Dois Sermões do Padre Vieira

Imagem: João Nitsche

Por JOSÉ VERÍSSIMO TEIXEIRA DA MATA*

Os Sermões de Santa Catarina e algumas questões de retórica e de ideologia

No presente ensaio, apresentam-se os dois Sermões de Santa Catarina como um repositório de lugares das disputas ideológicas em seus momentos mais agudos, avaliando-se ainda a recepção dessa disputa pelo monarca, pelos ideólogos e pelo militar. A própria estrutura do primeiro dos Sermões, o pregado em Lisboa, permite situar as relações de importantes partes do Estado, as armas e a coroa, isto é, o próprio rei, diante da ideologia, particularmente da ideologia religiosa, e dos produtores, ou condutores, do discurso religioso, sacerdotes ou filósofos.

A forma com que o rei se relaciona com a religião, o impacto que o simbolismo da coroa tem para seus atos, a sua posição diante do discurso religioso, a forma com que o militar recebe a argumentação: todos esses aspectos estão postos genialmente nos dois sermões analisados. Quando se está diante de um clássico, está-se diante de uma permanência que se refaz no tempo.

Discutirei algumas questões de dois Sermões de Santa Catarina, Virgem e Mártir (1), pregado em Lisboa, e o Sermão de Santa Catarina, pregado em Coimbra, em 1663 (2), do ponto de vista da luta das ideias, da retórica e da ideologia no sentido contemporâneo, onde encontramos muitas razões da permanência de Vieira.

No primeiro deles, Vieira faz o elogio da prudência contra a roda da fortuna, e faz a sua análise católica bem próxima da cultura romana, onde explora a fortuna, e onde explora as sutilezas da língua latina e os mitos gregos, como se os livros da bíblia fossem escritos originariamente em latim, ou viessem das fabulações gregas, mas a lição mais grande é a provisoriedade do que aí está e a prudência que deve orientar o homem. Diante das coisas, incluindo as do Estado, Vieira apresenta uma hierarquia de dificuldades – é mais fácil o desejar que o fazer, o resolver que o executar.

Veremos que nos sermões apontados há elementos importantes para discutir os caminhos da luta das ideias e o tipo de vinculação às ideias que os trechos escolhidos dos dois sermões citados revelam. Eles mostram-nos, mais do que uma simples metáfora, mais do que uma lenda fundante da afirmação do cristianismo, a estrutura e os topoi da mais refinada guerra ideológica.

Comecemos, pois, a análise desses trechos estruturantes dos citados Sermões.

1.

a) (1) VII“ Não há cabeças mais duras de penetrar e converter, que as coroadas; e se o rei, ou tirano, por dentro é mau e vicioso, e por fora hipócrita, estas aparências de religião, com que se justificam, os endurecem e obstinam mais.”

Ao iniciar essa análise, entendemos que o brilhantismo de certos textos dificilmente se explica apenas pela harmonia do conjunto, sempre há momentos fortes que parecem insuflar ânimo nos clássicos. Nós vemos, na arquitetura propriamente dita, certas paisagens originais e belíssimas, em que as partes sempre parecem ser por si mesmas modestas, mas o conjunto nos descobre um evento totalmente admirável e distinto1. Esse tipo de estrutura dificilmente se encontrará na arquitetura dos textos escritos com brilhantismo.

A frase que, primeiramente, se toma aqui como excerto a ser analisado, nos coloca diante de uma verdade espetacular, e que a experiência confirma a cada dia na política, seja na cabeça coroada pela tradição monárquica seja naquela ungida pela representação democrática em suas diversas aparições. A explicação que torna essa verdade palpável, compreensível do ponto de vista da razão, é o significado ideológico do chefe no contexto político. Ele representa a ideologia a que se vincula de modo mais claro, e é assim que é reconhecido, e coloca-se na posição em que está como representante dessa ideologia, tendo com ofício guardá-la e protegê-la, sua carapaça ideológica é elemento estruturante dessa arquitetura. Em geral, no exercício de seu ofício, não sendo um ideólogo no sentido estrito da palavra (o que é o mais comum), o chefe tem o instinto da ideologia, e reage ao novo, ao desconhecido com o necessário cuidado, esperando que o aparato em torno processe a proposição.

A frase que ora se examina, tem dois movimentos. O primeiro é expresso pela primeira proposição: “Não há cabeças mais duras de penetrar e converter, que as coroadas”

Vê-se aqui nesse “penetrar” e nesse “converter”2 que Vieira se está referindo ao fato de que o horizonte dos coroados dificilmente se muda, ele, Vieira, cá está naturalmente visando mudanças no horizonte do coroado, pois se refere à conversão, a qual, para além do significado concreto, religioso, tem a sua matriz mais geral, isto é, a mudança dos critérios de ver o mundo, é, portanto, uma mudança radical, sob esse aspecto.

A cabeça do coroado aparece como blindada pela coroa, penetrá-la, significaria atravessar-lhe o metal, alterar a movimentação do cetro, e aqui, para além dos significantes presentes, também está o seu significado, a simbologia do reino, a ideologia que ela, a coroa, veicula e impõe ao rei, assim reconhecido, defender. Na verdade, ele, o rei, não tem aqui muito espaço, ele está no espaço dos que o cercam, daqueles que ele representa, e a coroa não pode afastar-se da fração de classe a que está ligada, ou, em sentido mais livre, da classe a que está ligada, sob pena de pôr a prêmio a própria cabeça do rei. Converter-se como, então?

A segunda parte – “[…]e se o rei, ou tirano, por dentro é mau e vicioso, e por fora hipócrita, estas aparências de religião, com que se justificam, os endurecem e obstinam mais.”– traz o caso de um tirano mau e vicioso e recoberto pela carapaça ideológica da ideologia religiosa. Vale lembrar: a ideologia religiosa é um elemento de que não se pode abstrair do tempo de Vieira, nem talvez do nosso.

Convenhamos que talvez Vieira não queira associar o tirano mau e vicioso ao seu próprio horizonte religioso, mas admitamo-lo (e até aprofundemos) ainda que para testar tal hipótese. Ela tem um interesse teorético inequívoco. Esse tirano mau e vicioso, para quem a religião não seria mais que aparências, é um incréu. Ele não se serve da religião espontaneamente em sua práxis, mas a usa, segundo Vieira, de modo hipócrita. Esse uso o endurece e o obstina ainda mais.

Ora, esse uso hipócrita, é um uso consciente, ou em um nível de consciência mais elevado, do que o simples uso do monarca sinceramente religioso. Ele, o tirano hipócrita, serve-se conscientemente, portanto, da carapaça da ideologia religiosa em seus protocolos de poder. Ele se serve da ideologia religiosa não porque nela crê, mas porque a reconhece importante para obter o consentimento às suas ações, ou simplesmente para tornar mais fácil o exercício da coação legal.

Não importa aqui (para os exclusivos fins de compreensão dos mecanismos internos da ideologia) que a hipocrisia seja um caso do sumo mal.3 O fato teorético que cabe aqui destacar é que esse tirano hipócrita percebe, de modo muito consciente, o papel da ideologia religiosa no discurso político, e estamos aqui a nos referir a um discurso anterior à laicidade inaugurada pela revolução francesa e pela história do republicanismo. O tirano, assim, sabe que a religião pode fundar o seu discurso político, dar-lhe uma consistência, assim reconhecida pelos seus súditos. O seu discurso, desse modo, é religioso, não porque o próprio monarca é religioso, mas porque ele percebeu que não pode dispensar a ideologia religiosa em suas ações.

Lembremos aqui a diferença entre imposição legal (coação) e o consentimento racional que se refere às matrizes ideológicas, em que a ideologia religiosa, segundo Althusser, seria o modelo por excelência da estrutura e do funcionamento do discurso ideológico. O crédulo conversa com Deus, com as teses da religião, e por um ato de consentimento as faz suas, passa a usar esse aparato para dar respostas aos múltiplos problemas com que depara em sua práxis Sua racionalidade passa a ser a racionalidade condicionada por sua ideologia religiosa. O monarca incréu oferece a esse súdito uma explicação, consciente e sumamente intencional, em seu próprio nível ideológico. Ele chama conscientemente a maquinaria da matriz ideológica com suas duras e cruas teses para processar o fato que lhe é oferecido.

Enquanto o monarca ou tirano sinceramente religioso reage espontaneamente ao fato novo, ainda que o seu “ser espontâneo” seja vazado por sua ideologia religiosa, o tirano hipócrita traz, intencionalmente, todo o aparato da ideologia para explicar o fato, para mostrar- se dentro da ideologia, como representante, assim visto, de sua ortodoxia, eis por que é ele mais duro e mais obstinado.

O monarca sincero, o bom rei de Portugal, chama os representantes do clero, esses aparelhos reguladores, verdadeiros reostatos da fé – que parecem dizer mais fé aqui, mais fé ali – e diante dos fatos novos apresentados colhe, sincera e humildemente, os seus doutos e sagrados juízos, processa-os com toda a disposição acolhedora, e tenta incorporá-los.

O monarca hipócrita, que não tem mais que aparências de religião chama os representantes da Santa Igreja,4 que podem ser os jesuítas de Vieira, e não identifica em seu discurso de matriz religiosa, mais que política, mais que ideologia econômica concentrada. Identifica nesse discurso precisamente a sua racionalidade não religiosa.

E recobrindo o seu próprio discurso político das meras aparências religiosas, que causam tanta indignação (o protocolo religioso do discurso político) ao nosso determinado Vieira, enfrenta com clareza a questão, para o bem ou para o mal, e chancela sua decisão com mais argumentação religiosa, com mais teatralidade religiosa, usada conscientemente, tanto como teatralidade propriamente dita como quanto religião. Ele busca legitimar o seu discurso político com o uso maximamente intencional e maximamente consciente da ideologia religiosa, assegurando assim o mais largo assentimento às suas ações entre os súditos, ao operar, de maneira precisa, no nível da ideologia desses. Ele sabe que não pode impor aos seus crédulos súditos a sua dessacralizada ideologia, e assim, hipócrita, mas conscientemente, faz sua a ideologia religiosa.

2.

b) (1) VIII -“As batalhas mais invencíveis são as do entendimento; porque onde as feridas não tiram sangue, nem a fraqueza se vê pela cor, nenhum sábio se confessa vencido.”

É verdade que as batalhas de guerra são mais claras, ainda que não se ganhe a guerra ganhando uma simples batalha. Todavia, o campo da batalha na guerra é, em princípio, bem determinado, e do momento, que o adversário é finalmente expulso daquele local, está claro que a batalha foi vencida. Em 27 de março deste ano, 2016, diga-se a esse propósito, o exército sírio retomou Palmira, cidade histórica e grande trunfo, até então nas mãos do Estado Islâmico. Que a batalha de Palmira foi vencida e quem a venceu não há dúvida.

Vieira que se meteu em batalhas militares (como aquelas contra batavos na Bahia, ou outras, contra franceses no Maranhão) e em batalhas do pensamento, coloca aqui com inegável profundidade essa diferença fundamental entre a guerra ideológica e a guerra propriamente dita, porque seu raciocínio pode ser expandido, sem inconvenientes, das batalhas às guerras. Suas controvérsias no campo das ideias, sendo mais religiosas ou ideológicas, têm inequívoca diferença com as batalhas de sangue e com as de feridas, onde os vencidos ou escapam a toda velocidade, se podem, ou, feitos prisioneiros, já não tem, militarmente falando, como prosseguir a sua guerra, ou ainda são simplesmente mortos.

