Bastidores do prêmio Nobel da paz

Imagem: Anastasiya D
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Por BERNHARD HORSTMANN*

O Comitê do Nobel, temendo a ira de Donald Trump, entrega Prêmio da Paz a fantoche da mudança de regime

1.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, exigiu receber o Prêmio Nobel da Paz. Mas atender a essa exigência teria sido desastroso para o prestígio já manchado do Nobel. O governo da Noruega, que influencia fortemente as decisões do Comitê do Prêmio Nobel da Paz, ficou numa situação delicada.

A poucas horas do anúncio do Prêmio Nobel da Paz deste ano, os políticos noruegueses preparavam-se para as possíveis repercussões nas relações entre os EUA e a Noruega caso ele não fosse concedido a Donald Trump.

Donald Trump há muito tempo vem expressando abertamente sua convicção de que deveria receber o prêmio da paz, uma honra concedida anteriormente a um de seus predecessores na         presidência, Barack Obama, em 2009, por seus “esforços extraordinários para fortalecer a diplomacia internacional e a cooperação entre os povos”.

Em julho, Donald Trump teria ligado para Jens Stoltenberg, ministro da fazenda da Noruega e ex-secretário-geral da OTAN, para perguntar sobre o Prêmio Nobel.

O colunista e analista Harald Stanghelle especulou que a retaliação do Sr. Trump – se houvesse – poderia assumir a forma de tarifas, exigências de contribuições mais elevadas para a OTAN ou até mesmo a declaração da Noruega como inimiga.

Após algumas conversas nos bastidores, decidiu-se atribuir o Prêmio a outra pessoa que não Donald Trump, mas com a intenção muito óbvia de também satisfazer Trump, promovendo um de seus principais objetivos de política externa.

O Prêmio Nobel da Paz foi atribuído na sexta-feira passada à líder da oposição venezuelana María Corina Machado, que vive na clandestinidade após tentar concorrer contra o presidente Nicolás Maduro.

María Corina Machado, 58, foi reconhecida por manter “a chama da democracia acesa em meio a uma escuridão crescente” e ao “autoritarismo em permanente expansão na Venezuela”.

Ela lidera o partido de oposição Vente Venezuela, mas foi impedida de concorrer à presidência do país e expulsa do cargo em 2014. Agora, ela vive na clandestinidade e enfrenta “sérias ameaças à sua vida”, disse o Comitê Norueguês do Nobel.

2.

A administração de Donald Trump há muito tempo tem como objetivo derrubar Nicolás Maduro, o líder socialista da Venezuela. Ela posicionou seus recursos militares ao redor do país e está planejando uma mudança de regime sob falso pretexto.

Pouco depois de assumir o cargo, Donald Trump declarou o Tren de Aragua como uma organização terrorista estrangeira que “inundou os Estados Unidos com drogas mortais, criminosos violentos e gangues cruéis”. Em julho, o presidente ordenou ao Pentágono que atacasse certos cartéis de droga latino-americanos. Em agosto, havia oito navios da marinha – incluindo destróieres, um cruzador e um navio de combate litoral – operando no mar do Caribe.

Em setembro, o primeiro de quatro barcos tinha sido atingido e 21 supostos traficantes de droga foram mortos. Na semana passada, o governo enviou um aviso confidencial ao Congresso sinalizando sua intenção de realizar mais ataques. A campanha pode se estender dentro das águas territoriais venezuelanas ou incluir ataques com drones dentro de suas fronteiras terrestres, disseram autoridades de defesa.

Mas não está claro se os laços entre o governo de Nicolás Maduro e o Tren de Aragua são tão extensos quanto o governo de Donald Trump sugeriu, ou se eles realmente existem. Ronna Risquez, autora do livro El Tren De Aragua, disse-nos que não há “qualquer evidência” de que Maduro lidere operações de gangues ou tráfico de drogas; um memorando interno do Conselho Nacional de Inteligência dos EUA chegou a uma conclusão semelhante.

