Arquétipos e símbolos

Imagem: Steve Johnson
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Por MARCOS DE QUEIROZ GRILLO

Carl Jung combinou a literatura, a narração de histórias e a psicanálise para chegar às memórias inconscientes coletivas de certos arquétipos, promovendo a reconciliação das crenças com a ciência

Na década de 1930 Carl Jung apresentou ao mundo a sua ideia de inconsciente coletivo. Por baixo do inconsciente pessoal analisado por Freud, Carl Jung aponta a existência, em cada indivíduo, de uma parte mais fundamental da psique humana que é comum a todos os homens, em todos os tempos e lugares, como uma herança psicológica, comum a toda humanidade. Disse ele: “O inconsciente contém, não apenas componentes pessoais, mas também impessoais, em forma de categorias, ou arquétipos.”

Esses arquétipos se expressam através de símbolos que se manifestam nos nossos sonhos e nos mitos de todas as tradições culturais. Esses mitos revelam a própria natureza da alma, são metáforas de nossa realidade interna mais profunda e essencial. De todos os mitos, o mais conhecido é o do herói. Eles são estruturalmente semelhantes nas mais diferentes culturas. Obedecem a uma forma, um padrão, universal, quer seja na Grécia antiga, nas tribos africanas, nos índios americanos, nos incas peruanos. Suas trajetórias são muito semelhantes.

Com a publicação de seu livro Psicologia do inconsciente ocorreu o distanciamento de seu mestre Freud, que estava focado no indivíduo e não aceitava a ideia de Carl Jung do inconsciente coletivo, formado por memórias ancestrais passadas, ou seja, a bagagem que os indivíduos trazem dentro de si. Carl Jung identificou a existência do inconsciente coletivo, além do inconsciente pessoal detectado por Freud.

Daí derivou a noção dos arquétipos (padrões universais e simbólicos que permeiam a psique de todas as culturas e indivíduos) que são memórias culturais coletivas que nos ajudam a compreender nossas histórias de vida. São diversos os arquétipos que moldam nossas personalidades, motivações e comportamentos.

Portanto, para Carl Jung, a psique humana é dividida em três partes: o ego (o lado racional ou consciente da nossa psique, que regula as nossas vidas), o inconsciente pessoal (que inclui nossas próprias memórias individuais – memórias e emoções reprimidas) e o inconsciente coletivo (onde estão armazenados os arquétipos que herdamos de nossos ancestrais e que se encontram na narração de histórias e mitos).

Carl Jung combinou a literatura, a narração de histórias e a psicanálise para chegar às memórias inconscientes coletivas de certos arquétipos, promovendo a reconciliação das crenças com a ciência. É um reino profundo e misterioso que compõe a essência da experiencia humana. Eles transcendem fronteiras culturais e temporais, conectando a humanidade em sua jornada de autodescoberta e crescimento. Reconhecer e compreender tais arquétipos dentro de nós é um grande passo para abraçar tanto a luz como a sombra que compõem a natureza humana. Ao aplicarmos essa compreensão em nossas vidas cotidianas e relacionamentos podemos desenvolver uma maior empatia, sabedoria e aceitação, tanto de nós mesmos quanto dos outros.

Dentre os principais arquétipos figuram:

(i) O self (Si mesmo) é um dos arquétipos mais fundamentais de Carl Jung já que é o núcleo central da psique, simbolizando a totalidade e a integração da personalidade humana. Ponto de referência psicológico que abrange tanto o consciente quanto o inconsciente. O objetivo final de individuação do ser humano, quando se alcança a autorrealização e o crescimento pessoal, ocorre quando se alcança uma conexão significativa com o Eu.

(ii) A persona, que representa a máscara social que cada indivíduo utiliza para se apresentar ao mundo. Ela é a fachada externa que usamos para nos adaptarmos e nos adequarmos às expectativas e normas da sociedade. É através dessa máscara que nos apresentamos ao mundo e interagimos com os outros. Ao reconhecer a presença da persona e confrontá-la com a verdadeira identidade, o indivíduo pode trabalhar uma integração mais equilibrada entre a persona e o self. Atrás das máscaras que usamos para nos adaptarmos ao mundo, reside a verdadeira essência do Eu, esperando para ser descoberta e integrada em toda a sua complexidade.

(iii) A Sombra, o lado oculto da psique, representa os aspectos obscuros, reprimidos e negados da personalidade de um indivíduo. Engloba aqueles traços que preferimos esconder ou negar, seja por medo de julgamento, vergonha ou inadequação. Incluem nossas fraquezas, instintos primitivos, desejos mais profundos e impulsos que podem ser considerados socialmente inaceitáveis. A individuação requer a integração da Sombra, compreendendo, aceitando e integrando tais impulsos à nossa personalidade já que ela é parte dela. Negá-la é puro auto engano.

(iv) Anima e Animus, são conceitos que representam aspectos psicológicos do sexo oposto presentes em cada indivíduo. A Anima presente no inconsciente do homem, personifica as características femininas; o Animus, presente no inconsciente da mulher, personifica as características masculinas. Para os homens, a Anima representa a parte feminina de sua psique, que desperta a intuição, a sensibilidade emocional e a criatividade.

Para as mulheres, o Animus representa a parte masculina de sua psique, podendo ser retratado como um homem sábio, heroico, protetor ou intelectual, despertando o pensamento lógico, a assertividade e a busca de realizações. Ambos devem ser integrados nas psiques levando a um equilíbrio psicológico e a uma compreensão mais profunda de si mesmo.

(v) Mãe, fonte de nutrição e proteção da psique humana que transcende a figura individual da mãe biológica, personifica o instinto materno inato e abrange a dimensão universal do amor e acolhimento. Mãe alimenta tanto o corpo como a alma e simboliza a generosidade e compaixão. O arquétipo da Mãe na nossa psique nos mostra a importância de nutrir e proteger a nós mesmos e aos outros, trazendo conexão e compaixão com o mundo ao nosso redor.

(vi) Pai, é um arquétipo associado à autoridade, disciplina e proteção, presente em todas as culturas e na psique humana. O Pai representa o princípio que estabelece limites e orienta o desenvolvimento moral e ético. Símbolo de sabedoria, força e estabilidade, oferece orientação em momentos de dificuldade e incerteza.

(vii) Criança Divina, o encanto da inocência, o potencial criativo e a conexão com o divino. Este arquétipo personifica a inocência primordial, o potencial criativo inexplorado e a conexão com o divino, pautando-se por uma energia de renovação e esperança. É a parte da psique que não foi afetada pelas feridas e traumas da vida. É o arquétipo capaz de se maravilhar com o mistério do universo, pautando-se por potencial criativo ilimitado. É a nossa fonte de imaginação, inspiração, inovação e inocência, que devem ser preservadas na nossa vida adulta.

(viii) Herói, é o arquétipo que busca aventura, enfrenta desafios e supera obstáculos. Esse arquétipo remete a narrativas mitológicas e contos épicos que permeiam a história da humanidade, transcendendo culturas e gerações. Trata-se de jornada que também é interna, de autodescoberta e crescimento pessoal. As adversidades testam a coragem e o padrão arquetípico envolve o chamado à aventura, o encontro com um mentor, a travessia do limiar entre o mundo conhecido e aquele desconhecido, o enfrentamento de desafios, a transformação e o retorno ao mundo com um novo conhecimento e sabedoria, inspirando os que estão ao seu redor.

(ix) Trapaceiro, é o arquétipo brincalhão que desafia a ordem estabelecida e a transforma através do humor e da subversão. Este arquétipo, presente em diversas culturas e mitologias, pode assumir a forma de uma divindade, figura folclórica ou personagem mítico. Ele não se prende a normas sociais rígidas e pode desafiar a autoridade e a estrutura de poder, permitindo que as pessoas vejam as coisas de forma mais leve e flexível, trazendo à tona questões inconscientes e tabus reprimidos pela sociedade.

Atua como espelho, refletindo as sombras e contradições que precisam ser reconhecidas. É um agente de transformação. Mas pode, também, ser ambivalente, tanto representando a criatividade e a liberdade como também a trapaça e a enganação.

(x) Velho Sábio, a fonte da sabedoria, da experiência e do conhecimento acumulado. Emerge como guardião do conhecimento ancestral e fonte de orientação para aqueles que buscam sabedoria e conselho. Em inúmeras culturas e mitologias figuram sábios como os xamãs, os avós sábios, os eremitas e os mentores espirituais. O arquétipo do Velho Sábio representa a sabedoria, a experiência e o conhecimento acumulado. Fonte de orientação e inspiração ele representa a união de vários aspectos da psique, incluindo as experiências passadas, as sombras e a sabedoria interior, permitindo-nos a reconciliação com nosso passado e a compreensão de como ele moldou nossa identidade.

(xi) Donzela, o encanto da pureza e vulnerabilidade feminina, é um arquétipo comum em mitos, contos de fadas e lendas de diferentes culturas ao redor do mundo. Integrá-lo na nossa psique é reconhecer a importância da pureza e da vulnerabilidade e também abraçar a beleza e o encanto do feminino jovem em nós mesmos, além da importância da proteção dos aspectos vulneráveis de nós mesmos e dos outros.

(xii) Guerreiro, protetor e valente, ligado à força e à coragem, é um arquétipo que independe de gênero e personifica a força, a coragem e o espírito protetor que habitam nas pessoas, representando a busca por proteção, justiça e honra. Os verdadeiros desafios nem sempre são físicos; na maior parte das vezes são batalhas internas emocionais e espirituais.

(xiii) Morte e Renascimento, representa a transformação, o fim de uma fase, de uma forma de ser, ou de um aspecto da personalidade que já não serve mais ao indivíduo. E o início de outra fase. Algo precisa ser deixado para trás, ainda que isso seja doloroso ou desafiador. Trata-se de morte simbólica muitas vezes acompanhada de uma sensação de vazio, perda ou desconforto de enfrentar o novo, o desconhecido.

É uma jornada de transformação e simboliza o ciclo contínuo de morte e transformação que caracteriza a vida humana, convidando cada pessoa a abraçar as mudanças e a buscar a transformação interna e o renascimento emocional e espiritual que dão maior propósito à vida.

(xiv) Buscador, jornada de autoconhecimento e significado. É o arquétipo daqueles que anseiam por significado, buscam respostas e embarcam em uma jornada de autoconhecimento. A jornada é em direção à expansão da consciência, autodescobrimento e conexão com algo maior do que nós mesmos.

Joseph Campbell dedicou toda sua vida ao estudo das mitologias. Carl Jung o inspirou a estudar não as diferenças entre os mitos, como é feito na academia, mas sim, a evidenciar as semelhanças, os denominadores comuns, que revelam espantosa unidade.

Enquanto Carl Jung enfatizava a importância de equilibrar o consciente e o inconsciente, Joseph Campbell via na narrativa mítica não só um reflexo dessa dualidade, mas também um caminho para a transcendência e a realização do potencial humano. Joseph Campbell sintetiza esses conceitos de uma forma que se popularizou – expressa na famosa máxima “follow your bliss” (siga sua benção, felicidade, alegria) –, encorajando uma vivência autêntica e transformadora.

Em seu livro O herói de mil faces Joseph Campbell descreve a jornada do herói como uma manifestação arquetípica do processo de individuação, um conceito junguiano que se refere à integração dos opostos internos e ao desenvolvimento de uma personalidade completa. Ele mostra que cada herói adquire a face de sua cultura específica, mas sua jornada é sempre a mesma. Daí surge o Monomito.

Joseph Campbell ajudou a difundir os conceitos junguianos para um público mais amplo, ao mesmo tempo em que os reinterpretou em termos de mitologia comparada. Essa fusão permitiu que suas ideias influenciassem, por exemplo, o cinema e a cultura popular (como na saga de Star Wars), mostrando como as estruturas míticas podem ser ferramentas para compreender e vivenciar a jornada interior do ser humano. A influência de Joseph Campbell nos cineastas de Hollywood é bastante significativa: George Lucas, John Boorman, Steven Spielberg, George Miller, Francis Ford Coppola, entre outros.

A técnica de screenwriting incorporou tais ensinamentos sobre arquétipos. Joseph Campbell ajustou o monomito à estrutura dramática tradicional. A storyline do monomito é simples: o herói sai do seu ambiente familiar e seguro para se aventurar num mundo estranho e hostil, onde enfrenta o conflito da vida ou morte com um antagonista poderoso, quase sucumbindo, mas termina triunfando. Foi assim que o inconsciente coletivo de Carl Jung chegou a Hollywood. Hoje, o arquétipo típico do nosso tempo é o mito da eficiência.

*Marcos de Queiroz Grillo é economista e mestre em administração pela UFRJ.


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