A frase de Vieira que agora se analisa parece lançar luzes especialmente sobre as controvérsias filosóficas, ideológicas ou religiosas. Materialismo e idealismo, religião e ateísmo, dualismo de alma e corpo ou unicidade são, para exemplo, polêmicas que parecem não se esgotar. No caso das ciências, se a situação não se torna tão clara, de chofre, como em uma batalha de verdade, em algum momento ela parece definir-se. A teoria da relatividade de Einstein impôs-se com relativa facilidade. Newton, uma vez que apareceu, impôs-se também de forma definitiva. Houve os casos de Galileu e de Giordano Bruno que confrontaram a ideologia religiosa, e encontraram forte resistência no estamento clerical, vinculado, por sua autoridade, à longeva física de Aristóteles.

Porém, se nos circunscrevermos, de modo mais preciso, ao espaço visado por Vieira nesses dois sermões, que são as querelas teológicas em que se envolveu Santa Catarina, em que o cristianismo e o paganismo se digladiam, veremos que, nesse campo da pura ideologia religiosa, parece ainda mais difícil proclamar haver vencidos e vencedores, pelo menos do ponto vista da mera argumentação. As perspectivas se confrontam, a partir de representações distintas, de horizontes diversos, os argumentos se enfileiram, mas sobre o solo irracional da religião, sobre o qual se pode agregar a racionalidade dos argumentos ou a irracionalidade dos argumentos, sempre.

Os sábios da fé, a esse propósito, aparecem como guardiães da matriz ideológica, e como tais possuem toda a necessária maquinaria para defender o núcleo duríssimo da ideologia. Como esquadrão do núcleo duro, da sede da matriz ideológica, aparecem como tropa de elite a defendê-la, com possibilidades infinitas de lhe aditarem argumentos para fechar o acesso do adversário ao centro ideológico do sistema.

Com efeito, ao se cuidar de tal matéria, todo o tato se exige,5 para se mover entre ideias e argumentos, simbologias ou significados, sobretudo quando se confrontam ideologias diversas. A esse propósito, a metáfora do Sermão de Santa Catarina, Virgem e Mártir, é precisa e descortina-nos os vários níveis da guerra ideológica.

3.

Eis por que, após o Imperador Maximino ter manifestado a sua fé nos deuses em que cria, e de ter negado e blasfemado em Cristo, arrancou dele Catarina uma meia-vitória, o que significa que há nuanças entre os pontos marcados nas batalhas ideológicas que não vale esquecer: c) (1), VIII “[…] depois que o imperador falou e ouviu, se não alcançou dele a inteira vitória, conseguiu parte dela. E qual foi?porque nem mesmo o imperador o entendeu. Foi que se o não fez católico da nossa fé, fê-lo herege da sua. Alcançou dele modesta e sabiamente a Santa, que entre ela e seis filósofos se disputasse publicamente a questão da verdadeira ou falsa divindade dos deuses”.

Aqui se pode compreender que os movimentos do debate ideológico, as suas sutilezas, nem sempre são perceptíveis (“porque nem mesmo o imperador o entendeu”). Demais, a vitória nem sempre significa a conversão absoluta do adversário, mas, eventualmente, consiste apenas em destacá-lo de alguma forma de sua própria matriz ideológica: ”Foi que se o não fez católico da nossa fé, fê-lo herege da sua”.

Os modi operandi da ideologia são diversos e devem transmutarem-se o tempo todo, ajustando-se às circunstâncias, aos auditórios: eis por que “modesta e sabiamente”, isto é, com todo o tato, elegeu a santa a sua tática diante do soberbo Maximino. Sábia ela não enfrentou a arrogância com cargas e canhões, mas colocou-se ali em consonância com o protocolo que rege as relações do imperador com os súditos.

4.

