Bloco parlamentar

Dora Longo Bahia, Black Bloc, 2015 Serigrafia sobre fibrocimento (12 peças) - 39,5 x 19,5 cm cada
image_pdf

Por ALDO FORNAZIERI*

Os movimentos sociais não podem almejar e esperar uma atuação paternalista de um eventual governo progressista para a resolução de suas reivindicações

Na medida em que a vitória de Lula está virtualmente consolidada, as eleições parlamentares ganham uma redobrada importância, num duplo sentido. O primeiro sentido consiste em eleger o máximo de deputados e senadores identificados com o campo democrático, progressista e de esquerda. As condições de governabilidade de Lula dependerão, significativamente, da força congressual que este campo conseguirá constituir. Quanto maior essa força, menos concessões o governo terá que fazer para governar.

O governo terá mais chance de encaminhar e aprovar políticas públicas que atendam os interesses dos mais necessitados, as políticas de sustentabilidade ambiental e de garantia de direitos se tiver apoio forte e fiel no Congresso. A própria realização de reformas estruturantes, com o objetivo de reduzir os mecanismos iníquos que viabilizam as desigualdades e as injustiças, também dependerá da ampliação desse campo na Câmara e no Senado.

O outro sentido diz respeito ao perfil das bancadas do campo de centro-esquerda e esquerda que se deve buscar. A definição dessa escolha implica que se olhe para a atuação parlamentar desse campo no presente e no passado recente. Quanto às bancadas atuais de esquerda e centro-esquerda, o veredicto precisa ser duro: as bancadas fizeram uma oposição pífia, medíocre mesmo, exceto um punhado de deputados e senadores. Bolsonaro, praticamente, não teve oposição parlamentar, com exceção de poucos episódios, a exemplo da CPI da pandemia.

Até hoje sempre votei em candidatos do PT para a Câmara e o Senado. Desalentadoramente, as atuais bancadas do partido são as piores de sua história. Em determinados momentos chegaram a ser linha auxiliar de Arthur Lira na Câmara, a exemplo do orçamento secreto e de outros episódios.

Em grande medida, as bancadas dos partidos de centro-esquerda e esquerda estiveram até mesmo aquém daquilo que se poderia definir como “cretinismo parlamentar”, no sentido de Vladimir Lênin: essas bancadas não só reduziram a luta política à atividade parlamentar, mas sequer travaram a luta no terreno parlamentar.

Praticamente nunca estiveram onde estava o povo aflito, abandonado nas filas da morte, entregue à violência, à fome, ao desemprego e ao desespero. Não estiveram em Manaus quando faltou oxigênio e quando as pessoas morriam sem respirar. Não fizeram comissões formais ou informais de parlamentares para averiguar a matança de índios, os incêndios na Amazônia e nos outros biomas, a destruição ambiental, os deserdados que moram nas ruas.

Não travaram uma luta firme, corajosa e mobilizadora contra os desmandos constitucionais de Bolsonaro, contra a degradação da democracia, contra os ataques ao Estado de direito e contra a destruição dos direitos sociais e das políticas públicas. Em regra, se limitaram a se socorrerem nas togas dos ministros dos tribunais superiores.

Com as respeitáveis exceções, esses parlamentares se aquartelaram nas suas bibliotecas e nos seus gabinetes para fazer as lives insípidas, desprovidas de realidade. Semearam o medo do golpe, mas não realizaram nenhum movimento organizado de resistência ao golpe. São parlamentares que pensam mais no fundo partidário e eleitoral, nas verbas dos gabinetes e nos privilégios públicos, do que num efetivo compromisso de mudar o Brasil pela ação.

Nem sempre a renovação parlamentar produz bons frutos. Mas manter a maioria dos parlamentares que estão aí tende a não produzir fruto algum para aqueles que almejam mudanças mais profundas do Brasil. Por isso, este é o momento em que é necessário arriscar mudar, renovar.

Para que se reduza a possibilidade de erros nas escolhas, é necessário fazê-las a partir de critérios. Os critérios devem ser orientados para escolhas que deem preferência a candidaturas que representam e participam efetivamente das lutas daqueles setores mais aflitos, mais necessitados e mais carentes de direitos. E de candidaturas que estejam engajadas praticamente em lutas cruciais do nosso tempo, que tenham um sentido universalizante, cuja derrota significaria uma derrota da humanidade e, principalmente, dos mais pobres.

Com base nesses parâmetros, os critérios indicam candidaturas que representam, de um lado, as mulheres, os negros, os indígenas, os pobres, as periferias e outros grupos minoritários que lutam por inclusão e direitos civis. De outro, para candidaturas que representam as lutas pela sustentabilidade ambiental, pela transformação da democracia no sentido de mais igualdade e mais justiça, mais direitos e mais bem-estar.

Mas existe outro fator que precisa ser considerado. Dada a correlação de forças que existe na sociedade e dada a composição do provável governo Lula, tudo indica que haverá uma forte pressão dos setores empresariais e dos setores conservadores no sentido de travar as pautas e as políticas mais progressistas. Para enfrentar esta pressão será necessário que haja uma contrapressão que só pode vir de um campo político situado mais à esquerda do que a composição do governo.

