Aposta na dramatização

Imagem: Luiz Armando Bagolin

Por TIAGO FERRO*

Um ou dois comentários sobre o ensaio “Parece revolução, mas é só neoliberalismo”

Li com interesse o ensaio “Parece revolução, mas é só neoliberalismo” (revista piauí, jan. 21). Confesso que o texto me seduziu. Mas algo não fechava. E era justamente o último parágrafo. O estranhamento causado pelo fim do ensaio me fez voltar ao texto e a escrever estes comentários.

Eis o final: “Apenas lamento que tenha de assiná-lo com um pseudônimo. O motivo disso está evidente. Nestes tempos de cruzadas autoritárias moralistas e de narcisismo midiático neoliberal, uma crítica como a que fiz aqui tem de lançar mão de privacidade autoral como escudo e refúgio”.

No mesmo lance em que o autor desaparece, ele dobra a aposta na dramatização do que está em jogo, reforçando o argumento construído do início ao fim de que ele, autor, e seus colegas professores de universidades públicas são vítimas de um ataque tão violento, que o fez abrir mão de um pressuposto básico da busca por consenso na modernidade: o debate público e às claras.

Foi só em 1960, com a publicação de The Brazilian Othello of Machado de Assis, que surgiu uma nova maneira de se entender o Dom Casmurro de Machado de Assis. Especialista em Shakespeare, Helen Caldwell notou como Bento Santiago distorce a peça Otelo para reforçar a culpa de Capitu. Passávamos do adultério ao ciúme como paixão organizadora da trama, e Capitu se via inocentada. Traiu ou não traiu? Um jogo de soma zero que no entanto abriu as portas para que o crítico literário Roberto Schwarz interpretasse o romance a partir da ideia de narrador não confiável. Duas alternativas se apresentavam ao leitor, com consequências ideológicas opostas: aderir ou não ao relato de Bento. E, portanto, se colocar ao lado ou contra a sociedade patriarcal representada pelo narrador.

Pensemos no narrador do ensaio em questão.

O texto é dividido em duas partes. Na primeira, há uma série de relatos sobre demandas absurdas e abusivas de alunos contra professores de universidades públicas. Ler menos, obter o diploma sem comprovar o mérito, passar na disciplina sem escrever o trabalho final, etc. Apesar das exigências disparatadas, os professores, colegas do narrador, se veem acuados, chegam a perder o sono, e não sabem como lidar com os alunos. Após uma primeira história mais longa, as demais são curtas, e a ausência de referentes concretos – já que trata-se sempre de “um amigo que leciona”, “outra professora de uma universidade pública”, de um lado e, de outro, “um aluno de graduação”, “os alunos”, etc. – torna a narrativa frouxa, descarnada, e no limite do verossímil. Vejamos a resposta que um grupo de alunos dá ao professor que ao entrar na sala de aula pergunta sobre o porquê do burburinho: “Estamos fazendo um motim”. Quem está armando um motim o anuncia com tranquilidade justamente ao seu alvo? Ou mantém tudo debaixo dos panos para explodir na hora certa? O narrador se trai quando revela escolher o tom mais adequado a cada episódio: “O episódio que narrei pode ter sido particularmente teatral e pedagógico […]”.

Na segunda parte, quando o narrador tenta explicar o fenômeno que anima os tais motins, os alunos ganham espessura – e também cor e gênero. Assim começamos a sair do mundo das generalidades e entender o específico da situação, que no entanto se revela de forma ambígua, mas mesmo assim identificável.

Se num primeiro momento é o neoliberalismo cultural que anima esses alunos-consumidores que se veem no direito de exigir o que mais lhes agradar, num segundo é a luta de classes: alunos se colocam na posição de classe explorada e enxergam docentes como classe exploradora. Luta de classes ou direitos do consumidor? Duas alternativas que se excluiriam se não fosse a mudança de termos de neoliberalismo cultural para neoliberalismo de esquerda. Os conceitos deslizam sorrateiramente e o concreto dá as caras.

Entre os docentes haveria “uma sub-representação de grupos discriminados e oprimidos por razões raciais, étnicas, religiosas, de gênero, de sexualidade ou de classe. Como muitos alunos são afetados por essas discriminações, não é de estranhar que alguns vejam seus professores como sujeitos privilegiados e dotados de grande poder”. Finalmente sabemos quem são os alunos: pertencem a grupos que sofrem discriminação. Ainda segundo o narrador, esses alunos erram o alvo, já que os docentes lutam pelas mesmas bandeiras – mais uma generalização do texto. Esses alunos, que portanto agora têm causas identificáveis e sérias, não deveriam “usar seu tempo e energia lutando por ‘causas’ miúdas como os supostos direitos de estudar menos […]”.

Uma vez armado o quadro de simpatia com os docentes, uma vez que se torna impossível ficar ao lado desses consumidores impertinentes, o narrador passa às causas maiores, mas já aqui distorcidas pelo andamento do relato, pela narrativa envenenada. “Grave é também o desvio feito pela ofensiva política progressista quando ela passa a atacar seus aliados. A expressão mais atroz dessa deturpação é a proliferação de acusações infundadas de racismo, sexismo, classismo, homofobia e transfobia feitas contra professores.” Ninguém discordaria da gravidade de um ambiente onde reina a proliferação de acusações falsas. Mas o narrador se equilibra em ambiguidades, caso contrário teria que oferecer exemplos concretos que provassem a tal proliferação de acusações e de outros fios soltos que vão sendo abandonados pelo caminho. Ele afirma que esse tipo de denúncia deve ser levada a sério e investigada, para em seguida dizer que apesar de essas atitudes serem frequentes, “não significa, porém, que todas as denúncias sejam verdadeiras”, “já que parte dessas acusações são atos oportunistas de pessoas movidas por objetivos mais imediatos e pouco louváveis […]”. Como o leitor pode notar, é difícil de entender o ponto de equilíbrio em frases que se anulam umas às outras para no fim criar um clima de injustiça geral contra os docentes.

Uma vez que somos apresentados ao problema mais concreto, o narrador fornece exemplos daquele primeiro oportunismo dos alunos-consumidores, mas agora embrulhados por pautas das chamadas lutas identitárias. Alunos de grupos discriminados buscam vantagens indevidas sob as bandeiras das lutas por reparações históricas de minorias. Causas miúdas e grandes causas se equiparam aqui, e por contágio ambas ganham sinal negativo.

Em seguida o narrador vai reforçar o problema mostrando que a educação pública sofre ataques dos inimigos de sempre, o neoliberalismo de direita – apenas neoliberalismo? – e agora também do neoliberalismo de esquerda – Nancy Fraser tratou do conceito de neoliberalismo progressista, um termo mais adequado e um debate certamente urgente que de forma enviesada o texto em questão oferece –, que como vimos não se trata apenas de alunos-consumidores, mas de um determinado grupo de alunos que manipula discursos e identidades para levar vantagem em “causas miúdas”.

Antes do fechamento do texto, quando é revelada a “necessidade” do uso do pseudônimo, o narrador compara a situação atual com o ano de 1815, quando “europeus católicos, protestantes e ortodoxos juntaram forças retrógradas em uma Santa Aliança contra os ideais republicanos”. O “teatral e pedagógico” desbarranca para o disparate. O anacronismo só se justifica pela confiança de que o leitor aderiu completamente ao que foi narrado até ali. A conclusão por analogia é clara: será preciso uma guerra aberta contra os fanáticos que ameaçam a existência autônoma da universidade pública.

O título e o nome que assina o ensaio também fazem parte da construção e interessam. O nome “Benamê Kamu Almudras”, pela sonoridade distante do padrão branco ocidental, coloca o autor de cara ao lado dos grupos que irá atacar. Isso o blindaria contra possíveis acusações de preconceito – se um dia soubermos quem escreveu o ensaio, pouco importará se essa pessoa se encaixa mais ou menos neste ou naquele grupo, uma vez que quando o ensaio foi publicado, optou-se pelo pseudônimo, e nossa análise foi feita toda ela dentro do texto.

E por fim, usando a mesma fórmula redutora do título do ensaio, do tipo “parece mas não é”, que não deixa espaços intermediários para o debate, podemos dizer que o aparentemente interessante e sedutor texto, “parece crítica, mas é só conservadorismo”.

P.S. Agradeço pelo diálogo e pelas sugestões ao Francisco Alambert e ao Victor Santos Vigneron.

*Tiago Ferro é crítico e romancista, autor de O pai da menina morta (Todavia), vencedor do Prêmio Jabuti 2019 de melhor romance.