A vitória consistiu em assegurar a disputa sobre uma questão de fé: d ).(1), VIII “E aqui fraqueou a astúcia do imperador, e se viu a sutileza de Catarina; porque o que se põe em questão e disputa, igualmente se põe em dúvida; e quem duvida de sua fé, qualquer que seja, já é herege dela”.

Sendo um sincero pagão, Maximino se esquece de que tudo em seu discurso e em sua prática é vazado pela ideologia religiosa. Assim, com sua sabedoria, Catarina trincou não a fé de Maximino, mas a relação desse com a sua própria fé. Ela obteve um feito incompatível com a ideologia dominante com sua astuciosa petição. Com sua atitude o cristianismo entra no centro da ideologia para disputar com o paganismo o trono ideológico, assim: “Apareceram enfim os filósofos em uma sala, que era o teatro da famosa disputa, não menos em número do que cinquenta, e tão vários cada um nos trajos e no mesmo aspecto, como nas seitas. Não se viam ali armas, posto que todas as universidades tinham destinado àquela campanha os seus Aquiles. Afrontaram-se ele de haver de contender em letras com uma mulher, não desmaiando porém ela de vencer a tantos a tantos homens de tanta fama e de tanta presunção, que todos se estimavam banhados na lagoa Estígia. Assim tinha cada um por invulnerável a sua seita, e inexpugnável às outras. Para abreviar pois o conflito, e não ter suspensa a expectação dos circunstantes, todos se comprometeram na sabedoria de um, o mais velho e venerável, de mais celebrada opinião. Mas Catarina, sem desprezar a pompa das palavras, nem temer o estrondo dos argumentos com modestas e vivas razões desfez, e desbaratou tudo com tal evidência, que o filósofo compromissário do duelo, atónito e pasmado, se rendeu, e convencido se lançou a seus pés”.

Essa sequência da argumentação põe diante de Catarina as cinquentas seitas pagãs, cada uma com seu cosmo e cheia de si, mas ela revela que essas cinquenta seitas têm uma matriz comum, e em nome delas se elege o mais velho e o mais venerável. Esse é aquele que mais tempo militava no paganismo; era também o mais venerável, isto é, o que mais representava o consenso da matriz comum do paganismo. E aqui mais um dado trazido pela genial perspicácia de Vieira: cada seita é invulnerável e inexpugnável às demais, porém, no momento em que o combate já não se faz entre elas, mas contra o cristianismo, naturalmente reconhecem o fundo comum que está em guerra contra a ideologia cristã.

O discurso de todas passa, assim, a ser o discurso de um, afinado na mesma voz, que fala assim por ela própria e cada um. Catarina dá, pois, e mais uma vez, prova de seu talento. Ela não despreza o protocolo retórico da pompa das palavras usadas pelo venerável pagão, ela reconhece com precisão, portanto, o auditório em que está, e o significado retórico da argumentação do adversário.

A maestria retórica, e mais, de profundidade de pensamento, está no fato de que Catarina não usou a maquinaria estrepitosa da retórica para contrapor-se à estrondosa maquinaria de argumentos do venerável pagão. Nesse terreno, ela não teria muito a ganhar, pois se tratava de argumentos a cuja forma os pagãos estavam habituados por sua ideologia e por seu protocolo retórico, mas ela inovou com argumentos modestos e vivas razões, isto é, razões que fazem sentido, que bem respondem aos fatos, e que o sábio do paganismo teve dificuldade de processar dentro de sua própria matriz ideológica.

Ela contou com o efeito surpresa, pois os sábios geriam o conflito dentro de sua matriz, a qual não se poria em dúvida até o momento em que Maximino consentiu o duelo ideológico entre os seus e Catarina. Acresce ainda o fato fundamental de que o cristianismo vinha já ganhando as populações, e, quando chega ao nível-topo da disputa ideológica, estava a realizar o seu movimento ascendente em direção à hegemonia. Catarina tem, assim, diante de si, um paganismo soberbo, porém minado.