Este campo terá que ter um posicionamento autônomo ao próprio governo para que possa apoiá-lo em todas as suas iniciativas progressistas, mas que possa também poder se opor às pressões conservadoras e antipopulares. Se o advento desta situação é uma tendência real e provável, então o critério dado indica que é preciso votar também em candidaturas que se situam nas alas mais à esquerda dos partidos de esquerda e centro-esquerda.

Serão esses parlamentares que poderão compor um bloco de esquerda no Congresso, visando não só uma atuação parlamentar, mas também extraparlamentar. Como esse bloco tende a ser minoritário terá que recorrer à mobilização e à pressão dos movimentos sociais organizados visando forçar um avanço das pautas e das políticas progressistas e transformadoras.

Os movimentos sociais, por sua vez, não podem almejar e esperar uma atuação paternalista do governo para a resolução de suas reivindicações. A história de todos os tempos e as lições das derrotas e retrocessos recentes comprovam que a melhor e mais segura forma de garantir conquistas e direitos está na organização e na mobilização dos movimentos sociais e populares.

*Aldo Fornazieri é professor da Escola de Sociologia e Política. Autor, entre outros livros, de Liderança e poder (Contracorrente).

 

O site A Terra é Redonda existe graças aos nossos leitores e apoiadores. Ajude-nos a manter esta ideia.
Clique aqui e veja como

Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
Em defesa das bibliotecárias e bibliotecários
12 Mar 2026 Por FELIPE SANCHES: As bibliotecas estão atravessadas pela política e, se negarmos seu papel político, fechamos os olhos ao seu papel estratégico no desenvolvimento cultural, educacional, científico e econômico do Brasil
2
Rússia e China na guerra no Irã
18 Mar 2026 Por VALERIO ARCARY: No xadrez geopolítico da guerra contra o Irã, Rússia e China movem suas peças com cautela: Moscou não pode, Pequim não quer — e o regime persa descobre, na solidão estratégica, que alianças têm limites quando os interesses das potências apontam em outra direção
3
No radar geopolítico – EUA x Irã
14 Mar 2026 Por RUBEN BAUER NAVEIRA: O que o Irã pretende é forçar os americanos a pedirem por negociações que não serão por algum "cessar-fogo", mas que envolverão concessões dolorosas, como o fim de todas as sanções e o desmantelamento das bases militares americanas no Oriente Médio
4
Os impactos da guerra no Irã
16 Mar 2026 Por LUIS FELIPE MIGUEL: Ao atacar o Irã sem estratégia, Trump revela o vazio de sua política externa e a submissão a Israel; no Brasil, o impacto imediato é a alta dos combustíveis, que exige do governo Lula coragem para romper de vez com a paridade internacional e proteger a economia popular do choque inflacionário
5
Hamnet – a vida antes de Hamlet
11 Feb 2026 Por GUILHERME E. MEYER: Comentário sobre o filme de Chloé Zhao, em cartaz nos cinemas
6
A “filosofia” do cérebro podre
15 Mar 2026 Por EVERTON FARGONI: Uma crítica radical à colonização algorítmica da consciência, onde a promessa de prazer imediato culmina na falência do pensamento, da autonomia e da vida democrática
7
Um país (des)governado
13 Mar 2026 Por PAULO GHIRALDELLI: A guerra no Irã não é imperialismo, é o espasmo de um país sem projeto, governado por um homem que trocou promessas por bombas
8
Pecadores
16 Mar 2026 Por BRUNO FABRICIO ALCEBINO DA SILVA: Comentário sobre o filme dirigido por Ryan Coogler , premiado com quatro estatuetas no Oscar 2026
9
Jürgen Habermas (1929-2026)
16 Mar 2026 Por MARCO BETTINE: Filósofo da esfera pública e do agir comunicativo, Habermas recusou o pessimismo da primeira geração frankfurtiana para mostrar que a modernidade ainda pode fundamentar racionalmente a crítica social
10
A pornô-política
14 Jun 2020 Por RICARDO T. TRINCA: O político obsceno tem prazer pelo domínio, sob a forma de uma prestidigitação, algo que pode ser encontrado também nos mágicos
11
Sonhos de trem
14 Mar 2026 Por VANDERLEI TENÓRIO: Comentário sobre o filme dirigido por Clint Bentley.
12
A escolha de Donald Trump
13 Mar 2026 Por MICHAEL ROBERTS: Trump descobriu que decapitar um regime não é o mesmo que subjugar uma nação: o Irã resiste e o preço do petróleo cobra a fatura
13
Por que a música?
15 Mar 2026 Por FRANCIS WOLFF: Trecho da primeira parte do livro recém-editado
14
A figura do pai
13 Mar 2026 Por SAULO MATIAS DOURADO: Nos filmes indicados ao Oscar, a figura do pai emerge como sintoma de uma época que perdeu a direção do futuro e busca na transmissão um sentido
15
Contraste entre lulismos
12 Mar 2026 Por FERNANDO NOGUEIRA DA COSTA: O ponto cego atual da esquerda é ela ganhar no PIB, ganhar no emprego, ganhar na redução da pobreza, mas perder na pergunta fundamental: “para onde estamos indo?”
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES