Guerra na Ucrânia: A mudança de tom da mídia ocidental

Clara Figueiredo, Mercato Domenicale Porta Portese, Balilla_ um por 15,00, três por 30,00 euros, Roma, 2019

Por BERNHARD HORSTMANN*

Depois de meses exaltando vitórias ucranianas que nunca aconteceram, as manchetes “ocidentais” finalmente reconhecem o verdadeiro estado da guerra

Evolução dos títulos das matérias da editoria de defesa de The Telegraph (Londres) sobre a Ucrânia: 24 de fevereiro – “Vladimir Putin pode ter cometido o erro que acabará com seu governo sangrento”; 3 de abril – “O Ocidente está vencendo a Rússia em seu próprio jogo”; 21 de abril – “A guerra de Putin é um fiasco, e está prestes a piorar”; 5 de maio – “Rússia humilhada enfrenta uma derrota que marcará época”; 12 de maio – “A vitória total sobre Putin não sairá barata”; 26 de maio – “Putin pode estar prestes a conseguir um triunfo surpreendente”.

 

1.

A quantidade de material disponível para os fãs da Ucrânia parece estar diminuindo sensivelmente na imprensa. Cada vez mais meios de comunicação relatam agora os enormes danos que a artilharia russa está causando às tropas da linha de frente ucraniana. Até o New York Times juntou-se ao coro: “Sob o fogo do arsenal de longo alcance da Rússia e enfrentando uma necessidade desesperada de munição e armas, as forças ucranianas continuam desarmadas na longa e esburacada frente oriental, de acordo com analistas militares, oficiais ucranianos e soldados no terreno. Tão apenas um combate, na quinta e sexta-feira, em uma pequena faixa da linha de frente, numa floresta ao norte da cidade de Slaviansk, foi responsável por mandar cerca de uma dúzia de soldados ucranianos para um hospital militar, com ferimentos terríveis por estilhaços”.

“Você pergunta como estão os combates” ― disse Oleksandr Kolesnikov, comandante de uma companhia que luta na floresta, entrevistado em uma maca de ambulância do lado de fora de um hospital militar em Kramatorsk. “Havia um comandante da companhia. Ele foi morto. Havia outro comandante. Ele foi morto. Um terceiro comandante foi ferido. Eu sou o quarto”.

Outro exemplo vem do Washington Post: “Setenta pessoas do meu batalhão ficaram feridas na semana passada”, disse um soldado e motorista de ambulância, do lado de fora dos portões do hospital, que se identificou apenas como Vlad, 29 anos. “Perdi muitos amigos; isso é difícil para mim. Eu não sei quantos. (…) Está ficando pior a cada dia”. Na noite anterior, disse ele, o bombardeio foi tão forte que ele mal conseguiu dormir. “É sempre bombardeio de artilharia”, disse ele. “Todos os feridos são por estilhaços. A maioria dos caras nas trincheiras nem viu o inimigo cara a cara”.

Desde o início da guerra, chamei a atenção para a enorme quantidade de artilharia que as forças russas tradicionalmente utilizam. A doutrina “ocidental”, que é essencialmente a doutrina norte-americana, aposta na supremacia aérea. As defesas aéreas do inimigo são destruídas nos primeiros dias da guerra. Depois disso, as formações inimigas são eliminadas aplicando uma enorme quantidade de bombardeio aéreo contra elas.

A doutrina russa nunca acreditou na supremacia aérea. A própria Rússia tem excelentes defesas aéreas, então sabe do que está falando. Para destruir formações inimigas, a Rússia aplica artilharia, muita artilharia. Uma equipe de combate de brigada padrão dos Estados Unidos (BCT) tem dois ou três batalhões com tanques ou infantaria como formações de frente e um batalhão de artilharia para apoiá-los. O resto das tropas da brigada são unidades variadas de apoio.

