Dramaturgos pensadores

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Por FRANCISCO DE OLIVEIRA BARROS JÚNIOR*

A tragédia rodriguiana não é só dos cariocas, mas extensiva a todas as zonas norte e sul, aldeias e aldeotas brasileiras

Do teatro para o cinema

Letras teatrais em adaptações cinematográficas. Na língua inglesa, a dramaturgia de William Shakespeare é exemplar. Hamlet é uma das suas obras adaptadas para o cinema, um idioma universal. A referida peça teatral já recebeu várias leituras fílmicas. To be or not to be. No Brasil, as peças teatrais de Nelson Rodrigues são exemplos a serem citados quando falamos sobre transposições artísticas dos palcos para as telas. O inglês e o português são as línguas trabalhadas pelos dois escritores citados. Ambos vistos como clássicos, referências dramatúrgicas em trânsitos geracionais.

Hoje, seguem sendo produzidos pela atualidade e gravidade dos seus textos. As ambiguidades do ser humano, bonito e ordinário, sagrado e profano, suas altezas e baixezas, sombras e luzes, foram por eles profundamente estudadas e pensadas. Na perspectiva rodriguiana, o meu, o teu, o nosso destino é pecar. A vida dos anjos pornográficos como ela é. Os álbuns familiares revelam imagens multicores e secretas. Escritos penetrantes por baixo dos panos do vestido de noiva. As potencialidades humanas para amar e matar, em desnudamentos literários.

Eis um dos motivos da atemporalidade dos dramaturgos mencionados. Como não considerá-los pensadores? O sociólogo faz um elogio à literatura ao observar que “os autores de romances se juntam a cineastas e artistas visuais na vanguarda da reflexão, do debate e da consciência públicos” (BAUMAN & MAZZEO, 2020, p.14).

Pelo buraco da fechadura

Ser “um anjo pornográfico”. Existem anjos tortos e exterminadores. Pornografia combina com uma criatura angelical? Os meus, os teus, os nossos demônios. Na apresentação que Nelson Rodrigues faz de si mesmo, compreendemos o sentido da adjetivação à figura celestial. Vem desde a meninice a sua “ótica de ficcionista” cuja visão passa pelo “buraco da fechadura”. Este é um ponto focal de onde o escritor desvela os nossos segredos dentro de quatro paredes. Olhos nos bastidores das salas e quartos dos doces lares das sagradas famílias.

Lembrei do verbo brechar. Vivendo em sociedades coercitivas, vigilantes e punitivas, escondemos práticas vistas como atentatórias aos padrões morais e religiosos vigentes. As nossas cavernas, o que fazemos na contraluz, nos inferninhos e escurinhos das existências nossas de cada dia. A dama da noite que está escondida dentro de cada um de nós. Puritanos e moralistas, guardiões da ordem, ocultam facetas censuráveis. Hipócritas jogadores de pedras nas genis. Quem pode atirá-las? O nosso lado underground fica registrado nas páginas escritas pelos dramaturgos conhecedores das nossas funduras, capacidades, desejos e motivações.

“O meu ódio é amor”. Frase do enrustido Aprígio, em seu ciúme de Arandir, esposo da sua filha, por quem ocultava um sentimento amoroso, homossexual. Na ótica dos censores, da homossexualidade vista como doença, imoralidade, crime, pecado, sem-vergonhice, usam o termo homossexualismo. Complexidades afetivas e emocionais desveladas pelo nosso “anjo pornográfico”. A escrita descortinadora de um Nelson Rodrigues a estimular interpretações freudianas de suas provocativas letras (CASTRO, 2022).

O beijo no asfalto comporta múltiplas leituras. Um psicanalista iluminaria na resposta à seguinte pergunta: por que Aprígio, pai de Selminha, nunca chamou o seu genro (Arandir) pelo nome? A espetacularização e o sensacionalismo em torno do “beijo” dado por Arandir no homem morto por atropelamento, estimula a imaginação sociológica voltada para o mercado das notícias violentas na sociedade do espetáculo. Dramatização promovida pelo jornal “muito escandaloso”, segundo a fala de D. Matilde.

“Um beijo de piedade” é transformado “num caso amoroso e sinistro entre dois homens”. “Pederastia” escandalosa no espaço público. No objetivo mercadológico de “vender jornal e parar a cidade”, testemunhas são forjadas na construção da notícia montada pelas mentes ardilosas e boçais de um repórter e um delegado antiéticos. As suas amoralidades e falta de escrúpulos engendram mortíferos estragos nas vidas de suas vítimas. Um quê kafkiano na impactante e “ofensiva” peça teatral (CASTRO, 2022, p.314).

