As relações China–América Latina

Imagem: Jan van der Wolf
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Por JIANG SHIXUE*

Desafios e oportunidades na parceria China-América Latina, transformando planos em ações concretas

1.

Até agora, neste ano, o evento mais marcante da diplomacia chinesa foi a quarta reunião ministerial do Fórum China–CELAC (Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos), realizada em Pequim no dia 13 de maio. O presidente chinês Xi Jinping proferiu o discurso de abertura, no qual anunciou que a China está pronta para unir forças com seus parceiros da América Latina e do Caribe (ALC) para lançar cinco programas que “promovam nosso desenvolvimento e revitalização compartilhados e contribuam para uma comunidade China–ALC com um futuro comum”.

Esses cinco programas, ambiciosos e com visão de longo prazo, têm como objetivo fortalecer a solidariedade política, impulsionar o desenvolvimento econômico, fomentar os intercâmbios culturais, proteger a paz mundial e ampliar a conectividade entre os povos.

A quarta reunião ministerial também apresentou um plano de ação conjunto para o período de 2025 a 2027. Ele abrange praticamente todas as áreas possíveis de cooperação bilateral, desde o combate à pobreza até o combate à corrupção; desde as mudanças climáticas até a cibersegurança; do investimento à inovação; da confiança política aos intercâmbios entre os povos; e da tecnologia ao comércio.

No entanto, transformar esse plano de ação em resultados concretos é mais fácil na teoria do que na prática. Como o plano funciona como um roteiro, ambos os lados precisam adotar medidas mais tangíveis para que ele se concretize. Em outras palavras, é preciso transformar as palavras em ações, pois a intenção de fortalecer as relações, se ficar apenas no discurso, acaba sendo vazia. E falar por falar não leva a lugar algum. Portanto, para alcançar os objetivos ambiciosos definidos na Declaração Conjunta, é necessário redobrar os esforços para evitar a armadilha da retórica sem ação.

Afinal, promover relações bilaterais exige esforços de ambas as partes. Do lado chinês, é importante continuar investindo na América Latina, não apenas em infraestrutura, mas também em setores como alta tecnologia, manufatura e agricultura. Ao mesmo tempo, a China precisa abrir mais seu mercado a produtos não tradicionais provenientes da região.

2.

Já a América Latina, se quiser atrair mais investimentos chineses, precisa melhorar seu ambiente de negócios, reduzindo os chamados “riscos-país”. Segundo o ranking Doing Business do Banco Mundial, o país com melhor colocação na região é o Chile, na 59ª posição. Muitos outros estão além da 100ª posição. Um ambiente como esse dificilmente atrai investidores chineses.

É verdade que o mercado chinês é enorme e oferece muitas oportunidades para produtos estrangeiros. No entanto, trata-se também de um mercado altamente competitivo. Para ter acesso a ele, é necessário aumentar a competitividade dos produtos latino-americanos.

Alguns países da região frequentemente se queixam de que a balança comercial com a China lhes é desfavorável. Por isso, esperam que o país asiático compre mais de seus produtos. Mas a pergunta que se impõe é: o que a América Latina pode oferecer além de suas exportações tradicionais?

É fundamental, também, que os latino-americanos compreendam a importância da continuidade das políticas públicas, tanto no plano interno quanto no externo. No entanto, é comum que as políticas mudem radicalmente quando a oposição assume o poder.

Essa falta de continuidade compromete os objetivos de desenvolvimento de longo prazo e prejudica parcerias internacionais. A postura do presidente argentino Javier Milei em relação à China, por exemplo, coloca em dúvida a continuidade da política externa de seu antecessor.

China e América Latina precisam adotar ações conjuntas para aprofundar suas relações bilaterais. No contexto atual, é necessário lidar com o chamado “fator Estados Unidos” de forma cuidadosa. De fato, desde que a presença econômica chinesa se intensificou na América Latina, os Estados Unidos passaram a demonstrar preocupação — e até desconfiança — com o avanço da cooperação Sul–Sul na região do Pacífico.

3.

Os Estados Unidos têm se empenhado em criar obstáculos à aproximação entre China e América Latina. Também têm recorrido à estratégia da “cenoura e porrete” (“carrot and stick”) para dissuadir países latino-americanos de estreitarem os laços com a China. O lançamento das iniciativas Growth in the Americas, em 2019, e Americas Partnership for Economic Prosperity, em 2023, parece ter sido uma tentativa de conter a influência da Iniciativa Cinturão e Rota da China na região.

Esse tipo de “cenoura” combina-se bem com o “porrete”. O presidente Donald Trump chegou a afirmar que os Estados Unidos “reconquistariam” o Canal do Panamá com uma ação “poderosa”. Não surpreende, portanto, que o Panamá tenha decidido se retirar da Iniciativa Cinturão e Rota, e que a empresa de Hong Kong CK Hutchison tenha anunciado a venda de sua participação majoritária em dois portos na zona do canal, além de outros portos ao redor do mundo.

Enfrentar o impacto do “fator Estados Unidos” nas relações China–América Latina não é tarefa simples. Por um lado, os países latino-americanos podem seguir o conselho de Jorge Heine, ex-embaixador do Chile na China, e buscar um “não alinhamento ativo” no contexto da rivalidade entre Estados Unidos e China; por outro, é possível explorar a criação de uma triangulação de cooperação entre os setores empresariais da China, dos Estados Unidos e da América Latina, buscando uma situação ganha–ganha–ganha para as três partes.

Outro passo importante a ser tomado conjuntamente é o fortalecimento do entendimento mútuo. Devido às barreiras linguísticas, à distância geográfica e às diferenças nos sistemas políticos, econômicos e sociais, poucos chineses conhecem bem a América Latina — e o mesmo vale para os latino-americanos em relação à China.

O plano de ação conjunto para 2025–2027 propõe diversas iniciativas para estreitar esse entendimento. No presente e no futuro próximo, é essencial intensificar os esforços para promover o turismo. Como parte das medidas para facilitar o trânsito transfronteiriço e aprofundar os laços entre os povos, a China decidiu conceder isenção de visto a cidadãos do Brasil, Argentina, Chile, Peru e Uruguai. Trata-se, sem dúvida, de um gesto altamente positivo.

Na América Latina, há um conhecido provérbio: “Quien tiene un amigo, tiene un tesoro” (Quem tem um amigo, tem um tesouro). Espera-se que China e América Latina sigam valorizando essa amizade por muitas gerações.

*Jiang Shixue é professor da Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau.


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