O estamento ideológico está pronto à conversão, à mudança de critérios de que falava Proust, ainda que dentro dos limites de sua carcaça ideológica, e essa disposição está presente até para garantir a sua própria sobrevivência e das instituições que eles encarnavam. Todavia, o estamento ideológico, diante da divisão da sociedade, fratura-se, não sabe a que sinais seguir, até porque os sinais são contraditórios. Maximino concedeu com Catarina a entrada da disputa ideológica no teatro da famosa disputa.

Não estaria ele preparando a conversão? Não estaria ele indicando aos ideólogos o grande ajuste a ser feito? Ó como são contraditórios esses sinais? Será que estamos mesmo a seguir os ventos certos que garantirão a nossa sobrevivência? Será que já não acreditamos naquilo em que acreditamos? Será que a essência de nosso ofício não é senão oferecer um protocolo retórico de argumentação religiosa para justificar o poder? Como profissionais do discurso não poderíamos manter o nosso ofício oferecendo um protocolo de nova matriz que nos permitisse nos reproduzir enquanto ideólogos do sistema? E, Maximino, não parece, ele mesmo, pender agora para Catarina, o seu olhar parece acolher também a argumentação dessa estranha moça?

Talvez identificassem, à maneira com que Althusser6 viria identificar muitos séculos depois, no monoteísmo, ainda que com suas concessões ao politeísmo como a divina trindade, uma superioridade ideológica, que permitiria mais unidade ao império romano. Todavia, Maximino, convencido de sua fé, dos rituais pagãos da coroa, não se converteu e determinou que os seus sábios e Catarina fossem mortos.

O milagre de Santa Catarina reside precisamente em que ela converteu à sua fé os sábios do paganismo, e esses lhe teriam reconhecido a vitória. Evidentemente, esse é um fato único, raríssimo, mas que é em princípio factível, ou admissível, quando todo um sistema vai abaixo. O caso em exame ainda ilumina, pois vemos que o aparelho repressor se desconecta do aparelho ideológico propriamente dito, ou melhor dizendo, de uma de suas frações que capitula ante o adversário.

Nesse caso, pode-se dizer que o monarca deu de modo claro os limites para o seu suporte ideológico enquanto ideologia religiosa, e ele com sua coroa provou mais uma vez quão difícil é converter uma cabeça coroada. Demais, era evidentemente para ele, que tinha responsabilidades e o assentimento dos que representava, muito mais difícil de converter-se do que os que simplesmente lhe produziam protocolos retóricos de sua ideologia religiosa. Sua conversão exigiria o consentimento de sua base de apoio, ou, no mínimo, a difícil reestruturação política dessa.

5.

Esse trecho já vamos encontrá-lo no Sermão de Santa Catarina, pregado na Universidade de Coimbra em 1663: e ) .(2), II. “Em primeiro lugar propuseram os filósofos inchados, seus argumentos aplaudidos e vitoriados de todo o teatro, e só da intrépida defendente recebidos com modesto riso. E depois que todos disseram quanto sabiam em defensa e autoridade dos deuses mortos e mudos, que eles chamavam imortais; então falou Catarina por parte da Divindade Eterna e sem princípio, do Criador do Céu e da Terra, e da humanidade do Verbo tomada em tempo, para remédio do mundo. Falou Catarina, e foi o peso de suas razões, e sutileza de seu engenho, e a eloquência mais que humana, com que orou e perorou, que não só desfez facilmente os fundamentos ou erros dos enganados filósofos, mas redarguindo e convertendo contra eles seus próprios argumentos, os confundiu e convenceu com tal evidência, que sem haver entre eles quem se atrevesse a responder ou atrever ou instar, todos confessaram a uma só voz a verdade infalível da fé e da religião cristã”.

O que cabe destacar aqui é que Catarina não confrontou os adversários, levando contra eles os dogmas de sua própria e cristã fé. Ela operou dentro da ideologia dos teólogos pagãos, usou dos argumentos que eles tinham usado, não contra o cristianismo, mas contra o próprio paganismo, de forma que os confundiu. Que terrível não seria ver os nossos próprios argumentos contra nós? De toda forma, Catarina efetivamente dialogou com os ideólogos do paganismo no auditório de Alexandria.

Eles reconheceram ali os seus próprios argumentos, ela não lhes falou de coisas distantes, mas do que eles próprios falavam, ela os derrotou assim no terreno do discurso que, de certa forma, era deles, ainda que agregando as suas vivas razões, as quais deveriam também parecer vivas a eles. Catarina, desse modo, minou e implodiu o discurso da fé pagã, operando dentro de seus fundamentos mais íntimos, ainda que para pô-los abaixo. Ela usou a linguagem do paganismo, o que mostra mais que conhecimento de seu próprio discurso, conhecimento do discurso do outro.

Enfim, Santa Catarina não atuou como pregadora, mas como ideóloga, ao perceber a gravidade do momento e o auditório que teria de conquistar. Os ideólogos pagãos não poderiam deixar de ouvir os sons de sua própria música, não poderiam deixar de enebriar-se pelos seus próprios argumentos, ainda que colocados em direções distintas, como uma música que fosse cantada do final para o começo, ou com uma combinação alterada de alguns de seus trechos.

O imperador Maximino, porém, restou cativo de sua própria coroa, de seus compromissos políticos, e não soube ou não pôde, pelas dificuldades anteriormente já apontadas, seguir um ritual com os acordes subvertidos: “E que faria com este sucesso Maximino imperador, empenhado e cruel? Afrontado de se ver vencido nos mesmos mestres de sua crença de quem tinha fiado a honra e a defesa dela, e enfurecido e fora de si, por ver publicamente demonstrada e conhecida a falsidade dos vãos e infames deuses a quem atribuía o seu império, em lugar de seguir a luz e a docilidade racional dos mesmos filósofos, com sentença bárbara e ímpia, mandou ou que sacrificassem logo aos ídolos, ou morressem todos a fogo”.

6.

Na continuação do Sermão de Santa Catarina, Virgem e Mártir, deparamos com a seguinte trecho também revelador da arquitetura do Estado, das ideias e dos fatos que o organizam: f ) (1) IX-“Muito mais dificultoso é haver de vencer soldados. Os soldados não se vencem com argumentos de palavras, senão com silogismos de ferro. Para os mais sutis de entendimento, o capacete lhes defende a cabeça; e para os mais brandos de vontade, a malha e o arnês lhes endurecem o peito. Toda a força que tem o filósofo consiste na razão, e toda a razão do soldado consiste na força.”

Não é casual que o excerto ora citado se encontre precisamente nessa passagem referente a um momento que vem depois da vitória de Santa Catarina sobre os ideólogos, pois essa vitória nada ou quase nada diz aos soldados, com suas cabeças fechadas aos argumentos que chegam de fora,, e prontos apenas para defender o sistema do imperador Maximino. Se eles fossem inteiramente permeáveis, se a eles comunicassem o sentimento dos filósofos vencidos e convertidos por Catarina, já não lhes restaria o que fazer nessa parte onde se encarregam da guarda da Santa na prisão em que se encontra.

Se fossem os soldados os primeiros a bandear-se, cairiam os governos e sistemas a todo momento, e teria, portanto, o império de Maximino se rendido imediatamente ao cristianismo. A genialidade de Vieira está aqui em produzir essas passagens altamente significativas para a compreensão da arquitetura do estado e do seu próprio texto. Não se trata, nem essa era a questão para Vieira, de rebaixar aos soldados suas qualidades intelectuais, mesmo porque, também entre eles, há os mais sutis de entendimento, que poderiam acompanhar as sutilezas dos silogismos. Todavia, eis o que é de notar “o capacete lhes defende a cabeça”. O capacete aqui tem um papel análogo ao da coroa, em termos de significado, de simbologia e de ritual. Com ele o soldado se vincula a todo um sistema simbólico de poder, ele reforça a ideologia necessária para o exercício do ofício a que os militares estão destinados.

A lenda fundante que nos é apresentada, portanto, por Vieira, nesses dois Sermões de Santa Catarina, se, de fato, se trata de mera lenda7, ou não (essa questão não é importante para os fins aqui buscados), é –e isso foi o que nos interessou – consistente do ponto de vista ideológico e retórico, e mostra-nos um Padre Vieira a par das sutilezas ideológicas e políticas que comandam os estados e os discursos que lhes dizem respeito. Está aqui sem dúvida mais uma das razões de sua permanência e atualidade

*José Veríssimo Teixeira da Mata é mestre em filosofia pela Universidade de São Paulo (USP).

Publicado originalmente no livro Revisitar Vieira no Século XXI, (Universidade de Coimbra).

 

Notas


1 “Vide, a esse propósito, o que diz a página da UNESCO sobre o conjunto arquitetônico do centro histórico da cidade de Goiás, cidade situada a cerca de dos quilômetros de Brasília, no Brasil: “Bien que modeste, l’architecture des bâtiments publics et privés n’em présente pás moins une grande harmonie, fruit, entre autres, d’un emploi cohérent dês matériaux et dês techniques vernaculaires”.

2 “[…] pareille aux kaléidoscopes qui tournent de temps em temps, la societé place sucessivement de façon différente des élements qu’on avait crus immuables et compose une autre figure.[…]. Ces dispositions nouvelles du kaléidoscope sont produites par ce qu’un philosophe appellerait un changement de critère.”Proust, 1988, 87-88.

3 “Nesta há também a determinação formal da falsidade que começa por afirmar, para outrem, o mal como bem e que exteriormente se apresenta como boa, cheia de piedade, etc. o que, deste modo, não é mais que o artifício da mentira para outrem. Depois pode o maldoso nas boas razões uma boa justificação do mal por si mesmo, assim o mascarando em bem.” Hegel, 1976, p.132. . Para além dessa possibilidade, trazida por Hegel no § 140 de seus Princípios da Filosofia do Direito, tenho em mente aqui o caso em que o tirano, abstraída, até para exercício teórico, a sua eventual maldade, apenas transcreve em discurso religioso um discurso que é essencialmente político.

4 E é evidente que Vieira quer privilegiar esse canal da igreja com o rei, em que o ouvinte, rei ou nobre, recebe com generosa e religiosa disposição, esse discurso que vem da igreja:” A razão deste tão bem fundado reparo, que é muito mal praticada nas cortes, e por isso é necessário que a nossa, com quem falo, a ouça.” Sermão de Santa Catarina, Vírgem e Mártir, (1), VI.

5 As noções de tato e habilidade constituem ferramentas indispensáveis no manuseio do material ideológico, Uma palavra de ordem desajustada pode produzir desastres para um programa político em vias de implantar-se ou mesmo implantado. Evidentemente, essas noções não estão soltas, mas devem estar ligadas ao conhecimento efetivo das condições econômicas, políticas e ideológicas das classes em referência à situação histórica de determinado país.

6 Nesse caso, verifica-se que a interpretação dos indivíduos como sujeitos pressupõe a “existênciqa” de um Outro Sujeito, Único e Central, e Nome do qual a ideologia religiosa interpreta todos os indivíduos como sujeitos”. Althusser, 1999, p. 217.

  • A história( que não coube aqui discutir) de Santa Catarina tem todo o aspecto de realidade e não de fabulação. Ela parece narrar com fidelidade uma luta ideológica, mesmo que cores sejam emprestadas a essa narrativa. E Catarina, para além de ser santa, com todos os méritos, é também uma mulher extraordinária nas sua idéias e na coragem em defendê-las.