O beijo criminalizado

Qual a relevância de um Nelson Rodrigues para o pensamento sociológico? Um “anjo pornográfico”, um controvertido escritor, dramaturgo dos palcos e projetado nas telas. Alguém que vê “a vida como ela é” pelo “buraco da fechadura”. O que está escondido, o que a gente faz “por debaixo dos panos” para ninguém saber, em sintonia com uma música popular, é de interesse sociológico. Desvendar máscaras sociais é um objetivo de uma sociologia crítica. Acredito que Pierre Bourdieu encontraria virtudes sociológicas na companhia das letras de Nelson Rodrigues.

Em elogios literários, seleciono uma versão cinematográfica de O beijo no asfalto, tragédia carioca em três atos.O texto teatral rodriguiano, de 1961, segue atual. O espetáculo da violência, o sensacionalismo e a dramatização das barbáries nossas de cada dia, produzidos pelos meios de comunicação, seguem rendendo altos índices de audiência. Sangue dá ibope, viraliza. Triste e vergonhoso. Decepcionante. Depõe contra nós. Como está o nosso nível de civilidade? O macabro e o grotesco, evocativos de temporalidades medievais, ganham novos tratamentos visuais na sociedade de riscos e muros eletrificados. A chapeuzinho vermelho, amarelou, na escrita do Chico Buarque. Um copo d’água vira tempestade quando o assunto focalizado são os atos violentos.

As violências são reais, multicores, estruturais, simbólicas, de causas complexas e geradas por múltiplos fatores. Quais as suas raízes profundas? Alguém torna-se ladrão, não nascendo bandido (a). Como exemplo, o Marquinho Cabeção, cuja trajetória foi narrada pelo som de MV Bill. Somos construções sociais, assim como a manipulação das notícias.

Do fato ocorrido, à sua chegada na voz do apresentador jornalístico, muitas mãos interferem no que vai ser noticiado. Na sociedade em rede, na era da informação, os noticiários sobre crimes, assaltos, brigas de vizinhos, quebradeiras de torcidas futebolísticas e outras pancadarias cotidianas, ocupam a maior parte do tempo dos jornais telânicos. Programas e casos policiais acompanham as colheradas colocadas nas nossas bocas, nos horários das refeições. No meio dos tiroteios, os responsáveis pelas pautas jornalísticas não deram bola para o espetáculo shakespeariano que estava em cartaz na cidade.

Poderíamos falar em uma “indústria da violência”? Mais uma oportunidade de enriquecimento às custas das nossas misérias? Produção de medo gera lucros? O que diria Jean Delumeau, o historiador da humanidade medrosa? A seca, em pretéritos tempos, nos chãos nordestinos, engendrou muitos coronéis milionários. Somos polos de múltiplas indústrias, dentre as quais as alicerçadas na exploração dos nossos lados ordinários, magistralmente estudados pelos clássicos das nossas dramaturgias.

Ganhar dinheiro às custas dos ais dolorosos dos sofredores. O beijo de Arandir culminou na sua morte, depois de tanto fake news construído pela baixeza da aliança entre um delegado e um repórter, dispostos a tudo para limparem as suas barras e venderem jornais. Do texto de Nelson Rodrigues, em suas encenações teatrais e cinematográficas, para pensarmos sobre o que está velado pelo “buraco da fechadura” das nossas mazelas cotidianas.

Violentados diariamente, de múltiplas formas, indagamos: quem está lucrando com tanta “bala perdida”? Por quê não vão além das soluções paliativas, as distantes de tocarem nas nossas graves e antigas feridas, ligadas ao desemprego, à concentração de renda, às escandalosas e imorais desigualdades e apartações dos cotidianos vividos em uma sociedade camarotizada, como a dos nossos brasis. A tragédia rodriguiana não é só dos cariocas, mas extensiva a todas as zonas norte e sul, aldeias e aldeotas brasileiras. O beijo, dado no texto do Nelson, chega aos nossos dias e continua disparando interrogações. Arteirices de quem é um pensador clássico.

*Francisco de Oliveira Barros Júnior é professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Piauí (UFPI).

Referências


BAUMAN, Zygmunt & MAZZEO, Riccardo. O elogio da literatura. Rio de Janeiro, Zahar, 2020.

CASTRO, Ruy. O anjo pornográfico: a vida de Nelson Rodrigues. São Paulo: Companhia das Letras, 2022.


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