Brasil
07 Mar 2026 Por FLORESTAN FERNANDES: Texto da arguição da tese de livre-docência de Luiz Pereira
8
O coturno no pátio
09 Mar 2026 Por JOSÉ CASTILHO MARQUES NETO: O silêncio imposto pelo coturno nos pátios escolares não educa, apenas endurece o solo onde a liberdade e o pensamento crítico deveriam florescer
9
Marx e Engels – Entrevistas
08 Mar 2026 Por MURILLO VAN DER LAAN: Apresentação do livro recém-editado
10
O STF está validando a fraude trabalhista
03 Mar 2026 Por DURVAL SIQUEIRA SOBRAL: Ao legitimar a pejotização, o sistema jurídico reconfigura o trabalho como negócio e não como relação social
11
Uma batalha depois da outra
11 Mar 2026 Por WALNICE NOGUEIRA GALVÃO: Considerações sobre o filme de Paul Thomas Anderson, em exibição nos cinemas
12
O cinema revela Jeffrey Epstein
05 Mar 2026 Por EUGÊNIO BUCCI: Para entender Epstein, a lição dos filmes que expõem a orgia dos poderosos
13
Europa: 50 países em busca de um continente
06 Mar 2026 Por FLAVIO AGUIAR: Do Concerto Europeu ao silêncio obsequioso, a longa agonia de um continente
14
Nota sobre a capacidade estatística do PIB
09 Mar 2026 Por MARCIO POCHMANN: O PIB, bússola do século XX, já não captura sozinho a complexidade da economia financeirizada, digital, do cuidado e ambiental
15
Cenários para o fim da terceira guerra do Golfo
06 Mar 2026 Por ANDREW KORYBKO: Entre a rendição estratégica e a balcanização, o futuro incerto do Irã no tabuleiro do Golfo
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES