Como pensa o empresário nacional?

Imagem: Tom Fisk
image_pdf

Por RENATO DAGNINO*

O processo político em andamento para gestar uma reindustrialização do país não pensa em termos de uma reindustrialização solidária

Este texto pretende ser o primeiro de uma série destinada a buscar dialogar com quem está acompanhando o processo de elaboração de política da “neoindustrialização”. Processo que, bem antes de que fosse possível enunciá-lo como uma política pública, vimos discutindo e denominando-o, seguindo a literatura de então, de “reindustrialização empresarial”. E, contrastando-a com a, evidentemente não-excludente, “reindustrialização solidária”.

Nesta oportunidade, mantenho essa posição ideológica. E, também, o enfoque da análise de política. Aquele enfoque multidisciplinar que a entende como integrada por movimentos de politics e de policy levados a cabo pelos atores com ela envolvidos. E que ressalta ser sempre necessário examinar as relações que ocorrem entre eles ao longo do ciclo sistêmico, também iterativo e interativo, dos momentos de formulação, implementação e avaliação.

As pessoas a quem aqui privilegio e que leram na mídia documentos de caráter governamental sobre a neoindustrialização irão concordar comigo que o seu ator-chave é a empresa nacional. Ele ali aparece como sendo responsável pelo seu sucesso.

Isso a ponto de um colega do Departamento de Política Científica e Tecnológica da Unicamp (insuspeito, dado que está longe de admitir, entre outras coisas que venho falando, o conceito de “tecnociência solidária”) repetir num tom irônico a máxima Garrinchiana: “E já combinaram com os russos?”.

Na impossibilidade de responder à pergunta, e por não conhecer as eventuais “combinações” (entendidas como condições) em que esse ator está envolvido, a manifestação pública mais importante que encontrei, e por isso a tomo como referência, é o discurso de posse do atual presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Ricardo Alban em 31 de outubro.

Não vou fazer aqui de novo, mas o exercício que eu fiz quando li o texto, foi parecido com o daqueles quebra-cabeças em que, dadas duas listas, tínhamos que unir cada frase de ambas com um traço.

A primeira lista, era aquela que se pode depreender do que foi publicado nos documentos a que me referi, E, a outra, a das declarações explícitas e, principalmente implícitas que contém o magistral discurso do presidente da CNI. O qual tomo, com todas as ressalvas, como sendo o do ator empresário.

A matéria que se reporta ao discurso o apresenta numa linguagem escorreita (que, me socorreu o Google, significa: apurada, perfeita, correta, límpida) que admite duas interpretações: a que decore de uma leitura “corrida” e, outra, orientada a perscrutar as intenções que foram comunicadas a quem o preparou. Ela é também “articulada” de maneira a deixar que as afirmações a cada momento realizadas com base em fortes argumentos, inclusive empíricos, nacionais e internacionais, sejam amainadas no período seguinte. Ou, também, como passiveis de serem interpretadas de modos antagônicos.

Embora com estilo com frequência elíptico, o discurso dialoga com cada uma das demandas governamentais que o atual estágio de política pública da neoindustrialização coloca para a empresa. Aquelas que, no meu exercício (que gostaria de propor como pesquisa a um aluno do departamento), aparecem na primeira lista.

É como se, ao reconhecer as demandas e endossá-las como pertinentes, o ator empresário estivesse cumprindo aquilo que há muito tempo ele (e boa parte dos policy makers) entende como sendo o seu papel. Ou seja, apresentando as condições – a serem satisfeitas mediante medidas de outras políticas públicas – que tornariam possível a sua necessária participação (citada como algo que se depreende claramente daqueles documentos).

Do discurso, fica a impressão de que o ator empresário está expressando, ou melhor, reproduzindo, um “sentido comum” presente na sociedade. O qual, como costuma acontecer, é vendido como sendo o “bom senso”.

Mais do que isso, ao endossar a neoindustrialização, e implicitamente aceitar a noção de que ela pode vir a ser algo semelhante à política de industrialização via substituição de importações (quando políticas, econômicas, cognitivas, sociais etc., foram por esta orientadas), ele se está alinhando ideologicamente àqueles que a formulam.

O que o discurso reproduz é a narrativa da policy advocacy formada pela elite científica e a tecnocracia da política cognitiva brasileira (aquela com que venho enfeixando a de Educação e a de CTI). Aquela que, hegemonicamente, orienta há décadas a maneira como nos relacionamos com o conhecimento.

Como outras companheiras e companheiros alinhados ao pensamento latino-americano sobre ciência, tecnologia e sociedade, eu tenho também há décadas buscado desconstruir essa narrativa (que tenho denominado de inovacionista), enfocando seus pontos que nos parecem merecedores de crítica.

Hoje, o que mais me preocupa é buscar evitar que a narrativa inovacionista nos leve a desperdiçar a oportunidade, contida na curricularização da extensão, de reorientar as agendas de ensino, pesquisa e extensão da universidade pública.

Em meio a uma multiplicidade de aspectos e ações prementes de distintas naturezas relacionadas a essa reorientação, há uma preocupação que mais me mobiliza.

Trata-se da necessidade de que nós, como trabalhadoras e trabalhadores do conhecimento, aprendamos a identificar nas necessidades materiais coletivas hoje desatendidas, a demanda tecnocientífica que cabe à nossa universidade “professoral”.

É nesse contexto que aparece o conceito, visto no cenário global e em suas diferentes denominações como imprescindível para prolongar em paz a nossa vida neste planeta, de “economia solidária”.

E associado, como condição para sua ampliação, o conceito de “tecnociência solidária”. Aquela que devemos desenvolver mediante o reprojetamento e a adequação sociotécnica da tecnociência capitalista. Aquela feita pelas e para as empresas, que contracena com a guerra e contribui para inviabilizar a vida que queremos deixar para os que vêm depois.

Mais do que como fiz no caso anterior, dado que já publiquei o resultado de minha análise, pretendo propor um outro quebra-cabeça.

Por que a proposta da reindustrialização solidária não é sequer considerada nos documentos governamentais? Qual é a falha dos argumentos e ações que ela contém? E, se existem alguns que sejam defensáveis, como operacionalizá-los no âmbito da atual correlação de forças?

*Renato Dagnino é professor titular no Departamento de Política Científica e Tecnológica da Unicamp. Autor, entre outros livros, de Tecnociência Solidária, um manual estratégico (Lutas anticapital).


A Terra é Redonda existe graças aos nossos leitores e apoiadores.
Ajude-nos a manter esta ideia.
CONTRIBUA

Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
Para além de Marx, Foucault, Frankfurt
25 Jan 2026 Por JOSÉ CRISÓSTOMO DE SOUZA: Apresentação do autor ao livro recém-publicado
2
Avaliação e produtivismo na universidade
23 Jan 2026 Por DANICHI HAUSEN MIZOGUCHI: A celebração das notas da CAPES diante do estrangulamento orçamentário revela a contradição obscena de uma universidade que internalizou o produtivismo neoliberal como nova liturgia acadêmica
3
O teto de vidro da decolonialidade
29 Jan 2026 Por RAFAEL SOUSA SIQUEIRA: A crítica decolonial, ao essencializar raça e território, acaba por negar as bases materiais do colonialismo, tornando-se uma importação acadêmica que silencia tradições locais de luta
4
A ilusão da distopia
27 Jan 2026 Por RICARDO L. C. AMORIM: O novo capitalismo não retorna ao passado bárbaro; ele o supera com uma exploração mais sofisticada, onde a submissão é voluntária e a riqueza se concentra sem necessidade de grilhões visíveis
5
O Conselho da Paz de Donald Trump
24 Jan 2026 Por TARSO GENRO: Da aridez de Juan Rulfo ao cinismo da extrema direita mundial, Tarso Genro denuncia a transição da cena pública para uma era de tirania privada, em que a gestão do caos e a aniquilação de povos desafiam a humanidade a resgatar o frescor de suas utopias perdidas
6
Júlio Lancellotti
28 Jan 2026 Por MARCELO SANCHES: A relevância de Padre Júlio está em recolocar a fé no chão concreto da vida, denunciando o cristianismo que serve ao poder e legitima a desigualdade
7
Notas sobre a desigualdade social
22 Jan 2026 Por DANIEL SOARES RUMBELSPERGER RODRIGUES & FERNANDA PERNASETTI DE FARIAS FIGUEIREDO: A questão central não é a alta carga tributária, mas sua distribuição perversa: um Estado que aufere seus recursos majoritariamente do consumo é um Estado que institucionaliza a desigualdade que diz combater
8
Enamed e cretinismo parlamentar estratégico
27 Jan 2026 Por PAULO CAPEL NARVAI: É mais prático e eficaz fechar cursos e colocar um fim na farra da venda de diplomas disfarçada de formação. Mas não é nada fácil fazer isso, pois quem consegue enfrentar congressistas venais?
9
Hamnet – a vida antes de Hamlet
19 Jan 2026 Por JOÃO LANARI BO: Comentário sobre o filme dirigido por Chloé Zhao, em cartaz nos cinemas
10
Energia nuclear brasileira
06 Dec 2025 Por ANA LUIZA ROCHA PORTO & FERNANDO MARTINI: Em um momento decisivo, a soberania energética e o destino nacional se encontram na encruzilhada da tecnologia nuclear
11
Poder de dissuasão
23 Jan 2026 Por JOSÉ MAURÍCIO BUSTANI & PAULO NOGUEIRA BATISTA JR.: Num mundo de hegemonias em declínio, a dissuasão não é belicismo, mas a condição básica de soberania: sem ela, o Brasil será sempre um gigante de pés de barro à mercê dos caprichos imperiais
12
Hamnet
24 Jan 2026 Por RICARDO EVANDRO SANTOS MARTINS: Entre a fitoterapia de Agnes e a poética de Shakespeare, o filme revela como o saber silenciado das mulheres e o trabalho de luto desafiam a fronteira da morte
13
O exemplo de Sorbonne
29 Jan 2026 Por EVERTON FARGONI: A recusa da Sorbonne aos rankings é um ato de insubordinação: nega a redução do conhecimento a métricas e reafirma a universidade como espaço de crítica, não de produtividade alienada
14
Entradas: fotografias — Um ensaio de antropologia visual
25 Jan 2026 Por ANNATERESA FABRIS: Comentários sobre o livro de Carlos Fadon Vicente
15
O declínio da família no Brasil
21 Jan 2026 Por GIOVANNI ALVES: A explosão de lares unipessoais e a adultescência prolongada são duas faces da mesma moeda: a desintegração da família como infraestrutura antropológica, substituída por uma solidão funcional ao capital financeirizado
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES