A guerra na Ucrânia – objetivos, movimentos e expectativas

Por RICARDO CAVALCANTI-SCHIEL*

A operação militar russa não é uma guerra de ocupação. Seus tempos, seus ritmos e finalidades são diferentes da empreitada norte-americana no Iraque

Com quase um mês de operações militares em terreno ucraniano, o conflito aberto mostra um não desprezível contraste de ritmos e conformações entre o seu início e o momento em que atualmente se desenrola. Depois de um avanço inicial fulminante das tropas russas, agora elas parecem deter-se, cercando cidades sem invadi-las e avançando pelo território no que parecem ser poucos quilômetros por dia, o que alimenta as ilusões de uma opinião pública ucraniana e ocidental, fortemente bombardeada pela bem conhecida propaganda de guerra, que assegura que a Rússia estaria se atolando no pântano da resistência local.

Seria isso verdade à escala operacional da ação militar? O que pretende a Rússia em termos de controle territorial na Ucrânia? Ademais, para além do campo militar, algumas disputas começam a ganhar outros contornos, e muitas apostas parecem abertas, menos a evidência praticamente consagrada de que esse conflito se tornou um momento chave, estratégico e de extensa repercussão nas relações geopolíticas atuais e futuras.

O impacto global dessa guerra já é perceptível em termos econômicos, e muito provavelmente produzirá desdobramentos consideráveis não apenas na arquitetura das redes de produção do capitalismo globalizado, como também nas tendências gerais dos fluxos de capital financeiro; o que, a longo prazo, pode abalar seriamente a hegemonia geopolítica norte-americana, assentada sobre o império do dólar como moeda de comércio e reserva, mesmo que, por enquanto, se mantenha ainda o desenho geral do capitalismo financeirizado, escorado, na prática, sobre uma pirâmide de algumas dezenas de trilhões de dólares em derivativos, algo no que nem Moscou nem Pequim parecem demonstrar ter alguma apetência para mexer (ao menos enquanto o Banco Central russo mantiver sua resoluta adesão aos parâmetros neoliberais).

Enquanto isso, em outras dimensões, a guerra vai assumindo fisionomias mais claras.

A Blitzkrieg psicológica desatada pelos Estados Unidos, seja por meio de sanções econômicas, seja por meio do controle da narrativa veiculada pela imprensa corporativa de todo o Ocidente (o que é muito evidente até no caso do Brasil), seja por meio de iniciativas de exclusão institucional da Rússia em situações as mais inusitadas, parece ter produzido efeitos limitados ao redor do mundo e falhou, sobretudo, no que pretendia que fosse um dos seus objetivos: desgastar o apoio e legitimidade do atual governo russo no seu próprio país.

Após a primeira semana de impacto – quando a própria mídia russa notificava insegurança popular, corrida aos bancos, compra de alimentos para estocagem e muita incerteza –, a guerra psicológica parece ter começado a fazer efeito contrário na população russa. Demonizados pelos europeus como nação e como povo, os russos acionaram uma memória social nem tão profunda assim (na verdade, quase que epitelial) de terem sido objeto de uma não muito distante guerra de extermínio “vinda da Europa” – que, por casualidade, eles chamam de Grande Guerra Pátria (a agressão nazista) – e se assumiram então, novamente, sob o mesmo contexto. Em uma semana de conflito o índice de aprovação de Putin subiu de 60 para 71%, e o apoio popular à ação das Forças Armadas russas em outros países da Europa contabiliza hoje cerca de 87% de aprovação.

A coesão popular russa em torno da guerra é hoje um fato inarredável, e a propaganda ocidental e seus pressupostos de que as verdades liberais, em torno da primazia do interesse individual, tenham validade universal parecem ter se chocado frontalmente com o “caráter russo” – ou, dito de uma maneira antropologicamente correta, com as especificidades culturais russas –; algo que os estrategistas norte-americanos de “relações públicas” e PSYOPs parecem sobejamente desconhecer. Eis aí o resultado colateral da arrogante hegemonia liberal: o cegamento para a diferença (não a diferença domesticada, quase que meramente nominal, que hoje responde pelo pomposo clichê retórico da “diversidade”, mas a diferença de visões de mundo).

O que, por outro lado, essa guerra psicológica também conseguiu foi criar um ambiente de russofobia histérica mais que tudo na Europa. Essa talvez seja a grande vitória norte-americana até agora: a de imbecilizar e subordinar ainda mais a Europa à agenda ideológica imperial anglo-americana. O resultado disso é também a fragilização econômica do continente e sua apartação da conectividade em muitos níveis com o bloco eurasiático. Contradições paroxísticas do multiculturalismo liberal… ou talvez, pelo contrário, expressão perfeita do exclusivismo liberal multiculturalista: “Nada daquilo que estiver fora do nosso menu prescritivo de possibilidades identidárias autorizadas nos interessa. Aqui acaba – ferozmente – a tolerância multicultural e reinstauram-se as fronteiras cabais entre bárbaros e civilizados”. Será que um dia tal “tolerância” de fato existiu?… A frágil máscara de uma Europa multicultural, aberta à complexidade e socialmente refinada parece ter ido embora definitivamente.

Por curiosidade, na prática, é até possível que as perdas em isolamento para a Europa possam superar as perdas análogas pretendidas para a Rússia. Afinal, apesar de alegações algo postiças como a francofonia (ou a Commonwealth, se estivéssemos tratando da parte não-continental), a União Europeia não tem aliados (exceto talvez Japão, Cingapura e Coréia do Sul, além – para a porção não-continental – do mundo classicamente liberal anglófono que conforma o consórcio de espionagem dos Five Eyes). Já quanto à Rússia, para mais além das manifestações formais da diplomacia internacional a respeito da guerra, a história é outra, a começar pela China e pelas organizações asiáticas de cooperação.

Nunca é demais lembrar o mapa recentemente apresentado pelo porta-voz do Ministério de Relações Exteriores chinês sobre o que é a comunidade internacional para os ocidentais (talvez valha melhor o termo “atlanticistas”):

Também não é demais lembrar que os Estados Unidos não são aliados de ninguém. Os Estados Unidos, na sua própria perspectiva, serão sempre os patrões. E no que lhe diz respeito, o efeito bumerangue dessa outra guerra de marginalização moral da Rússia pode ser também o de corroer, na arena global, a confiabilidade dos próprios Estados Unidos que, apesar de ainda se acharem o povo eleito e a urbe luminosa no alto da colina, demonstram ser, de forma particularmente contundente, com sua presunção de direito ilimitado, uma ameaça potencial particularmente sensível para o atacado do Sul Global.

No terreno de combate ucraniano, por outro lado, os condicionamentos externos ganham outra dimensão. Em primeiro lugar, não custa nada dissipar as celeumas terminológicas. “Operação militar especial”? “Operação policial de armas combinadas”? Parecem ser eufemismos para um público interno russo. Há muitos tipos de guerra: de conquista, de aniquilação, de intervenção, de libertação colonial, revolucionária, híbrida… (Deixemos de fora, agora, o fenômeno da assim chamada – pelos antropólogos – “guerra primitiva”). Mas, a partir do contexto histórico eurasiano, a ação de uma força militar ou paramilitar, regular ou irregular, operada por meio de violência (o que significa simplesmente: para além dos limites institucionais) e contra o arcabouço institucional de uma nação (por mais perverso que ele seja – esse juízo de valor não vem ao caso) é, irremissivelmente, guerra.

Na prática, sem guerra, não se cumpririam os objetivos russos de desmilitarização e desnazificação da Ucrânia (sem os quais, a Rússia se vê – e com razão – existencialmente ameaçada). Dadas as contingências, o contrário seria irreal. Só os irrealistas acreditam que a ONU, no seu atual estado de indigência, poderia eventualmente servir de espaço de mediação para “evitar essa guerra”. Tolinho quem não souber que a OTAN, até que lhe seja útil, está cagando e andando (sim! é preciso uma expressão contundente) para a ONU. Essa atitude da OTAN (e dos Estados Unidos em particular) expressa algo bem simples, que precisa ser irremediavelmente reconhecido por qualquer agente minimamente lúcido (o que inclui nosso saudoso chanceler Celso Amorim). Chama-se hegemonia agonística. E, sim, o que isso produz é um mundo de guerras.

Depois da experiência napoleônica e nazista, a guerra para os russos é uma coisa terrível, e a doutrina militar russa é uma doutrina de ação de máximo impacto, com penetrações rápidas e profundas, tal como aconteceu nos três primeiros dias dos combates na Ucrânia – quando, na prática, se conquistou o primeiro objetivo, o de desmilitarizar o país. Qualquer coisa diferente disso só poderia ser algo como uma “operação policial de armas combinadas”. Dessa forma, como admitiu o general Vladimir Chirkin, ex-comandante do exército da Rússia entre 2012 e 2013, “essa agora é uma guerra desconhecida para nós, veteranos”. A Rússia começou a aprendê-la na Síria.

Mas de nada adianta desmilitarizar a Ucrânia se ela não for desnazificada, porque “nazificada”, ela vai se remilitarizar. Foi esse o objetivo do golpe de Estado de 2014, patrocinado pelos Estados Unidos: não apenas substituir um governo pró-Moscou, apoiado pela maioria da população, por um governo pró-Ocidente, mas também, e principalmente, estabelecer no país uma rede do tipo stay-behind, tal como havia sido feito na Europa Ocidental durante a segunda metade do século passado. Na Ucrânia, no entanto, esse projeto foi ainda mais longe que na Itália ou na Grécia: controlar a própria estrutura e os objetivos políticos de um Estado ultracorrupto. Ou seja, para esse projeto, a corrupção endêmica na Ucrânia era não só um hábito social arraigado, mas também um elemento funcional para a máquina neonazista (como o foi desde sempre, e continua sendo – o projeto do Bolsonaristão não nos deixa mentir).

Apenas a título de rápido esclarecimento, as redes stay-behind, ou de “ação de retaguarda”, constituíram uma operação paramilitar implantada pelos Estados Unidos, através da OTAN, em vários países da Europa Ocidental, logo após o término da Segunda Guerra Mundial, por meio do patrocínio e treinamento de células fascistas e remanescentes nazistas, para impedir qualquer avanço político dos movimentos comunistas europeus. Seus métodos de ação incluíam sabotagem, assassinatos seletivos, massacres indiscriminados, operações de falsa bandeira e ações de desestabilização. Sua ação mais ostensiva foi o ataque terrorista conhecido como Massacre de Bolonha, na “cidade vermelha” italiana, em 1980. Na Itália, a partir da revelação surpreendente do primeiro-ministro democrata-cristão Giulio Andreotti em 1990, essa rede ficou conhecida pelo nome de Operação Gladio.

Na Grécia, ela foi implantada já em 1947, por meio de comandos militares especiais, os LOK (Λόχοι Ορεινών Καταδρομών ou Lochoi Oreinōn Katadromōn: Esquadrões de Caçadores das Montanhas) que visavam exterminar os grupos partisans de tendência comunista que, a partir da luta contra o nazismo, passaram a ter protagonismo político em certos territórios gregos. Os LOK constituíram a base militar que produziu a ditadura dos coronéis (1967-1974), retratada no filme Z, do diretor Costa Gavras. A propósito, o “Z” dos blindados russos na atual operação na Ucrânia não deixa de evocar uma curiosa ironia.

Na Ucrânia, as células paramilitares que viriam a dar origem aos grupos neonazistas Setor Direita e Batalhão Azov (que, por então ainda se chamavam Una-Unso – Українська Національна Асамблея- Українська Народна Самооборона: Assembleia Nacional Ucraniana-Autodefesas Ucranianas) começaram a ser treinadas pela OTAN na Eslovênia já em 2006. Na Ucrânia, como bem se sabe, esses grupos, originários da região ocidental do país, especialmente Lviv, floresceram sob a inspiração de um antigo e amplo movimento nazista local (que chegou a inscrever 80.000 combatentes nas SS de Hitler, para exterminar judeus, russos e bielorrusos), comandado pelo ideólogo Stepan Bandera.

Fenômenos como as redes stay-behind nos asseguram de forma bastante convincente de que fascismo e nazismo não são necessariamente movimentos políticos opostos ao liberalismo, mas sim complementares a ele. Eles são seus primos “feios”, os caras que fazem o trabalho sujo, e que eventualmente precisam vir a ser escondidos pela mídia mainstream.

Então, pode-se dizer, sinteticamente (ainda que isso pareça reducionista), que tudo o que vem acontecendo no teatro de operações ucraniano após o terceiro dia de guerra é, de fato, uma operação de desnazificação. E, claro, trata-se de lidar não com um governo ou com uma representação institucional (e Moscou parece, de fato, não ter maiores esperanças disso), mas com uma rede capilarizada que, essa sim, insuflada pelos seus patrocinadores, os Estados Unidos, alimentam a obsessão de uma resistência a todo custo, uma resistência, se necessário, até o último cidadão ucraniano, pois assim sempre raciocinaram os nazistas.

Do mesmo modo como a propaganda bolsonarista é mais que tudo voltada para suas próprias hostes, também a propaganda de guerra do regime de Kiev serve para duas coisas: tentar chantagear emocionalmente o Ocidente (na vã esperança de conseguir mais armas) e, sobretudo, criar um pathos interno de resistir suicidando seu próprio povo, não importa as mentiras que sejam contadas para isso.

A guerra na Ucrânia é diferente para os russos porque qualquer desnazificação, em que pese o caráter negativo do prefixo “des-”, só pode ser efetivamente levada a termo se engendrar uma outra positividade (mais até que uma passividade ou uma indiferença); coisa que significa algo como uma reprogramação da sociabilidade ucraniana, devastada pelo ódio contra tudo que é russo, disseminado pela sistemática propaganda neonazista, que é o que constituiu essa nova operação stay-behind elevada à escala de amplo espectro (algo que não tinha acontecido na “civilizada” Europa Ocidental). E aqui começam as grandes dificuldades. Não se sabe se a Rússia tem uma estratégia para isso, mas as táticas requeridas, a partir da experiência síria, já começam a dar outros contornos a essa agora peculiar forma russa de fazer a guerra, nesse caso igualmente peculiar.

A propaganda do regime de Kiev de que a operação russa se volta indiscriminadamente contra a população civil ucraniana é talvez a maior patranha daquela estratégia suicidária. Como pode uma ação militar estar voltada contra a infraestrutura civil se o abastecimento de água e eletricidade, de telefonia e internet, de gás para aquecimento e sistemas de saneamento continuam funcionando mesmo nas cidades cercadas? Claro, na medida em que a resistência neonazista instala seu armamento de artilharia deliberadamente dentro de área residencial civil, o raio de impacto até mesmo da melhor artilharia russa pode produzir danos ao redor.

Esse é o complexo cenário sírio. Não é a iraquiana Fallujah, que os norte-americanos bombardearam impiedosamente até virar pó, produzindo a delicada cifra de 600 mil (ou mais) mortes civis em sua aventura militar no Iraque. Seiscentos mil é (ou era) três vezes o efetivo do terceiro maior exército europeu, exatamente o ucraniano. Em outras palavras, como na observação do general italiano Fabio Mini, comandante da força da OTAN em Kosovo (KFOR) entre 2002 e 2003, a respeito da atual operação russa na Ucrânia, “se eles tivessem feito as operações duras, como nós no Iraque, já teriam carbonizado tudo”.

As forças russas, no entanto, precisam cercar as grandes cidades. Para desnazificar, não se pode arrasar a população civil. A arte dessa guerra exige outras sutilezas. Ao que tudo indica, Moscou pretendia inicialmente apartar o exército regular ucraniano, mantê-lo como futura força de controle da ordem e se voltar apenas para os grupos armados neonazistas que compõem as assim chamadas “defesas territoriais”, mas essa intenção acabou torpedeada pela propaganda de guerra ucraniana (ao que tudo indica gerida pela CIA e pelos neonazistas), que engolfou tudo no movimento delirante de resistência incondicional.

No estágio atual de cozimento lento das forças ucranianas, parece que, na verdade, existem duas guerras na Ucrânia. Uma é a que se realiza no sul (costa do Mar Negro) e no leste (Donbass); outra, a que se realiza no norte (eixo Kharkov-Kiev).

No sul e no leste, onde combatem não apenas forças russas como também (e principalmente, por conta do conhecimento do terreno) as milícias das Repúblicas Populares de Donietsk e Lugansk, as cidades, mesmo as grandes (Kherson, Melitopol, Sievierodonietsk e, proximamente, Mariupol e Mykolaiev), são cercadas, tomadas e limpas. Mariupol é o caso mais dramático. Capital industrial do Donbass, possui uma população constituída esmagadoramente por russos étnicos, além de uma grande colônia de descendentes de gregos. As milícias das Repúblicas Populares do Donbass queriam garanti-la para si em 2014, mas não conseguiram. Ali se instalou a sede do Batalhão Azov que, desde então, vem submetendo a população a todo tipo de abuso.

É preciso que se entenda que, para os russos e para a gente do Donbass, a população de Mariupol é parte “dos seus”. Não faz sentido atacá-la. Mesmo que ali esteja um ninho de ratazanas das grandes, não faz sentido “carbonizá-lo” indiscriminadamente, como diz o general Fabio Mini. E isso por uma razão muito simples, que a grande mídia faz questão de ocultar: a população civil, etnicamente russa, está sendo mantida como refém e usada como escudo humano pelos militantes do Batalhão Azov, que não a deixa sair, mesmo que os corredores humanitários estejam abertos. A cidade está sendo lentamente conquistada dos neonazistas a duríssimas penas. Alguns habitantes da colônia grega que conseguiram escapar refugiaram-se na Grécia e começaram a relatar os horrores, não dos “bombardeios russos”, como tanto gosta a propaganda do regime de Kiev e a mídia ocidental, mas das atrocidades dos neonazistas.

Depois de terem desesperadamente pedido reforços a Kiev e não os terem recebido, os neonazistas do Batalhão Azov em Mariupol receberam esta semana a oferta do comandante local das forças russas para abandonar as armas, e teriam a garantia de poder deixar a cidade junto com os demais cidadãos. Recusaram-se. Compreende-se que, depois de tudo o que fizeram, estejam muito ressabiados.

E isso os impulsiona a uma resistência obstinada, porque estão imbuídos da missão suicida de deter o máximo possível o avanço das tropas russas e das milícias do Donbass, em conformidade com as expectativas de Washington (de tentar prolongar o máximo possível a guerra, para desgaste da Rússia), e do próprio regime de Kiev (de tentar ganhar tempo para alguma façanha impossível de apoio da OTAN). Os neonazistas de Mariupol roubaram o que podiam de víveres e bens dos habitantes da cidade, mas em breve acabará a munição. A implacável força chechena, de quem toda uma brigada de georgianos bateu em fuga durante a última guerra da Geórgia assim que soube da presença dela, já está na cidade para o golpe de misericórdia.