Também não está claro se as operações de tráfico de drogas na Venezuela, centralizadas ou não, são significativas o suficiente para que o país seja apontado como uma ameaça à vida de norte-americanos. A Venezuela não é um grande produtor de cocaína ou fentanil. E mesmo que a maior parte da cocaína do mundo seja cultivada na vizinha Colômbia, a Venezuela também não é um grande centro de distribuição.

A campanha “antinarcoterrorista” de Donald Trump visa claramente uma mudança de regime. E isto apesar das extensas ofertas do governo venezuelano para permitir que os EUA lucrem com as riquezas venezuelanas.

Autoridades venezuelanas, na esperança de por fim ao conflito de seu país com os Estados Unidos, ofereceram ao governo de Donald Trump uma participação dominante no petróleo e outras           riquezas minerais da Venezuela em discussões que duraram meses, de acordo com diversas pessoas próximas às negociações.

A oferta de longo alcance permaneceu em aberto enquanto o governo de Donald Trump chamava o         governo do presidente Nicolás Maduro da Venezuela de “cartel narcoterrorista”, reunia navios de guerra no Caribe e começava a explodir barcos que, segundo autoridades norte-americanas, transportavam drogas da Venezuela.

Nos termos de um acordo discutido entre um alto funcionário dos EUA e os principais assessores de Nicolás Maduro, o homem forte da Venezuela ofereceu abrir todos os projetos petrolíferos e auríferos existentes e futuros a companhias americanas, conceder contratos preferenciais a empresas americanas, reverter o fluxo das exportações de petróleo venezuelano da China para os Estados Unidos e cortar os contratos de energia e mineração de seu país com empresas chinesas, iranianas e russas.

Essa oferta não foi suficiente para um Donald Trump ganancioso. A administração Trump acabou rejeitando as concessões econômicas de Maduro e cortou relações diplomáticas com a Venezuela na semana passada. A medida efetivamente acabou com o acordo, pelo menos por enquanto, disseram pessoas próximas à discussão.

3.

A administração de Donald Trump recusou a generosa oferta porque está confiante de que seus planos para uma mudança de regime alcançarão o domínio total sobre a Venezuela. A nova laureada com o Prêmio Nobel da Paz, María Corina Machado, desempenha um papel importante nesses planos.

Quem é essa senhora, você poderá perguntar. Em julho de 2024, o NY Times publicou um retrato simpático dela: “A Sra. Machado, ex-deputada conservadora da Assembleia Nacional que já foi rejeitada por seus próprios colegas, não só reuniu a oposição fragmentada da Venezuela atrás dela, como também cativou uma ampla faixa do eleitorado com a promessa de uma mudança radical no governo. Se a oposição vencer, o Sr. González, 74, será o presidente. Mas, de Washington a Caracas, todos entendem que a Sra. Machado é a força motriz por trás do movimento”.

“Ela tornou-se ativista política em 2002, ajudando a fundar um grupo de direitos eleitorais, o Súmate, que acabou liderando uma tentativa fracassada de destituir o Sr. Chávez. Ela era a queridinha de Washington – o governo dos EUA forneceu ajuda financeira ao Súmate – e     tornou-se uma das adversárias mais detestadas do Sr. Chávez. Mas não era apenas o governo que a detestava. Entre os colegas da oposição, ela era frequentemente vista como muito conservadora, muito conflituosa e muito “sifrina” – termo venezuelano para “esnobe de classe alta” – para se tornar a líder do movimento”.

“Ela disse que a figura política que mais admira é Margaret Thatcher, ícone conservadora conhecida por sua teimosia e lealdade ao mercado livre. E a Sra. Machado há muito tempo apoia a privatização da PDVSA, a empresa estatal de petróleo, uma medida que outros líderes da oposição dizem que colocaria o recurso mais valioso da Venezuela nas mãos de poucos”.

María Corina Machado, enquanto estava a soldo dos EUA, esteve envolvida numa tentativa de golpe militar em Caracas, em 2002. Ainda há dúvidas sobre as ações de María Corina Machado em 2002, quando oficiais militares dissidentes e figuras da oposição lideraram um golpe de curta duração para derrubar Hugo Chávez.   María Corina Machado estava no palácio presidencial durante a posse do novo presidente, Pedro Carmona.

Na entrevista de 2005 ao The Times, María Corina Machado insistiu que ela e sua mãe estavam no palácio naquele dia apenas para visitar a esposa do Sr. Carmona, uma amiga da família – e não para apoiar o golpe.

Mais recentemente, numa entrevista à BBC em 2019, María Corina Machado apelou às “democracias ocidentais” para que compreendessem que Nicolás Maduro só deixaria o poder “diante de uma ameaça credível, iminente e grave do uso da força”.

María Corina Machado chegou a pedir apoio militar ao criminoso de guerra sionista Benjamin Netanyahu para um golpe. Ela pediu ao primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, uma intervenção militar na Venezuela, através de um documento publicado em sua rede social X       em 2018.

María Corina Machado descreveu a intervenção militar como “poder e influência” contra o governo venezuelano. “Hoje, enviei uma carta a Mauricio Macri, presidente da Argentina, e a Benjmin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel, para pedir que usem seu poder e influência para promover o desmantelamento do regime criminoso na Venezuela, intimamente ligado ao tráfico de drogas e ao terrorismo”, escreveu ela.

Além disso, o documento destaca que María Corina Machado estava “convencida de que a comunidade      internacional, de acordo com a doutrina da responsabilidade de proteger, é chamada a dar aos venezuelanos o apoio necessário para gerar a mudança”, uma mudança de governo.

María Corina Machado continua mancomunada com os EUA (e provavelmente ainda é paga por eles) para promover uma mudança de regime na Venezuela: “O secretário de estado dos EUA Marco Rubio reuniu-se em maio com cinco figuras da oposição que fugiram secretamente para os Estados Unidos no que ele chamou de uma “operação precisa”. Ele elogiou a líder da oposição, María Corina Machado, a quem chamou por seu apelido, a “Dama de Ferro venezuelana”, numa homenagem este ano.

Pedro Urruchurtu, assessor de María Corina Machado, disse numa entrevista que a oposição tinha desenvolvido um plano para as primeiras 100 horas após a destituição de Nicolás Maduro, que envolveria uma transferência de poder para Edmundo González, que concorreu à presidência contra Maduro no ano passado.

“Estamos falando de uma operação para desmantelar uma estrutura criminosa, e isso inclui    uma série de ações e ferramentas”, disse Pedro Urruchurtu, acrescentando: “Tem que ser feito com o uso da força, porque, de outra forma, não seria possível derrotar um regime como o que estamos enfrentando”.

Os planos da oposição incluem persuadir outros governos a tomar medidas diplomáticas, financeiras, de inteligência e de aplicação da lei, disse ele.

Recapitulando: o Comitê do Prêmio Nobel da Paz está atribuindo o Prêmio a uma figura política opositora na América do Sul que está a soldo do governo dos EUA e esteve envolvida em tentativas anteriores de golpes militares em seu país. Seu assessor defende o uso da força para derrubar o governo. O plano de María Corina Machado é vender tudo o que os venezuelanos têm ao império estrangeiro que a paga.

O Comitê do Nobel e a Noruega podem, por enquanto, ter-se salvado da ira de Donald Trump, mas a decisão de atribuir o Prêmio a María Corina Machado é mais uma enorme mancha em sua história.

*Bernhard Horstmann é editor da mídia independente norte-americana Moon of Alabama.

Tradução: Fernando Lima das Neves.

Postado originalmente no site Moon of Alabama [https://www.moonofalabama.org/2025/10/fearing-trumps-wrath-nobel-committee-gives-peace-price-to-regime-change-puppet.html].


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