Em lugar de uma proporção de 3 para 1 de formações de frente para formação de artilharia, as unidades russas têm um coeficiente de 1 para 1. As brigadas de infantaria motorizada russas também têm dois ou três batalhões como formações de frente, mas também têm três batalhões de artilharia com várias armas e mísseis para apoiá-los. Este coeficiente de 1 para 1 é repetido em quase todos os níveis ― batalhão, brigada, divisão, exército ― das forças terrestres russas. O resultado é algo como isso: https://twitter.com/RALee85/status/1530615631757942787.

A menos que as forças de defesa estejam totalmente blindadas ou extremamente bem entrincheiradas, como estiveram por oito anos na linha de frente de Donietsk, elas não têm esperança de resistir à artilharia russa. Desde que o exército russo rompeu a linha de frente imediata, os ucranianos perderam a proteção dos abrigos fortificados e estão fugindo.

Nenhum dos cenários acima é novo, e foi a razão pela qual eu e outros poderíamos facilmente prever que o exército ucraniano perderia a guerra.

 

2.

Depois de meses exaltando vitórias ucranianas que nunca haviam acontecido, as manchetes “ocidentais” agora finalmente reconhecem o verdadeiro estado da guerra: “A Ucrânia está em pior forma do que você pensa” (Time); “Ucrânia sofre no campo de batalha enquanto implora por armas dos EUA” (Washington Post); “Vitórias russas no leste da Ucrânia geram debate sobre o curso da guerra” (Bloomberg); “A tática russa do ‘caldeirão’ pode estar entornando a batalha do Donbass a seu favor” (The Guardian); “Estilhaços nas florestas e abóbodas no céu: ‘Eu nunca vi tal inferno’” (New York Times); “Boris Johnson alerta que a Rússia está ‘mastigando’ o leste da Ucrânia, enquanto pede mais apoio às forças de Kiev” (Daily Mail).

 

3.

A mídia ucraniana ainda não pode informar sobre o estado real da guerra.

Matéria do Ukrinform: “Exército ucraniano lança ofensiva na região de Kherson

As forças ucranianas lançaram uma ofensiva na região de Kherson, com os invasores russos sofrendo perdas e se defendendo a partir de posições desfavoráveis”.

O serviço de imprensa do Estado-Maior Geral das Forças Armadas da Ucrânia registrou dessa forma no Facebook, relata Ukrinform: “Como resultado das ações ofensivas das unidades das Forças de Defesa, o inimigo sofreu perdas e passou a se defender em posições desfavoráveis perto de Andriivka, Lozove e Bilohirka, região de Kherson. Os combates continuam”.

Um grupo pesado de várias centenas de homens das tropas ucranianas, com veículos blindados, cruzou uma ponte em Davydiv Brid sobre um rio que delimita o território russo no sudoeste do ucraniano. O grupo foi encarregado de avançar cerca de 60 quilômetros ao sul para alcançar e sabotar a barragem de Dnepr, a oeste de Kherson.

Depois de avançar cerca de 10 quilômetros ao sul, uma coluna de cerca de 20 veículos foi atacada pela artilharia russa. O resto se dispersou no interior e está sendo caçado. Toda a operação falhou em poucas horas. Para a missão planejada, o contingente de tropa mostrou-se muito pequeno e atacou em uma frente muito estreita. O comando russo decidiu que os planejadores da descarada mas inútil operação ucraniana mereciam punição adicional: “Grupos de mísseis e artilharia atingiram 62 postos de comando, incluindo os do Comando Operacional Sul, perto de Novy Bug, região de Nikolaev, bem como 593 áreas de concentração de mão de obra e equipamentos militares das Forças Armadas da Ucrânia e 55 baterias de artilharia e morteiros em posições de tiro”.

A Ucrânia confirmou que foi atacada. No total, o lado russo afirmou que 200 soldados ucranianos morreram na tentativa fracassada, enquanto outros 35 foram mortos no ataque ao Comando Sul do exército ucraniano.

 

4.