De fato, assim que Mariupol for inteiramente tomada e limpa, uma considerável quantidade de tropas endurecidas pelo combate será liberada para estrangular as 22 brigadas ucranianas que estavam mobilizadas no Donbass para a operação de limpeza étnica programada para este março. Os russos chegaram antes, e agora elas estão presas em vários caldeirões (ou “bolsões”, numa terminologia militar mais tradicional), cercadas por tropas russas e milícias das Repúblicas Populares. Entre essas unidades ucranianas já não há mais nem comunicação, nem coordenação de comando, nem estrutura logística, nem apoio aéreo ou possibilidade de reforços. Como definiu o general Vladimir Chirkin, anteriormente mencionado, “são apenas multidões de homens armados com ordens para enfrentar a morte”. A rigor, essa é a situação de todo o exército ucraniano. Se aquelas brigadas presas nos bolsões do Donbass conseguirem se livrar dos neonazistas, que estão por toda parte, muitas unidades de renderão.

A prioridade russa é inevitavelmente o Donbass. Mas as operações humanitárias de fornecimento de víveres e atenção à população civil alcança, extensiva e massivamente, todo o sul ucraniano já controlado, onde o rublo russo já começa a circular como moeda corrente. Ao que tudo indica, a conquista de Odessa ficará para o gran finale. Essa guerra do sul e do leste sugere que, mais que desnazificação, é possível até mesmo que aí se reinstaure, depois de um século, a Novorossiya criada pela imperatriz Catarina II em meados do século XVIII, o que reduzirá o que sobrar da Ucrânia a uma insignificância geopolítica.

No norte, por outro lado, as maiores cidades são cercadas, não são imediatamente tomadas, mas as linhas de suprimento são cortadas. Elas se encontram igualmente cozinhando sob o patrulhamento paranoico dos grupos neonazistas e sob o terror de gangues locais de criminosos libertados da prisão e irresponsavelmente armados por ordem do presidente Volodymyr Zelensky para que “se juntassem à resistência”. É preciso que a população dessas cidades prove a crueza da realidade do mundo em que acabou metida para que, quem sabe, comece a fazer sentido, a despeito da propaganda do regime de Kiev, a ideia de desnazificação.

O general italiano Carlo Jean, um atlanticista conservador que foi conselheiro militar do presidente Francesco Cossiga no início dos anos 1990, considera que a operação militar russa na Ucrânia está fadada ao insucesso por conta de uma projeção insuficiente de meios. Seu argumento: “Até hoje, segundo padrões reconhecidos, para uma ocupação militar que tenha um mínimo de resistência são necessários entre 100 e 150 soldados para cada 10 mil habitantes; isso significa que na Ucrânia, país com 44 milhões de habitantes distribuídos por um território de 600 mil quilômetros quadrados, seriam necessários entre 400 e 600 mil homens”. A questão chave é que essa operação militar russa não é uma guerra de ocupação. Seus tempos, seus ritmos e seus objetivos são diferentes, por exemplo, da empreitada norte-americana no Iraque. Ou se trata de uma guerra de intervenção ou estamos efetivamente diante de um novo tipo de guerra, e não só para os russos. De qualquer maneira, para os russos, sim, pode ser um grande desafio.

A grande batalha de libertação final do Donbass ocorrerá provavelmente em Kramatorsk. Depois que o Donbass cair, Kharkov cairá. E depois de Kharkov será a vez de Kiev. O ocidente ucraniano é uma incógnita. Cobiçado em parte pela Hungria e em parte pela Polônia, pode vir a ser deixado à deriva, como o bolsão politicamente purulento que foi desde a Segunda Guerra Mundial. Depois virão os tribunais de guerra nas Repúblicas Populares do Donbass, para julgar os neonazistas capturados, e onde, à diferença da Rússia, sim existe pena de morte. Claro, não vai ser como o show de Nuremberg, mas pode desnudar ao mundo aquilo no que a Ucrânia se tornou, por conta da mais insidiosa guerra híbrida, patrocinada por Washington, a partir mesmo de muito antes de 2014.

*Ricardo Cavalcanti-Schiel é professor de antropologia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).