Os artigos sobre a supremacia da artilharia russa acima citados vêm, obviamente, em apoio à intenção dos Estados Unidos de enviar lançadores de foguetes múltiplo (HIMARS) para a Ucrânia. Estes podem, em teoria, disparar contra alvos a até 300 quilômetros de distância. No entanto, a Ucrânia só obteria munição para alcances significativamente mais curtos de cerca de 30 km: “Alguns funcionários da Casa Branca expressaram preocupação em fornecer armamento MLRS com um alcance de mais de 180 milhas, o que permitiria que as forças ucranianas atingissem alvos profundos no território russo, potencialmente provocando uma resposta em escalada por Moscou, mas a Casa Branca está confortável agora em gerenciar esse risco, retendo a munição de maior alcance para o sistema, disse um alto funcionário dos Estados Unidos ao Washington Post”.

Com 300 kg, cada míssil tem um peso significativo. Um caminhão com HIMARS pode transportar 6 desses, enquanto uma versão de veículo rastreado transporta 12. Reabastecê-los em quantidade significativa vai ser um pesadelo logístico. A Casa Branca ainda não disse quantos HIMARS enviará para a Ucrânia. Os equivalentes russos do HIMARS são os sistemas BM-27 Uragan e BM-30 Smerch. No início da guerra, a Ucrânia tinha cerca de 70 sistemas Uragan e cerca de 80 Smerch. A maioria desses já se foi.

É altamente improvável que os Estados Unidos enviem mais do que os 100 lançadores de mísseis que os russos já destruíram. Há também o fato singelo de que as defesas aéreas russas podem interceptar esses mísseis em voo: “Além disso, 9 foguetes de lançamento múltiplo Smerch ucranianos foram interceptados perto de Malaya Kamyshevakha, Kamenka, Brazhkovka e Glinskoe, na região de Kharkov, além de Chernobaevka, na região de Kherson”.

Nas últimas semanas, a Ucrânia também recebeu vários caças Su-25 de algum antigo Estado do Pacto de Varsóvia. Dos oito alegadamente recebidos mais recentemente, pelo menos cinco teriam sido destruídos pela Rússia poucos dias depois de terem chegado à Ucrânia.

Todo esse armamento adicional para as tropas ucranianas não terá efeito significativo no campo de batalha. Ele está apenas prolongando a guerra de forma desnecessária.

 

5.

O ex-tenente-coronel do Exército dos Estados Unidos Daniel Davis escreveu algumas peças realistas sobre a Ucrânia. Suas últimas, porém, são um pouco de fantasia. Ele descreve, em três partes, “Como a Ucrânia pode expulsar a Rússia”.

Primeiro a Ucrânia teria que manter o Donbass e, depois, com a ajuda de ataques e contra-ataques, buscar desequilibrar as forças russas. Para isso, teria que realizar uma retirada retardada por fogo na direção de várias novas linhas de defesa criadas em sua retaguarda. Essa ação de retardamento deve dar tempo para construir uma nova força de 100.000 novos soldados no oeste da Ucrânia, que seria equipada com uma enorme quantidade de novos sistemas ocidentais. Levaria de doze a dezoito meses para constituir e treinar essa força de contra-ataque.

Davis sabe, é claro, que cada uma dessas etapas é completamente irreal. Seu verdadeiro conselho é negociar o fim da guerra o mais rápido possível. Mas a descrição do que seria realmente necessário para a Ucrânia ter pelo menos uma chance de vencer a Rússia é útil, pois demonstra a futilidade de tal esforço.

Não há como a Ucrânia reverter a situação ou vencer a guerra. O governo ucraniano não tem outra alternativa senão desistir. Para parar a morte e a extensa quantidade de danos que a guerra causa, ela precisaria terminar agora. Prolongá-la fornecendo mais dinheiro e armas seria um crime, e deveria ser punido.

*Bernhard Horstmann é editor da mídia independente norte-americana Moon of Alabama.

Tradução: Ricardo Cavalcanti-Schiel.

Publicado originalmente no site Moon of Alabama.